A África será o maior pólo agroindustrial do mundo?

A África será o maior pólo agroindustrial do mundo

À medi­da que o Oci­dente pas­sou a reduzir sua pre­sença no con­ti­nente africano, o “vácuo” abriu cam­in­ho para estraté­gias e inter­ess­es da Chi­na e Rús­sia.

A Chi­na vem desen­vol­ven­do um plano agres­si­vo de inves­ti­men­to e comér­cio com grandes pro­je­tos de infraestru­tu­ra e coop­er­ação econômi­ca, em espe­cial na África Sub­saar­i­ana, for­ma­da por 47 dos 54 país­es do con­ti­nente.

A Rús­sia já não des­fru­ta, por sua vez, dos mes­mos vín­cu­los fortes da era soviéti­ca. Mas as últi­mas investi­das rus­sas apon­tam para a reati­vação dessa históri­ca relação com os anti­gos ali­a­dos africanos “anti-impe­ri­al­is­tas” e tam­bém para a expan­são para novas áreas.

A estraté­gia da Rús­sia ficou em evidên­cia com o giro que o min­istro das Relações Exte­ri­ores, Sergei Lavrov, fez em março pas­sa­do por Namíbia, Zim­bábue, Ango­la, Moçam­bique e Etiópia, país­es que, no pas­sa­do, estiver­am sob influên­cia soviéti­ca.

Além dis­so, o recente assas­si­na­to de três jor­nal­is­tas rus­sos, que mor­reram em cir­cun­stân­cias mis­te­riosas ao inves­ti­gar a pre­sença mil­i­tar rus­sa na Repúbli­ca Cen­tro-Africana, atraiu novas espec­u­lações sobre os inter­ess­es do Krem­lin e pos­síveis oper­ações clan­des­ti­nas no país africano.

No momen­to, não há uma cor­ri­da aber­ta para impor uma mar­ca no con­ti­nente africano. Com fre­quên­cia, Chi­na e Rús­sia com­pe­ti­ram pelos mes­mos mer­ca­dos, mas con­seguiram lidar com a rival­i­dade em nome de um bom rela­ciona­men­to entre os dois país­es.

A África será o maior pólo agroindustrial do mundo

“Isso não quer diz­er que não pos­sa haver um enfrenta­men­to no futuro”, diz Mikhail Smotryaev, da BBC News Rús­sia, que tem se debruça­do sobre o tema.

As ini­cia­ti­vas da Chi­na na África, afir­ma ele, são rel­a­ti­va­mente recentes. A pre­sença chi­ne­sa no pas­sa­do podia ser con­sid­er­a­da inex­pres­si­va se com­para­da à dos rus­sos nos anos 1970 e 1980. Mas as coisas mudaram.

O comér­cio entre Chi­na e a África Sub­saar­i­ana já movi­men­ta­va cer­ca de US$ 220 bil­hões (R$ 903,2 bil­hões) em 2014. As pro­jeções para 2020 é que chegue a US$ 350 bil­hões, ape­sar de que, em 2015 e 2016, o mon­tante das transações de impor­tação e expor­tação da Chi­na na África ten­ha fica­do abaixo dos US$ 200 bil­hões.

Ain­da assim, o val­or pre­vis­to para 2020 seria cem vezes maior que o movi­men­ta­do pela Rús­sia — as relações com­er­ci­ais deste país com o con­ti­nente africano alcançam o mon­tante de US$ 3,6 bil­hões.

A títu­lo de com­para­ção, o comér­cio dos Esta­dos Unidos com a África já movi­men­tou US$ 30,5 bil­hões nos seis primeiros meses deste ano, mas a relação entre amer­i­canos e africanos, ano a ano, vem per­den­do fôlego, de acor­do com dados do gov­er­no amer­i­cano.

Em con­tra­parti­da, dados atribuí­dos ao Fun­do Mon­etário Inter­na­cional (FMI) indicam que as impor­tações da Chi­na para a África aumen­taram 233% de 2006 a 2016 e as da Rús­sia, 142%. As expor­tações de pro­du­tos africanos para ess­es dois país­es tam­bém cresce­r­am no perío­do.

Mikhail Smotryaev obser­va que, por causa de difer­entes acor­dos e condições, não é fácil cal­cu­lar as cifras exatas, mas está claro que a Chi­na investe muito mais na África do que a Rús­sia.

Sufo­ca­da por sanções impostas pelo Oci­dente, a econo­mia rus­sa está em declive já há algum tem­po e seu alcance não se com­para ao da anti­ga União Soviéti­ca.

