O que explica a letalidade do Covid-19 nos idosos?

Pesquisadores anun­cia­ram na últi­ma segun­da-feira as esti­ma­ti­vas mais abrangentes sobre o risco ele­va­do dos idosos a doenças graves e morte por causa do novo coro­n­avírus: o Covid-19 mata cer­ca de 13,4% dos pacientes com 80 anos ou mais, em com­para­ção com 1,25% daque­les com 50 e 0,3 anos % daque­les na faixa dos 40 anos.

A divisão mais acen­tu­a­da ocor­reu aos 70 anos. Emb­o­ra 4% dos pacientes na faixa dos 60 anos ten­ham mor­ri­do, mais do que o dobro, ou 8,6%, dos na faixa dos 70 anos, Neil Fer­gu­son, do Impe­r­i­al Col­lege Lon­don e seus cole­gas esti­ma­dos em seu arti­go.

As novas esti­ma­ti­vas surgem à medi­da que os cien­tis­tas ten­tam desco­brir as razões sub­ja­centes à maior suscetibil­i­dade das pes­soas mais vel­has ao vírus — e, em par­tic­u­lar, por que algu­mas têm uma respos­ta imune mais forte que out­ras.
Começa com condições pré-exis­tentes: dados da Chi­na mostram que essas comor­bidades aumen­tam dra­mati­ca­mente o risco de morte pelo Covid-19. Mas as doenças crôni­cas podem não ape­nas con­tribuir para as mortes por Covid-19, mas tam­bém uma mar­ca do envel­hec­i­men­to biológi­co e da imu­nidade em declínio.

“Não é ape­nas a idade cronológ­i­ca que deter­mi­na como se faz diante de uma infecção com risco de vida como a Covid-19″, aler­tou o geri­atra e geron­tol­o­gista George Kuchel, da Uni­ver­si­dade de Con­necti­cut. “Ter várias doenças crôni­cas e frag­ili­dade é, em muitos aspec­tos, tão impor­tante quan­to a idade cronológ­i­ca. Uma pes­soa de 80 anos que é saudáv­el e não é frágil pode ser mais resiliente no com­bate à infecção do que uma pes­soa de 60 anos com muitas condições crôni­cas. ”

Razão: ela pode ter um sis­tema imunológi­co mais jovem.


Os novos cál­cu­los, basea­d­os em 70.117 casos con­fir­ma­dos em lab­o­ratório e diag­nos­ti­ca­dos clini­ca­mente na Chi­na con­ti­nen­tal e 689 casos entre as pes­soas evac­uadas de Wuhan em vôos de repa­tri­ação, per­mi­ti­ram aos pesquisadores do Impe­r­i­al Col­lege esti­mar a taxa ger­al de mor­tal­i­dade pela doença. Nas primeiras sem­anas do sur­to, acred­i­ta­va-se que fos­se de 3% a 8%. Em vez dis­so, a taxa de mor­tal­i­dade entre pes­soas com doença con­fir­ma­da é de 1,38%, con­cluíram.

Isso apóia uma esti­ma­ti­va de pesquisadores da Har­vard T.H. Esco­la de Saúde Públi­ca Chan, no iní­cio deste mês, com taxa de mor­tal­i­dade de 1,4% nos casos con­fir­ma­dos.

O grupo britâni­co disse que a taxa de mor­tal­i­dade entre todos os infec­ta­dos com o novo coro­n­avírus — incluin­do aque­les que não apre­sen­tam sin­tomas — é de 0,66%. Em com­para­ção, é mais de 30 vezes maior que a taxa de mor­tal­i­dade pela influen­za H1N1, a causa de uma pan­demia de 2009, que foi de 0,02%.

A chance de um paciente do Covid-19 desen­volver sin­tomas graves o sufi­ciente para exi­gir hos­pi­tal­iza­ção, espe­cial­mente para suporte res­pi­ratório, tam­bém aumen­tou acen­tu­ada­mente com a idade, relataram Fer­gu­son e seus cole­gas. Nos pacientes com 80 anos ou mais, 18,4% o fiz­er­am. Enquan­to 12% das pes­soas na faixa dos 60 anos pre­cisavam de hos­pi­tal­iza­ção, 3,4% de 30 e poucos anos e 1,1% de 20 e poucos fiz­er­am. A difer­ença mais acen­tu­a­da ocor­reu no final da meia-idade: 4,3% das pes­soas de 40 a 49 anos com Coro­na Vírus neces­si­taram de hos­pi­tal­iza­ção, enquan­to 8,2% de 50 e poucos anos o fiz­er­am.


É em parte por isso que a situ­ação na Itália é tão desas­trosa, com muitos hos­pi­tais sobre­car­rega­dos por casos da Covid-19: a idade média do país (47) é a mais alta da Europa e 23% da pop­u­lação tem 65 anos ou mais. Na sem­ana pas­sa­da, médi­cos na Itália relataram no Jour­nal of the Amer­i­can Med­ical Asso­ci­a­tion que, em mea­d­os de março, 7,2% dos pacientes do Covid-19 havi­am mor­ri­do. Isso pode ser par­cial­mente expli­ca­do pelas altas taxas de infecção entre os idosos: 38% dos casos de Covid-19 da Itália ocor­rem em pes­soas com 70 anos ou mais, em com­para­ção com 12% na Chi­na.

A expli­cação para o risco geral­mente aumen­ta­do para os idosos, mas tam­bém para o fato do Coro­na Vírus matar muitos jovens, mes­mo quan­do alguns idosos sobre­vivem, está em uma cres­cente com­preen­são da “imunose­nescên­cia”. Os imu­nol­o­gis­tas iden­ti­ficaram algu­mas das maneiras especí­fi­cas pelas quais o sis­tema imunológi­co muda com a idade, per­mitin­do que eles ultra­passem a sim­ples afir­mação de que ele enfraque­ce.

