Como reinventar o atendimento ao cliente

atendimento ao cliente

Vis­ite qual­quer grande empre­sa, e poucos depar­ta­men­tos serão tão facil­mente recon­hecíveis como o atendi­men­to ao cliente. Os call cen­ters geral­mente se assemel­ham a um ambi­ente de chão de fábri­ca: fileiras de aten­dentes com fones de ouvi­do que dec­o­ram scripts e pas­sam rap­i­da­mente de uma lig­ação a out­ra ten­tan­do min­i­mizar o tem­po de atendi­men­to. Os super­vi­sores andam de um lado para out­ro acom­pan­han­do o aumen­to cres­cente de lig­ações e de vez em quan­do chamam um agente até a sala dos fun­dos para avaliar seu desem­pen­ho.
Emb­o­ra algu­mas orga­ni­za­ções ten­ham investi­do em mel­ho­rar a tur­ma de aten­dentes, a mudança é lenta até chegar à práti­ca do atendi­men­to ao cliente.

Não é à toa que as taxas de rota­tivi­dade de fun­cionários que tra­bal­ham no serviço de telea­t­endi­men­to estão entre as mais altas do mun­do empre­sar­i­al — 27% anu­ais em média. As razões das dis­pen­sas citadas pelos fun­cionários incluem, na maio­r­ia das vezes, fal­ta de ativi­dade desafi­ado­ra, recon­hec­i­men­to inad­e­qua­do, tra­jetória de car­reira lim­i­ta­da e prati­ca­mente nen­hu­ma flex­i­bil­i­dade. Para os clientes, a exper­iên­cia rara­mente é mel­hor. Eles são obri­ga­dos a nave­g­ar por labir­in­tos de chama­da com­puta­dorizadas, e quan­do con­seguem falar com uma pes­soa real, geral­mente são trata­dos de for­ma robóti­ca e trans­feri­dos de um aten­dente ou depar­ta­men­to para out­ro se seu prob­le­ma estiv­er fora do repertório lim­i­ta­do dess­es fun­cionários.

Ago­ra entre num cen­tro de con­ta­to T‑Mobile. O depar­ta­men­to de atendi­men­to parece mais com o ambi­ente de tra­bal­ho de profis­sion­ais do con­hec­i­men­to que você esper­aria ver em out­ras partes da empre­sa. Os agentes de atendi­men­to sen­tam-se jun­tos em espaços com­par­til­ha­dos chama­dos módu­los, colab­o­ram aber­ta­mente e são treina­dos e enco­ra­ja­dos a resolver os prob­le­mas do cliente como bem enten­dem. O mais impres­sio­n­ante é que essas equipes admin­is­tram um grupo especí­fi­co de con­tas de clientes, exata­mente como se fos­se um pequeno negó­cio. Desvin­cu­la­dos de qual­quer métri­ca her­da­da, como o tem­po de atendi­men­to, eles deci­dem qual a mel­hor for­ma de resolver cada prob­le­ma do cliente e, no final, a mel­hor for­ma de apri­morar a retenção, com­par­til­hamen­to de carteira e a fidel­i­dade do cliente. Os clientes sabem como con­tatar sua equipe ded­i­ca­da e nun­ca pre­cisam pas­sar por uma árvore eletrôni­ca até chegar a essa equipe. Uma vez conec­ta­dos, eles encon­tram agentes que, de fato, os con­hecem e podem ofer­e­cer aju­da con­fiáv­el.

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O mod­e­lo da T‑Mobile retor­na enormes div­i­den­dos para a empre­sa: nos três anos des­de o lança­men­to, o cus­to ger­al do serviço para a T‑Mobile ficou abaixo de 13%, sua posição no Net Pro­mot­er Score (uma medi­da da fidel­i­dade do cliente) aumen­tou em mais de 50% e a taxa de per­da de cliente chegou ao nív­el mais baixo de todos os tem­pos. Os fun­cionários tam­bém estão felizes. Os níveis de per­das gerais e a taxa de abstenção caíram ver­tig­i­nosa­mente.