Nesse con­tex­to, o país se viu moti­va­do a ser mais agres­si­vo na África. A base rus­sa se fun­da­men­ta, prin­ci­pal­mente, nos laços econômi­cos que exis­ti­am des­de os tem­pos soviéti­cos, e parte das nego­ci­ações está condi­ciona­da ao apoio às políti­cas de Moscou den­tro da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU).

Ao lon­go dos anos, ess­es país­es africanos acu­mu­la­ram uma dívi­da de US$ 20 bil­hões que a Rús­sia can­celou no final de 2012.

Foi mais uma estraté­gia de gen­erosi­dade, assi­nalou Vladimir Shu­bin, sub­di­re­tor do Insti­tu­to para África em Moscou, numa entre­vista à BBC News Rús­sia. “À princí­pio, é uma coisa boa. Cria condições mais favoráveis para nos­sas relações com a África”, avaliou.

Rús­sia e Chi­na podem com­pe­tir por armas e a explo­ração de recur­sos

Essas relações podem ser obser­vadas no comér­cio de um obje­to em par­tic­u­lar: arma­men­tos.

A Rús­sia é um impor­tante expor­ta­dor de armas no mun­do. Em 2015, a África respon­dia por 12% do mer­ca­do de armas. Do pon­to de vista africano, 35% das armas são rus­sas — e há espaço para esse comér­cio crescer.

As armas rus­sas são com­pet­i­ti­vas, porque são mais baratas, têm demon­stra­do ser sufi­cien­te­mente con­fiáveis em numerosos con­fli­tos béli­cos e são com­patíveis com o arma­men­to usa­do ain­da durante a Guer­ra Fria.

Nos últi­mos cin­co anos, a Rús­sia esta­b­ele­ceu um serviço de manutenção de equipa­men­tos mil­itares e pro­gra­mas de mod­ern­iza­ção de arma­men­to. Para Mikhail Smotryaev, Chi­na e Rús­sia pode­ri­am com­pe­tir por esse mer­ca­do.

Mas, de acor­do com espe­cial­is­tas, as armas chi­ne­sas respon­dem por quase dois terços do arse­nal dos país­es africanos. Há ain­da acor­do mil­itares e Pequim con­stru­iu uma grande base mil­i­tar na Repúbli­ca do Dji­bouti.

Out­ro setor poten­cial­mente lucra­ti­vo é o de explo­ração de recur­sos nat­u­rais.

Ain­da que a Rús­sia seja um país rico neste sen­ti­do e depen­dente de expor­tações, Moscou tem inter­esse em explo­rar dia­mantes, petróleo e metais raros na África. Por isso, tem finan­cia­do minas, plan­tas de proces­sa­men­to, fábri­ca de veícu­los, obser­va Smotryaev.

Ago­ra, está bus­can­do esta­b­ele­cer um acor­do de avi­ação com Zim­bábue, Ango­la, Con­go e Sene­gal, em tro­ca de pro­du­tos agrí­co­las.

A Chi­na, como grande con­sum­i­dor de hidro­car­bone­tos e out­ros recur­sos nat­u­rais, se mostra mais depen­dente de acor­dos de explo­ração para alcançar um fluxo com­er­cial con­stante.

Para isso, investiu grandes somas e esforços em infraestru­tu­ra, como fer­rovias, bar­ra­gens, oleo­du­tos e estradas, e esta­b­ele­ceu empre­sas que oper­am em parce­ria com vários país­es.

Em 2006, um acor­do para obter licenças de explo­ração na Nigéria em tro­ca de um inves­ti­men­to mul­ti­m­il­ionário em pro­je­tos de petróleo e infraestru­tu­ra foi um mar­co para a Chi­na na garan­tia de fornec­i­men­to de ener­gia e acor­dos com­er­ci­ais na região.

Ao mes­mo tem­po em que a Nigéria fornece o petróleo e o gás que Pequim pre­cisa, abre um mer­ca­do para os pro­du­tos chi­ne­ses. Empre­sas chi­ne­sas pas­saram a oper­ar fábri­c­as na Nigéria, e está pre­vista a aber­tu­ra de muitas out­ras na zona de livre comér­cio local­iza­da no sudoeste do país.

A Chi­na tam­bém tem man­da­do a própria força de tra­bal­ho para tocar as obras de infraestru­tu­ra em vários país­es da África. À Nigéria, por exem­p­lo, envi­ou 11 mil tra­bal­hadores para con­stru­ir uma rede fer­roviária. Há mil­hares de chi­ne­ses tra­bal­han­do em out­ros pro­je­tos em todo o con­ti­nente.

