
Uma empresa identificava um problema, preparava requisitos, procurava desenvolvedores, solicitava orçamento, iniciava um projeto e esperava meses até colocar a primeira versão da solução nas mãos de usuários.
O caminho normalmente se parecia com isto:
Problema → chamado para TI → orçamento → projeto → meses de desenvolvimento → aplicação.
A inteligência artificial começou a comprimir radicalmente esse processo.
Hoje, dependendo da complexidade, uma ideia pode avançar assim:
Problema → ferramenta → testar → melhorar.
Essa mudança parece apenas tecnológica, mas suas consequências são econômicas.
Quando construir software era caro, possuir capacidade técnica representava uma barreira competitiva importante.
Quando desenvolver começa a ficar mais acessível, a vantagem se desloca.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Conseguimos construir?”
E passa a ser:
“Vale a pena construir?”
Essa é uma das transformações mais importantes provocadas pela inteligência artificial no empreendedorismo.
Três nomes do ecossistema de tecnologia ajudam a explicar essa nova realidade sob perspectivas diferentes: Amjad Masad, da Replit, Dan Martell, empreendedor e investidor, e Andrew Ng, uma das principais referências mundiais em inteligência artificial.
Quando colocamos as ideias dos três lado a lado, surge praticamente uma nova fórmula para criação de negócios na era da IA.
Três ideias que se completam
Amjad Masad defende uma visão na qual software está se tornando muito mais acessível.
A própria Replit afirma que modelos de IA estão suficientemente capazes e baratos para tornar resultados anteriormente inacessíveis muito mais práticos. A empresa descreve casos de usuários criando negócios, substituindo softwares legados e construindo aplicações utilizando agentes de IA.
Conheça a visão da Replit sobre desenvolvimento com IA
Podemos resumir sua tese em:
Construir está ficando barato.
Dan Martell olha para o problema por outro ângulo.
Segundo ele, um dos maiores erros de empreendedores é começar perguntando:
“O que quero construir?”
quando deveriam perguntar:
“Que problema as pessoas já estão pagando para resolver?”
Martell relata que seus primeiros negócios fracassaram justamente porque começou pela tecnologia. Sua mudança ocorreu quando passou a procurar problemas associados a dinheiro já sendo gasto no mercado.
Leia o método de Dan Martell para negócios com IA
Sua ideia pode ser resumida assim:
Primeiro encontre algo pelo qual alguém paga.
Andrew Ng adiciona a terceira peça.
Em entrevista publicada em agosto de 2026, Ng afirmou que, como o custo de construir caiu drasticamente, as pessoas deveriam aprender IA, construir rapidamente e conversar com clientes.
Mas há uma observação ainda mais importante: seres humanos possuem aquilo que ele chama de vantagem de contexto.
Uma pessoa que trabalha anos em determinado setor sabe coisas que um modelo genérico de IA não sabe.
Ela entende clientes.
Conhece exceções.
Reconhece problemas recorrentes.
Sabe quais soluções falharam anteriormente.
Entende detalhes operacionais que muitas vezes nunca foram documentados.
Ng resume essa transformação dizendo que, quando o custo de construir despenca, o desafio passa a ser decidir o que realmente deve ser construído.
Sua contribuição para nossa fórmula seria:
Encontre problemas e use seu contexto para construir soluções.
Quando combinamos as três ideias, chegamos a algo poderoso:
Problema real + dinheiro sendo gasto + contexto específico + IA = oportunidade de negócio.
A tecnologia deixou de ser o ponto de partida
Durante o primeiro grande ciclo da IA generativa, milhares de produtos nasceram seguindo uma lógica simples:
“Olhe o que esta tecnologia consegue fazer.”
Geradores de texto.
Geradores de imagem.
Resumidores.
Chatbots.
Assistentes.
Ferramentas de produtividade.
Algumas se tornaram grandes negócios.
Muitas outras desapareceram.
O problema é que capacidade tecnológica e oportunidade comercial não são a mesma coisa.
Uma tecnologia impressionante pode resolver um problema pelo qual ninguém está disposto a pagar.
Ao mesmo tempo, um software aparentemente simples pode resolver uma dor tão importante que empresas aceitam pagar centenas ou milhares de reais mensalmente.
Dan Martell sintetiza essa diferença dizendo que problemas geram dinheiro, ferramentas não.
Esse princípio é especialmente relevante agora.
Se praticamente qualquer empreendedor consegue acessar modelos avançados de linguagem, geração de imagem, voz, automação e programação, utilizar IA deixa de ser uma vantagem competitiva em si.
