O 5G E A CORTINA DE BITS

Num mem­o­ran­do envi­a­do a fun­cionários no final de agos­to, o fun­dador da Huawei, Ren Zhengfei, escreveu que a empre­sa chi­ne­sa “enfrenta um momen­to de vida ou morte”. Falou em reduzir salários e descreveu em ter­mos mil­itares os sac­ri­fí­cios exigi­dos: “Se não pud­er faz­er seu tra­bal­ho, então dê espaço para nos­so tanque pas­sar. Se quis­er entrar no cam­po de batal­ha, pode amar­rar uma cor­da em vol­ta para puxá-lo, todos pre­cisam dessa deter­mi­nação!”. Ren fun­dou a Huawei em 1987, depois de deixar um pos­to de engen­heiro no Exérci­to. Transformou‑a num colos­so glob­al das tele­co­mu­ni­cações — que reúne quase 190 mil fun­cionários em 170 país­es —, fatur­ou US$ 107,3 bil­hões em 2018, lid­era a tec­nolo­gia da quin­ta ger­ação (5G) de celu­lares e, em vir­tude dis­so, se tornou nos últi­mos meses o pon­to mais sen­sív­el na dis­pu­ta geopolíti­ca entre Esta­dos Unidos e Chi­na. O mem­o­ran­do de Ren foi uma ten­ta­ti­va de preparar a tropa para a entra­da em vig­or do embar­go impos­to pelos Esta­dos Unidos à Huawei, últi­ma sal­va num con­fron­to que se desen­ha há anos — e que o gov­er­no Don­ald Trump tornou mais explíc­i­to, mais inten­so e mais doloroso.

As tar­i­fas com­er­ci­ais, as manobras cam­bi­ais e as rus­gas em Hong Kong, Tai­wan ou no Mar do Sul da Chi­na podem ger­ar mais manchetes. Fora do cam­po mil­i­tar, porém, é na tec­nolo­gia que está em cur­so a prin­ci­pal batal­ha da dis­pu­ta sino-amer­i­cana. Mais especi­fi­ca­mente, no salto para as tele­co­mu­ni­cações 5G, cujo impacto na vida e na econo­mia prom­ete ser dramáti­co. Conexões 5G for­marão a estru­tu­ra óssea, o sis­tema ner­voso, as veias e as artérias da econo­mia no sécu­lo XXI. Seu poten­cial vem sendo com­para­do ao das grandes trans­for­mações tec­nológ­i­cas que defini­ram o sécu­lo XX, como elet­ri­ci­dade ou inter­net. A ascen­são da Huawei, líder mundi­al no 5G, rep­re­sen­ta para a Chi­na uma opor­tu­nidade sem prece­dente. Dois cenários são pos­síveis no futuro. No primeiro, o domínio sobre o 5G ema­nará de Pequim, não de Wash­ing­ton. No segun­do, a dis­pu­ta per­si­s­tirá, com dois sis­temas para­le­los. “Um ecos­sis­tema 5G bifur­ca­do aumen­tará o risco de duas esferas de influên­cia sep­a­radas, politi­ca­mente divi­di­das e poten­cial­mente incom­patíveis”, afir­mou a con­sul­to­ria de geopolíti­ca Eura­sia. O mun­do ficaria então divi­di­do ao meio por uma “corti­na de fer­ro” dig­i­tal — ou mel­hor, por uma corti­na de silí­cio, fibra ópti­ca e bits.