Uma pesquisa da Uni­ver­si­dade Johns Hop­kings, nos Esta­dos Unidos, cal­cu­lou que havia mais de 200 mil tra­bal­hadores chi­ne­ses na África em 2016, em sua maio­r­ia na Argélia, em Ango­la, na Etiópia, na Nigéria e no Quê­nia.

Há ONGs que ques­tion­am as condições a que ess­es tra­bal­hadores chi­ne­ses são sub­meti­dos. Ape­sar da polêmi­ca, entre 2005 e 2015, chi­ne­ses inve­sti­ram US$ 66 bil­hões na África Sub­saar­i­ana, crian­do 130 mil empre­gos, de acor­do com a empre­sa de audi­to­ria Ernst & Young.

Há cer­ca de cin­co anos, a Chi­na trans­feriu parte de sua pro­dução de itens de mão de obra bara­ta para a África, já que sua própria força de tra­bal­ho encar­e­ceu. Tam­bém se trans­for­mou em uma grande prove­do­ra de crédi­to, que vai além do propósi­to finan­ceiro.

Pesquisadores do cen­tro inter­na­cional Aid­Da­ta desco­bri­ram uma relação dire­ta entre o taman­ho da assistên­cia finan­ceira ofer­e­ci­da pela Chi­na a difer­entes país­es africanos e a for­ma como eles votam na ONU em relação a res­oluções que podem afe­tar Pequim, como, por exem­p­lo, o não recon­hec­i­men­to de Tai­wan.

Apoio estatal chinês frente às difi­cul­dades buro­cráti­cas rus­sas

Para Mikhail Smotryaev, a investi­da chi­ne­sa está asso­ci­a­da à ini­cia­ti­va pri­va­da. No entan­to, avalia ele, não se pode ter tan­ta pre­sença sem que essas ini­cia­ti­vas ten­ham pas­sa­do ante­ri­or­mente pela estru­tu­ra do Par­tido Comu­nista chinês.

“É um plano que é coor­de­na­do pelo gov­er­no, e o Esta­do chinês está por trás (da expan­são das empre­sas)”, afir­ma Smotryaev. “A Chi­na não em pres­sa, faz as coisas quase que por eta­pas, quase invi­sivel­mente.”

As metas da Rús­sia são mais mod­estas e ime­di­atas. Os rus­sos sinalizaram que quer­erem avançar sobre o comér­cio já exis­tente e cri­ar alguns novos mer­ca­dos.

A África está mais uma vez se tor­nan­do um mer­ca­do para grãos rus­sos. E ver­duras e legumes africanos encon­tram deman­da na Rús­sia, espe­cial­mente após as sanções do Oci­dente.

No entan­to, ao con­trário da Chi­na, a Rús­sia é ator­men­ta­da por difi­cul­dades buro­cráti­cas que impe­dem o aces­so de pro­du­tos africanos aos seus mer­ca­dos.

Emb­o­ra este­ja incor­po­ran­do sua estraté­gia no con­tex­to históri­co — com a pre­mis­sa de que é mais fácil sus­ten­tar o que já foi feito -, a Rús­sia não fez muito esforço para tirar van­tagem de suas conexões com as elites africanas, muitas das quais foram edu­cadas na anti­ga União Soviéti­ca, de acor­do com Smotryaev.

O desafio parece ser trans­for­mar uma relação que antes era políti­ca em com­er­cial.

Por enquan­to, o comér­cio e o inves­ti­men­to da Rús­sia não são robus­tos o sufi­ciente para col­idir ime­di­ata­mente com a Chi­na. Por out­ro lado, Pequim ain­da não atingiu o desen­volvi­men­to de infraestru­tu­ra a que aspi­ra em qual­quer país africano, e isso não acon­te­cerá tão rap­i­da­mente.

“Em muitos assun­tos de sua agen­da inter­na­cional, as posições da Rús­sia e da Chi­na são próx­i­mas, para­le­las ou coin­ci­dentes”, disse Andrei Karneev, dire­tor do Insti­tu­to de Estu­dos Asiáti­cos e Africanos da Uni­ver­si­dade Lomonosov, em Moscou, à BBC.

Assim, ambas, em ter­mos gerais, “estão prontas para a pos­si­bil­i­dade de seus inter­ess­es com­er­ci­ais col­idi­rem e não per­mi­tirão que isso afete as relações de lon­go pra­zo entre os poderes”.

Posts Similares