A necessidade de mudança

Na últi­ma déca­da, a equipe de lid­er­ança da T‑Mobile recon­heceu que, emb­o­ra os inves­ti­men­tos da empre­sa em autoa­tendi­men­to tivessem sido bas­tante com­pen­sadores, ela tam­bém criou um desafio. As chamadas transa­cionais bási­cas que antes domi­navam a fila de espera — solic­i­tações de sal­do, mudança de endereço, ati­vação de novos serviços e assim por diante — foram desa­pare­cen­do à medi­da que os clientes ado­taram as opções de autoa­tendi­men­to para resolver essas transações. Ago­ra a fila con­cen­tra prob­le­mas mais com­plex­os e vari­a­dos que os clientes não con­seguem resolver soz­in­hos — essa foi uma mudança que pas­sou a impor uma ver­dadeira pressão aos agentes da empre­sa. Em respos­ta, a equipe de lid­er­ança foi até a prancheta de pro­je­tos e, em 2015, arregaçou as man­gas e pas­sou a rein­ven­tar do zero a orga­ni­za­ção do serviço.

O esforço foi lid­er­a­do por Cal­lie Field, vice-pres­i­dente exec­u­ti­va de assistên­cia ao cliente. Ela e os cole­gas que­ri­am mel­ho­rar a capaci­dade dos aten­dentes de lidar com prob­le­mas espin­hosos e, no proces­so, difer­en­ciar ain­da mais a empre­sa num mer­ca­do muito con­cor­ri­do. Field, que ingres­sou na T‑Mobile em 2004 como vende­do­ra em quiosque de shop­ping e rap­i­da­mente ascen­deu na hier­ar­quia, enfren­tou uma tare­fa extrema­mente desafi­ado­ra. “Mas”, ela expli­ca, “min­ha equipe e eu tín­hamos uma boa ideia — basea­da somente em nos­sa própria exper­iên­cia como clientes e fun­cionários — do tipo de serviço que faz você se sen­tir bem em relação à empre­sa. Sabíamos que tín­hamos de cri­ar aqui­lo. E focamos em iden­ti­ficar e elim­i­nar o que deix­a­va os clientes irri­ta­dos. No final, nos­so obje­ti­vo era um só: a feli­ci­dade do cliente. Desco­b­ri­mos que clientes felizes per­mane­ci­am mais tem­po conosco, gas­tavam mais e nos recomen­davam a out­ros.”

À medi­da que a equipe de Field elab­o­ra­va o novo mod­e­lo, os mem­bros iden­ti­ficaram qua­tro pon­tos que dev­e­ri­am per­gun­tar ao avaliar a trans­for­mação ao lon­go do tem­po: (1) Nos­sos clientes estão felizes? (2) Per­manecem conosco por mais tem­po? (3) Esta­mos apro­fun­dan­do nos­so rela­cio-namen­to com eles? (4) Ofer­e­ce­mos a eles uma exper­iên­cia de atendi­men­to com pouco esforço? Como o suces­so do mod­e­lo esta­va vin­cu­la­do à capaci­dade da T‑Mobile de en-
volver e mobi­lizar seus fun­cionários da lin­ha de frente, as mes­mas per­gun­tas pode­ri­am ser usadas para medir a exper­iên­cia deles.

Con­sideran­do seus obje­tivos, pare­cia lógi­co para a equipe de Field que uma ver­são do mod­e­lo de gestão de con­tas comum em empre­sas B2B — no qual cada equipe ded­i­ca­da de ven­das e atendi­men­to admin­is­tra um grupo de clientes — pode­ria fun­cionar bem no atendi­men­to a clientes B2C. A questão era como intro­duzir esse mod­e­lo para atin­gir uma escala com mil­hares de agentes de atendi­men­to em dezenas de locais aten­den­do 40 mil­hões de clientes inin­ter­rup­ta­mente. Na época, pare­cia que um sis­tema como esse tin­ha sido uti­liza­do somente em negó­cios B2B cujos vol­umes de chama­da eram baixos, e os prob­le­mas, resolvi­dos em horas ou dias. Rara­mente, ou nun­ca, esse sis­tema tin­ha sido ten­ta­do num cen­tro de atendi­men­to de alto vol­ume B2C como da T‑Mobile, que recebe mil­hões de chamadas todos os meses e se empen­ha em resolver os prob­le­mas em min­u­tos ou até segun­dos.