Os primeiros sinais da nova divisão ficam evi­dentes no históri­co de restrições impostas pelos Esta­dos Unidos às empre­sas chi­ne­sas de tele­co­mu­ni­cações. A mais rel­e­vante, emb­o­ra não a úni­ca, é a Huawei, cuja imagem no Oci­dente foi vin­cu­la­da ao Exérci­to chinês, ao despre­zo pela pro­priedade int­elec­tu­al, a práti­cas com­er­ci­ais pre­datórias (prop­i­ci­adas por incen­tivos estatais desleais) e, mais recen­te­mente, à espi­onagem dig­i­tal. As amer­i­canas Cis­co, T‑Mobile e Motoro­la já foram à Justiça acusá-la de pirataria. Em 2008, ela foi impe­di­da de com­prar uma fatia da 3Com, que forne­cia soft­wares de segu­rança ao Exérci­to amer­i­cano. Em 2012, um comitê da Câmara de Dep­uta­dos con­cluiu que os riscos asso­ci­a­dos ao uso de equipa­men­tos da Huawei e de sua rival chi­ne­sa ZTE pode­ri­am “enfraque­cer inter­ess­es essen­ci­ais de segu­rança nacional dos Esta­dos Unidos”. Em 2016, o Depar­ta­men­to do Tesouro impôs restrições à ZTE, acu­sa­da de vio­lar sanções con­tra o Irã. Um ano depois, Trump decid­iu lib­er­ar os negó­cios com a ZTE para con­cen­trar fogo na Huawei, alvo de uma sucessão de vetos no ano pas­sa­do — até à ven­da de celu­lares per­to de bases mil­itares. O FBI chegou a can­ce­lar o vis­to acadêmi­co de chi­ne­ses con­sid­er­a­dos sus­peitos de espi­onagem.

Vista geral do centro de dados da Huawei numa província da China. A empresa foi fundada por um líder militar e carrega acusações de espionagem. Foto: Visual China Group / Getty Images
Vista ger­al do cen­tro de dados da Huawei numa provín­cia da Chi­na. A empre­sa foi fun­da­da por um líder mil­i­tar e car­rega acusações de espi­onagem. Foto: Visu­al Chi­na Group / Get­ty Images

Ao faz­er pressão sobre ali­a­dos para proibir equipa­men­tos chi­ne­ses nas redes 5G, o gov­er­no dos Esta­dos Unidos lev­ou a dis­pu­ta para fora do país. Aten­den­do a um pedi­do amer­i­cano, o Canadá pren­deu em dezem­bro pas­sa­do Meng Wanzhou, dire­to­ra finan­ceira e fil­ha de Ren Zhengfei, tam­bém acu­sa­da de vio­lar sanções con­tra o Irã. Ela aguar­da o jul­ga­men­to de um pedi­do de extradição. Em janeiro de 2019, o gov­er­no Trump fez na Justiça 24 acusações con­tra a Huawei, a maio­r­ia lig­a­da a pro­priedade int­elec­tu­al. Em maio, Trump assi­nou o decre­to que a proíbe de usar qual­quer tec­nolo­gia amer­i­cana, inclu­sive o sis­tema Android, do Google. Pelo últi­mo pra­zo para o embar­go entrar em vig­or, o Android só poderá rodar em celu­lares Huawei até 17 de novem­bro. A Huawei criou um novo sis­tema, bati­za­do Har­mo­ny, mas pref­ere encará-lo como uma segun­da opção e crê ain­da em um acor­do com os amer­i­canos.

Trump incluiu a Huawei na nego­ci­ação tar­ifária com o chinês Xi Jin­ping. Mes­mo que aceit­em man­ter o aces­so dos chi­ne­ses ao Android e a chips para celu­lares, os amer­i­canos são inarredáveis na ten­ta­ti­va de banir os equipa­men­tos Huawei das redes 5G em país­es ali­a­dos. Antes mes­mo do decre­to de Trump e da prisão de Meng, a Aus­trália e a Nova Zelân­dia já havi­am toma­do a medi­da. Na Ásia, Japão, Viet­nã e Cor­eia do Sul tam­bém se alin­haram com os Esta­dos Unidos. Na Europa, porém, a acusação amer­i­cana de que a tec­nolo­gia chi­ne­sa abre bre­chas a espiões foi rece­bi­da com mais reser­va. A Dina­mar­ca desis­tiu da Huawei em prol da nórdi­ca Eric­s­son para mon­tar suas novas redes. A Repúbli­ca Tcheca lançou aler­tas con­tra a segu­rança dos equipa­men­tos chi­ne­ses, mas não os proibiu. A Polô­nia chegou a pren­der um fun­cionário da Huawei, acu­sa­do de espi­onagem. A empre­sa negou envolvi­men­to, demitiu‑o e, depois de uma visi­ta ofi­cial do chancel­er Wang Yi, anun­ciou estar dis­pos­ta a inve­stir € 704 mil­hões nas redes 5G polone­sas.

