Segundo Dr. Roman Yampolskiy, em 2030 só restarão 5 empregos? O alerta extremo sobre IA e o futuro do trabalho

Dr. Roman Yampolskiy

2030 pode marcar o início do fim do emprego como conhecemos?

Durante décadas, sem­pre que uma nova tec­nolo­gia surgiu, uma per­gun­ta acom­pan­hou a ino­vação: as máquinas vão tirar nos­sos empre­gos?

A Rev­olução Indus­tri­al mecan­i­zou fábri­c­as. Com­puta­dores elim­i­naram mil­hares de funções admin­is­tra­ti­vas. A inter­net mudou comér­cio, mídia, ban­cos e comu­ni­cação. Mais recen­te­mente, soft­wares autom­a­ti­zaram tare­fas que antes depen­di­am exclu­si­va­mente de profis­sion­ais espe­cial­iza­dos.

Mas o pesquisador de segu­rança em inteligên­cia arti­fi­cial Dr. Roman Yam­pol­skiy acred­i­ta que esta­mos diante de algo fun­da­men­tal­mente difer­ente.

Não seria ape­nas mais uma tec­nolo­gia sub­sti­tuin­do algu­mas tare­fas.

Seria uma tec­nolo­gia capaz de sub­sti­tuir o próprio tra­bal­hador int­elec­tu­al e, pos­te­ri­or­mente, através da robóti­ca, tam­bém o tra­bal­hador físi­co.

Em uma entre­vista pub­li­ca­da em setem­bro de 2025 no pod­cast The Diary of a CEO, apre­sen­ta­do por Steven Bartlett, Yam­pol­skiy afir­mou que poderíamos cam­in­har para níveis de desem­prego próx­i­mos de 99% caso sis­temas de inteligên­cia arti­fi­cial sufi­cien­te­mente capazes sejam ampla­mente implan­ta­dos. O episó­dio gan­hou um títu­lo par­tic­u­lar­mente provoca­ti­vo: These Are The Only 5 Jobs That Will Remain In 2030.

Você pode ouvir o episó­dio orig­i­nal no Apple Pod­casts ou no Spo­ti­fy.

Mas existe um detal­he fun­da­men­tal que muitos con­teú­dos pub­li­ca­dos sobre essa entre­vista estão igno­ran­do.

Yam­pol­skiy não forneceu lit­eral­mente uma lista de cin­co profis­sões que sobre­viverão.

Sua afir­mação é mais pro­fun­da — e talvez mais per­tur­bado­ra.

O que Roman Yampolskiy realmente disse?

Durante a con­ver­sa, Yam­pol­skiy expli­ca uma ideia que chama de algo próx­i­mo a um “drop-in employ­ee”: imag­ine um tra­bal­hador arti­fi­cial que pudesse sim­ples­mente ocu­par a função de um fun­cionário humano.

Esse sis­tema não pre­cis­aria dormir.

Não teria férias.

Não ficaria doente.

Pode­ria oper­ar con­tin­u­a­mente.

Pode­ria apren­der prati­ca­mente de for­ma instan­tânea.

E seu cus­to pode­ria ser semel­hante ao de uma assi­natu­ra de soft­ware.

Na visão do pesquisador, quan­do algo assim se tornar sufi­cien­te­mente com­pe­tente, deixará de faz­er sen­ti­do econômi­co con­tratar humanos para inúmeras ativi­dades real­izadas em com­puta­dores.

Ele afir­ma que, primeiro, ativi­dades dig­i­tais pode­ri­am ser autom­a­ti­zadas. Pos­te­ri­or­mente, robôs humanoides sufi­cien­te­mente habili­dosos pode­ri­am levar essa mes­ma automação ao mun­do físi­co.

Na entre­vista, Yam­pol­skiy diz explici­ta­mente que não está imag­i­nan­do 10% ou 20% de desem­prego, mas algo próx­i­mo de 99%, emb­o­ra faça uma ressal­va extrema­mente impor­tante: pos­suir a capaci­dade tec­nológ­i­ca de autom­a­ti­zar deter­mi­na­da ativi­dade não sig­nifi­ca que ela será ime­di­ata­mente implan­ta­da em toda a econo­mia.

