Indústria 4.0: transforma o trabalho e leva faculdades e empresas a repensar qualificação profissional

O avanço da Indús­tria 4.0 levará a trans­for­mações pro­fun­das no mer­ca­do de tra­bal­ho, dimin­uin­do os pos­tos em ativi­dades repet­i­ti­vas e que podem ser autom­a­ti­zadas.

Profis­sion­ais fazen­do tra­bal­hos man­u­ais, encaixotan­do ou mon­tan­do pro­du­tos ou cole­tan­do dados man­ual­mente serão cada vez mais raros. Em seu lugar, estarão robôs, sen­sores e tec­nolo­gias baseadas em inteligên­cia arti­fi­cial.

Espe­cial­is­tas e exec­u­tivos pre­veem o surg­i­men­to de novos empre­gos no lugar dos que serão per­di­dos, muitos deles rela­ciona­dos à tec­nolo­gia e com novas exigên­cias de qual­i­fi­cação profis­sion­al.

Gan­harão espaço novas ocu­pações, como téc­ni­co em impressão 3D, mecâni­co de veícu­los híbri­dos, anal­ista de inter­net das coisas, espe­cial­ista em segu­rança de dados, espe­cial­ista em ras­tre­abil­i­dade de ali­men­tos, diz Rafael Luc­ch­esi, dire­tor-ger­al do Senai.

A amostra faz parte de lista de 30 novas profis­sões cri­adas pelas trans­for­mações tec­nológ­i­cas que foram iden­ti­fi­cadas pelo Senai para ori­en­tar o cur­rícu­lo ofer­e­ci­do aos alunos. A insti­tu­ição recebe 2,3 mil­hões de matrícu­las por ano.

“Acom­pan­hamos em todos os 28 setores da indús­tria de que maneira se dá o deslo­ca­men­to da fron­teira tec­nológ­i­ca. Assim, não pre­ciso esper­ar uma mudança para atu­alizar o que estou fazen­do na esco­la.”

O taman­ho e o tem­po em que acon­te­cerá a trans­for­mação no Brasil podem vari­ar depen­den­do de fatores como cus­to da mão de obra (quan­to menor, menos incen­ti­vo para sub­sti­tuí-la) e capaci­dade de inves­ti­men­to das empre­sas, diz Ana Kari­na Dias, sócia da con­sul­to­ria McK­in­sey.

Segun­do ela, 5% de todas as profis­sões devem deixar de exi­s­tir como resul­ta­do da adoção de tec­nolo­gias de automação. Entre 60% e 80% serão afe­tadas em decor­rên­cia dela.

Para o Brasil, a con­sul­to­ria espera que 15,7 mil­hões de pos­tos de tra­bal­ho sejam afe­ta­dos até 2030.

Dias diz acred­i­tar que, com o cresci­men­to econômi­co resul­tante da automação e do gan­ho de pro­du­tivi­dade, haverá mais deman­da por novos serviços, per­mitin­do a ren­o­vação do mer­ca­do de tra­bal­ho. Porém ain­da não há clareza de quais serão as novas ativi­dades.

“Isso é uma per­gun­ta de ouro. Ninguém tem certeza. O que se tem mais clareza é que, aumen­tan­do a pro­du­tivi­dade, haverá mais ofer­ta de serviços, com mais cole­ta de dados, maior neces­si­dade de inter­pre­tação deles.”

Para a espe­cial­ista, o desafio que as empre­sas já pos­suem hoje para con­tratar profis­sion­ais qual­i­fi­ca­dos, mes­mo com o desem­prego alto, vai se acen­tu­ar caso não se ampliem os inves­ti­men­tos em qual­i­fi­cação.

Segun­do ela, para os profis­sion­ais, a bus­ca por con­hec­i­men­to deve ir além das infor­mações a respeito de tec­nolo­gia.

