
No passado recente quando falávamos em plataformas de software, três ambientes dominavam praticamente toda a conversa.
💻 Computadores.
📱 Smartphones.
🌐 Web.
Empresas criavam sites, aplicativos para Android e iOS, sistemas empresariais e serviços digitais pensando principalmente nessas telas.
A televisão permanecia em outra categoria.
Era vista como aparelho de entretenimento.
Uma tela para assistir.
Não uma plataforma para desenvolver.
Isso está mudando rapidamente.
A Connected TV, ou simplesmente CTV, está transformando a maior tela da casa em um ambiente de software que começa a reunir aplicativos, streaming, canais ao vivo, publicidade digital, dados, inteligência artificial, comércio, games, serviços e experiências interativas.
No Brasil, essa transformação já ultrapassou a fase experimental.
Segundo a quarta edição do estudo de Connected TV da Comscore, apresentada em maio de 2026, 67% da população digital brasileira já era espectadora de CTV em 2025, representando aproximadamente 88 milhões de brasileiros.
Conheça o estudo de Connected TV da Comscore no Brasil
Dados apresentados pela Roku, também baseados em estudo da Comscore, indicam que 67% dos internautas brasileiros vivem em residências com pelo menos uma TV conectada, enquanto 65% dos domicílios com CTV fazem streaming diariamente. O consumo médio informado chega a 4,3 horas de streaming por dia nesses lares.
Esses números revelam algo maior do que uma mudança na maneira de assistir televisão.
Eles mostram o nascimento de uma plataforma.
E quem entender essa transformação cedo poderá encontrar na televisão aquilo que empresas descobriram no smartphone há aproximadamente quinze anos:
um novo território para construir produtos digitais.
Connected TV não é apenas streaming
Uma das primeiras coisas que precisamos mudar é a definição.
Quando alguém fala em Connected TV, muita gente pensa imediatamente:
Netflix.
YouTube.
Prime Video.
Disney+.
Globoplay.
Isso faz sentido.
Streaming foi uma das principais forças responsáveis por conectar a televisão à internet.
Mas Connected TV é muito maior do que streaming.
Uma Smart TV moderna possui:
📱 aplicativos
🧭 sistema operacional
🔍 busca
👤 contas de usuário
💳 possibilidades de monetização
🎮 jogos
📺 canais ao vivo
🛒 experiências comerciais
📊 dados
🔔 notificações e recomendações
🎙️ comandos de voz
🤖 inteligência artificial
🌐 conectividade
Em outras palavras, vários componentes que durante anos associamos ao smartphone começaram a ocupar também a televisão.
A diferença é que essa plataforma possui características próprias.
Uma tela de 55 polegadas não é um smartphone gigante.
O usuário não está segurando o aparelho.
Não utiliza touchscreen.
Normalmente está a alguns metros de distância.
Navega por controle remoto.
Pode estar acompanhado.
E tende a consumir experiências de maneira muito mais relaxada.
No desenvolvimento de software, isso muda praticamente tudo.
A Smart TV virou um computador especializado
Por trás de uma Smart TV existe uma arquitetura de software cada vez mais sofisticada.
Samsung possui Tizen.
LG utiliza webOS.
Roku possui sua própria plataforma.
Google TV e Android TV utilizam o ecossistema Android.
Amazon possui Fire TV.
Apple possui tvOS.
Cada plataforma apresenta tecnologias, ferramentas, APIs, processos de homologação e modelos de distribuição próprios.
A Samsung, por exemplo, mantém todo um ecossistema oficial de desenvolvimento para aplicações de Smart TV baseadas em Tizen, incluindo SDK, APIs, ferramentas de teste, certificados e o Seller Office para distribuição.
Conheça a plataforma de desenvolvimento Samsung Smart TV
A LG oferece ferramentas próprias para webOS TV, incluindo CLI, extensão para Visual Studio Code, simulador, APIs e ambiente de desenvolvimento. Aplicativos webOS podem utilizar tecnologias conhecidas do desenvolvimento web, como HTML, CSS e JavaScript.
