Como funciona um mecanismo de buscas

Como funciona um mecanismo de buscas

O pres­i­dente Don­ald Trump criti­cou o Google na últi­ma sem­ana, ale­gan­do que a empre­sa “manip­u­lou” os resul­ta­dos da Pesquisa de Notí­cias do Google — o Google News — para favore­cer histórias e orga­ni­za­ções de notí­cias críti­cas a ele.

Para reforçar sua afir­mação sobre pre­con­ceito, Trump pos­tou um vídeo no Twit­ter com a hash­tag #StopThe­Bias, ale­gan­do que o Google pro­moveu os dis­cur­sos sobre o Esta­do da União, um relatório apre­sen­ta­do pelo Pres­i­dente dos Esta­dos Unidos anual­mente, do ex-pres­i­dente Barack Oba­ma, mas parou a práti­ca quan­do ele assum­iu o car­go.

Em um comu­ni­ca­do divul­ga­do à impren­sa, um por­ta-voz do Google disse que a empre­sa não pro­moveu em sua home­page os primeiros dis­cur­sos de Oba­ma ou Trump, porque tec­ni­ca­mente eles são con­sid­er­a­dos meros “dis­cur­sos para uma sessão con­jun­ta” do Con­gres­so.

Os fatos em torno deste inci­dente estão sendo canal­iza­dos para debates políti­cos on-line ran­corosos e con­tín­u­os, que, na min­ha opinião, não são par­tic­u­lar­mente inter­es­santes. O que é inter­es­sante é a grande questão que esse con­fli­to traz à tona.

Afi­nal, o que é um mecan­is­mo de pesquisa?

Um mecan­is­mo de pesquisa pode ser qua­tro coisas.

1. Um índice para a inter­net

Quan­do o Google lançou seu mecan­is­mo de bus­ca em 1996, ficou claro o que era um mecan­is­mo de bus­ca: um índice da inter­net. A ino­vação foi a capaci­dade de clas­si­ficar as pági­nas de uma for­ma que dev­e­ria refle­tir a relevân­cia ou a importân­cia rel­a­ti­va de cada resul­ta­do. Tan­to os resul­ta­dos quan­to o rank­ing dev­e­ri­am ser um reflexo da própria inter­net, não um índice para as infor­mações que exis­tem no mun­do real.

2. Um árbi­tro do que é ver­dade

Nes­sa visão, o Google Bus­ca favorece infor­mações obje­ti­va­mente ver­dadeiras e não enfa­ti­za links para con­teú­do que é obje­ti­va­mente fal­so.

3. Uma fonte obje­ti­va de infor­mações

A ideia de fonte obje­ti­va é que o Google ten­ta apre­sen­tar todos os aspec­tos con­tro­ver­sos e todas as fontes de infor­mação, sem favore­cer ideias ou fontes.

4. Uma fonte per­son­al­iza­da de infor­mações

O con­ceito de fonte per­son­al­iza­da diz que um mecan­is­mo de pesquisa ofer­ece a cada usuário um con­jun­to difer­ente de resul­ta­dos com base no que o usuário quer, inde­pen­den­te­mente do que é ver­dadeiro, do que está acon­te­cen­do na Inter­net ou de qual­quer out­ro fator. Isso tudo é bem abstra­to, então aqui está um exper­i­men­to de pen­sa­men­to esclare­ce­dor:

Quan­do alguém pesquisa o Google para desco­brir a for­ma da Ter­ra, como o Google deve abor­dar essa con­sul­ta? Depende do que o Google acred­i­ta ser um mecan­is­mo de pesquisa.

Observe que é prováv­el que os pro­po­nentes da Ter­ra gerem, vin­culem-se e tagarelem sobre a ideia de que a Ter­ra é plana mais do que as pes­soas que acred­i­tam que é esféri­ca. Vamos supor, para fins de argu­men­tação, que, obje­ti­va­mente, o con­teú­do e a ativi­dade real na inter­net favore­cem a ideia Ter­ra plana.

Se um mecan­is­mo de bus­ca deve ser um índice para a inter­net, então os resul­ta­dos da pesquisa da for­ma da Ter­ra devem favore­cer a ideia da Ter­ra plana.

Se um mecan­is­mo de pesquisa deve ser um árbi­tro do que é ver­dadeiro, os resul­ta­dos da pesquisa devem favore­cer a ideia da Ter­ra esféri­ca.