A vantagem precisa estar em outro lugar.
O novo gargalo é escolher o problema certo
Imagine duas pessoas.
A primeira domina diversas ferramentas de IA.
Conhece modelos.
Sabe criar agentes.
Consegue desenvolver aplicações rapidamente.
Mas não conhece profundamente nenhum problema empresarial.
A segunda entende há quinze anos o funcionamento de um determinado setor.
Sabe onde empresas perdem dinheiro.
Sabe quais processos irritam os funcionários.
Sabe o que clientes reclamam.
Sabe onde acontecem erros.
Sabe o que ainda é controlado por planilha.
E agora aprende a utilizar IA para construir.
Quem possui maior possibilidade de encontrar uma oportunidade difícil de copiar?
Provavelmente a segunda.
É aqui que o conceito de contexto se torna estratégico.
A IA possui conhecimento amplo.
O profissional possui conhecimento situado.
Ele sabe que determinado processo funciona de uma forma na teoria e de outra completamente diferente no cotidiano.
Ele sabe que determinado cliente sempre pede determinada condição.
Sabe que uma regra aparentemente simples possui cinco exceções.
Sabe que determinada tarefa leva três horas não porque seja tecnicamente complicada, mas porque depende de informações espalhadas em seis sistemas.
Esse tipo de conhecimento é matéria prima para novos softwares.
A vantagem injusta muda de significado
No empreendedorismo tradicional, vantagem competitiva podia significar:
capital;
patente;
tecnologia proprietária;
rede de distribuição;
marca;
equipe técnica;
acesso exclusivo a fornecedores.
Na era da IA, surge outra categoria:
contexto proprietário.
Não significa possuir segredos misteriosos.
Significa compreender profundamente um problema que outras pessoas observam apenas superficialmente.
Uma clínica conhece as razões reais pelas quais pacientes faltam.
Uma transportadora conhece os pontos exatos onde documentos provocam atrasos.
Uma indústria sabe quais pequenas inconsistências normalmente antecedem um problema maior.
Uma imobiliária sabe por que determinados leads desaparecem.
Um departamento financeiro sabe quais clientes atrasam pagamentos e quais abordagens funcionam melhor.
Esse conhecimento pode ser incorporado ao software.
Com o tempo, a aplicação acumula dados, histórico, processos, feedback e padrões.
Então surge uma vantagem mais difícil de copiar.
Não porque outra empresa não consiga utilizar o mesmo modelo de IA.
Mas porque ela não possui o mesmo contexto operacional acumulado.
Comece onde o dinheiro já existe
Existe uma forma simples de reduzir drasticamente o risco de criar algo que ninguém quer:
siga o dinheiro.
Onde empresas já gastam dinheiro existe pelo menos um sinal de que algum problema é importante.
Isso não significa copiar a solução existente.
Significa investigar a razão pela qual aquele orçamento existe.
Se empresas gastam milhares de reais com cobrança, existe uma dor relacionada a recebimentos.
Se gastam com ferramentas de agenda, existe uma dor relacionada a capacidade e horários.
Se gastam com equipes verificando documentos, existe uma dor operacional.
Se gastam com vendedores fazendo follow up, existe uma dor ligada à conversão.
Se contratam consultorias para determinado processo, existe uma dor suficientemente importante para justificar orçamento.
Dan Martell recomenda justamente observar empresas de consultoria porque seu catálogo de serviços funciona, em muitos casos, como uma lista de problemas pelos quais outras empresas já pagam.
Esse raciocínio é muito melhor do que abrir uma IA e perguntar:
“Me dê dez ideias de startup.”
Uma pergunta genérica tende a produzir ideias genéricas.
Procure processos feios, não apenas mercados bonitos
Uma das maiores oportunidades da inteligência artificial pode estar em processos que quase ninguém acha interessantes.
Documentos.
Cobranças.
Planilhas.
Orçamentos.
Conferências.
Cadastros.
Relatórios.
Conciliações.
Vencimentos.
Agendamentos.
Propostas.
Follow ups.
A tecnologia costuma receber atenção quando produz algo visualmente impressionante.
Mas empresas frequentemente pagam muito mais para resolver algo extremamente desagradável.
Um relatório feito manualmente toda sexta feira.
Uma equipe copiando dados de PDFs.
Uma pessoa conferindo 300 documentos.
Um vendedor tentando lembrar para quem precisa retornar.
Um funcionário comparando planilhas.
Um cliente aguardando resposta porque ninguém percebeu sua mensagem.