Conheça o ambiente oficial de desenvolvimento LG webOS TV
Na Roku, aplicativos possuem ecossistema próprio de desenvolvimento e podem integrar autenticação, pagamentos, DRM, analytics e diferentes formatos de navegação e conteúdo.
Conheça a plataforma oficial para desenvolvedores Roku
Isso é plataforma de software no sentido completo do termo.
O que aconteceu no smartphone pode acontecer na televisão
Voltemos a 2008.
Naquele momento, muita gente ainda enxergava o telefone principalmente como aparelho de comunicação.
Ligação.
SMS.
Câmera.
Internet básica.
Então chegaram as lojas de aplicativos.
A transformação não aconteceu simplesmente porque os smartphones ficaram melhores.
Aconteceu porque o telefone virou plataforma para terceiros criarem produtos.
Uber não precisou fabricar um smartphone.
Spotify não precisou criar uma operadora.
Instagram não precisou desenvolver uma câmera.
Nubank não precisou construir uma rede de telefonia.
Eles utilizaram uma plataforma existente e construíram serviços sobre ela.
É exatamente esse raciocínio que começa a ficar interessante quando observamos Connected TV.
Fabricantes colocaram milhões de televisores conectados dentro das casas.
Sistemas operacionais foram construídos.
Lojas de aplicativos surgiram.
Infraestrutura de streaming amadureceu.
CDNs se expandiram.
Vídeo pela internet ficou mais confiável.
Publicidade digital chegou à televisão.
Agora começa uma nova pergunta:
O que podemos construir sobre essa infraestrutura?
O Brasil já possui escala suficiente
Uma plataforma somente se torna economicamente interessante quando possui público.
É por isso que os números brasileiros merecem atenção.
Os aproximadamente 88 milhões de espectadores brasileiros de CTV apontados pela Comscore representam uma audiência grande demais para ser tratada como nicho tecnológico.
CTV já faz parte da rotina de entretenimento digital de milhões de famílias.
O IAB Brasil reconhece essa transformação.
Na edição 2026 de seu Guia de Vídeo Digital, Streaming e TV Conectada, o instituto coloca Connected TV dentro de um ecossistema que envolve publicidade programática, inteligência artificial, interatividade, dados de primeira parte, mensuração omnicanal e integração entre mídia linear e digital.
Acesse o Guia de Vídeo Digital, Streaming e TV Conectada do IAB Brasil
Esse é um sinal importante.
CTV não está mais sendo discutida apenas pelos fabricantes de televisores.
Entrou definitivamente na discussão estratégica sobre mídia, tecnologia e negócios.
Existe uma característica única: a TV domina a sala
O smartphone está no bolso.
O notebook está na mesa.
A televisão ocupa uma parede.
Essa diferença física produz consequências importantes.
A TV continua sendo, em muitos lares, a maior superfície digital disponível.
Uma aplicação exibida em uma tela de 55, 65 ou 75 polegadas possui presença visual completamente diferente daquela de uma interface de smartphone.
Além disso, a televisão frequentemente envolve mais de uma pessoa.
Casais assistem juntos.
Famílias se reúnem.
Amigos assistem esportes.
Crianças consomem conteúdo.
Esse comportamento faz com que CTV não seja apenas mais um dispositivo.
É um ambiente digital compartilhado.
E ambientes compartilhados podem gerar categorias de software próprias.
Aplicativos serão apenas o começo
Hoje, a utilização mais evidente de aplicativos para Smart TV está relacionada ao vídeo.
Canais.
Filmes.
Séries.
Notícias.
Esportes.
Streaming ao vivo.
Isso continuará sendo extremamente importante.
Mas limitar o potencial da televisão a vídeo seria repetir o erro de quem imaginava que o smartphone serviria apenas para ligações melhores.