Essa dis­tinção muda bas­tante a inter­pre­tação da pre­visão.

A per­gun­ta não é ape­nas:

“A inteligên­cia arti­fi­cial con­seguirá faz­er meu tra­bal­ho?”

A ver­dadeira per­gun­ta pas­sa a ser:

“Quan­do será eco­nomi­ca­mente, juridica­mente e social­mente aceitáv­el sub­sti­tuir uma pes­soa por ela?”

Quem é Roman Yampolskiy?

Roman V. Yam­pol­skiy é pro­fes­sor asso­ci­a­do de Ciên­cia da Com­putação e Engen­haria na Uni­ver­si­ty of Louisville, nos Esta­dos Unidos, e dire­tor de seu lab­o­ratório de ciberse­gu­rança. Sua pesquisa envolve inteligên­cia arti­fi­cial, segu­rança de IA, ciberse­gu­rança, bio­me­tria com­por­ta­men­tal e super­in­teligên­cia arti­fi­cial. A uni­ver­si­dade infor­ma que ele é autor de mais de uma cen­te­na de pub­li­cações acadêmi­cas e diver­sos livros.

Você pode con­sul­tar o per­fil acadêmi­co ofi­cial de Roman Yam­pol­skiy na Uni­ver­si­ty of Louisville.

Ele tornou-se par­tic­u­lar­mente con­heci­do pelo tra­bal­ho rela­ciona­do à AI Safe­ty, área que bus­ca enten­der como desen­volver sis­temas de inteligên­cia arti­fi­cial avança­dos sem cri­ar com­por­ta­men­tos incon­troláveis ou incom­patíveis com inter­ess­es humanos.

E essa exper­iên­cia aju­da a explicar por que suas pro­jeções são con­sid­er­av­el­mente mais pes­simis­tas do que as de grande parte da indús­tria tec­nológ­i­ca.

Yam­pol­skiy não está sim­ples­mente per­gun­tan­do quan­to a inteligên­cia arti­fi­cial aumen­tará nos­sa pro­du­tivi­dade.

Ele está per­gun­tan­do algo ante­ri­or:

ser­e­mos capazes de con­tin­uar con­trolan­do sis­temas mais inteligentes do que nós?

“Aprenda outra profissão” pode deixar de ser uma solução

Durante prati­ca­mente toda a história da automação mod­er­na, a recomen­dação para tra­bal­hadores ameaça­dos por novas tec­nolo­gias foi sim­ples:

reci­cle-se.

Máquinas sub­sti­tuíram deter­mi­na­do tra­bal­ho?

Apren­da out­ra profis­são.

Soft­ware elim­i­nou deter­mi­na­da ativi­dade?

Apren­da pro­gra­mação.

A inteligên­cia arti­fi­cial começou a pro­duzir tex­tos?

Torne-se engen­heiro de prompts.

O prob­le­ma apre­sen­ta­do por Yam­pol­skiy é que uma inteligên­cia arti­fi­cial ger­al não seria ape­nas uma fer­ra­men­ta espe­cial­iza­da.

Se ela pos­suir capaci­dade de apren­der novas ativi­dades, o próprio proces­so de mudança profis­sion­al pode­ria deixar de fun­cionar.

Na entre­vista, ele usa jus­ta­mente o exem­p­lo da pro­gra­mação.

Poucos anos atrás, “apren­da a pro­gra­mar” era provavel­mente um dos con­sel­hos profis­sion­ais mais recor­rentes do mun­do da tec­nolo­gia.

Depois sur­gi­ram fer­ra­men­tas capazes de ger­ar códi­go.

Então apare­ceu a ideia de que os humanos seri­am necessários para escr­ev­er os coman­dos — os famosos prompts.

Mas sis­temas de IA tam­bém começaram a mel­ho­rar seus próprios prompts e a oper­ar através de agentes.

A lóg­i­ca de Yam­pol­skiy é sim­ples:

se sem­pre existe uma profis­são para a qual um tra­bal­hador pode migrar, a automação con­tin­ua sendo admin­istráv­el.