Se um mecan­is­mo de bus­ca deve ser uma fonte obje­ti­va de infor­mação, então os resul­ta­dos da bus­ca devem fornecer um resul­ta­do bal­ancea­do que rep­re­sente igual­mente as teo­rias da Ter­ra, plana e esféri­ca.

E, se um mecan­is­mo de bus­ca deve ser uma fonte per­son­al­iza­da e de infor­mações per­son­al­izadas, os resul­ta­dos devem favore­cer a ideia da Ter­ra plana ou a da Ter­ra esféri­ca, depen­den­do de quem está pesquisan­do.

Eu uso a for­ma da Ter­ra como um proxy ou stand-in para os ver­dadeiros resul­ta­dos de pesquisa que as pes­soas estão con­duzin­do. Por exem­p­lo, pesquisas sobre sua empre­sa, pro­du­to, mar­ca ou até mes­mo sobre você ain­da estão sujeitas à mes­ma con­fusão sobre o que um mecan­is­mo de pesquisa deve ser.

Quan­do seus clientes, poten­ci­ais par­ceiros de negó­cios, fun­cionários ou futur­os fun­cionários em poten­cial e out­ros bus­cam infor­mações sobre sua orga­ni­za­ção, que resul­ta­dos eles devem obter? Ess­es resul­ta­dos devem refle­tir o que é “ver­dadeiro”, o que é fal­so, mas é pop­u­lar ou o que é neu­tro entre os dois? Ou dev­e­ria depen­der de quem está fazen­do a pesquisa?

A ver­dade é que o Google ten­ta faz­er com que o Google busque todas essas qua­tro coisas ao mes­mo tem­po. Soman­do-se à com­plex­i­dade do prob­le­ma, está o fato de que os resul­ta­dos dos mecan­is­mos de bus­ca são gov­er­na­dos por algo­rit­mos, que são seg­re­dos com­er­ci­ais que estão mudan­do con­stan­te­mente.

Se você per­gun­tasse às pes­soas, acred­i­to que a maio­r­ia diria que o Google Bus­ca dev­e­ria ser o Mod­e­lo nº 1 — um índice da Inter­net — e não se envolve­ria em decidir o que é ver­dadeiro, o que é fal­so ou qual é a respos­ta que o usuário dese­ja ouvir.

E, no entan­to, o mun­do exige cada vez mais que o Google aceite o Mod­e­lo nº 2 — seja um árbi­tro do que é ver­dade.

Os gov­er­nos não tol­er­am um índice pre­ciso

Trump afir­mou repeti­da­mente que, em ger­al, a cober­tu­ra da mídia é ten­den­ciosa con­tra ele. Se isso for ver­dade, e se a pesquisa do Google News for um índice pas­si­vo do que a mídia real­mente está infor­man­do, não seria razoáv­el Trump esper­ar uma cober­tu­ra anti-Trump na fer­ra­men­ta?

Ao criticar o Google News Search como “fraud­u­len­to”, Trump parece rev­e­lar uma expec­ta­ti­va de que o Google Notí­cias deve refle­tir o que está acon­te­cen­do no mun­do real como ele vê, e não o que está acon­te­cen­do nos sites de notí­cias.

Ou rev­ela que, inde­pen­den­te­mente do peso da ativi­dade em favor das fontes de notí­cias que Trump acred­i­ta serem ten­den­ciosas con­tra ele, o Google News Search deve fornecer uma rep­re­sen­tação equi­li­bra­da e neu­tra de todas as opiniões e fontes igual­mente.

A rejeição do mod­e­lo de mecan­is­mo de bus­ca como índice da Inter­net é comum entre gov­er­nos e líderes políti­cos em todo o mun­do. Um exem­p­lo famoso é a ideia do “dire­ito a ser esque­ci­do”, que foi colo­ca­da em práti­ca como lei tan­to na União Europeia quan­to na Argenti­na. A ideia é que a infor­mação na inter­net pode injus­ta­mente estigma­ti­zar uma pes­soa, e os cidadãos têm o dire­ito de que essa infor­mação seja “esque­ci­da”, o que sig­nifi­ca que não existe nos resul­ta­dos dos mecan­is­mos de bus­ca.

Dig­amos, por exem­p­lo, que uma pes­soa proem­i­nente peça falên­cia e que 100 sites de notí­cias e blogs na inter­net reg­istrem o fato. Vinte anos depois, bem depois que a pes­soa restau­rou a solvên­cia finan­ceira, as infor­mações anti­gas ain­da estão disponíveis e podem ser encon­tradas nos mecan­is­mos de bus­ca, cau­san­do estigma­ti­za­ção infun­da­da.