Uma televisão conectada pode receber aplicações de:
🏋️ fitness
📚 educação
🎮 games
🎵 música
🧘 bem estar
🏢 comunicação corporativa
⛪ conteúdo religioso
📰 notícias
⚽ esportes
🏠 automação residencial
🛍️ comércio
🍳 gastronomia
🎓 treinamento
👶 conteúdo infantil
🏥 orientação e serviços de saúde compatíveis com o ambiente doméstico
A própria tela inicial do webOS TV 26 mostra como esse conceito está evoluindo. A LG já organiza áreas dedicadas a gaming, música, esportes, educação, notícias, automação residencial e até shopping, além dos aplicativos tradicionais e conteúdos de streaming.
Isso mostra que os próprios fabricantes estão deixando de tratar a TV exclusivamente como player de vídeo.
A televisão está deixando de ser canal para virar distribuição
Durante décadas, quem desejava possuir presença na televisão precisava controlar ou negociar acesso a alguma estrutura de distribuição.
Emissora.
Operadora.
Satélite.
Canal.
Grade de programação.
Hoje um proprietário de conteúdo pode criar um aplicativo.
Publicá lo em uma plataforma.
Entregar vídeo pela internet.
E chegar diretamente ao usuário.
Esse modelo é especialmente poderoso para mercados de nicho.
Uma emissora regional pode ampliar sua distribuição.
Uma igreja pode construir um canal próprio.
Um clube esportivo pode entregar conteúdo diretamente aos torcedores.
Uma universidade pode criar uma experiência educacional.
Uma produtora pode disponibilizar catálogo.
Uma empresa de mídia pode reunir canais lineares e conteúdo sob demanda.
Um especialista pode transformar sua biblioteca de vídeos em produto de assinatura.
A distância entre ter conteúdo e ter presença na televisão diminuiu dramaticamente.
Um canal regional pode ganhar audiência nacional
Essa talvez seja uma das oportunidades mais subestimadas da Connected TV.
A televisão tradicional possui uma forte lógica geográfica.
Uma emissora transmite para determinada região.
Na internet, essa fronteira desaparece.
Uma TV de Pernambuco pode ser assistida em Santa Catarina.
Um canal de Florianópolis pode alcançar brasileiros em São Paulo.
Conteúdo brasileiro pode chegar ao exterior.
Isso muda a economia do conteúdo regional.
Talvez um programa possua audiência limitada dentro de uma cidade.
Mas exista público suficiente quando toda a audiência potencial é reunida nacionalmente.
Connected TV permite que nichos geográficos se transformem em nichos digitais.
FAST Channels estão reinventando a televisão gratuita
Existe outra transformação acontecendo rapidamente.
Durante os primeiros anos do streaming, parecia que tudo caminharia para assinaturas.
O consumidor teria vários serviços pagos.
Na prática, surgiu fadiga de assinaturas.
E isso abriu espaço para os FAST Channels.
FAST significa Free Ad Supported Streaming Television.
São canais gratuitos financiados por publicidade.
Para o usuário, a experiência possui algo familiar.
Ele abre um canal.
Existe uma programação acontecendo.
Não precisa necessariamente escolher cada vídeo.
É uma mistura interessante entre a televisão linear e a infraestrutura da internet.
Samsung TV Plus é um exemplo importante desse movimento.
Em setembro de 2026, a plataforma brasileira já destacava canais de creators e marcas de mídia como Omelete TV, Podpah, TV Flow, Manual do Mundo, DiaTV e outros.
Veja exemplos atuais de canais disponíveis no Samsung TV Plus no Brasil
Isso revela algo importante.
Creators estão chegando à televisão.
Durante anos, talentos saíram da TV para a internet.
Agora parte do conteúdo que nasceu na internet está fazendo o caminho inverso.
Só que retorna para uma televisão completamente diferente.
Todo proprietário de conteúdo começa a poder pensar como uma emissora
Esse fenômeno muda a lógica para criadores.
Um produtor de conteúdo não precisa pensar apenas:
“Qual vídeo vou publicar amanhã?”
Pode começar a pensar:
“Qual programação posso construir?”
Essa mudança é profunda.
