O papel das empresas na manutenção do nosso planeta

O papel das empresas na manutenção do nosso planeta

Esta sem­ana trouxe algu­mas notí­cias desan­i­mado­ras sobre o futuro de nos­so plan­e­ta e das espé­cies que nele vivem. O Painel Inter­gov­er­na­men­tal de Mudanças Climáti­cas (IPCC em inglês) pub­li­cou um novo e impor­tante relatório sobre o quão ter­ríveis as con­se­quên­cias das mudanças climáti­cas estão se tor­nan­do e quão rap­i­da­mente deve­mos avançar para evi­tar o pior.

O relatório remon­ta ao ano de 2009, quan­do a Con­fer­ên­cia das Nações Unidas sobre Mudanças Climáti­cas resul­tou em um acor­do, segun­do o qual o mun­do dev­e­ria man­ter o aque­c­i­men­to glob­al em no máx­i­mo 2°C (3,8°F), nív­el con­sid­er­a­do politi­ca­mente viáv­el, mas ain­da suscetív­el a vas­tos danos, incluin­do a morte de todos os corais, tem­pes­tades e calor ain­da mais letais, ele­vação dos oceanos cobrindo país­es insu­lares vul­neráveis e grandes zonas costeiras. Quan­do ocor­reu a Con­fer­ên­cia sobre Mudanças Climáti­cas de 2015 em Paris, resul­tan­do em um acor­do glob­al mais sóli­do, ago­ra apoia­do por todos os país­es do mun­do com exceção dos Esta­dos Unidos, ficou claro que pre­cisá­va­mos ter um obje­ti­vo mais ambi­cioso, 1,5°C (2,7°F). A ONU então solic­i­tou que o IPCC anal­isas­se o que era necessário para atin­gir esse obje­ti­vo.

Esta sem­ana o relatório foi divul­ga­do, e não é nada ani­mador. Os cien­tis­tas pub­licaram um doc­u­men­to muito útil com per­gun­tas e respostas, mas resum­i­da­mente, os prin­ci­pais pon­tos são:

  • O mun­do já sofreu ele­vação de 1,0°C (1,8°F) em sua tem­per­atu­ra des­de os tem­pos pré-indus­tri­ais; assim, man­ter a ele­vação em 1,5°C (2.7°F) ain­da é tec­ni­ca­mente pos­sív­el. Man­ter a ele­vação da tem­per­atu­ra da ter­ra em 1,5 graus ain­da resul­tará em dev­as­tação (por exem­p­lo, a morte de 70 a 90% do coral), mas ain­da é mel­hor para nós do que uma ele­vação de 2 graus (tan­to em ter­mos de bem-estar ger­al quan­to de impactos econômi­cos).
  • Chegar a 1,5 graus exi­girá “mudanças ráp­i­das e abrangentes em sis­temas em ener­gia, ter­ra, cidades, infraestru­tu­ra (incluin­do trans­portes e edifí­cios) e indús­trias”, e essas tran­sições pre­cis­arão ser “sem prece­dentes em ter­mos de escala… e resul­tarão em enormes reduções de emis­sões em todos os setores”.

 

O relatório diz que até 2030 pre­cis­are­mos cor­tar as emis­sões de CO2 em 45% dos níveis de 2010 e zer­ar as emis­sões até 2050.

Não podemos esque­cer que essas alter­ações devem ocor­rer ao mes­mo tem­po em que a quan­ti­dade de pes­soas no mun­do aumen­ta em alguns bil­hões, com um bil­hão ou mais delas entran­do para a classe média. Pre­cis­are­mos pro­duzir muito mais para ali­men­tar, dar mora­dia, vestir e entreter a todos, mas com emis­sões dras­ti­ca­mente menores.

Então, o que as empre­sas dev­e­ri­am enten­der com esse últi­mo avi­so? O que pode­ri­am faz­er?