Para enfrentar esse desafio, a T‑Mobile vis­lum­brou o mod­e­lo Equipe de Espe­cial­is­tas, ou TEX (na sigla em inglês). O mod­e­lo envolve gru­pos mul­ti­dis­ci­pli­nares de 47 pes­soas que aten­dem a deter­mi­na­do con­jun­to de con­tas de clientes num mer­ca­do especí­fi­co. As equipes tra­bal­ham cada uma em um úni­co lugar, mas podem estar a cen­te­nas de quilômet­ros de dis­tân­cia de seus clientes. Uma equipe em Chat­tanooga, por exem­p­lo, é respon­sáv­el por 120 mil clientes em Detroit, e uma equipe em Charleston atende a um número sim­i­lar na Filadél­fia.

Além dos próprios agentes de atendi­men­to, cada equipe tem um líder, qua­tro coach­es ded­i­ca­dos, oito espe­cial­is­tas em tec­nolo­gia que resolvem os prob­le­mas mais com­plex­os de hard­ware e soft­ware, um espe­cial­ista em res­olução de prob­le­mas do cliente (que iden­ti­fi­ca tendên­cias e aju­da a desen­volver soluções para prob­le­mas per­sis­tentes) e um gestor de recur­sos, respon­sáv­el pelo crono­gra­ma e gestão da força de tra­bal­ho (ver quadro “Uma equipe de espe­cial­is­tas”).

Se o vol­ume de chamadas for excep­cional­mente inten­so, se uma equipe estiv­er des­fal­ca­da, ou se os cen­tros da T‑Mobile estiverem fecha­dos, o apoio necessário virá de equipes ded­i­cadas ter­ce­i­rizadas que seguem da o mod­e­lo TEX (ou estão no proces­so de adotá-lo. A T‑Mobile aguar­da adoção com­ple­ta até o iní­cio de 2019). Todas as equipes tra­bal­ham no horário com­er­cial alin­hadas com os fusos horários das comu­nidades que aten­dem, e os clientes podem ter aces­so a um agente de con­tas dire­ta­mente por meio de vários canais — aplica­tivos de men­sagem da T‑Mobile, por­tal do cliente no web­site da T‑Mobile e por tele­fone. E, emb­o­ra os clientes pos­sam não se conec­tar com o mes­mo agente toda vez, eles sem­pre serão aten­di­dos por alguém de sua equipe ded­i­ca­da.

Além dis­so, é quase cer­to que essa pes­soa resolverá o prob­le­ma. O aten­dente é um gen­er­al­ista apto a resolver qual­quer assun­to, des­de cobranças, ven­das e ati­vação de lin­ha até dúvi­das padrão de suporte téc­ni­co. As trans­fer­ên­cias para out­ros agentes são raras: o cliente será deix­a­do em espera ape­nas quan­do for pre­ciso que um vende­dor exter­no resol­va um prob­le­ma rela­ciona­do a algum pro­du­to ou, oca­sion­al­mente, quan­do a situ­ação for excep­cional­mente com­plexa e requer­er a aju­da de um espe­cial­ista téc­ni­co da equipe. Mes­mo assim, o aten­dente deve per­manecer em lin­ha para apren­der a resolver assun­tos sim­i­lares no futuro.

Para garan­tir que os mem­bros da equipe tra­bal­hem jun­tos har­moni­ca­mente, a T‑Mobile intro­duz­iu no mod­e­lo a colab­o­ração. As equipes cos­tu­mam realizar reuniões três vezes por sem­ana para par­til­har as mel­hores práti­cas, lições apren­di­das e ideias e, assim, tratar prob­le­mas recor­rentes dos clientes. Os mem­bros colab­o­ram tam­bém em tem­po real usan­do uma platafor­ma de men­sagens instan­tâneas. Isso per­mite que eles alertem os cole­gas sobre questões novas nas comu­nidades aten­di­das (por exem­p­lo, os fenô­menos mete­o­rológi­cos ou inter­rupção de serviços) e para solic­i­tar con­sel­hos durante o cur­so de uma con­ver­sa com cliente. Para enco­ra­jar ess­es inter­câm­bios, nos módu­los há uma mesa cen­tral e um quadro bran­co, que facili­tam as reuniões e sessões de coach­ing.