Uma petição de dire­ito a esquec­i­men­to bem-suce­di­da pode remover a refer­ên­cia a essas pági­nas dos resul­ta­dos da pesquisa. As pági­nas ain­da exis­tem, mas os mecan­is­mos de pesquisa não vin­cu­lam a elas quan­do alguém pesquisa o nome da pes­soa.

Os defen­sores das leis do dire­ito ao esquec­i­men­to clara­mente acred­i­tam que existe um mecan­is­mo de bus­ca para refle­tir o mun­do real como é, ou como dev­e­ria ser, e não existe para refle­tir a inter­net como ela é.

Recen­te­mente, o Google foi envolvi­do em uma con­tro­vér­sia sobre um supos­to retorno ao mer­ca­do chinês com um mecan­is­mo de bus­ca per­son­al­iza­do na Chi­na, que cen­sura o con­teú­do da inter­net da mes­ma for­ma que os sites domés­ti­cos são obri­ga­dos pelo gov­er­no chinês. Cen­te­nas de fun­cionários do Google assi­naram uma car­ta em protesto.

O Google quer “voltar” ao mer­ca­do chinês. O gov­er­no chinês não per­mi­tiria que o Google operasse um mecan­is­mo de bus­ca acessív­el a cidadãos chi­ne­ses que refletisse com pre­cisão o que real­mente está na inter­net.

Os exem­p­los con­tin­u­am. O que os gov­er­nos ten­dem a ter em comum é que, nos cír­cu­los políti­cos, é muito difí­cil encon­trar pes­soas defend­en­do a con­cepção do índice para a inter­net do que um mecan­is­mo de pesquisa dev­e­ria ser. Por que a ideia do mecan­is­mo de bus­ca como índice está mor­ta.

A mis­são declar­a­da do Google é “orga­ni­zar as infor­mações do mun­do e torná-las uni­ver­salmente acessíveis e úteis”. Neb­u­loso, sim. Mas, para os propósi­tos des­ta col­u­na, está dizen­do que o Google diz que sua mis­são é orga­ni­zar, não a infor­mação da inter­net, mas o “mun­do”.

A real­i­dade é que as pes­soas usam Pesquisa do Google e out­ros mecan­is­mos de pesquisa porque querem infor­mações sobre o mun­do, não porque dese­jam infor­mações sobre o que a inter­net cole­ti­va­mente “pen­sa”.

E, de qual­quer for­ma, o pon­to está se tor­nan­do dis­cutív­el. O que a inter­net “pen­sa” é cada vez mais joga­do e manip­u­la­do por pro­pa­gan­dis­tas, bots, notí­cias fal­sas, trolls, teóri­cos da con­spir­ação e hack­ers. Refle­tir com pre­cisão todas essas infor­mações manip­u­ladas nos mecan­is­mos de bus­ca é valioso ape­nas para os manip­u­ladores.

Além dis­so: a cada dia que pas­sa, mais infor­mações “pesquisan­do” estão acon­te­cen­do por meio de assis­tentes vir­tu­ais, como o Google Assis­tente, Siri, Cor­tana e Alexa. Em out­ras palavras, assis­tentes vir­tu­ais estão se tor­nan­do os novos mecan­is­mos de bus­ca.

Com ócu­los de real­i­dade aumen­ta­da e out­ras fontes de infor­mação alta­mente móveis, os mecan­is­mos de bus­ca como o Google terão de se tornar cada vez mais árbi­tros do que é ver­dadeiro, ou suposta­mente ver­dadeiro, porque o públi­co exi­girá cada vez mais uma úni­ca respos­ta para suas per­gun­tas.

É por isso que as anti­gas ini­cia­ti­vas para a pre­sença da sua empre­sa na inter­net — SEO, mar­ket­ing, estraté­gia de mídia social e tudo mais — têm nova urgên­cia.

A cada dia que pas­sa, os mecan­is­mos de pesquisa exis­tem menos para indexar a inter­net e mais para decidir por todos nós o que é “ver­dadeiro” e o que “não é ver­dade”.

É hora de redo­brar seus esforços para garan­tir que o que o Google acha que seja ver­dade sobre sua empre­sa é real­mente ver­dadeiro.

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