“As pes­soas mais vel­has não são tão boas em rea­gir a microor­gan­is­mos que nun­ca havi­am encon­tra­do antes”, disse o médi­co e imuno­bi­ol­o­gista Janko Nikolich-Zugich, da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade do Ari­zona. Ele chama isso de “o crepús­cu­lo da imu­nidade”.

Nos­so sis­tema imunológi­co pos­sui dois con­jun­tos de defe­sas con­tra vírus e out­ros patógenos: um exérci­to de célu­las de primeira lin­ha, chama­do leucóc­i­tos, que ata­cam micróbios inva­sores em questão de min­u­tos a horas, e uma força de segun­da lin­ha de anti­cor­pos e célu­las T pre­cisa­mente dire­ciona­dos que surgem para a frente de batal­ha até vários dias depois.

Com o avanço da idade, o cor­po tem menos célu­las T, que pro­duzem pro­du­tos quími­cos para com­bat­er vírus. Na puber­dade, o timo pro­duz dez vezes menos célu­las T do que na infân­cia, disse Nikolich-Zugich; aos 40 ou 50 anos, há out­ra que­da de dez vezes.

“Temos ape­nas menos sol­da­dos lidan­do com ata­cantes que nun­ca exper­i­men­ta­mos antes, como o novo coro­n­avírus”, disse Nikolich-Zugich. (O cor­po retém as “célu­las T da memória” que apren­der­am a com­bat­er os agres­sores na juven­tude, razão pela qual a imu­niza­ção con­tra a varío­la e muitas out­ras doenças virais dura décadas.)

Out­ra mudança rela­ciona­da à idade man­tém as célu­las T longe da batal­ha. Mes­mo antes que as célu­las T entrem na briga, out­ras célu­las recon­hecem inva­sores e envi­am célu­las assas­si­nas nat­u­rais e out­ros sol­da­dos para destru­ir o maior número pos­sív­el nas primeiras horas após a infecção. Então essas mes­mas célu­las da lin­ha de frente lit­eral­mente mostram o vírus para as célu­las T, dizen­do em essên­cia, este é o inimi­go; pro­duzem com­pos­tos que elim­i­nam vírus.

“Mas essa comu­ni­cação não fun­ciona tão bem quan­to envel­he­ce­mos”, disse Nikolich-Zugich. As célu­las do instru­tor se tor­nam escas­sas e começam a faz­er o equiv­a­lente biológi­co de resmun­gos. As célu­las T, por­tan­to, respon­dem muito tarde e pouco efe­ti­vas.

Os anti­cor­pos são pro­duzi­dos pelas célu­las B e seu declínio é menos pre­cip­i­ta­do do que a que­da nas célu­las T. Mas célu­las B anti­gas, como fábri­c­as anti­gas, não podem pro­duzir tan­to de seus pro­du­tos — anti­cor­pos — quan­to quan­do eram novos. Especi­fi­ca­mente, eles têm níveis mais baixos da molécu­la que reor­ga­ni­za seu geno­ma, de modo a pro­duzir anti­cor­pos nun­ca antes vis­tos con­tra um vírus nun­ca antes vis­to.

Como se a vel­hice não fos­se sufi­cien­te­mente cru­el, ela traz mais uma alter­ação ao sis­tema imunológi­co: diminui a rapi­dez com que as célu­las assas­si­nas nat­u­rais e out­ros socor­ris­tas pas­sam a defe­sa para as célu­las T ati­vadas e as célu­las B. “Essa respos­ta ini­cial per­manece em exces­so”, disse Nikolich-Zugich. O núcleo dessa respos­ta é uma fusila­da de molécu­las infla­matórias chamadas citoci­nas.

Essa fusila­da ata­ca os pul­mões e causa a sín­drome do descon­for­to res­pi­ratório agu­do (SDRA), uma causa comum de mortes por Covid-19.

A bar­ragem de citoci­nas varia um pouco de acor­do com o sexo. Em um estu­do pub­li­ca­do no mês pas­sa­do, Kuchel e cole­gas mostraram que home­ns mais vel­hos tin­ham, em média, mais célu­las pro­du­toras de citoci­nas do que mul­heres mais vel­has, que tin­ham mais e mel­hores célu­las B e célu­las T.

Isso pode explicar as difer­enças de sexo na epi­demia de Coro­na Vírus, com home­ns idosos em ger­al se sain­do pior do que mul­heres idosas. As célu­las B e T dis­tor­ci­das deix­am o cor­po com menos defe­sas anti-coro­n­avírus.

A imunose­nescên­cia gera más notí­cias se o novo coro­n­avírus con­tin­uar a cir­cu­lar, mes­mo em taxas sub-pandêmi­cas, porque sug­ere que os idosos que sobre­viver­am ao Covid-19 podem não ter imu­nidade robus­ta caso sejam expos­tos ao vírus nova­mente.

Com a gripe, as pes­soas mais jovens têm uma “memória imunológ­i­ca” mais forte que as pes­soas mais vel­has — suas célu­las T e célu­las B estão prontas para atacar se um vírus da gripe que eles con­traíram décadas atrás retornar. Se a memória imunológ­i­ca do coro­n­avírus se assemel­ha à da gripe, disse Kuchel, “os jovens estarão muito mais pro­te­gi­dos quan­do voltarem”.

Por Sharon Beg­ley .

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