Equipe de trabalho e soluções criativas

Para enco­ra­jar a colab­o­ração e a ino­vação, o mod­e­lo TEX uti­liza um cartão de pon­tu­ação que avalia pro­por­cional­mente tan­to o desem­pen­ho indi­vid­ual como o da equipe (ver quadro “Pre­mie o desem­pen­ho da equipe”). Essa é uma difer­ença rad­i­cal dos sis­temas típi­cos de avali­ação dos agentes de atendi­men­to, sis­temas estes que medem somente o desem­pen­ho indi­vid­ual: ela enco­ra­ja os agentes a acu­mu­lar con­hec­i­men­to e olhar para fora de si mes­mos. Com a ênfase na efe­tivi­dade da equipe, os agentes têm mais incen­tivos para par­til­har suas mel­hores práti­cas em sua car­reira. Como expli­ca um espe­cial­ista de con­tas sênior da T‑Mobile, “no anti­go mod­e­lo, era nadar ou afun­dar por seu próprio risco. Ago­ra todos nós pas­samos cer­to tem­po aju­dan­do os mem­bros menos expe­ri­entes da equipe e os novos mem­bros que saem do treina­men­to para garan­tir que sejam bem-suce­di­dos. No fim do dia, nós vence­mos ou fra­cas­samos como equipe”.

Espera-se que as equipes TEX geren­ciem seu próprio lucro e demon­stra­tivos de resul­ta­dos. Field obser­va: “Os líderes de nos­sa equipe cos­tu­mavam anal­is­ar itens como tem­po de atendi­men­to e adesão ao crono­gra­ma. Ago­ra eles anal­isam seus lucros e per­das — estarão eles pro­te­gen­do e aumen­tan­do os negó­cios do cliente? Reduzin­do o número de chamadas e os cus­tos do atendi­men­to? Eles atu­am como pequenos CEOs que geren­ci­am seu próprio negó­cio”. Os líderes de equipes ago­ra par­tic­i­pam das avali­ações trimes­trais dos negó­cios com os gestores seniores, prati­ca­mente da mes­ma for­ma que um gestor ger­al de uma unidade de negó­cios avalia o desem­pen­ho finan­ceiro e opera­cional com o CEO. Como resul­ta­do, as con­ver­sas de coach­ing com agentes muitas vezes focam no impacto de decisões indi­vid­u­ais nos negó­cios e em como uma decisão para deter­mi­na­do cliente afe­tará a fidel­i­dade do cliente e o desem­pen­ho finan­ceiro da equipe. Esse coach­ing aprimo­ra um con­jun­to de habil­i­dades dos agentes. Um líder de equipe disse “não ten­ho dúvi­da de que qual­quer um dos mem­bros de min­ha equipe poderá sair aman­hã e abrir seu próprio negó­cio — e ser muito bem-suce­di­do”.

Com esse desem­pen­ho de primeira, as equipes de con­tas são enco­ra­jadas a apre­sen­tar soluções ino­vado­ras para questões per­sis­tentes no atendi­men­to. Uma equipe que atende em Salt Lake City, por exem­p­lo, notou ele­va­da evasão de clientes jovens. Um mer­gul­ho pro­fun­do nos dados rev­el­ou que a prin­ci­pal causa era a deserção de jovens mór­mons prestes a ini­ciar seu tra­bal­ho mis­sionário de dois anos, perío­do em que são proibidos de ter tele­fone. A equipe desco­briu que, emb­o­ra tais apar­el­hos não fos­sem per­mi­ti­dos, os mis­sionários podi­am usar tablets. Então, quan­do ess­es clientes lig­avam para desati­var o serviço, os aten­dentes lhes ofer­e­ci­am tablets durante a duração de sua mis­são — a solução aju­dou os clientes a man­ter ativos tan­to os números de tele­fone quan­to as con­tas até o retorno. A alter­na­ti­va bril­hante ger­ou um dos mais altos índices de lucra­tivi­dade para esse con­jun­to especí­fi­co de clientes — e prop­i­ciou aumen­to sig­ni­fica­ti­vo nos bônus dos mem­bros da equipe.