O Reino Unido mon­tou um lab­o­ratório para inspe­cionar a tec­nolo­gia chi­ne­sa. No últi­mo diag­nós­ti­co, em março, con­cluiu ser impos­sív­el garan­tir que “todos os riscos do envolvi­men­to da Huawei em redes críti­cas pos­sa ser mit­i­ga­do a con­tento no lon­go pra­zo”. Mes­mo assim, as autori­dades britâni­cas decidi­ram per­mi­tir o uso dos equipa­men­tos Huawei nas redes 5G. Ale­man­ha e França seguem ori­en­tação semel­hante. A União Europeia optou por não banir a Huawei, por con­sid­er­ar insu­fi­cientes as evidên­cias apre­sen­tadas pelos amer­i­canos de que seus equipa­men­tos pos­sam ser usa­dos para espi­onagem. No Brasil, o vice-pres­i­dente, Hamil­ton Mourão, garan­tiu que não haverá embar­go à tec­nolo­gia chi­ne­sa nos leilões das fre­quên­cias para a nova ger­ação de celu­lares, pre­vis­tos para 2020. A Huawei fatur­ou em torno de US$ 1 bil­hão aqui em 2018 e aca­ba de anun­ciar um inves­ti­men­to de US$ 800 mil­hões em novas insta­lações para fab­ricar celu­lares em Soro­ca­ba, no inte­ri­or paulista.

A espi­onagem não é a úni­ca pre­ocu­pação que tem moti­va­do restrições à tec­nolo­gia chi­ne­sa. Out­ra é seu uso por regimes autoritários. A Free­dom House con­sta­tou, em seu últi­mo relatório sobre liber­dade, que a Chi­na expor­tou tec­nolo­gia dig­i­tal a 38 dos 64 país­es em que os dire­itos indi­vid­u­ais estiver­am sob ameaça em 2018. A 18 deles, vendeu a tec­nolo­gia de vig­ilân­cia mais sofisti­ca­da, com recur­sos de recon­hec­i­men­to facial e inteligên­cia arti­fi­cial. Em 2017, a Huawei procla­ma­va que sua ini­cia­ti­va de cidades inteligentes — promes­sa que se tor­na ple­na no uni­ver­so 5G — esta­va pre­sente em mais de 200 local­i­dades de 40 país­es, a maio­r­ia com sis­temas de vig­ilân­cia, ven­di­dos sob o argu­men­to de aper­feiçoar a segu­rança. Equipa­men­tos dig­i­tais chi­ne­ses estão em lugares tão dís­pares como Viet­nã, Ugan­da, Tanzâ­nia, Gré­cia ou Hun­gria. Na Améri­ca Lati­na, na Ásia e na África, a pre­sença é maciça. Só a Huawei dom­i­na 34% do mer­ca­do lati­no-amer­i­cano e 43% do asiáti­co, segun­do números do Dell’Oro Group. A Chi­na Elec­tron­ics Cor­po­ra­tion (CEC), estatal eletrôni­ca com um braço mil­i­tar, ergueu redes de vig­ilân­cia para os gov­er­nos da Venezuela, Bolívia e Equador. Equipa­men­tos ZTE, de acor­do com a Human Rights Watch, aju­dam o gov­er­no da Etiópia a mon­i­torar ativis­tas, jor­nal­is­tas e políti­cos da oposição.

A infraestru­tu­ra 5G é um com­po­nente fun­da­men­tal para esten­der o domínio geopolíti­co chinês no plan­e­ta. “Com inteligên­cia arti­fi­cial, inter­net das coisas, car­ros autônomos e cidades inteligentes, o 5G englo­bará a maio­r­ia das apli­cações téc­ni­cas no futuro”, afir­mou a anal­ista Kara Fred­er­ick, do Cen­ter for a New Amer­i­can Secu­ri­ty. “Sem uma rede 5G segu­ra, a infraestru­tu­ra amer­i­cana — incluin­do seus sis­temas de saúde e trans­mis­são de ener­gia — estará vul­neráv­el.” Fal­has pode­ri­am, segun­do ela, ser intro­duzi­das depois da insta­lação das redes, por meio de atu­al­iza­ções de soft­ware. “É um erro procu­rar a ‘arma fumegante’ para incrim­i­nar a Huawei. Mais que isso, per­mi­tir a pre­sença das empre­sas chi­ne­sas nas redes 5G é como entre­gar ao gov­er­no chinês uma arma car­rega­da.”

