A importância da aprendizagem automática

A importância da aprendizagem automática

Há muito tenho andado obcecado e otimista quanto à promessa e ao potencial da inteligência artificial (IA) para mudar — bem, quase tudo. No ano passado, fiquei impressionado com a rapidez com que a aprendizagem automática estava se desenvolvendo e senti-me preocupado que tanto a Nokia quanto eu estivéssemos um pouco lentos em sua implementação. O que eu poderia fazer para me educar e ajudar a empresa?

Como presidente da Nokia, tive a sorte de ter acesso a vários dos principais pesquisadores de Inteligência Artificial (IA) do mundo. No entanto, só entendi partes do que eles disseram e fiquei frustrado quando alguns de meus parceiros de discussão pareciam mais interessados em mostrar seu conhecimento avançado sobre o assunto do que em realmente querer que eu entendesse “como de fato isso funciona.”

Passei algum tempo reclamando. Então percebi que, como CEO e Presidente de longa data, eu caíra na armadilha de ser definido por meu papel: havia me acostumado a ter as respostas prontas. Em vez de tentar descobrir o básico de uma tecnologia aparentemente complexa, tinha me habituado a ter outra pessoa fazendo o trabalho pesado.

Por que não estudar aprendizagem automática e depois explicar o que eu havia aprendido para os outros que estavam às voltas as mesmas dúvidas? Isso poderia ajudá-los e, ao mesmo tempo, melhorar a imagem da aprendizagem automática na Nokia.

Voltando para a escola

Depois de uma rápida busca na internet, encontrei os cursos de Andrew Ng no Coursera, uma plataforma de aprendizagem on-line. Andrew se revelou um excelente professor que genuinamente quer que as pessoas aprendam. Eu me diverti muito ao me familiarizar de novo com programação, depois de um intervalo de quase 20 anos.

Uma vez que terminei o primeiro curso de aprendizagem automática, continuei com dois cursos de acompanhamento especializado em Aprendizagem Profunda e outro curso focando em Redes Neurais Convolucionais, que são mais comumente aplicados à análise de imagens digitais. À medida que me familiarizei mais com o assunto, passei algum tempo lendo pesquisas e artigos sobre a arquitetura da aprendizagem automática e algoritmos, que não foram ensinados nos cursos de Andrew. Depois de três meses e seis cursos, aprendi tanto algoritmos simples como muitas das arquiteturas mais complexas, fazendo um projeto com cada um deles para obter uma compreensão prática.

Assim, parti para a parte mais difícil: como explicar a essência da aprendizagem automática da maneira mais simples possível, mas sem simplificá-la demais. Criei a apresentação que gostaria que alguém tivesse feito para mim. (Ela está no YouTube, e, até agora, foi vista por quase 45 mil pessoas. Disponibilizei-a para, entre outros, todo o gabinete finlandês, muitos dos comissários da União Europeia, um grupo de embaixadores das Nações Unidas e 200 alunas adolescentes para despertar seu interesse por ciência. Muitas empresas tornaram obrigatório que seus gestores assistissem à minha introdução à aprendizagem automática.)

Milhares de funcionários da Nokia assistiram à minha apresentação e se inspiraram nela. Muitos de nosso pessoal de Pesquisa e Desenvolvimento me procuraram para confessar que estavam um pouco envergonhados pelo fato de seu presidente estar codificando sistemas de aprendizagem automática e de eles nem sequer haverem começado. Contudo, disseram-me que agora estavam dedicando seu tempo livre para estudar aprendizagem automática e trabalhar nos primeiros projetos da Nokia. Música para meus ouvidos.

Mas esse foi apenas o primeiro passo.

Os cinco passos para a competência em IA

Eu queria criar uma forma de promover uma maior compreensão da aprendizagem automática — não apenas para engenheiros, mas para todos na Nokia. Para tanto, a parte mais valiosa da minha experiência foi criar um modelo para “Os cinco passos para a competência em IA.” Espero que líderes de todos os setores industriais possam aprender com esses cinco passos enquanto buscam ideias sobre como usar a aprendizagem automática em seu trabalho:

Faça todo mundo aprender o ABC da IA. Planejamos nos familiarizar com os fundamentos da aprendizagem automática como um processo obrigatório, assim como conhecer o código de conduta da empresa. Criaremos um teste on-line. Todos os funcionários deverão adquirir um pouco de conhecimento sobre aprendizagem automática.