Mas se a inteligên­cia arti­fi­cial tam­bém con­segue apren­der a profis­são para a qual ele migrou, surge uma situ­ação inédi­ta.

Então quais seriam os “cinco empregos”?

É impor­tante evi­tar uma dis­torção que se espal­hou pela inter­net.

O títu­lo do episó­dio men­ciona “cin­co empre­gos”, mas a con­ver­sa não con­tém uma lista apre­sen­ta­da por Yam­pol­skiy com cin­co car­reiras especí­fi­cas garan­ti­das até 2030. Uma análise inde­pen­dente da entre­vista tam­bém obser­vou jus­ta­mente essa difer­ença entre o títu­lo e o con­teú­do efe­ti­va­mente apre­sen­ta­do.

Na real­i­dade, Yam­pol­skiy ofer­ece um critério muito mais inter­es­sante.

Ele sug­ere que pode­ri­am sobre­viv­er ativi­dades nas quais quer­e­mos delib­er­ada­mente que out­ro humano faça o tra­bal­ho, mes­mo quan­do uma máquina con­segue exe­cutá-lo mel­hor.

O exem­p­lo apre­sen­ta­do é um con­ta­dor.

Uma pes­soa muito rica ou tradi­cional pode­ria preferir con­tin­uar con­tratan­do um con­ta­dor humano sim­ples­mente porque gos­ta dessa relação.

Não porque o profis­sion­al humano seja tec­ni­ca­mente supe­ri­or à IA.

Mas porque existe val­or na par­tic­i­pação humana.

Yam­pol­skiy com­para isso, de cer­ta maneira, ao val­or atribuí­do atual­mente a pro­du­tos arte­sanais.

Uma fábri­ca con­segue pro­duzir deter­mi­na­do obje­to mais rápi­do e bara­to.

Ain­da assim, algu­mas pes­soas pagam mais porque querem algo feito por uma pes­soa.

Essa difer­ença pode se tornar cen­tral na econo­mia futu­ra.

O trabalho humano pode virar um produto premium

Imag­ine um restau­rante em 2035.

Robôs coz­in­ham mel­hor.

Sabem exata­mente a tem­per­atu­ra de cada ali­men­to.

Não con­t­a­m­i­nam ingre­di­entes.

Tra­bal­ham 24 horas.

Pro­duzem pratos idên­ti­cos.

Mes­mo assim, pode exi­s­tir um restau­rante anun­cian­do:

“Aqui toda a comi­da é prepara­da por chefs humanos.”

Isso pode­ria pas­sar a rep­re­sen­tar exclu­sivi­dade.

Algo semel­hante pode­ria acon­te­cer com artis­tas.

Músi­cas pro­duzi­das por inteligên­cia arti­fi­cial pode­ri­am ser tec­ni­ca­mente impecáveis, per­son­al­izadas instan­ta­nea­mente para cada ouvinte e prati­ca­mente gra­tu­itas.

Mes­mo assim, pes­soas pode­ri­am pagar mil­hares de reais para assi­s­tir a um músi­co humano tocan­do ao vivo.

O val­or deixaria de estar exclu­si­va­mente na efi­ciên­cia.

Pas­saria a estar na humanidade.

Esse cenário aju­da a com­preen­der o ver­dadeiro sig­nifi­ca­do da provo­cação de Yam­pol­skiy.

Talvez algu­mas profis­sões sobre­vivam não porque a IA não con­segue real­izá-las, mas porque nós não quer­e­mos que ela sub­sti­tua com­ple­ta­mente as pes­soas.

O grande divisor: quando os robôs ganharem um corpo

Hoje grande parte da dis­cussão sobre inteligên­cia arti­fi­cial con­cen­tra-se em profis­sões dig­i­tais.

Pro­gra­madores.

Design­ers.

Tradu­tores.

Con­ta­dores.

Anal­is­tas.

Advo­ga­dos.

Aten­dentes.

Profis­sion­ais de mar­ket­ing.

Jor­nal­is­tas.