Como reinventar o atendimento ao cliente

Analoga­mente, quan­do a empre­sa apre­sen­tou seu plano T‑Mobile Mil­i­tar ONE, que ofer­e­cia aos mem­bros das forças armadas descon­to de 50% para lin­has famil­iares, os mem­bros TEX que aten­di­am comu­nidades com alta incidên­cia de mil­itares racioci­naram proa­t­i­va­mente para intro­duzir os efeitos do plano com descon­tos nos obje­tivos de seus negó­cios. A questão era como equi­li­brar os bene­fí­cios de econo­mias óbvias dos clientes com a poten­cial per­da de recei­ta que impacta­va as metas de seus negó­cios. A solução foi aju­dar os clientes a enten­der que a econo­mia pode­ria ser trans­feri­da para uma lin­ha tele­fôni­ca adi­cional que man­te­ria os mem­bros da família conec­ta­dos. Uma equipe con­seguiu migrar 30% de seus clientes mil­itares para esse novo plano e aumen­tou as ven­das médias de novas lin­has de qua­tro por agente por hora para sete — e ao mes­mo tem­po sua posição no Net Pro­mot­er Score aumen­tou cin­co pon­tos entre ess­es clientes.

Adaptação ao local

Inde­pen­den­te­mente da dis­tân­cia que as equipes TEX estão das comu­nidades que aten­dem, seus mem­bros estão per­feita­mente famil­iar­iza­dos com os locais onde vivem seus clientes. As equipes dec­o­ram os locais de tra­bal­ho de modo a refle­tir os mer­ca­dos que aten­dem. A equipe insta­l­a­da em Chat­tanooga que atende clientes em Detroit, por exem­p­lo, enfeitou seu local de tra­bal­ho com car­tazes e mem­o­ra­bil­ia da “Cidade do Motor”. E o módu­lo de Salem, no Ore­gon, que atende São Fran­cis­co, mon­tou uma ponte Gold­en Gate com peças de Lego. Um agente sênior obser­va que em Ida­ho, cujas equipes aten­dem San Diego, “esta­mos con­stan­te­mente falan­do sobre o que está acon­te­cen­do lá. Eu nun­ca estive em San Diego, mas acom­pan­ho as notí­cias locais, sei quais os mel­hores lugares para com­er tacos de peixe e qual é o bole­tim do surfe para os próx­i­mos dois dias”.


Essa conexão local aju­da os mem­bros da equipe TEX a anal­is­ar as situ­ações de acor­do com a comu­nidade. A equipe de San Diego, por exem­p­lo, rece­beu recen­te­mente uma enx­ur­ra­da de chamadas sobre um apagão gen­er­al­iza­do cau­sa­do por um incên­dio flo­re­stal local. “No pas­sa­do”, disse um aten­dente, “eu não teria a mín­i­ma ideia de que isso esta­va acon­te­cen­do — ou que esta­va acon­te­cen­do com mais de um cliente —, então eu teria dito sim­ples­mente sin­to muito pelo incon­ve­niente, vou enviar ago­ra mes­mo uma men­sagem para a engen­haria.” Mas no novo mod­e­lo o aten­dente dá uma respos­ta sob medi­da: “Sim, esta­mos cientes de que um incên­dio flo­re­stal fora da cidade está afe­tan­do seus serviços, e tra­bal­han­do para resolver o prob­le­ma. Já noti­fiquei os engen­heiros, e enquan­to esta­mos con­ver­san­do eles já estão ten­tan­do restau­rar os serviços. Estou sendo infor­ma­do de que o serviço dev­erá estar restau­ra­do e em fun­ciona­men­to den­tro de 24 horas”.

