Onde focar para ser mais produtivo: ambiente, expectativas e exemplos

Onde focar para ser mais pro­du­ti­vo: ambi­ente, expec­ta­ti­vas e exem­p­los

Em 2008, eu desen­volvia pro­du­tos pub­lic­itários na Google. Pela primeira vez em min­ha cur­ta car­reira, par­tic­i­pa­va de muitas reuniões, por­tan­to, o tra­bal­ho pas­sou a exi­gir muito mais poder de con­venci­men­to, per­suasão e coor­de­nação dev­i­do a min­ha área de atu­ação. Um dia, meu chefe falou de um grupo do Fórum de Suporte que pre­cisa­va de um design­er e pen­sou que o pro­je­to seria uma boa exper­iên­cia para mim, já que o pro­du­to tin­ha relação dire­ta com o con­sum­i­dor. A ini­cia­ti­va em si não tin­ha grande destaque a não ser por uma car­ac­terís­ti­ca: meu tra­bal­ho dev­e­ria ser aprova­do por Maris­sa May­er.

Trata­va-se da vice-pres­i­dente respon­sáv­el pes­soal­mente pela análise e aprovação de qual­quer mudança fei­ta no Google.com. Era uma tomado­ra de decisões inteligente, entu­si­as­ma­da, enér­gi­ca e, de cer­to modo, temi­da. Crit­i­ca­va, dire­ciona­va e (com sorte) aprova­va pro­postas de vários gru­pos. Durante nos­sas reuniões, muitas vezes eu imag­i­na­va uma pirâmide de cabeça para baixo, em que o tem­po de muitos depen­dia das decisões de uma. Éramos gestores de pro­du­to, design­ers e líderes. Cada um de nós encam­in­ha­va as decisões de Maris­sa para o restante do grupo, fazia um plane­ja­men­to e começa­va a tra­bal­har. A out­ra cama­da da pirâmide com­pun­ha-se dos mem­bros das equipes, cujo crono­gra­ma tam­bém depen­dia das escol­has dela.

Todos os dias, decidi­mos como uti­lizar o tem­po. Nos­sas decisões, em sua maio­r­ia, têm pou­ca relevân­cia, mas vão-se acu­mu­lan­do de for­ma grad­ual e acabam se tor­nan­do grandes res­oluções sobre a vida que lev­a­mos — inclu­sive no tra­bal­ho. Quan­do são des­cuida­dos com suas decisões, os gestores cri­am grandes prob­le­mas para as equipes. Por out­ro lado, ao serem pon­der­a­dos e aten­ciosos, podem ger­ar opor­tu­nidades e dar o tem­po necessário para que a equipe real­ize tra­bal­hos impor­tantes.

Lis­tei abaixo algu­mas dicas para aju­dar líderes de todos os tipos a serem cuida­dosos com suas escol­has. Para isso, baseei-me, em grande medi­da, nos anos em que atuei como con­sul­tor de pro­du­to, mar­ket­ing e lid­er­ança para fun­dadores de star­tups na Google Ven­tures, bem como em meu tra­bal­ho sub­se­quente com o estu­do e a apli­cação de téc­ni­cas de geren­ci­a­men­to pes­soal de tem­po para o livro Make Time [Arran­je tem­po, em tradução livre]. Estão divi­di­das em três cat­e­go­rias: o ambi­ente que se cria, as expec­ta­ti­vas que se tem e os exem­p­los dados por meio de escol­has e ações.

Ambi­ente

1. Trate novas fer­ra­men­tas como dívi­das. Antes de ado­tar um novo pro­du­to, proces­so ou platafor­ma na empre­sa, per­gunte a si mes­mo se isso vale a pena. Sem­pre haverá novos pro­ced­i­men­tos e tec­nolo­gias a serem implan­ta­dos — um aplica­ti­vo des­ti­na­do a mel­ho­rar a comu­ni­cação ou um serviço que prom­ete uma colab­o­ração mais inteligente. Porém, nem sem­pre se cumprem essas promes­sas e, quan­do se está ávi­do demais para tes­tar novi­dades, é pos­sív­el que a equipe seja afe­ta­da de maneira mais neg­a­ti­va do que pos­i­ti­va. As pes­soas podem se atra­pal­har ao incor­po­rar uma nova fer­ra­men­ta a seu fluxo de tra­bal­ho, ou se dis­per­sar ten­tan­do apren­der um novo proces­so. Claro que tudo isso pode ser útil na hora cer­ta e com uma estraté­gia sól­i­da, mas tam­bém há um preço a pagar.

2. Esta­beleça o crono­gra­ma em equipe. Esta­b­ele­cer perío­dos especí­fi­cos no cal­endário é uma maneira sim­ples e jus­ti­ficáv­el de abrir tem­po para tra­bal­hos impor­tantes. É pos­sív­el, ain­da, mel­ho­rar essa táti­ca ao coor­dená-la com o grupo. Quan­do todos na equipe ou depar­ta­men­to têm os mes­mos horários reser­va­dos para “não agen­dar nada”, fica muito mais fácil focar no tra­bal­ho.