“Con­sideran­do a veloci­dade com a qual as coisas estão mudan­do, vai ser mais impor­tante saber se adap­tar do que especi­fi­ca­mente a profis­são que você vai ter.”

O desafio já leva fac­ul­dades a reverem seus cur­rícu­los e empre­sas a inve­stirem em capac­i­tação.

Segun­do Allyson Faria, dire­tor de mar­ket­ing para a Améri­ca Lati­na da Siemens PLM, as com­pan­hias pre­cis­arão de profis­sion­ais com con­hec­i­men­tos em áreas como inteligên­cia arti­fi­cial, robóti­ca, engen­haria, sim­u­lação, nan­otec­nolo­gia, impressão 3D, big data e inter­net das coisas.

Ao mes­mo tem­po, gan­ham importân­cia habil­i­dades como capaci­dade de comu­ni­cação, de se adap­tar a mudanças, de anal­is­ar dados e de colab­o­rar.

“A pes­soa que está desen­vol­ven­do um novo veícu­lo, avião, tênis, a par­tir de sim­u­lações feitas em soft­ware, vai pre­cis­ar con­ver­sar com a engen­haria que está na pon­ta, com o chão de fábri­ca, com quem cui­da do maquinário, quem cui­da dos cus­tos.”

Ain­da é um desafio para empre­sas encon­trarem profis­sion­ais pron­tos para essa nova real­i­dade. Por isso, a opção tem sido inve­stir em for­mação, diz Cel­so Plac­eres, dire­tor de man­u­fatu­ra da Volk­swa­gen.

Para desen­volver sua pro­dução dos mod­e­los Polo e Vir­tus na fábri­ca Anchi­eta, em São Bernar­do do Cam­po, a com­pan­hia envi­ou 36 profis­sion­ais para estu­darem tec­nolo­gias da indús­tria 4.0 na Europa. Depois, o grupo ficou respon­sáv­el por trans­mi­tir os con­hec­i­men­tos inter­na­mente.

Indústria 4.0: transforma o trabalho e leva faculdades e empresas a repensar qualificação profissional

Tam­bém hou­ve tro­ca de infor­mações com o Senai, que aju­dou a dis­sem­i­nar os con­ceitos den­tro da com­pan­hia, diz Plac­eres .

Na empre­sa sur­gi­ram novos pos­tos de tra­bal­ho, prin­ci­pal­mente de espe­cial­is­tas em dig­i­tal­iza­ção que pas­saram a estar pre­sentes em várias áreas da com­pan­hia, como proces­sos, con­ces­sionárias, pro­du­to e relação com fornece­dores.

“Con­tratar ess­es profis­sion­ais é bas­tante com­plexo. Eles são raros e cada vez mais val­oriza­dos. Por isso esta­mos qual­i­f­i­can­do nos­sa mão de obra.”

A Mer­cedes tam­bém faz treina­men­tos den­tro da fábri­ca, inclu­sive com a cri­ação de lin­ha de mon­tagem autom­a­ti­za­da e um sim­u­lador de logís­ti­ca den­tro de unidade do Senai na fábri­ca da com­pan­hia.

Fer­nan­do Fontes Gar­cia, vice-pres­i­dente de recur­sos humanos para Améri­ca Lati­na da Mercedes,diz que cer­ca de 2.000 profis­sion­ais da empre­sa par­tic­i­param de treina­men­tos rela­ciona­dos a indús­tria 4.0 e 1.200 acom­pan­haram palestras sobre o tema —a com­pan­hia man­tém 5.000 pes­soas na pro­dução.

Nas uni­ver­si­dades, a per­cepção é que ativi­dades práti­cas devem gan­har importân­cia para per­mi­tir aos alunos uma for­mação mais ade­qua­da às neces­si­dades do mer­ca­do.

Fer­nan­do Madani, coor­de­nador do cur­so de engen­haria de con­t­role e automação do Insti­tu­to Mauá de Tec­nolo­gia, diz que a fac­ul­dade vem bus­can­do mais parce­rias com empre­sas para que estu­dantes tra­bal­hem em prob­le­mas reais.