Quando encontramos uma tarefa repetitiva, frequente, cara e relativamente estruturada, temos um excelente candidato para automação com IA.
Pequenas equipes podem construir mais
Essa transformação já começa a aparecer na estrutura das empresas de software.
A Gartner projeta que, até 2029, 60% das organizações utilizarão equipes menores de engenharia em escala, contra cerca de 15% em 2026. A consultoria ressalta que isso não significa simplesmente cortar pessoas, mas utilizar IA para liberar profissionais de tarefas rotineiras e aumentar sua capacidade de resolver problemas mais complexos.
Veja a análise da Gartner sobre equipes menores de software
É uma mudança profunda.
Uma pequena equipe agora pode fazer coisas que anteriormente exigiriam:
gerente de produto;
designer;
desenvolvedor frontend;
desenvolvedor backend;
analista de dados;
redator;
QA;
especialista em automação.
Isso não significa que todas essas profissões desaparecerão.
Significa que o ponto mínimo necessário para criar um produto funcional está diminuindo.
Construir barato não significa construir bem
É importante evitar um exagero comum.
A IA acelerou o desenvolvimento, mas não eliminou complexidade.
A própria Gartner observa que organizações ainda encontram dificuldade em capturar consistentemente grandes ganhos de produtividade em todo o ciclo de desenvolvimento de software.
Construir um protótipo tornou se muito mais fácil.
Construir um negócio sustentável continua difícil.
Ainda precisamos pensar em:
segurança;
dados;
privacidade;
interface;
integrações;
disponibilidade;
suporte;
vendas;
marketing;
precificação;
retenção;
experiência do cliente.
A IA reduz o custo da execução.
Ela não elimina as leis básicas dos negócios.
Validar antes de desenvolver passa a ser ainda mais importante
Existe uma ironia interessante.
Como construir ficou mais fácil, poderíamos imaginar que validar antes é menos necessário.
O contrário pode ser verdade.
Se podemos criar dez protótipos no tempo em que anteriormente criaríamos um, o desperdício potencial também aumenta.
A pergunta certa não é:
“Consigo construir isso?”
A resposta provavelmente será cada vez mais “sim”.
A pergunta deve ser:
“Alguém realmente quer isso?”
Por isso, antes de desenvolver uma plataforma completa, vale criar:
uma landing page;
uma demonstração;
um protótipo;
uma operação manual;
uma apresentação;
uma oferta.
Depois mostramos para potenciais clientes.
Não perguntamos apenas:
“Gostou da ideia?”
Perguntamos:
“Você pagaria?”
Existe uma diferença enorme.
Pessoas elogiam ideias gratuitamente.
Clientes pagam para resolver problemas.
O novo empreendedor começa pequeno
A antiga lógica favorecia grandes projetos.
Meses de planejamento.
Grandes especificações.
Equipes extensas.
Investimento inicial significativo.
A nova lógica favorece experimentação.
Problema → hipótese → protótipo → cliente → feedback → melhoria.
Essa abordagem reduz risco.
Também produz uma vantagem estratégica.
Você aprende enquanto concorrentes continuam planejando.
Andrew Ng relata que ele próprio cria pequenas ferramentas com frequência quando encontra problemas em sua equipe ou em seu trabalho. Sua recomendação para quem deseja construir em 2026 é simples: aprender IA, construir rápido e conversar com clientes.
Esse conselho pode parecer óbvio.
Mas altera profundamente a relação entre ideia e execução.
Um framework para encontrar oportunidades com IA
Uma maneira prática de aplicar essas ideias é passar qualquer oportunidade por cinco perguntas.
1. Qual problema está acontecendo repetidamente?
Procure algo observável.
Não “empresas precisam melhorar produtividade”.
Mas:
“três funcionários gastam quatro horas toda sexta feira conferindo documentos”.
Isso é um problema.
2. Quanto esse problema custa?
Pode custar:
dinheiro;
horas;
clientes;
erros;
multas;
capacidade ociosa;
vendas perdidas.
Quanto mais mensurável for a consequência, mais fácil será vender.
3. Alguém já paga para resolver isso?
Pesquise softwares existentes.
Consultorias.
Funcionários dedicados.
Terceirização.
Planilhas caras em tempo humano.
Concorrência não é necessariamente má notícia.
Às vezes é a confirmação de que existe mercado.
4. Que contexto específico podemos incorporar?
Aqui nasce a vantagem.
Regras do setor.
Dados históricos.
Padrões.
Processos.
Exceções.
Integrações.
Conhecimento operacional.