3. Torne pro­du­ti­vo o ambi­ente de tra­bal­ho. Ironi­ca­mente, a maio­r­ia dos escritórios não con­tribui muito com a pro­du­tivi­dade, em grande medi­da dev­i­do às plan­tas de piso aber­to. Pode estar fora de cog­i­tação alter­ar a local­iza­ção das pare­des, mas é pos­sív­el mudar o com­por­ta­men­to usu­al da equipe esta­b­ele­cen­do regras de bib­liote­ca. Jason Fried, cofun­dador e pres­i­dente da 37signals, além de coau­tor do livro Rework [Retra­bal­ho, em tradução livre], tem uma sug­estão bril­hante: tro­car uma ati­tude esta­b­ele­ci­da (poder falar com todo mun­do toda hora) por out­ra que todos já con­hecem (agir como se estivesse na bib­liote­ca).

4. Pre­fi­ra as peque­nas escalas. As grandes escalas têm maior sobre­car­ga do que as peque­nas, assim como os pro­je­tos com­plex­os envolvem mais incertezas do que os sim­ples. Os crono­gra­mas exten­sos incen­ti­vam tra­bal­hos desnecessários. Isso pode pare­cer óbvio, mas, em min­ha exper­iên­cia, vi que a maior parte dos líderes faz crono­gra­mas maiores do que o necessário. Man­ten­ha as equipes, pro­je­tos e crono­gra­mas o menor pos­sív­el.

Expec­ta­ti­vas

5. Rec­om­pense os com­por­ta­men­tos cor­re­tos. O ambi­ente de tra­bal­ho do sécu­lo 21 pro­por­ciona prêmios aos lon­gos expe­di­entes e às respostas ráp­i­das: elo­gios, pro­moções e medal­has de hon­ra. Se quer que sua equipe ten­ha um desem­pen­ho mel­hor e mais proveitoso, analise quais com­por­ta­men­tos rec­om­pen­sa, mes­mo que seja de maneira peque­na e incon­sciente. Em vez de agrade­cer alguém que respon­da pronta­mente a um e‑mail depois do tra­bal­ho, incentive‑o a elab­o­rar o tex­to com mais atenção enquan­to ain­da estiv­er no escritório. Pre­mi­ar aque­les que usam o tem­po de for­ma pro­du­ti­va estim­u­la­rá a práti­ca desse com­por­ta­men­to na equipe, além de aju­dar a refu­tar a ideia de que os mel­hores tra­bal­ham demais.

6. Ten­ha um con­tra­to de comu­ni­cação. No tra­bal­ho, temos diver­sas for­mas de comu­ni­cação, como e‑mails, chats, reuniões e lig­ações. Qual é a mais apro­pri­a­da em cada momen­to? É pos­sív­el aju­dar o grupo a decidir fazen­do uma dis­cussão aber­ta sobre as prefer­ên­cias de cada um e dan­do ori­en­tações que fun­cionem para a maio­r­ia. Con­sidere pron­tidão, apre­ci­ação, inter­rupção e sin­croni­ci­dade. O resul­ta­do não pre­cisa ser um con­tra­to pro­pri­a­mente dito, mas deve cri­ar um con­sen­so sobre a maneira e o momen­to da comu­ni­cação.

7. Não peça “as últi­mas infor­mações”. Nada causa mais ansiedade do que um e‑mail do chefe no fim do dia, dizen­do: Olá, pode me infor­mar sobre o anda­men­to do Pro­je­to Alpha?” Esse tipo de men­sagem parece urgente — ain­da que não seja — e o fun­cionário provavel­mente vai levar bas­tante tem­po para respondê-la, pois pode ser necessário faz­er anális­es ou pedir infor­mações aos colab­o­radores. Para man­ter o con­t­role da ini­cia­ti­va, vale mais a pena pedir resumos, que devem ser elab­o­ra­dos ao final ou após uma eta­pa impor­tante do pro­je­to, descreven­do os resul­ta­dos, as lições apren­di­das e os próx­i­mos pas­sos. A difer­ença é semân­ti­ca, porém, sig­ni­fica­ti­va. Com uma definição clara de pra­zos, a equipe saberá quan­do o resumo deve ser entregue e plane­jar as atu­al­iza­ções de dados.

8. Este­ja aten­to ao que diz, pois todos estão escu­tan­do. Quan­do os líderes fazem comen­tários ou sug­estões de maneira leviana, podem alter­ar o fluxo de tra­bal­ho da equipe sem quer­er. Como fun­cionário, vi isso acon­te­cer muitas vezes, mas meus exem­p­los favoritos são de Fried e David Heine­meier Hans­son, em seu livro sobre pro­du­tivi­dade, It Doesn’t Have to Be Crazy at Work: “O líder pre­cisa ter muito con­t­role para não ficar jogan­do ideias no ar. São todas como pedras que causam ondu­lações quan­do atingem a super­fí­cie da água. Jogue muitas pedras na fonte e o resul­ta­do final será a lama.”. Os líderes pre­cisam perce­ber o peso que suas palavras car­regam, além de se poli­ciar para falar de for­ma bem pen­sa­da.