A esco­la con­ta com 100 lab­o­ratórios para uso de equipa­men­tos da indús­tria 4.0 por alunos, o dobro do número de salas de aula, diz o pro­fes­sor. Eles foram cri­a­dos a par­tir de doações ~de empre­sas ou aquisições com descon­to.

O desafio para o profis­sion­al do futuro, segun­do Madani, é con­seguir anal­is­ar as muitas infor­mações ger­adas por sen­sores e sis­temas autônomos para tirar con­clusões, propôr novas soluções e cri­ar mod­os de apre­sen­tar os dados que sejam facil­mente com­preen­di­dos pelo restante da empre­sa e pelos clientes.

“É mais difí­cil a pes­soa se for­mar hoje, tem muito mais coisa para ela prestar atenção. É pre­ciso ser mais ino­vador, pen­sar em soluções difer­entes.”

Alexan­dre Mas­sote, coor­de­nador do cur­so de engen­haria da pro­dução da FEI (Fac­ul­dade de Engen­haria Indus­tri­al) Tam­bém desta­ca a cri­ação de lab­o­ratórios em áreas como inter­net das coisas, robóti­ca e man­u­fatu­ra avança­da feito com apoio de empre­sas,

A fac­ul­dade tam­bém está em fase de revisão de seu cur­rícu­lo para dar mais destaque a tec­nolo­gias da indús­tria 4.0 e aumen­tar o peso das habil­i­dades com­por­ta­men­tais na for­mação dos alunos, diz.

Entre os planos, segun­do o pro­fes­sor, está fomen­tar que alunos que se espe­cial­izam em difer­entes tec­nolo­gias tra­bal­hem em pro­je­tos feitos em grupo, como acon­te­cerá no mer­ca­do.

“Para for­mar um engen­heiro que con­heça a fun­do todas as tec­nolo­gias teríamos de ter um cur­so 10 vezes mais lon­go. Por isso, gan­ha importân­cia o com­par­til­hamen­to e a colab­o­ração.”

DIRETRIZES

As dire­trizes cur­ric­u­lares da grad­u­ação em engen­haria, que indi­ca as pre­mis­sas que as uni­ver­si­dades devem seguir ao mon­tar seus cur­rícu­los, estão em proces­so de revisão pelo CNE (Con­sel­ho Nacional de Edu­cação).

A CNI (Con­fed­er­ação Nacional da indús­tria) ‚a par­tir de um grupo de tra­bal­ho para o for­t­alec­i­men­to das engen­harias, foi uma das orga­ni­za­ções que deu sug­estões para o doc­u­men­to, que esteve em con­sul­ta públi­ca entre agos­to e setem­bro.

A enti­dade propôs a val­oriza­ção de com­petên­cias como cria­tivi­dade, tra­bal­ho em equipe e empreende­doris­mo, aumen­to de ativi­dades práti­cas e maior par­tic­i­pação de profis­sion­ais da indús­tria no ensi­no, diz Vic­tor Teles, coor­de­nador da Fes­to­Di­dat­ics (braço de edu­cação da empre­sa de automação indus­tri­al Fes­to) e par­tic­i­pante do grupo.

“É pre­ciso que a tec­nolo­gia não seja o úni­co foco do cur­so. Con­teú­do ficou mais fácil de ser obti­do com o avanço da inter­net. A grande questão é como pesquis­ar, como avaliar a infor­mação que estou col­hen­do e como aplicar ela a práti­ca.”

Luiz Rober­to Liza Curi, con­sel­heiro do CNE e pres­i­dente da comis­são que tra­ta do tema, diz que a ino­vação é um dos fatores de com­pet­i­tivi­dade da econo­mia e a engen­haria tem papel de destaque para que o país pos­sa super­ar os desafios de sua adoção.

 

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