Mas ain­da existe uma aparente bar­reira.

Um mod­e­lo de lin­guagem não con­segue entrar embaixo de uma pia e tro­car um cano.

É jus­ta­mente aí que entram os robôs humanoides.

Na entre­vista, Bartlett per­gun­ta a Yam­pol­skiy sobre 2030. O pesquisador responde que provavel­mente ter­e­mos robôs humanoides com flex­i­bil­i­dade e destreza sufi­cientes para com­pe­tir com pes­soas em difer­entes ativi­dades físi­cas — chegan­do a citar encanadores como exem­p­lo.

Esse momen­to seria um divi­sor históri­co.

Hoje podemos dividir aprox­i­mada­mente a automação em duas grandes cat­e­go­rias:

soft­ware para tra­bal­ho int­elec­tu­al;

máquinas espe­cial­izadas para tra­bal­ho físi­co.

Um robô humanoide conec­ta­do a uma IA ger­al jun­taria as duas coisas.

Ele pode­ria pen­sar e agir fisi­ca­mente.

E isso elim­i­nar­ia jus­ta­mente a pro­teção que muitas profis­sões man­u­ais ain­da pos­suem.

Um robô não precisa ser melhor que todos os humanos

Existe um erro comum nes­sa dis­cussão.

Muitas pes­soas per­gun­tam:

“O robô con­seguirá faz­er meu tra­bal­ho mel­hor do que eu?”

Talvez essa nem seja a per­gun­ta econômi­ca cor­re­ta.

Ele pre­cisa ape­nas ser sufi­cien­te­mente bom.

Imag­ine um profis­sion­al humano cus­tan­do R$ 8 mil por mês para uma empre­sa.

Ago­ra imag­ine um robô que exe­cute 85% da mes­ma ativi­dade, tra­bal­he prati­ca­mente con­tin­u­a­mente e custe uma fração desse val­or ao lon­go de sua vida útil.

A decisão empre­sar­i­al pode não depen­der de quem é mel­hor.

Pode depen­der de quem ofer­ece a mel­hor relação entre cus­to e pro­du­tivi­dade.

Foi exata­mente esse mecan­is­mo que trans­for­mou diver­sos setores indus­tri­ais.

A difer­ença é que esta­mos dis­cutin­do a pos­si­bil­i­dade de aplicá-lo simul­tane­a­mente ao tra­bal­ho cog­ni­ti­vo e físi­co.

Nem todos os especialistas concordam com o cenário de 99%

É aqui que o debate pre­cisa gan­har equi­líbrio.

As pre­visões de Yam­pol­skiy estão muito dis­tantes das pro­jeções cen­trais de algu­mas das maiores orga­ni­za­ções que estu­dam o futuro do tra­bal­ho.

O World Eco­nom­ic Forum, por exem­p­lo, esti­ma que mudanças estru­tu­rais poderão elim­i­nar aprox­i­mada­mente 92 mil­hões de empre­gos até 2030, mas tam­bém cri­ar cer­ca de 170 mil­hões de novos pos­tos, pro­duzin­do um sal­do líqui­do pos­i­ti­vo próx­i­mo de 78 mil­hões de empre­gos. Ess­es números derivam de pesquisas com mais de mil empre­sas e rep­re­sen­tam expec­ta­ti­vas empre­sari­ais, não uma garan­tia sobre o futuro.

Veja o Future of Jobs Report 2025 do World Eco­nom­ic Forum.

A Orga­ni­za­ção Inter­na­cional do Tra­bal­ho (OIT) chegou a uma con­clusão igual­mente menos apoc­alíp­ti­ca.

Seu estu­do glob­al de 2025 anal­isou mil­hares de tare­fas profis­sion­ais e esti­mou que aprox­i­mada­mente um em cada qua­tro tra­bal­hadores está em algu­ma ocu­pação expos­ta à inteligên­cia arti­fi­cial gen­er­a­ti­va. Entre­tan­to, ape­nas 3,3% do emprego mundi­al apare­ceu na cat­e­go­ria de maior exposição.