Bibliotecas antigas podem ser reorganizadas.
Conteúdos podem ser agrupados por tema.
Programas podem ganhar horários.
Novos canais FAST podem surgir.
Uma marca que acumulou milhares de horas de conteúdo ao longo dos anos pode descobrir que possui um ativo de mídia que nunca enxergou dessa forma.
Isso cria oportunidades para:
📺 canais temáticos
🎬 conteúdo sob demanda
💰 publicidade
⭐ patrocínios
💳 assinaturas
📊 dados de audiência
🔄 distribuição multiplataforma
A televisão volta a ter grade.
Mas agora a grade pode ser construída por empresas que nunca possuíram uma torre de transmissão.
Software muda também a maneira de monetizar televisão
Quando televisão e software se encontram, aparecem novos modelos de negócio.
Um aplicativo pode ser gratuito.
Pode cobrar assinatura.
Pode utilizar publicidade.
Pode oferecer compra dentro do aplicativo.
Pode combinar conteúdo gratuito e premium.
Pode utilizar patrocinadores.
Pode funcionar como extensão de outro negócio.
Na documentação da Roku, por exemplo, a plataforma prevê recursos para assinaturas, transações dentro de aplicativos, autenticação, analytics e monetização.
Isso aproxima o ecossistema de Smart TVs da lógica SaaS e mobile.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Quanto custa colocar meu canal na TV?”
E passa a ser:
“Qual modelo de negócio posso construir dentro da TV?”
A publicidade também está virando software
Na televisão tradicional, a publicidade segue uma lógica relativamente conhecida.
Programa.
Intervalo.
Comercial.
Connected TV introduz outra camada.
A publicidade pode ser:
🎯 segmentada
📊 mensurada
⚙️ comprada programaticamente
👥 direcionada por audiência
📍 regionalizada
🛍️ interativa
🔄 integrada a outras telas
Uma campanha exibida em uma televisão pode participar de um ecossistema de dados semelhante ao da publicidade digital.
A Roku resume essa proposta como a combinação entre o impacto da televisão e a precisão do digital, incluindo segmentação endereçável, mensuração e mídia programática.
Não significa que CTV seja simplesmente um anúncio do Instagram em uma tela maior.
O contexto é diferente.
A experiência é diferente.
A atenção é diferente.
Mas a infraestrutura começa a ganhar capacidades digitais.
A tela inicial virou território econômico
Há uma camada de software extremamente estratégica que poucas pessoas observam:
a home da televisão.
Antes de abrir Netflix, YouTube ou qualquer aplicativo, o usuário passa pela interface do sistema operacional.
Ali aparecem:
aplicativos
conteúdos recomendados
banners
canais
busca
serviços
publicidade
shopping
Essa tela se tornou um território extremamente valioso.
Quem controla a home influencia descoberta.
Quem influencia descoberta influencia audiência.
Quem influencia audiência influencia receita.
A LG, por exemplo, documenta oficialmente que a tela inicial atual do webOS possui hero banner, recomendações, aplicativos, publicidade, LG Channels, streaming e área de shopping.
A TV deixou de ser apenas hardware.
O sistema operacional passou a controlar parte importante da relação entre usuário e conteúdo.
Descoberta será tão importante quanto instalação
No smartphone, existe um problema conhecido.
Milhões de aplicativos competem por atenção.
Na televisão, algo semelhante começa a acontecer.
Ter um aplicativo publicado não significa automaticamente ser encontrado.
Por isso, fabricantes estão investindo em descoberta.
Em maio de 2026, o Google informou possuir mais de 300 milhões de dispositivos ativos mensalmente entre Google TV e Android TV e anunciou novas ferramentas destinadas justamente a aumentar descoberta e engajamento de aplicativos.
Veja as novidades para descoberta de apps no Google TV
Isso aponta para uma nova disciplina.
Podemos começar a falar em algo semelhante a:
TV App Optimization.