A Huawei refu­ta as acusações de que este­ja a serviço de espiões ou do Esta­do chinês. Ren chegou a afir­mar que, para man­ter a inde­pendên­cia, desafi­aria as leis de seu país que deter­mi­nam colab­o­ração na cole­ta de inteligên­cia. O dire­tor de segu­rança da Huawei nos Esta­dos Unidos, Andy Pur­dy, lem­brou numa entre­vista recente as ativi­dades de espi­onagem pro­movi­das pela Nation­al Secu­ri­ty Agency (NSA) em colab­o­ração com a indús­tria de tele­co­mu­ni­cações amer­i­cana, rev­e­ladas por Edward Snow­den. “Os Esta­dos Unidos acred­i­tam fun­da­men­tal­mente que a Chi­na usaria as empre­sas chi­ne­sas — até empre­sas pri­vadas — para o mes­mo tipo de ativi­dade que usam as amer­i­canas”, afir­mou Pur­dy à revista For­eign Pol­i­cy. Um dos doc­u­men­tos, rev­e­la­do por Snow­den em março de 2014, mostra que os EUA ten­taram espi­onar a própria Huawei. “É razoáv­el assumir que a Chi­na pode­ria invadir a rede 5G de qual­quer maneira, com ou sem equipa­men­to Huawei”, disse Pur­dy. “Bani-la não trará segu­rança adi­cional.”

Às acusações de pirataria e desre­speito à pro­priedade int­elec­tu­al, que assom­bram a empre­sa des­de o iní­cio, a Huawei apre­sen­ta uma respos­ta mais con­vin­cente: é a quin­ta empre­sa do mun­do que mais investe em pesquisa e desen­volvi­men­to, pelo menos 10% do fat­u­ra­men­to anu­al (em 2018, foram 15%). “Acred­i­ta­mos que o respeito e a pro­teção à pro­priedade int­elec­tu­al é a base da ino­vação”, afir­ma num doc­u­men­to sobre pro­priedade int­elec­tu­al pub­li­ca­do em jun­ho pas­sa­do. O tex­to elen­ca mais de 100 acor­dos de patentes e licen­ci­a­men­to com empre­sas do mun­do todo, entre elas Nokia, Eric­s­son, Qual­comm, Siemens, Alca­tel, AT&T, Apple e Sam­sung. A Huawei afir­ma ter paga­do, nas últi­mas duas décadas, mais de US$ 6 bil­hões pelo uso da pro­priedade int­elec­tu­al de ter­ceiros e ter rece­bido, des­de 2015, US$ 1,5 bil­hão pela ven­da de licenças a empre­sas na Europa, na Ásia e nos Esta­dos Unidos. Atribuir o suces­so da Huawei à pirataria soa ape­nas uma des­cul­pa con­fortáv­el para negar seu pio­neiris­mo tec­nológi­co. No final de 2018, a Huawei det­inha nada menos que 87.805 patentes, 11.152 das quais nos Esta­dos Unidos. A empre­sa diz pub­licar todo ano entre 100 e 200 tra­bal­hos acadêmi­cos e afir­ma ter con­tribuí­do com mais de 60 mil especi­fi­cações téc­ni­cas a orga­ni­za­ções inter­na­cionais de padroniza­ção.

Tal pujança expli­ca por que a Huawei con­tro­la quase 30% do mer­ca­do glob­al de equipa­men­tos de tele­co­mu­ni­cações e por que assum­iu a lid­er­ança no uni­ver­so 5G. Ao todo, 182 oper­ado­ras já havi­am real­iza­do testes com redes 5G da Huawei até fevereiro — e 30 havi­am fecha­do con­tra­to. Os prin­ci­pais motivos são o cus­to — entre 20% e 30% infe­ri­or ao das con­cor­rentes — e a facil­i­dade de migração das redes atu­ais 4G para as novas. A estraté­gia da Huawei não é nova no mun­do tec­nológi­co. Toda empre­sa que con­segue se esta­b­ele­cer como padrão no mer­ca­do con­quista uma enorme van­tagem com­pet­i­ti­va. Foi assim na segun­da ger­ação dos celu­lares, quan­do a Europa saiu na frente, pro­je­tan­do empre­sas como Nokia e Eric­s­son. Tam­bém na ter­ceira, quan­do o Japão largou na frente e depois foi alcança­do pelos amer­i­canos. Na quar­ta, des­de o lança­men­to da primeira rede pela AT&T em 2008, os Esta­dos Unidos sou­ber­am impor seus padrões e semear uma rede glob­al de fab­ri­cantes e desen­volve­dores depen­dentes de fab­ri­cantes amer­i­canas de chips, como Qual­comm ou Intel. O 4G lev­ou à explosão de pro­du­tos e serviços forneci­dos por out­ras empre­sas amer­i­canas, como Apple, Google, Face­book, Ama­zon, Net­flix e Uber.