Mais impor­tante: para a OIT, trans­for­mação de empre­gos é atual­mente mais prováv­el do que sub­sti­tu­ição com­ple­ta, porque a maio­r­ia das profis­sões com­bi­na tare­fas autom­a­tizáveis com ativi­dades que ain­da depen­dem de pes­soas.

Você pode con­sul­tar o estu­do da OIT sobre IA gen­er­a­ti­va e empre­gos.

Quem está certo: Yampolskiy ou os relatórios tradicionais?

Talvez os dois este­jam respon­den­do a per­gun­tas difer­entes.

Esse é um pon­to fun­da­men­tal para enten­der o debate.

WEF, OIT e out­ras insti­tu­ições ten­tam esti­mar o que provavel­mente acon­te­cerá com base em tec­nolo­gias, adoção empre­sar­i­al e condições econômi­cas observáveis atual­mente.

Yam­pol­skiy está descreven­do o que pode­ria acon­te­cer caso ocor­ra uma rup­tura tec­nológ­i­ca.

A difer­ença é gigan­tesca.

Se a inteligên­cia arti­fi­cial con­tin­uar evoluin­do grad­ual­mente, provavel­mente ver­e­mos mil­hões de funções trans­for­madas, algu­mas destruí­das e out­ras cri­adas.

Mas se sur­gir uma inteligên­cia arti­fi­cial ger­al capaz de apren­der prati­ca­mente qual­quer tra­bal­ho int­elec­tu­al e ela for rap­i­da­mente conec­ta­da a robôs igual­mente flexíveis, mod­e­los con­struí­dos com base na econo­mia atu­al podem deixar de fun­cionar.

É como ten­tar pre­v­er o mer­ca­do de trans­porte de 1910 supon­do que os cav­a­l­os sim­ples­mente ficarão um pouco mais rápi­dos — sem con­sid­er­ar a pop­u­lar­iza­ção do automóv­el.

A tese de Yam­pol­skiy depende jus­ta­mente dessa rup­tura.

IA não está automatizando apenas profissões simples

Out­ro argu­men­to impor­tante é que a inteligên­cia arti­fi­cial atu­al não está avançan­do ape­nas sobre tra­bal­hos repet­i­tivos.

A OIT obser­va que funções admin­is­tra­ti­vas con­tin­u­am entre as mais expostas, mas que avanços em ger­ação de tex­to, ima­gens, áudio e vídeo tam­bém estão aumen­tan­do a exposição de ativi­dades profis­sion­ais alta­mente dig­i­tal­izadas, incluin­do desen­volvi­men­to web, pro­gra­mação, análise finan­ceira e out­ras funções espe­cial­izadas.

Isso desafia uma anti­ga pre­mis­sa da automação.

Durante muito tem­po acred­i­ta­mos que tra­bal­hos braçais e repet­i­tivos desa­pare­ce­ri­am primeiro enquan­to profis­sões int­elec­tu­ais per­manece­ri­am pro­te­gi­das.

A IA gen­er­a­ti­va começou a invert­er par­cial­mente essa sequên­cia.

Um pedreiro con­tin­ua rel­a­ti­va­mente pro­te­gi­do porque tra­bal­ha num ambi­ente físi­co impre­visív­el.

Já um profis­sion­al alta­mente qual­i­fi­ca­do que pas­sa oito horas diante de um com­puta­dor pro­duzin­do doc­u­men­tos, anális­es ou códi­go pode ter grande parte das suas tare­fas dire­ta­mente acessív­el a mod­e­los de IA.

Essa inver­são é uma das razões pelas quais o debate atu­al é tão difer­ente.

Se ninguém trabalhar, quem comprará os produtos?

Há ain­da uma questão econômi­ca gigan­tesca por trás da pre­visão de Yam­pol­skiy.

Empre­sas autom­a­ti­zam porque dese­jam reduzir cus­tos e aumen­tar pro­du­tivi­dade.

Mas tra­bal­hadores tam­bém são con­sum­i­dores.

Se máquinas pro­duzirem prati­ca­mente tudo e mil­hões de pes­soas deixarem de rece­ber salários, surge uma per­gun­ta fun­da­men­tal:

quem com­prará aqui­lo que as máquinas pro­duzem?