Assim como empresas aprenderam SEO para Google e ASO para lojas de aplicativos móveis, publishers precisarão aprender como aumentar descoberta dentro das televisões.
Imagem.
Título.
Metadados.
Recomendação.
Conteúdo.
Retenção.
Engajamento.
Tudo começa a importar.
Inteligência artificial vai transformar a interface da TV
Aqui está uma das partes mais interessantes do futuro próximo.
Durante décadas, navegamos pela televisão utilizando números.
Depois vieram menus.
Depois aplicativos.
Agora podemos entrar na era da intenção.
Em vez de navegar por dezenas de menus, o usuário poderá simplesmente dizer:
“Quero uma comédia brasileira leve.”
“Mostre os melhores gols de ontem.”
“Encontre uma aula sobre inteligência artificial.”
“Quero um desenho para uma criança de cinco anos.”
“Continue a série que eu estava vendo.”
O Google já está levando Gemini para a experiência do Google TV, combinando voz, texto, vídeo e elementos visuais para ajudar usuários a encontrar conteúdo e realizar outras tarefas.
Isso pode transformar completamente a descoberta.
A interface deixa de ser:
menu → aplicativo → categoria → conteúdo
e pode se tornar:
intenção → resultado.
Esse movimento terá enorme impacto para quem desenvolve software para televisão.
A IA pode transformar a TV em um agente doméstico
Existe uma etapa ainda mais ambiciosa.
Hoje pensamos na televisão como destino.
Amanhã ela pode funcionar como interface para outros sistemas.
Imagine dizer:
“Mostre as câmeras da entrada.”
“Apague as luzes da sala.”
“Coloque uma música para jantar.”
“Mostre minhas reuniões de amanhã.”
“Abra meu treino.”
“Quero acompanhar o jogo enquanto vejo as estatísticas.”
A televisão possui características interessantes para isso.
É grande.
Está sempre no mesmo lugar.
Pode mostrar informação para várias pessoas.
Possui microfone em alguns dispositivos e pode trabalhar com comandos de voz.
Está conectada ao ecossistema doméstico.
A integração entre Smart TV, IA e Internet das Coisas pode abrir categorias completamente novas de aplicações.
Gaming reforça a tese da TV como plataforma
Outro exemplo importante é gaming.
A televisão sempre esteve relacionada a videogames.
Mas historicamente o processamento acontecia no console.
Com cloud gaming e aplicações próprias, parte dessa lógica começa a mudar.
A TV pode deixar de ser apenas display.
Pode se tornar ponto de acesso ao serviço.
Esse detalhe é essencial.
Sempre que uma função que antes exigia hardware adicional passa a existir diretamente no sistema operacional da televisão, a importância da plataforma cresce.
O mesmo ocorreu nos smartphones.
Câmera.
GPS.
Música.
Pagamentos.
Mapas.
Tudo foi sendo absorvido pela plataforma.
Algo semelhante pode acontecer gradualmente na televisão.
Commerce pode encontrar espaço na tela grande
A ideia de comprar produtos pela televisão existe há décadas.
Mas durante muito tempo a experiência foi ruim.
Telefone.
Código.
Site separado.
Connected TV cria possibilidades diferentes.
QR Code.
Segunda tela.
Conta autenticada.
Aplicativo.
Integração com smartphone.
Shopping dentro do sistema.
Publicidade interativa.
Imagine assistir a um programa de gastronomia e receber acesso à receita e aos produtos utilizados.
Assistir a um jogo e encontrar a camisa oficial.
Ver um conteúdo de viagem e explorar hospedagens.
Assistir a um show e comprar ingresso para a próxima apresentação.
A televisão pode iniciar uma transação que termina no celular.
Ou, eventualmente, concluir a própria transação.
É uma oportunidade ainda em desenvolvimento, mas estrategicamente importante.
Connected TV não interessa somente às empresas de mídia
Esse talvez seja um dos maiores erros de percepção.
CTV parece uma oportunidade apenas para emissoras, produtoras e serviços de streaming.
Não é.
