‘A Amazônia corre risco’, diz Marina Silva, sobre o governo Bolsonaro

SP - COLETIVA / MARINA SILVA / ELEIÇÕES 2014 - POLÍTICA - Candidata Marina Silva em coletiva de imprensa após ficar na terceira colacação no primeiro turno da eleição presidencial de 2014. 05/10/2014 - Foto: THIAGO BERNARDES/FRAME/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

A Amazônia corre risco, diz Marina Silva, sobre o governo Bolsonaro

Para Mari­na Sil­va, can­di­da­ta à Presidên­cia der­ro­ta­da da Rede e ex-min­is­tra do Meio Ambi­ente, a “Amazô­nia com certeza corre risco” no gov­er­no do pres­i­dente eleito, Jair Bol­sonaro (PSL). Mari­na diz ver com “pre­ocu­pação” as pro­postas defen­di­das pelo novo gov­er­no em relação ao meio ambi­ente. Leia, abaixo, os prin­ci­pais tre­chos da entre­vista.

O novo governo chegou a pensar na fusão dos ministérios da Agricultura e Meio Ambiente. Depois desistiu da ideia.

Toda hora eles falam uma coisa difer­ente. Durante a cam­pan­ha, ain­da no segun­do turno, eles der­am sinais de que iam rev­er a posição e recen­te­mente o futuro chefe da Casa Civ­il (Onyx Loren­zoni) disse que esta­va con­fir­ma­do. De ontem pra hoje, começou uma série de pon­der­ações de que ain­da não está bati­do o marte­lo, mas há uma recusa ger­al da pop­u­lação e mes­mo o setor do agronegó­cio está divi­di­do. O pres­i­dente eleito dev­e­ria seguir o exem­p­lo de out­ros pres­i­dentes (que voltaram atrás de pon­tos polêmi­cos na questão ambi­en­tal). O pres­i­dente podia seguir o exem­p­lo históri­co e voltar atrás mes­mo.

O que há de errado com a ideia de fundir os ministérios?

Primeira­mente, será um grande pre­juí­zo para a pro­teção do meio ambi­ente, porque o Min­istério do Meio Ambi­ente lida com questões para além da agri­cul­tura. Tra­bal­ha com infraestru­tu­ra de ener­gia, de min­er­ação, de des­mata­men­to, ater­ro san­itário, con­strução. É um mun­do a agen­da do min­istério. Out­ro prob­le­ma é a inse­gu­rança jurídi­ca que será cri­a­da. Você vai deses­tru­tu­rar um sis­tema na cabeça, mas como vai ficar o cor­po? Pode des­en­cadear um efeito cas­ca­ta se os gov­er­nos estad­u­ais quis­erem mudar a leg­is­lação estad­ual, sub­or­di­nan­do as sec­re­tarias do meio ambi­ente às sec­re­tarias da agri­cul­tura.

Bolsonaro disse que “o que a gente defende é não criar dificuldade para o nosso progresso”. Durante a campanha, afirmou em diversas ocasiões que poria fim à “indústria de multas” e à “fiscalização xiita” imposta aos produtores rurais por autoridades ambientais, como Ibama e ICMBio.

Isso tudo vai prej­u­dicar o agronegó­cio. Existe uma parcela con­sid­eráv­el do setor, que tem avança­do muito na pro­pos­ta de aumen­tar a pro­du­tivi­dade sem des­mata­men­to. Con­seguiram, assim, se posi­cionar com cred­i­bil­i­dade nos mer­ca­dos exter­nos. Não são dess­es que man­têm uma men­tal­i­dade com­ple­ta­mente atrasa­da de aumen­tar a pro­dução por expan­são agrí­co­la nas flo­restas.

A senhora está esperançosa com este novo governo?

(Risos) Você já começa com uma agen­da que vai com­pro­m­e­ter o tra­bal­ho de décadas de ger­ações de ambi­en­tal­is­tas, de suces­sivos gov­er­nos, ameaçan­do a demar­cação das ter­ras dos índios, ameaçan­do os quilom­bo­las e as pop­u­lações tradi­cionais. Como ter esper­ança em um gov­er­no como esse? Como ter esper­ança em quem diz que vai acabar com tudo que foi con­quis­ta­do ao lon­go de décadas nesse país, inclu­sive durante os gov­er­nos da ditadu­ra?

Em que cur­va o Brasil está hoje no meio ambi­ente? Como está o sta­tus do meio ambi­ente?
Nós esta­mos em uma situ­ação pre­ocu­pante, o des­mata­men­to voltou a crescer no gov­er­no Dil­ma e isso tem a ver com a mudança no códi­go flo­re­stal brasileiro. Tive­mos um aumen­to de invasão de ter­ra públi­ca, onde está a maior parte dess­es des­mata­men­tos. Porque as suces­si­vas medi­das que foram tomadas para reg­u­larizar essas áreas que foram ocu­padas, tan­to no gov­er­no Dil­ma quan­to no gov­er­no Lula, e ago­ra no gov­er­no Temer, dão um sinal erra­do, de que, se as pes­soas invadi­rem aqui­lo que não é delas, terão a reg­u­lar­iza­ção da área como prêmio. As grandes oper­ações de fis­cal­iza­ção que eram feitas em parce­ria com o Iba­ma e a Polí­cia Fed­er­al prati­ca­mente acabaram.

A Amazônica corre risco?

A Amazô­nia com certeza corre risco. O Brasil é uma potên­cia ambi­en­tal, faz parte dos 17 país­es megadi­ver­sos do mun­do, ocu­pan­do uma posição alta­mente priv­i­le­gia­da — é o número um entre os 17. E o gov­er­no diz que vai acabar com a pro­teção ao meio ambi­ente e com o insti­tu­to de pro­teção da bio­di­ver­si­dade. Essa nos­sa pre­ocu­pação vai ter uma reper­cussão alta­mente neg­a­ti­va para o agronegó­cio.

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