
As eleições de 2026 colocam em evidência uma questão estratégica para o Brasil: até que ponto a democracia, a economia e a circulação de informações devem depender de plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial controlados por empresas estrangeiras?
As redes sociais transformaram profundamente a maneira como os brasileiros acompanham a política, discutem propostas e participam das eleições. O que antes dependia principalmente da televisão, do rádio e dos jornais agora acontece também em plataformas digitais, onde milhões de pessoas recebem informações selecionadas por algoritmos.
Com as eleições de 2026, esse fenômeno ganhou uma nova dimensão. Além das redes sociais, a inteligência artificial passou a participar da produção de conteúdos, da organização de campanhas, da análise de informações e da comunicação entre candidatos e eleitores.
Nesse cenário, surge um debate que ultrapassa as disputas partidárias: o Brasil deveria investir no desenvolvimento de suas próprias redes sociais e inteligências artificiais para reduzir a dependência das Big Techs?
A resposta envolve tecnologia, economia, liberdade de expressão, proteção de dados e soberania nacional.
🗳️ Como as Big Techs influenciam o processo eleitoral
Empresas como Google, Meta, Microsoft e outras gigantes tecnológicas administram serviços utilizados diariamente por milhões de brasileiros.
Essas plataformas não são apenas ferramentas de comunicação. Seus sistemas organizam o fluxo de informações, recomendam publicações, distribuem vídeos e determinam quais conteúdos recebem maior visibilidade.
Um vídeo político pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, enquanto outro, sobre o mesmo assunto, pode permanecer praticamente invisível.
Isso acontece porque os algoritmos consideram diferentes sinais de comportamento, como interações, interesses e tempo de visualização.
A questão central não é afirmar que as Big Techs determinam o resultado das eleições, mas reconhecer que possuem influência significativa sobre os ambientes onde o debate político acontece.
Essa concentração de infraestrutura e distribuição de informações merece atenção, especialmente quando decisões privadas afetam a visibilidade de assuntos de interesse público.
O Brasil é um gigante digital, mas depende de plataformas estrangeiras
Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, aproximadamente 157 milhões de brasileiros utilizavam a internet em 2025, representando 85% da população considerada pelo levantamento.
157 milhões
de usuários de internet no Brasil em 2025.Fonte: CGI.br, TIC Domicílios 2025.
Apesar desse mercado expressivo, grande parte dos serviços digitais mais utilizados pertence a empresas internacionais.
Essa dependência envolve a publicidade digital, o armazenamento de informações, o funcionamento das plataformas e a utilização de sistemas avançados de inteligência artificial.
Quando uma empresa modifica seus algoritmos ou suas políticas comerciais, milhares de criadores de conteúdo, veículos de comunicação e negócios brasileiros podem ser afetados.
O problema não está simplesmente na nacionalidade dessas empresas, mas na concentração de poder econômico e tecnológico.
A inteligência artificial amplia os desafios da democracia
A inteligência artificial acrescentou uma nova camada de complexidade ao ambiente eleitoral.
Atualmente, ferramentas generativas conseguem produzir textos, imagens, vídeos e áudios com elevado grau de realismo. Essa capacidade oferece oportunidades para comunicação e acessibilidade, mas também pode facilitar a fabricação de informações enganosas.
Entre os riscos estão vídeos manipulados, clonagem de voz, perfis automatizados e conteúdos capazes de simular declarações que nunca aconteceram.
Diante desses desafios, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras para identificar conteúdos sintéticos e combater o uso indevido de deepfakes nas eleições de 2026.
O objetivo é preservar a transparência do processo eleitoral sem impedir aplicações legítimas da tecnologia.
Esse cenário demonstra que a discussão sobre inteligência artificial não envolve apenas inovação. Também exige mecanismos de responsabilidade, auditoria e proteção dos cidadãos.
Por que o Brasil deveria desenvolver suas próprias inteligências artificiais?
O desenvolvimento de sistemas nacionais de inteligência artificial poderia ampliar a autonomia tecnológica brasileira.
Modelos desenvolvidos ou adaptados no país podem considerar características da língua portuguesa, expressões regionais, legislação brasileira e necessidades de setores como educação, agricultura, saúde e administração pública.
Isso não significa que uma IA brasileira seria automaticamente melhor, mais segura ou imparcial.
Significa que universidades, empresas e instituições nacionais teriam maior capacidade de desenvolver, adaptar e auditar tecnologias utilizadas em atividades estratégicas.
O governo federal já reconheceu essa necessidade por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028.
R$ 23,03 bilhões
Para infraestrutura, pesquisa, formação profissional, inovação empresarial, serviços públicos e governança de IA.Valor previsto no plano, não necessariamente executado.