Antes de mais nada, as empre­sas dev­e­ri­am acel­er­ar os atu­ais esforços para elim­i­nar a emis­são de car­bono de seus negó­cios. A lista de ações ado­tadas pelas empre­sas é bem desen­volvi­da e doc­u­men­ta­da, e a maio­r­ia das grandes empre­sas faz o seguinte:

  • Cor­ta o uso e emis­sões de ener­gia em suas oper­ações. Isso inclui inves­ti­men­tos em ilu­mi­nação e sis­temas de clima­ti­za­ção mais efi­cientes, uti­liza­ção de novos soft­wares e de inteligên­cia arti­fi­cial para edifí­cios e oper­ações mais efi­cazes; mel­ho­ra de sua fro­ta logís­ti­ca e adoção de veícu­los mais “ecológi­cos” e redução do empa­co­ta­men­to e peso de seus pro­du­tos.
  • Envolve empre­ga­dos, por meio de pre­mi­ações e incen­tivos, para ino­var, encon­trar maneiras opera­cionais de con­tenção de despe­sas e desen­volver pro­du­tos que tam­bém reduzam as emis­sões de empre­sas dos clientes. Ado­ta ener­gias ren­ováveis. Mais de 150 grandes mar­cas já se com­pro­m­e­ter­am a uti­lizar 100% de ener­gia ren­ováv­el em sua rede elétri­ca. Define obje­tivos de redução de emis­são de car­bono com bases cien­tí­fi­cas para suas oper­ações. Aprox­i­mada­mente 500 empre­sas se com­pro­m­e­ter­am a definir metas de redução de acor­do com dados cien­tí­fi­cos.
  • Tra­bal­ha com fornece­dores em reduções sistêmi­cas por toda a cadeia de val­or e tam­bém define grandes obje­tivos para eles.
  • Define preços inter­nos do car­bono para incen­ti­var as reduções, de prefer­ên­cia com a cobrança de taxas para angari­ar fun­dos ou a uti­liza­ção de preços “fic­tí­cios” para influ­en­ciar a toma­da de decisões de inves­ti­men­tos.

 

Essas ações estão se tor­nan­do a nor­ma porque rep­re­sen­tam bons negó­cios. Mas o que esse novo relatório está nos con­tan­do alto e bom som é que isso não bas­ta. Com raras exceções, a maio­r­ia das empre­sas está fazen­do ape­nas o que gera retorno no modo tradi­cional de avaliar o retorno de um inves­ti­men­to — por exem­p­lo, quan­do a ener­gia solar e eóli­ca se tornarem sufi­cien­te­mente baratas, elas a uti­lizarão. Entre­tan­to, aderir de fato às últi­mas novi­dades cien­tí­fi­cas requer uma acel­er­ação do rit­mo de redução de emis­sões de car­bono.

Por­tan­to, deix­em-me sug­erir qua­tro medi­das um pouco descon­fortáveis que as empre­sas dev­e­ri­am pôr em práti­ca a fim de real­mente mudar o sta­tus quo e acel­er­ar a ação climáti­ca.

Faz­er lob­by em todos os níveis gov­er­na­men­tais para a imple­men­tação de políti­cas pró-cli­ma mais agres­si­vas. Hoje, muitas empre­sas usam sua sig­ni­fica­ti­va influên­cia como lobis­tas seja (própria ou em con­jun­to com gru­pos de nego­ci­ação) para lutar con­tra reg­u­la­men­tações e neu­tralizar o gov­er­no. Mas isso deve mudar per­ante essa crise. A pri­or­i­dade — que o IPCC deixa clara —, con­siste em definir um preço para as emis­sões de car­bono. As empre­sas devem faz­er lob­by para a imposição de um aumen­to de preços de car­bono no mun­do todo.