Um líder de uma equipe que atende clientes de Seat­tle rev­el­ou que o con­hec­i­men­to local e as conexões per­mi­ti­ram que esse grupo ofer­e­cesse o tipo de serviço que você esper­aria de uma loja famil­iar. “Se o cliente pede um novo dis­pos­i­ti­vo e quer retirá-lo na loja, pre­cisamos facil­i­tar isso ao máx­i­mo. Como eu con­heço todos os ger­entes de lojas em min­ha área, eu ligo para o ger­ente local e lhe peço que ten­ha o apar­el­ho pron­to para entre­ga. Causa uma boa impressão o ger­ente rece­ber o cliente assim que ele entra na loja e lhe diz­er: “Nick, da sua equipe de espe­cial­is­tas, me avi­sou que você viria. Aqui está seu novo tele­fone. Está tudo pron­to”.

A compensação

Os resul­ta­dos do novo mod­e­lo de negó­cio falam por si sós. No primeiro trimestre de 2018, a empre­sa reg­istrou o mais baixo cus­to de atendi­men­to de sua história (13% de redução des­de 2016). Livre de métri­c­as her­dadas, como tem­po de atendi­men­to, os aten­dentes ago­ra demor­am um pouco mais com cada cliente para ter certeza de que não só resolver­am seu prob­le­ma ime­di­a­to, mas tam­bém ante­ci­param e solu­cionaram pos­síveis questões futuras que resul­tari­am em novas lig­ações. O resul­ta­do: redução de 21% em chamadas por con­ta, que mais que com­pen­sa a duração maior das chamadas.

E como os clientes ago­ra estão receben­do mel­hores serviços, os aten­dentes já não pre­cisam pedir des­cul­pas por erros ante­ri­ores. Ess­es “pedi­dos de des­cul­pa” estão, em ger­al, 37% mais baixos. Os resul­ta­dos tam­bém podem ser vis­tos nos níveis recordes de retenção do cliente (taxa de evasão de clientes per­sis­ten­te­mente baixa no primeiro trimestre de 2018) e no aumen­to da fidel­i­dade do cliente (ver quadro “Clientes sat­is­feitos, staff feliz”). Refletindo a sat­is­fação do cliente, a T‑Mobile foi con­sid­er­a­da a prove­do­ra de rede sem fio número 1 em atendi­men­to ao cliente pela Nielsen nos últi­mos 24 meses e rece­beu — duas vezes seguidas — a maior pon­tu­ação já pre­mi­a­da pela JD Pow­er em seu rank­ing em qual­i­dade de atendi­men­to ao cliente de prove­dores em fio.

A empre­sa perce­beu os efeitos dos resul­ta­dos pos­i­tivos entre os próprios agentes: altos recordes de enga­ja­men­to e os mais baixos níveis anu­ais de rota­tivi­dade: 42% antes do pro­gra­ma para 22% atu­ais. O absen­tismo — nor­mal­mente um grave prob­le­ma para a maio­r­ia dos call cen­ters — tam­bém caiu ver­tig­i­nosa­mente: como as equipes TEX podem manip­u­lar seus próprios crono­gra­mas e realizar mudanças de acor­do com as neces­si­dades dos mem­bros, a fal­ta de assiduidade diminuiu 24%. Os qua­tro par­ceiros ter­ce­i­riza­dos que ado­taram o mod­e­lo TEX obser­varam diminuição ain­da maior na rota­tivi­dade de pes­soal de atendi­men­to: os níveis históri­cos em call cen­ters de par­ceiros eram de mais de 100% anual­mente. Hoje, a rota­tivi­dade média está em 14% — abaixo da rota­tivi­dade dos cen­tros de assistên­cia ao cliente inter­nos da T‑Mobile.