Entretanto, criar inteligência artificial competitiva exige infraestrutura computacional, profissionais especializados, dados de qualidade e investimentos contínuos.
Uma estratégia nacional consistente também pode aproveitar modelos de código aberto, cooperação científica internacional e soluções desenvolvidas por startups brasileiras.
Redes sociais brasileiras seriam uma alternativa viável?
O Brasil possui profissionais e empresas capazes de desenvolver redes sociais próprias. Entretanto, criar um aplicativo representa apenas uma parte do desafio.
O verdadeiro obstáculo está em conquistar usuários, garantir segurança, financiar infraestrutura e construir um ambiente digital sustentável.
As plataformas atuais possuem uma vantagem conhecida como efeito de rede: as pessoas permanecem nos serviços onde encontram seus amigos, familiares, empresas e comunidades.
Uma alternativa nacional precisaria oferecer benefícios concretos, como transparência algorítmica, proteção de dados, atendimento eficiente e melhores oportunidades para criadores de conteúdo.
Outra possibilidade seria utilizar tecnologias descentralizadas, como o ActivityPub, protocolo aberto padronizado pelo W3C, que permite a comunicação entre diferentes plataformas.
Nesse modelo, empresas brasileiras poderiam administrar seus próprios serviços sem depender exclusivamente de uma grande rede centralizada.
Soberania digital não pode significar controle político
Um dos pontos mais importantes desse debate é distinguir soberania tecnológica de controle da informação.
Desenvolver plataformas brasileiras não deve representar a criação de espaços onde governos ou partidos determinem quais opiniões podem circular.
Pelo contrário, uma estrutura digital comprometida com a democracia precisa assegurar liberdade de expressão, pluralidade, transparência e mecanismos independentes de fiscalização.
Da mesma forma, uma inteligência artificial nacional deve ser submetida a testes, auditorias e mecanismos de responsabilização.
A Lei Geral de Proteção de Dados estabelece direitos relacionados ao tratamento de informações pessoais, independentemente da nacionalidade da empresa responsável.
A verdadeira soberania digital está na capacidade de oferecer alternativas tecnológicas confiáveis, e não em substituir uma concentração de poder por outra.
Oportunidades para a economia e a inovação brasileira
A criação de redes sociais e inteligências artificiais nacionais também poderia impulsionar a economia.
Esses projetos demandam desenvolvedores, pesquisadores, especialistas em segurança cibernética, designers, profissionais de infraestrutura e empresas de computação em nuvem.
Além de gerar empregos qualificados, poderiam estimular soluções destinadas ao mercado brasileiro e à exportação de tecnologia.
Universidades, startups e empresas privadas teriam condições de participar desse ecossistema, desde que existissem financiamento, segurança jurídica e oportunidades de competição.
O investimento público poderia priorizar pesquisa, capacitação e infraestrutura compartilhada, evitando transformar inovação tecnológica em dependência permanente de estruturas estatais.
Democracia digital exige concorrência, transparência e responsabilidade
A presença de Big Techs no debate político apresenta benefícios e desafios.
Por um lado, as plataformas ampliaram as possibilidades de comunicação, facilitaram a participação pública e permitiram que cidadãos alcançassem audiências antes inacessíveis.
Por outro, a concentração de serviços digitais cria preocupações relacionadas à moderação de conteúdo, privacidade, manipulação e dependência econômica.
Esses problemas não desaparecem simplesmente com a criação de empresas nacionais.
Por isso, políticas públicas devem incentivar concorrência, interoperabilidade, fiscalização proporcional e educação digital.
A sociedade também precisa compreender melhor o funcionamento dos algoritmos e reconhecer os limites das informações produzidas por sistemas de inteligência artificial.
O futuro digital do Brasil começa com escolhas estratégicas
As eleições de 2026 evidenciam a importância das redes sociais e da inteligência artificial para a vida pública brasileira.
Mais do que discutir quais candidatos se beneficiam dessas tecnologias, chegou o momento de refletir sobre quem desenvolve a infraestrutura, quem administra os dados e quais regras orientam os sistemas utilizados pela população.
O Brasil não precisa abandonar tecnologias internacionais para conquistar autonomia. Precisa investir na capacidade de criar alternativas, participar do desenvolvimento global e garantir que cidadãos e empresas disponham de diferentes escolhas.
A questão não é transformar redes sociais e inteligências artificiais brasileiras em instrumentos políticos, mas construir um ecossistema tecnológico competitivo, transparente e comprometido com a democracia.
Se a informação se tornou um recurso estratégico, desenvolver capacidade nacional para produzir, distribuir e proteger essa informação deve fazer parte do futuro econômico e tecnológico do país.
A soberania digital começa quando a sociedade deixa de ser apenas consumidora de tecnologia e passa a participar ativamente de sua criação.