Para­le­la­mente, a for­ma pela qual as empre­sas abor­dam toda a reg­u­la­men­tação deve mudar. Con­sidere o exem­p­lo da indús­tria auto­mo­ti­va norte-amer­i­cana. Assim que as eleições de 2016 ter­mi­naram, um grupo da indús­tria auto­mo­bilís­ti­ca pediu à nova admin­is­tração que desse mais espaço para manobra em padrões agres­sivos de efi­ciên­cia de com­bustív­el esta­b­ele­ci­dos pela admin­is­tração Oba­ma. A admin­is­tração vigente à época deu bem mais do que a indús­tria auto­mo­bilís­ti­ca havia solic­i­ta­do e con­gelou os níveis de efi­ciên­cia de com­bustív­el. Isso colo­ca as empre­sas em uma estran­ha posição na qual querem faz­er mel­ho­rias, mas não tem pressão reg­u­latória que mova o setor para cima.

Mas imag­ine que as empre­sas auto­mo­ti­vas abor­dem a questão não sob a óti­ca de “como podemos estru­tu­rar a reg­u­la­men­tação para que ela nos ajude”, mas sob a óti­ca do recon­hec­i­men­to de uma crise climáti­ca glob­al urgente. Elas pode­ri­am diz­er ao gov­er­no, “pre­cisamos de uma fro­ta muito mais efi­ciente para aju­dar o mun­do a con­ter o aque­c­i­men­to glob­al em até 1,5 graus. Mas temos prob­le­mas na ven­da do mix de pro­du­tos que nos aju­darão a alcançar essa meta (as pes­soas estão com­pran­do um número exces­si­vo de car­ros enormes). Que políti­cas podemos imple­men­tar para que car­ros menores ou elétri­cos sejam mais atra­tivos para os con­sum­i­dores? O gov­er­no pode aju­dar a con­stru­ir a infraestru­tu­ra necessária para o reabastec­i­men­to dess­es veícu­los? Pode con­ced­er bene­fí­cios fis­cais agres­sivos para car­ros elétri­cos e bons incen­tivos para a nego­ci­ação de car­ros vel­hos? Podemos inve­stir em pesquisa e desen­volvi­men­to nos setores público/privado para reduzir com rapi­dez ain­da maior o preço de bate­rias? O gov­er­no pode se com­pro­m­e­ter a com­prar ape­nas car­ros elétri­cos para toda a sua fro­ta? Ou, sendo até mais rad­i­cal, como podemos tra­bal­har jun­tos para aumen­tar con­sid­er­av­el­mente a disponi­bil­i­dade de mobil­i­dade públi­ca e trans­porte?”

Mas mes­mo que as empre­sas se apre­sen­tem à mesa com uma abor­dagem com foco nas alter­ações climáti­cas para seus obje­tivos, com uma visão de fora para den­tro, a con­ver­sa neces­si­ta de dois inter­locu­tores. Assim, para ir mais além, as empre­sas pre­cisam tam­bém con­sid­er­ar quem apoiam em ter­mos políti­cos. Os can­didatos que não lutam em prol de ações climáti­cas não são ali­a­dos, não impor­ta que out­ros temas apoiem.

 

Apoiar pub­li­ca­mente a ver­dade, a ciên­cia e os cien­tis­tas. Na era de queixas sobre “fake news” e ataques à ciên­cia, as empre­sas devem aju­dar a apoiar um pilar fun­da­men­tal em uma democ­ra­cia e econo­mia em fun­ciona­men­to. Muitas empre­sas deix­am muito claro que racis­mo ou sex­is­mo não são com­por­ta­men­tos aceitáveis — por que não enviar uma men­sagem semel­hante a seus empre­ga­dos e fornece­dores sobre com­por­ta­men­tos anti­cien­tí­fi­cos? Eles podem até mes­mo apoiar ini­cia­ti­vas como Let Sci­ence Speak e denun­cias o gov­er­no ou qual­quer insti­tu­ição que reduza o papel da ciên­cia na políti­ca e na toma­da de decisões.