O início

A T‑Mobile real­i­zou essa trans­for­mação com o tal­en­to de que dis­pun­ha — não hou­ve refor­mu­lação gen­er­al­iza­da no per­fil de con­tratação, nem êxo­do em mas­sa do pes­soal da lin­ha de frente que não se saiu bem. Mas, ao con­trário, a empre­sa desco­briu que a maio­r­ia dos aten­dentes esta­va apta para a tare­fa e que­ria exe­cutá-la bem. O que eles pre­cisavam era lib­er­tar-se do anti­go mod­e­lo que os impe­dia de avançar, asso­ci­a­do ao treina­men­to para ser bem-suce­di­do no novo mun­do. Como Field obser­va, “se tudo o que você pede é reduzir o tem­po de atendi­men­to, eles podem faz­er isso.
Mas se você lhes dá autori­dade para ir além — pen­sar como o dono de um pequeno negó­cio foca­do na feli­ci­dade do cliente e na gestão estratég­i­ca de seu depar­ta­men­to de lucros e per­das —, eles tam­bém podem faz­er isso. E o farão real­mente bem se você lhes der as fer­ra­men­tas cer­tas e deixá-los à von­tade”
.

Não obstante, trans­for­mações gen­er­al­izadas do chão de fábri­ca até o ambi­ente do tra­bal­ho do con­hec­i­men­to exigem peque­nas mudanças. Uma lição que a T‑Mobile apren­deu logo no iní­cio é que a colo­cal­iza­ção é essen­cial. Field expli­ca: “Ini­cial­mente acred­i­ta­mos que podemos con­seguir, mon­tan­do equipes vir­tu­ais e ala­van­can­do as fer­ra­men­tas de colab­o­ração, mas ver­i­fi­camos que era mais fácil falar que faz­er. Não obtive­mos o nív­el de colab­o­ração de que pre­cisá­va­mos e as equipes não con­seguiram se con­sol­i­dar quan­do estavam espal­hadas por todo o país. Por isso, decidi­mos que elas pre­cisavam sen­tar e dis­cu­tir, o que sig­nifi­ca­va inve­stir num novo lay­out físi­co para nos­sos cen­tros de con­ta­to”.

Como reinventar o atendimento ao cliente

Emb­o­ra o cus­to de repro­je­tar as bases dos cen­tros de con­ta­to não fos­se extra­ordinário (Field disse “der­rubamos algu­mas pare­des dos cubícu­los e com­pramos para todos novos fones de ouvi­do para que pudessem per­am­bu­lar”), o inves­ti­men­to da empre­sa em tal­en­to foi sig­ni­fica­ti­vo. Além dis­so, para aumen­tar min­i­ma­mente a remu­ner­ação dos agentes em recon­hec­i­men­to às suas maiores respon­s­abil­i­dades, a T‑Mobile dupli­cou o treina­men­to para ajudá-los na tran­sição do foco lim­i­ta­do em lin­has espe­cial­izadas de negó­cio — como cobrança, lig­ações a cobrar e suporte téc­ni­co — para funções gen­er­al­is­tas. Para os novos con­trata­dos, o cus­to de mais treina­men­to (dez sem­anas em vez de oito) foi com­pen­sa­do pelas reduções no tem­po de arranque. A empre­sa tam­bém per­mi­tiu que os gestores ded­i­cas­sem mais tem­po a coach­ing, o que sig­nifi­ca­va aumen­tar a razão gestores/atendentes. No primeiro ano do novo mod­e­lo, a T‑Mobile pro­moveu mais de 2 mil fun­cionários para pos­tos de gerên­cia, com aumen­tos pro­por­cionais e treina­men­to em gestão. Emb­o­ra ess­es inves­ti­men­tos fos­sem onerosos, Field obser­va que as reduções de cus­to resul­tantes no atendi­men­to e as mel­ho­rias na retenção dos clientes e da parcela da carteira resul­taram num retorno sobre o inves­ti­men­to que ultra­pas­sou as pro­jeções ini­ci­ais.

No entan­to, ain­da que a maio­r­ia dos agentes de atendi­men­to tivesse abraça­do o treina­men­to e cora­josa­mente real­iza­do a tran­sição para o mod­e­lo basea­do em equipe, nem todos fiz­er­am a trav­es­sia. À medi­da que a estru­tu­ra de incen­tivos muda­va a ênfase no desem­pen­ho indi­vid­ual para rec­om­pen­sar o desem­pen­ho da equipe, alguns aten­dentes que eram bril­hantes indi­vid­ual­mente acabaram se frus­tran­do quan­do seus rank­ings despen­car­am como resul­ta­do do desem­pen­ho mais flexív­el da equipe. Alguns entraram em pâni­co por con­sid­er­ar injus­to o novo sis­tema, out­ros deixaram a empre­sa.