Empresas de diversos setores podem utilizar a televisão como plataforma.
Uma academia pode criar aulas.
Uma construtora pode apresentar empreendimentos.
Uma rede hoteleira pode oferecer serviços nos quartos.
Uma universidade pode criar conteúdo educacional.
Uma empresa pode disponibilizar treinamento interno.
Uma rede de clínicas pode fornecer conteúdo informativo.
Uma instituição financeira pode criar educação financeira.
Um varejista pode desenvolver experiências de conteúdo e commerce.
Uma prefeitura pode oferecer informações e serviços.
Nem todo projeto precisará de um aplicativo de Smart TV.
Mas a partir do momento em que dezenas de milhões de brasileiros utilizam televisões conectadas, ignorar completamente essa superfície digital deixa de ser óbvio.
Existe também uma oportunidade para desenvolvedores
Todo novo ecossistema cria demanda por profissionais capazes de construir para ele.
Smart TV exige competências particulares.
Navegação por foco.
Controle remoto.
Gerenciamento de memória.
Performance.
Players de vídeo.
DRM.
Streaming adaptativo.
Login.
APIs.
Analytics.
Compatibilidade.
Certificados.
Homologação.
Publicação.
A LG enfatiza, por exemplo, que aplicações para TV precisam ser pensadas para uma experiência chamada lean back, diferente da interação típica de dispositivos móveis.
No Android TV, o Google recomenda interfaces que possam ser vistas claramente a aproximadamente três metros de distância e operadas com controle direcional.
Isso significa que simplesmente transportar um aplicativo mobile para a televisão costuma produzir uma experiência ruim.
TV é uma especialidade.
E especialidades criam mercado.
HTML, JavaScript, BrightScript e diferentes ecossistemas
Outro aspecto interessante é a diversidade tecnológica.
Samsung Tizen permite desenvolver aplicações web e oferece SDK próprio.
LG webOS trabalha fortemente com tecnologias web, incluindo HTML, CSS e JavaScript.
Roku possui BrightScript e SceneGraph como elementos importantes do desenvolvimento.
Google TV e Android TV utilizam o ecossistema Android.
Isso cria um desafio para empresas que desejam presença ampla.
Uma estratégia multiplataforma precisa considerar:
arquitetura
reutilização de componentes
APIs
design
players
controle remoto
testes
publicação
manutenção
Não basta fazer “um aplicativo para televisão”.
Na prática, existem vários ecossistemas dentro da televisão.
O backend será tão importante quanto o aplicativo
Existe outra camada invisível.
O aplicativo é apenas a ponta.
Por trás dele podem existir:
🌐 APIs
📹 plataformas de vídeo
☁️ CDN
🔐 autenticação
💳 pagamentos
📊 analytics
🗂️ CMS
📺 EPG
🔑 DRM
🧠 recomendação
📡 streaming ao vivo
🖼️ gerenciamento de imagens
Uma empresa que queira operar profissionalmente em Connected TV precisa pensar em arquitetura.
Se o aplicativo cresce, conteúdo, usuários e dispositivos crescem junto.
É exatamente nesse ponto que Connected TV deixa definitivamente de ser “um vídeo na televisão”.
Passa a ser um produto de software.
UX para televisão vai ganhar importância
Durante anos, profissionais aprenderam UX para desktop.
Depois mobile first.
Agora existe outra lógica.
Na televisão, o usuário está longe.
O texto precisa ser legível.
O foco precisa estar visível.
A navegação precisa ser previsível.
O número de ações deve ser reduzido.
Digitar é difícil.
O controle remoto possui poucas teclas.
Animações pesadas podem comprometer dispositivos antigos.
Um erro que no celular incomoda pode tornar um app de televisão praticamente impossível de usar.
Existe uma disciplina própria.
Quem dominar essa experiência terá vantagem.
A TV 3.0 tornará a convergência brasileira ainda maior
O Brasil possui ainda uma transformação adicional acontecendo.
A TV 3.0, também conhecida como DTV+, representa a próxima geração da televisão aberta brasileira.