A questão não é apenas que cada um descubra que pode entender de aprendizagem automática. Há um significado mais profundo: que a aprendizagem é algo que precisamos fazer ao longo de nossa vida e que podemos entender alguns assuntos bem complicados, mesmo que no começo não acreditemos nisso. Se conseguirmos surpreender o pessoal que trabalha para nós com sua capacidade de aprender coisas novas, isso pode ser muito positivo — para eles e para a empresa.

Crie um grupo competente de especialistas. Quando um líder de negócios ou alguém, aliás, tem uma ideia — “Ei, poderíamos economizar rios de dinheiro se fizéssemos isso” ou “Poderíamos tornar esse produto mais competitivo se conseguíssemos ensinar um sistema de aprendizagem automática para ajudar” — teremos um grupo de especialistas para avaliar a ideia e decidir, “Sim, podemos fazer isso” ou “Vamos tentar e ver no que dá” ou “Sem chance.” Esse grupo poderia ser um centro de competência interno ou até ser terceirizado para outra empresa de IA.

Esses cientistas de dados cairiam de paraquedas na equipe de Pesquisa e Desenvolvimento de uma unidade genérica de uma empresa para mostrar como fazer o que é necessário. Com cada projeto, eles deixarão pessoas preparadas que agora têm experiência prática e estão mais informadas sobre a aprendizagem automática. Eles transmitirão seu conhecimento e, ao mesmo tempo, quando retornarem ao centro de competência centralizado, poderão compartilhar sua experiência sobre o que funciona na prática.

Por falar nisso, é importante centralizar, pois no atual mercado de talentos, tão disputado, é muito mais fácil recrutar os mais talentosos em aprendizagem automática se eles souberem que irão trabalhar com colegas com talentos semelhantes.

Pareamento de sistemas robustos de TI e estratégia de dados. Precisamos construir sistemas de TI que possam combinar qualquer subconjunto de informações a que a empresa tenha acesso com qualquer outro subconjunto para reunir as informações exatas e necessárias para implementar um sistema de aprendizagem automática específico. (Isso pode se tornar complicado pela legislação de privacidade nos diferentes países.) Configurar um repositório de dados é um trabalho puramente de TI. A estratégia da metade da equação envolve antecipar e prever nossas necessidades futuras de dados. Em três ou cinco anos, haverá aspectos da nossa empresa em que nossa competitividade será amplamente definida pelos sistemas de aprendizagem automática que implementaremos. Precisamos olhar para a frente para entender e adquirir os dados de que necessitamos no momento a fim de preparar os sistemas que serão cruciais para nossa competitividade.

Implemente a aprendizagem automática internamente. Há numerosos trabalhos que podem ser mais bem feitos e com mais rapidez se você aumentar o contingente de pessoas que realizam essas tarefas com a aprendizagem automática. Para isso, precisamos mudar o comportamento das pessoas para que enxerguem tudo o que as cerca como uma oportunidade de automatizar.

Integre a aprendizagem automática a produtos e serviços. Devemos analisar constantemente maneiras de aprimorar a aprendizagem automática para melhorar a competitividade com nossos clientes.

Como esses cinco passos são partes igualmente importantes para o futuro da IA, devem ser implementados simultaneamente. Enquanto começamos a ensinar os fundamentos da aprendizagem automática a nossos funcionários, podemos iniciar a construção da infraestrutura de TI, buscando talentos e, em parceria com nossas equipes de TI já existentes, trabalharmos para incluir as competências da aprendizagem automática em nossos produtos e serviços. Ao elevarmos o nível de todos os diferentes elementos de nossas habilidades de aprendizagem automática simultaneamente, cada elemento pode se conectar com cada parte que alcança e melhorá-la. Em vez de uma parte restringir as outras, todas avançam juntas, compartilhando lições, gerando novas ideias e ganhando força.

Costumo me descrever como empreendedor. Quando você tem uma mentalidade empreendedora tudo é de sua responsabilidade. Você realmente se importa e suas ações transmitem isso alto e bom som.

Eu poderia ter apenas apoiado o CEO da Nokia e a equipe de gestão ao falar sobre a necessidade de dar o pontapé inicial em uma rápida retomada da aprendizagem automática. Mas falar é fácil. Tomar atitude para que as pessoas possam ver e se motivar a copiá-la é melhor do que qualquer discurso intelectual de impacto. O fato de o presidente de uma empresa global ter voltado à escola e aprender uma parte crucial de tecnologia foi inovador o suficiente para chamar a atenção das pessoas e incentivá-las a agir por conta própria.

Espero que seja apenas o começo.


Pot Risto Siilasmaa – presidente da Nokia