No 5G, foi a Chi­na que assum­iu o pro­tag­o­nis­mo. A difer­ença, des­ta vez, é que o ecos­sis­tema de negó­cios asso­ci­a­dos à quin­ta ger­ação tem out­ra ordem de grandeza. Das cirur­gias à dis­tân­cia aos car­ros autônomos, da automação indus­tri­al às cidades inteligentes, uma miríade de ino­vações depen­derá dos padrões téc­ni­cos e do aces­so a redes 5G efi­cazes e baratas. O Depar­ta­men­to de Defe­sa amer­i­cano foi infor­ma­do dessa real­i­dade da for­ma mais obje­ti­va pos­sív­el, numa análise encomen­da­da a um con­sel­ho de espe­cial­is­tas e pub­li­ca­da em abril: “O país que dom­i­nar o 5G será dono de várias dessas ino­vações e ditará os padrões ao resto do mun­do. É hoje improváv­el que tal país sejam os Esta­dos Unidos”.

Na primeira fase, o 5G trará uma veloci­dade de aces­so à inter­net até 20 vezes supe­ri­or à atu­al, mas não provo­cará uma fração da rev­olução da segun­da, com garan­tia de comu­ni­cação à dis­tân­cia prati­ca­mente instan­tânea. A qual­i­dade dos serviços depen­derá não ape­nas da cober­tu­ra das ante­nas, mas tam­bém da poderosa rede de fibra ópti­ca a que elas estarão conec­tadas. A Chi­na largou na frente, impon­do a insta­lação de poderosos canais de trans­mis­são ao lon­go de fer­rovias e rodovias finan­ciadas como parte da ini­cia­ti­va con­heci­da como Nova Rota da Seda. Ásia, Europa, África e até o Nordeste brasileiro estarão interli­ga­dos de alto a baixo por fibra chi­ne­sa. Em para­le­lo, a Huawei investiu no desen­volvi­men­to de todas as camadas e com­po­nentes da tec­nolo­gia 5G: smart­phones, ante­nas, cen­trais, chips e o soft­ware para faz­er tudo fun­cionar. De acor­do com a empre­sa alemã iPlyt­ics, a Huawei detém mais patentes essen­ci­ais para o 5G fun­cionar do que qual­quer out­ra empre­sa: 1.529, ou 16% do total. Tam­bém foi a que mais con­tribuiu aos padrões téc­ni­cos desen­volvi­dos nos organ­is­mos inter­na­cionais: 11.423, ou 18,5% do total.

Isso sig­nifi­ca não ape­nas que as demais empre­sas dev­erão pagar roy­al­ties à Huawei, mas sobre­tu­do que partem dos chi­ne­ses as opiniões deci­si­vas na hora de esta­b­ele­cer os padrões que garan­tem domínio do mer­ca­do. No organ­is­mo respon­sáv­el pela definição de tais padrões, con­heci­do pela sigla 3GPP, os chi­ne­ses det­inham ape­nas oito das 57 posições decisórias nos comitês estratégi­cos em 2013 (sete delas eram da Huawei). Num lev­an­ta­men­to da con­sul­to­ria Jef­feries pub­li­ca­do em 2017, havi­am subido para 10. Na sem­ana pas­sa­da, eram 13 de um total de 61. O “apar­el­hamen­to” chinês do 3GPP ocorre num momen­to críti­co. A definição final dos padrões da segun­da fase do 5G, a que prom­ete mais trans­for­mações, está pre­vista para dezem­bro, depois de vários adi­a­men­tos. Os amer­i­canos fazem o pos­sív­el para ten­tar reduzir a influên­cia chi­ne­sa, evi­dente nas definições da primeira fase, con­cluí­das no ano pas­sa­do. É uma batal­ha que muitos con­sid­er­am per­di­da, em vir­tude de uma car­ac­terís­ti­ca téc­ni­ca essen­cial das redes chi­ne­sas: a faixa prin­ci­pal de fre­quên­cias do espec­tro que escol­her­am para mon­tar suas oper­ações.