9. Não espere con­sen­so. Bus­car a una­n­im­i­dade em torno de deter­mi­na­da decisão antes de avançar à eta­pa seguinte pode oca­sion­ar um des­perdí­cio de tem­po caso não se trate de uma ideia real­ista. Na ver­dade, um pouco de con­fli­to quase sem­pre inspi­ra apren­diza­do e ino­vação, prin­ci­pal­mente em gru­pos diver­si­fi­ca­dos e ded­i­ca­dos. A chave, por­tan­to, é ouvir a opinião de todos, con­sid­er­ar suas opções e depois tomar a decisão com base naqui­lo que creia serem as mel­hores infor­mações disponíveis. Seja trans­par­ente com o grupo sobre os motivos da res­olução — os pon­tos lev­a­dos em con­ta e os motivos para isso — e reserve alguns min­u­tos para respon­der às per­gun­tas. Os fun­cionários devem sair da reunião com uma clara com­preen­são da escol­ha fei­ta e suas reper­cussões no tra­bal­ho. Assim, não perderão tem­po nas eta­pas seguintes do pro­je­to.

Exem­p­los

10. Desative a “bolin­ha verde”. As decisões sobre a uti­liza­ção do próprio tem­po é um exem­p­lo para os fun­cionários. É bom que saibam que o líder está disponív­el quan­do pre­cis­arem dele, mas se o seu padrão for estar disponív­el e respon­der o tem­po todo, é pos­sív­el que se torne o deles tam­bém. Pro­je­tar esse tipo de pre­sença (seja pes­soal­mente, seja na for­ma de uma “bolin­ha verde”), envia a men­sagem de que não há prob­le­mas em inter­rompê-lo, ou pior, que a empre­sa val­oriza mais a aparên­cia de disponi­bil­i­dade do que tem­po e foco para faz­er um óti­mo tra­bal­ho. A solução é esta­b­ele­cer lim­ites. Seja hon­esto nesse sen­ti­do: quan­do pre­cisa focar e quan­do está livre. Uma boa opção é cri­ar “horários com­er­ci­ais” — perío­dos em que todos podem apare­cer ou agen­dar um horário com você —, além de check-ins reg­u­lares com relatórios dire­tos. Ess­es encon­tros per­mi­tirão atenção inte­gral ao fun­cionário sem­pre que pos­sív­el.

11. Pon­dere em vez de rea­gir. Quan­do estiv­er à frente de novas ini­cia­ti­vas, reserve algum tem­po para escr­ev­er suas ideias com atenção e refle­tir sobre elas. Tente não “pen­sar alto” nas reuniões. Mes­mo que este­ja fazen­do um brain­storm­ing com out­ros fun­cionários, evite tomar decisões no ato. Dê a si mes­mo o espaço men­tal de que neces­si­ta para sen­tir-se con­fi­ante com relação ao mel­hor cam­in­ho. Isso econ­o­mizará tem­po mais a frente e con­tribuirá para que a equipe evite blo­queios ou mudanças de últi­ma hora. Per­gunte-se: como é ´pos­sív­el mel­ho­rar esse pro­du­to, serviço ou empre­sa ago­ra mes­mo? Quais são os primeiros pas­sos?

12. Des­canse de ver­dade. Saia cedo do escritório, faça uma viagem de fim de sem­ana, tire férias lon­gas e, quan­do fiz­er isso, diga a sua equipe que estará fora e offline. Delegue decisões a out­ras pes­soas durante esse perío­do ou adie-as até sua vol­ta. Esse des­can­so pode torná-lo um líder mel­hor e uma pes­soa mais feliz, além de esta­b­ele­cer a ideia de que as pes­soas pre­cisam de uma fol­ga e a mere­cem.

Se algu­ma vez já dese­jou que sua equipe tra­bal­has­se com mais efi­ciên­cia, mais sat­is­fação ou menos estresse, sai­ba que isso está em suas mãos, bas­tan­do que repense suas decisões sobre o tem­po. Os novos com­por­ta­men­tos acabam se tor­nan­do hábitos. O que parece louco e novo ago­ra, pare­cerá nor­mal e inevitáv­el em dois anos. Con­sidere essas ideias exper­iên­cias a serem con­duzi­das e comece a testá-las aman­hã mes­mo.


John Zer­atsky é autor dos best-sell­ers Sprint: How to Solve Big Prob­lems and Test New Ideas in Just Five Days e Make Time: How to Focus on What Mat­ters Every Day.

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