Uti­lizar todas as platafor­mas disponíveis para enga­jar os con­sum­i­dores. Den­tro das empre­sas, o nív­el de con­ver­sas sobre sus­tentabil­i­dade e mudanças climáti­cas está aumen­tan­do. Mas quan­tas das grandes mar­cas uti­lizam seus com­er­ci­ais, mídias soci­ais ou embal­a­gens para falar dire­ta­mente com con­sum­i­dores sobre as alter­ações climáti­cas? Não muitas, com exceção de pou­cas men­sagens quan­do se aprox­i­ma o Dia da Ter­ra. É hora de que­brar alguns tabus sobre como as empre­sas dom­i­nantes podem abor­dar o tema. Elas podem mostrar e devem incen­ti­var seus con­sum­i­dores a faz­er escol­has mel­hores no dia a dia que reduzam sua pega­da de car­bono.

Repen­sar as decisões de inves­ti­men­to e encará-las com forte viés para redução de emis­são de car­bono. Isso pode sig­nificar várias coisas depen­den­do do negó­cio em questão, mas temos que nos lib­er­tar dos indi­cadores arbi­trários de dois anos e taxas de retorno de cap­i­tal que par­al­isam as ações mais agres­si­vas. Ener­gias solar e eóli­ca estão se tor­nan­do inves­ti­men­tos fáceis, mas são sem­pre tec­nolo­gias que ain­da não estão “den­tro do preço”, como estoque de ener­gia no local. E se as empre­sas e gov­er­nos aposen­tassem alguns monopólios antes que seu ciclo de vida estivesse ter­mi­na­do?

No fim, empre­sas e gov­er­nos tem uma escol­ha bási­ca: 1) decidir rap­i­da­mente sobre inves­ti­men­tos em grande escala fazen­do enormes tran­sições por todos os setores da econo­mia, investin­do tril­hões para reduzir os cus­tos energéti­cos, mel­ho­rar a saúde e evi­tar muitos out­ros riscos. Ou 2) igno­rar ess­es avi­sos, e descar­bonizar a econo­mia no rit­mo per­mi­ti­do pelos indi­cadores de retorno sem aposen­tar qual­quer ati­vo pre­co­ce­mente e repor tec­nolo­gias no rit­mo em que elas seri­am repostas nat­u­ral­mente, em condições nor­mais de mer­ca­do.

O segun­do cam­in­ho é o que esta­mos tril­han­do ago­ra, e parece mais tran­qui­lo e basea­do no mer­ca­do. Mas, tem uma enorme desvan­tagem: exi­girá um gas­to futuro inde­ter­mi­na­do e, em breve, níveis mais altos de adap­tação, de realo­cação de pes­soas que hoje vivem em áreas costeiras, de diminuição da saúde e de geren­ci­a­men­to de impactos climáti­cos extremos em nos­sas comu­nidades e cadeias de supri­men­tos. O segun­do cam­in­ho tam­bém nos leva além da mar­ca de 2,0°C, o que rep­re­sen­ta a grande pos­si­bil­i­dade de que o mun­do se torne inabitáv­el para os seres humanos.

Nada dis­so é fácil, mas o relatório do IPCC nos mostra que ago­ra esta­mos real­mente sem tem­po. Não esta­mos falan­do sobre mod­e­los teóri­cos em um com­puta­dor, mas sim, de ver­sões maiores de hor­rores climáti­cos que já pres­en­ci­amos em todo o mun­do. As empre­sas podem tomar a dianteira neste caso, pois têm as fer­ra­men­tas, os recur­sos e a respon­s­abil­i­dade de aju­dar a faz­er essa tran­sição rap­i­da­mente. A mel­ho­ra econômi­ca de lon­go pra­zo e de bem–estar humano mais do que jus­ti­fi­ca todo o esforço.


Por Andrew Win­ston — autor de The Big Piv­ot. 

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