O Ministério das Comunicações descreve o sistema como uma evolução que inclui melhor qualidade audiovisual, maior eficiência espectral e, principalmente, integração nativa entre radiodifusão e internet.
Conheça o projeto oficial da TV 3.0 brasileira
Em 2026, o grupo responsável pela implantação continuava trabalhando na implementação, com normas técnicas e condições regulatórias sendo estruturadas para a nova geração.
Isso é extremamente relevante para quem trabalha com software.
O futuro da televisão brasileira poderá misturar de maneira cada vez mais transparente:
📡 broadcast
🌐 broadband
📱 aplicativos
📊 dados
🎯 publicidade direcionada
🛒 interatividade
🎬 streaming
Para o consumidor, talvez a diferença entre televisão aberta e aplicativo se torne cada vez menos importante.
Para desenvolvedores, emissoras e empresas, essa integração cria possibilidades inteiramente novas.
Quanto mais software, maior a responsabilidade
Toda transformação digital traz riscos.
Se televisões coletam dados, precisam respeitar privacidade.
Se possuem contas, precisam proteger identidade.
Se permitem compras, precisam proteger transações.
Se utilizam publicidade direcionada, precisam lidar com consentimento e transparência.
Se integram dispositivos domésticos, segurança se torna ainda mais crítica.
No Brasil, isso significa também considerar a LGPD.
O IAB Brasil coloca privacidade, dados de primeira parte e mensuração entre os grandes desafios do ecossistema atual de CTV.
A televisão deixa de ser apenas receptor.
Ela se torna dispositivo conectado.
E dispositivos conectados precisam ser tratados como infraestrutura digital.
O desafio da fragmentação
Existe, porém, um obstáculo importante.
O ecossistema é fragmentado.
Samsung.
LG.
Roku.
Google.
Amazon.
Apple.
Fabricantes regionais.
Versões antigas.
Versões novas.
Diferentes engines.
Diferentes lojas.
Diferentes certificações.
Diferentes recursos.
Isso torna o desenvolvimento mais complexo do que no web tradicional.
Mas existe outra maneira de olhar para esse problema.
Fragmentação também cria barreira de entrada.
E barreira de entrada pode criar oportunidade para empresas especializadas.
Quanto mais difícil for publicar, homologar, manter e distribuir aplicações em várias plataformas, maior o valor de quem sabe fazer isso de maneira consistente.
O mercado não será construído apenas pelos gigantes
Netflix, Google, Amazon, Samsung e Disney naturalmente ocupam posições importantes.
Mas as plataformas digitais mais interessantes quase sempre criam uma segunda camada econômica.
Empresas menores.
Desenvolvedores.
Agências.
Publishers.
Ferramentas.
SaaS.
Infraestrutura.
Analytics.
Monetização.
Conteúdo.
Integrações.
Quando a web cresceu, surgiram milhares de negócios ao redor dela.
Quando mobile cresceu, ocorreu o mesmo.
Connected TV pode gerar uma cadeia semelhante.
Talvez menor do que mobile.
Talvez mais especializada.
Mas potencialmente muito relevante.
Quem deve começar a observar Connected TV agora?
Eu dividiria em alguns grupos.
📺 Emissoras e produtoras
Precisam pensar em distribuição própria e presença multiplataforma.
🎥 Creators e proprietários de conteúdo
Devem analisar se suas bibliotecas podem virar canais, aplicativos ou produtos de streaming.
🏢 Empresas
Precisam observar oportunidades em treinamento, mídia, comunicação e experiências de marca.
💻 Desenvolvedores
Podem construir especialização em plataformas que ainda possuem oferta menor de profissionais do que web e mobile.
📢 Agências
Precisam compreender criatividade, mídia e mensuração para CTV.
🛒 Varejistas
Devem acompanhar a aproximação entre televisão, publicidade e commerce.
🤖 Empresas de IA
Podem explorar recomendação, busca, personalização e interfaces conversacionais para a grande tela.