Um aler­ta final aos líderes da T‑Mobile: antes de decidi­rem per­cor­rer esse cam­in­ho, as empre­sas devem con­sid­er­ar sua agili­dade cul­tur­al. Um líder de equipe expli­ca: “Nós nun­ca acred­i­ta­mos em fornecer scripts para nos­so pes­soal e sem­pre fomos muito foca­dos em con­tratar pes­soas que real­mente que­ri­am realizar um óti­mo serviço. Por isso tín­hamos o bási­co, do pon­to de vista cul­tur­al e do tal­en­to, já implan­ta­do. Este provavel­mente não é o caso de out­ras empre­sas”. O líder recon­hece que, até para a T‑Mobile, demor­ou algum tem­po para os agentes de atendi­men­to se sen­tirem con­fortáveis com o nív­el de autori­dade a eles atribuí­do: “No iní­cio nós lhes dis­se­mos que tomassem as decisões por con­ta própria e agis­sem de acor­do com o que acred­i­tavam que fazia sen­ti­do para o cliente, mas ain­da havia uma porção de agentes de atendi­men­to que colo­cavam o cliente em espera e ain­da pedi­am per­mis­são ao super­vi­sor”.

A grande história

A T‑Mobile se con­soli­dou como uma empre­sa “não oper­ado­ra”— empre­sa que não tem medo de desafi­ar as práti­cas da indús­tria padrão que con­sid­era fal­has e injus­tas para os clientes. Ela foi a primeira a deixar de amar­rá-los a con­tratos de serviço de dois anos e a primeira a deixar de cobrar taxas exor­bi­tantes quan­do os lim­ites de dados eram exce­di­dos. Como obser­vou o CEO John Leg­ere em depoi­men­to per­ante o Con­gres­so em jun­ho de 2018, “nós nos pro­puse­mos con­ser­tar uma indús­tria estúp­i­da, que­bra­da e arro­gante”. O mod­e­lo TEX de assistên­cia ao cliente está em con­sonân­cia com essa mis­são.

Mas a trans­for­mação de serviços da T‑Mobile faz parte de uma história maior e recor­rente de rein­venção em nos­sas funções cor­po­ra­ti­vas — em várias empre­sas — durante as últi­mas décadas. Os líderes de RH, por exem­p­lo, cer­ta vez enfrentaram uma ameaça exis­ten­cial da automação de proces­sos transa­cionais, como fol­ha de paga­men­to e bene­fí­cios. Exec­u­tivos de RH pro­gres­sis­tas trans­for­maram a si próprios e a seus depar­ta­men­tos em par­ceiros estratégi­cos do con­sel­ho e do CEO, trans­ferindo o tra­bal­ho transa­cional para os sis­temas de gestão de recur­sos humanos e ter­ce­i­rizan­do proces­sos buro­cráti­cos, e ao mes­mo tem­po desen­vol­ven­do novas capaci­dades, como plane­ja­men­to estratégi­co da força de tra­bal­ho, desen­volvi­men­to de lid­er­ança, enga­ja­men­to de fun­cionários e gestão de sucessão.

As orga­ni­za­ções de atendi­men­to ao cliente que enfa­ti­zam o tra­bal­ho do con­hec­i­men­to não aban­donaram suas funções cen­trais: encar­regar-se dos prob­le­mas do cliente e resolvê-los. Mas as empre­sas que ado­tam mod­e­los como TEX da T‑Mobile serão mais com­pet­i­ti­vas em ambi­entes car­ac­ter­i­za­dos por prob­le­mas alta­mente com­plex­os do cliente. Ao mes­mo tem­po, desco­brirão novas for­mas de cri­ar val­or para fun­cionários, clientes e par­ceiros do negó­cio, apro­fun­dan­do os rela­ciona­men­tos em todos os níveis.

Por Matthew Dixon — dire­tor de pro­du­to e pesquisa da Tethr

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