Espec­tro sem­pre foi o fator cen­tral nas tele­co­mu­ni­cações. Quan­do surgiu o 4G, os Esta­dos Unidos foram pio­neiros na faixa depois ado­ta­da no mun­do todo. Graças a isso, empre­sas amer­i­canas asse­gu­raram o pre­domínio no mer­ca­do. Na hora de alo­car as fre­quên­cias do 5G, foi pre­ciso recor­rer a faixas mais ele­vadas, já que as mais baixas estão con­ges­tion­adas. Basi­ca­mente foram escol­hi­das duas grandes faixas, a primeira abaixo de 6 giga-hertz, bati­za­da “sub‑6”, a segun­da aci­ma de 24 giga-hertz, con­heci­da como “mil­imétri­ca” — nela, o com­pri­men­to das ondas trans­mi­ti­das é da ordem de 1 cen­tímetro. Os chi­ne­ses escol­her­am para oper­ar seus prin­ci­pais serviços 5G fre­quên­cias na faixa “sub‑6”, que per­mitem maior propa­gação do sinal com menos ante­nas e retrans­mis­sores. É isso que tor­na suas redes mais baratas. Nos Esta­dos Unidos, várias fre­quên­cias nes­sa faixa são reser­vadas para comu­ni­cações mil­itares ou do gov­er­no. Os amer­i­canos decidi­ram, por­tan­to, pri­orizar faixas mil­imétri­c­as. Emb­o­ra elas per­mi­tam maior veloci­dade de trans­mis­são, e emb­o­ra avanços tec­nológi­cos prometam maior efi­ciên­cia, as faixas mil­imétri­c­as exigem a insta­lação de mais ante­nas, e, mes­mo assim, as ondas ain­da esbar­ram em bar­reiras físi­cas. Eco­nomi­ca­mente, a tec­nolo­gia chi­ne­sa ofer­ece mais bene­fí­cios a um cus­to menor. “À medi­da que o 5G for insta­l­a­do no globo em faixas semel­hantes do espec­tro, as apli­cações para celu­lar e inter­net e os serviços chi­ne­ses dev­erão se tornar dom­i­nantes, mes­mo que sejam excluí­dos dos Esta­dos Unidos”, afir­ma o relatório encomen­da­do pelo Depar­ta­men­to de Defe­sa.

O 5G não é a úni­ca frente em que os chi­ne­ses gan­ham dianteira tec­nológ­i­ca dos amer­i­canos. Em 2009, as dez maiores empre­sas de inter­net mundi­ais estavam todas nos Esta­dos Unidos. Hoje, qua­tro são chi­ne­sas. A peque­na Sense­Time ultra­pas­sou Google e Face­book nas pesquisas em inteligên­cia arti­fi­cial. O sis­tema de nave­g­ação Bei­Dou já tem mais satélites e é usa­do em mais país­es que a amer­i­cana GPS. Pesquisadores plane­jam inau­gu­rar em 2020 no Por­to de Tian­jin um super­com­puta­dor dez vezes mais rápi­do que os mel­hores em oper­ação. A Chi­na tam­bém pro­duz 23 dos 41 ele­men­tos min­erais con­sid­er­a­dos essen­ci­ais à econo­mia e dom­i­na nove dos dez sob maior risco de escassez. Com a Nova Rota da Seda, quer cri­ar uma rede de trans­portes e comu­ni­cações ao lon­go de ter­ritórios que con­cen­tram 65% da pop­u­lação glob­al. “Será a Chi­na um Esta­do capaz de ultra­pas­sar o Oci­dente e assumir a lid­er­ança do mun­do?”, per­gun­ta o jor­nal­ista alemão Kai Strittmat­ter, cor­re­spon­dente em Pequim por mais de dez anos, no livro We have been har­monised ( Fomos har­mo­niza­dos ), um aler­ta con­tra o risco do domínio de uma ditadu­ra comu­nista sobre o uni­ver­so tec­nológi­co. Em chinês, a respos­ta talvez fos­se uma out­ra per­gun­ta: “Mei ban fa?”. Que se há de faz­er?



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