Uma econo­mia de altís­si­ma automação pode­ria exi­gir mecan­is­mos com­ple­ta­mente difer­entes de dis­tribuição de ren­da.

Ren­da bási­ca uni­ver­sal é uma pos­si­bil­i­dade fre­quente­mente dis­cu­ti­da.

Out­ra seria dis­tribuição de div­i­den­dos prove­nientes de sis­temas autom­a­ti­za­dos.

Poderíamos ter serviços essen­ci­ais quase gra­tu­itos graças à pro­du­tivi­dade extra­ordinária das máquinas.

Tam­bém poderíamos entrar numa sociedade extrema­mente desigual, na qual poucos pro­pri­etários de infraestru­tu­ra de IA con­cen­tram riqueza sem prece­dentes.

A tec­nolo­gia não deter­mi­na soz­in­ha qual dess­es futur­os ocor­rerá.

Políti­ca, pro­priedade, reg­u­la­men­tação e dis­tribuição econômi­ca terão papel deci­si­vo.

Talvez “ter emprego” deixe de definir quem somos

Existe tam­bém uma trans­for­mação cul­tur­al que rara­mente recebe a mes­ma atenção.

Quan­do con­hece­mos alguém, uma das primeiras per­gun­tas cos­tu­ma ser:

“O que você faz?”

Nor­mal­mente a pes­soa responde com sua profis­são.

“Sou médi­co.”

“Sou pro­gra­mador.”

“Sou pro­fes­sor.”

“Sou advo­ga­do.”

Emprego não é ape­nas fonte de ren­da.

É iden­ti­dade.

Sta­tus.

Roti­na.

Con­vívio social.

Propósi­to.

Se máquinas pro­duzirem abun­dan­te­mente bens e serviços, o maior desafio humano talvez não seja sim­ples­mente dis­tribuir din­heiro.

Pode ser desco­brir como orga­ni­zar uma sociedade na qual tra­bal­har deixou de ser obri­gação econômi­ca.

Arte, ciên­cia, esporte, relações soci­ais, explo­ração, edu­cação e pro­je­tos pes­soais pode­ri­am assumir importân­cia muito maior.

Em uma leitu­ra otimista, isso seria lib­er­ta­dor.

Em uma leitu­ra pes­simista, mil­hões de pes­soas pode­ri­am sen­tir que perder­am sua função social.

2030 é realmente possível?

Aqui é impor­tante evi­tar sen­sa­cional­is­mo.

Ninguém sabe.

Nem Yam­pol­skiy.

Nem empre­sas de inteligên­cia arti­fi­cial.

Nem gov­er­nos.

Nem os maiores pesquisadores do plan­e­ta.

Yam­pol­skiy apre­sen­ta uma pre­visão, não uma data cien­tifi­ca­mente esta­b­ele­ci­da.

Durante a entre­vista, ele asso­cia 2027 à pos­si­bil­i­dade de AGI e colo­ca robôs humanoides alguns anos atrás da automação cog­ni­ti­va. Ele tam­bém recon­hece que capaci­dade tec­nológ­i­ca e adoção real são coisas difer­entes.

Isso sig­nifi­ca que mes­mo que uma IA seja tec­ni­ca­mente capaz de sub­sti­tuir um advo­ga­do, motorista ou con­ta­dor em 2030, reg­u­la­men­tação, respon­s­abil­i­dade jurídi­ca, infraestru­tu­ra, cus­to, sindi­catos, com­por­ta­men­to dos con­sum­i­dores e con­fi­ança podem retar­dar sua adoção por muitos anos.

Tec­nolo­gia pode avançar expo­nen­cial­mente.

Sociedades nor­mal­mente não.

O alerta mais importante talvez não seja “cinco empregos”

A manchete chama atenção:

“Só restarão cin­co empre­gos em 2030.”

Mas talvez ela escon­da jus­ta­mente a parte mais inter­es­sante do pen­sa­men­to de Yam­pol­skiy.