5. Qual é a menor versão que alguém pagaria para usar?
Não construa vinte funcionalidades.
Construa a menor máquina possível de gerar resultado.
O software do futuro pode ser muito mais vertical
Durante anos, boa parte da indústria de software perseguiu mercados horizontais.
CRM para todos.
ERP para todos.
Agenda para todos.
Automação para todos.
IA favorece uma nova explosão de soluções verticais.
IA para um tipo específico de clínica.
IA para determinado processo industrial.
IA para imobiliárias.
IA para transportadoras.
IA para escritórios contábeis.
IA para franquias.
IA para determinados tipos de documentos.
Quanto mais específico o problema, maior a possibilidade de incorporar contexto real.
E quanto maior o contexto, menor a possibilidade de o cliente simplesmente substituir o produto por um prompt genérico.
O grande mercado pode estar escondido em milhares de pequenos problemas
Nem todo negócio de IA precisa conquistar centenas de milhões de consumidores.
Imagine um produto que cobre R$ 299 mensais.
Com 1.000 clientes:
R$ 299 mil de receita recorrente mensal.
Com 3.000 clientes:
R$ 897 mil por mês.
Mercados considerados pequenos por grandes empresas podem ser excelentes para equipes pequenas.
É justamente por isso que a redução no custo de desenvolvimento é tão importante.
Problemas que anteriormente não justificavam construir software próprio agora podem justificar.
Isso cria espaço para milhares de novos produtos.
O empreendedor deixa de ser apenas gestor e passa a ser construtor
Existe outra transformação acontecendo.
Marketing começa a construir ferramentas.
Financeiro cria automações.
RH cria sistemas internos.
Operações prototipa aplicações.
Especialistas de negócio tornam se parcialmente desenvolvedores.
Andrew Ng tem enfatizado exatamente essa mudança, inclusive incentivando pessoas sem experiência prévia em programação a criarem aplicações utilizando IA. A DeepLearning.AI lançou em 2026 um curso voltado justamente a ensinar pessoas a transformar uma ideia descrita em linguagem natural em um aplicativo.
Isso diminui a distância entre:
quem conhece o problema
e
quem consegue construir a solução.
Historicamente essa distância era enorme.
Agora está diminuindo.
O maior erro será construir porque podemos
A capacidade tecnológica cria uma tentação perigosa.
Quando algo pode ser criado em poucas horas, começamos a criar antes de pensar.
Mas velocidade sem direção continua sendo desperdício.
A pergunta decisiva da nova economia de IA não será:
“O que a inteligência artificial consegue fazer?”
Será:
“Qual problema importante ficou economicamente viável resolver agora?”
Essa mudança de perspectiva separa demonstrações interessantes de negócios reais.
A oportunidade não está na IA, está no problema
Amjad Masad nos mostra que construir software está ficando mais acessível.
Dan Martell lembra que um negócio precisa começar onde existe dor e disposição para pagar.
Andrew Ng acrescenta que o ser humano possui contexto, conhecimento e julgamento que modelos genéricos ainda não possuem.
Juntos, esses três princípios criam uma fórmula extremamente poderosa:
Construa barato.
Resolva algo valioso.
Use contexto para ser difícil de copiar.
A inteligência artificial está democratizando a execução.
Isso significa que ter uma ideia e conseguir programá la já não representa a mesma vantagem de alguns anos atrás.
A vantagem estará cada vez mais em enxergar aquilo que outras pessoas não enxergam.
Encontrar o processo desperdiçado.
A receita perdida.
O documento esquecido.
A tarefa repetitiva.
A decisão mal informada.
O cliente abandonado.
A ineficiência considerada “normal”.
E então perguntar:
“Por que ainda fazemos isso dessa maneira?”
É nesse momento que IA deixa de ser apenas tecnologia.
Ela se transforma em ferramenta empresarial.
O empreendedor da próxima década talvez não seja aquele que possui a maior equipe técnica.
Pode ser aquele que entende profundamente um problema, consegue conversar com clientes e utiliza inteligência artificial para transformar esse conhecimento em software rapidamente.
Antes da IA, muitas ideias morriam porque eram caras demais para construir.
Depois da IA, o risco pode ser exatamente o contrário:
construir coisas demais que ninguém precisa.
Por isso, talvez a habilidade mais valiosa da era da inteligência artificial não seja programar.
Nem dominar prompts.
Nem conhecer todos os modelos disponíveis.
Será saber identificar:
qual problema merece ser resolvido.
E encontrar alguém disposto a pagar para que ele desapareça.