A oportunidade não é criar aplicativos porque existe uma TV
É importante evitar entusiasmo sem estratégia.
Nem toda empresa precisa de aplicativo para Smart TV.
Assim como nem toda empresa precisava de aplicativo próprio para smartphone.
A pergunta correta é:
Existe uma experiência que faz sentido na televisão?
Se a resposta for sim, algumas perguntas vêm depois.
Quem é o usuário?
Qual problema resolvemos?
Por que ele abriria o aplicativo?
Com que frequência?
Existe conteúdo?
Existe modelo de negócio?
Qual plataforma priorizar?
Como medir?
Como manter?
Como monetizar?
Software sem estratégia vira apenas um ícone esquecido na tela inicial.
A vantagem estará em pensar TV como produto
Esse talvez seja o ponto central.
Muitas empresas ainda tratam presença na Smart TV como projeto pontual.
“Precisamos de um app.”
Desenvolve.
Publica.
Acabou.
Mas aplicativos relevantes nunca terminam na publicação.
Eles precisam:
evoluir
medir
corrigir
recomendar
reter
melhorar
adaptar
integrar
experimentar
Quando uma empresa entende isso, deixa de possuir “um aplicativo de TV”.
Passa a possuir um produto de Connected TV.
Essa mudança de mentalidade é decisiva.
Como imagino a Connected TV dos próximos anos
A televisão provavelmente ficará menos dependente de aplicativos isolados.
Conteúdos e serviços poderão aparecer diretamente na home.
Busca será mais inteligente.
IA entenderá intenção.
Sistemas recomendarão experiências.
Aplicativos conversarão com outros dispositivos.
Commerce ficará mais próximo.
Streaming linear e sob demanda continuarão se misturando.
Broadcast e internet poderão convergir ainda mais no Brasil com TV 3.0.
A tela continuará grande.
Mas o software por trás dela será cada vez mais importante.
É justamente aí que está a oportunidade.
Conclusão: a próxima grande plataforma pode já estar na sua sala
Quando pensamos no futuro do software, nossa tendência é olhar para tecnologias distantes.
Realidade aumentada.
Óculos inteligentes.
Robótica.
Computação espacial.
Tudo isso pode ser importante.
Mas existe uma plataforma enorme que já está instalada dentro de milhões de casas brasileiras.
A televisão.
Ela possui tela.
Processador.
Sistema operacional.
Internet.
Aplicativos.
Loja.
Dados.
Publicidade.
Streaming.
Usuários.
E agora começa a ganhar inteligência artificial.
No Brasil, 88 milhões de pessoas já fazem parte da audiência de Connected TV, segundo a Comscore.
Isso não significa que a Smart TV substituirá o smartphone.
Não precisa.
Plataformas não precisam eliminar umas às outras.
Elas ocupam momentos diferentes.
O smartphone domina a mobilidade.
O computador domina parte importante da produtividade.
A televisão pode dominar experiências digitais compartilhadas e audiovisuais dentro da casa.
É justamente essa característica que pode transformá la em uma das plataformas de software mais interessantes desta década.
Hoje, a maioria das pessoas ainda olha para a televisão e vê conteúdo.
Filmes.
Séries.
Vídeos.
Canais.
Quem trabalha com tecnologia precisa começar a olhar um pouco além.
Ali existe:
um sistema operacional,
uma loja,
um ecossistema,
uma audiência,
uma infraestrutura de distribuição,
uma plataforma de publicidade,
uma superfície para IA,
e uma enorme tela esperando novos produtos.
A história do software já mostrou várias vezes que grandes oportunidades surgem quando uma tecnologia deixa de ser apenas um produto e se transforma em plataforma para outras pessoas construírem sobre ela.
Foi assim com computadores pessoais.
Foi assim com a web.
Foi assim com smartphones.
Agora a mesma lógica começa a aparecer na maior tela da casa.
Connected TV no Brasil não é apenas o futuro da televisão.
Pode ser também uma das próximas grandes fronteiras do software.