Ele não está sim­ples­mente ten­tan­do adi­v­in­har quais profis­sões desa­pare­cerão.

Está ques­tio­nan­do algo muito mais pro­fun­do:

o que acon­tece quan­do inven­ta­mos uma tec­nolo­gia capaz de apren­der as mes­mas novas profis­sões que nós?

Toda automação ante­ri­or elim­i­nou deter­mi­nadas funções enquan­to cri­a­va novas opor­tu­nidades.

O tra­tor sub­sti­tu­iu tra­bal­ho agrí­co­la.

O automóv­el criou mecâni­cos e motoris­tas.

Com­puta­dores elim­i­naram datiló­grafos e cri­aram pro­gra­madores.

A inter­net destru­iu deter­mi­na­dos negó­cios e criou gigan­tescos novos setores.

Mas uma IA ger­al seria difer­ente porque pode­ria, teori­ca­mente, par­tic­i­par tam­bém das novas profis­sões cri­adas pela própria trans­for­mação tec­nológ­i­ca.

É isso que tor­na essa dis­cussão tão extra­ordinária.

O futuro do trabalho ainda não está escrito

Entre o cenário de Yam­pol­skiy, com automação quase total, e a pre­visão do World Eco­nom­ic Forum, com sal­do pos­i­ti­vo de dezenas de mil­hões de empre­gos, existe um uni­ver­so de pos­si­bil­i­dades.

Talvez 2030 chegue e ain­da tra­bal­he­mos de for­ma rel­a­ti­va­mente semel­hante à atu­al.

Talvez ten­hamos mil­hões de agentes de IA tra­bal­han­do ao nos­so lado.

Talvez robôs humanoides já este­jam entran­do em fábri­c­as, hos­pi­tais e residên­cias.

Ou talvez algu­ma ino­vação ain­da descon­heci­da provoque uma trans­for­mação muito maior.

A úni­ca con­clusão razoavel­mente segu­ra é que igno­rar a inteligên­cia arti­fi­cial deixou de ser uma estraté­gia profis­sion­al.

Isso não sig­nifi­ca aban­donar sua profis­são.

Sig­nifi­ca enten­der quais partes dela são autom­a­tizáveis, apren­der a uti­lizar IA e obser­var con­stan­te­mente como a tec­nolo­gia está mod­i­f­i­can­do seu setor.

A com­petição dos próx­i­mos anos talvez não seja sim­ples­mente:

humano ver­sus inteligên­cia arti­fi­cial.

Durante algum tem­po, provavel­mente será:

humano uti­lizan­do IA ver­sus humano que decid­iu ignorá-la.

Depois dis­so, ninguém sabe.

Estamos diante da última grande invenção humana?

Yam­pol­skiy chama atenção para uma car­ac­terís­ti­ca inco­mum da inteligên­cia arti­fi­cial.

Uma roda não inven­ta out­ra roda.

Um motor não pro­je­ta motores mel­hores.

Uma cal­cu­lado­ra não cria uma nova indús­tria por von­tade própria.

Mas uma inteligên­cia arti­fi­cial sufi­cien­te­mente avança­da pode­ria par­tic­i­par do próprio proces­so de pesquisa cien­tí­fi­ca e desen­volvi­men­to tec­nológi­co.

Isso sig­nifi­ca que a humanidade talvez este­ja con­stru­in­do não ape­nas mais uma invenção, mas uma espé­cie de inven­tor arti­fi­cial.

É por isso que a dis­cussão sobre empre­gos vai muito além de Chat­G­PT, automação de escritório ou robôs sub­sti­tuin­do fun­cionários.

Esta­mos dis­cutin­do qual será o papel econômi­co do ser humano quan­do máquinas pud­erem desem­pen­har uma parcela cres­cente das ativi­dades que durante sécu­los defini­ram nos­sa util­i­dade econômi­ca.

Roman Yam­pol­skiy pode estar erra­do sobre o pra­zo.

Pode estar erra­do sobre 99% de desem­prego.

Pode estar subes­ti­man­do a capaci­dade humana de cri­ar novos mer­ca­dos e novas ativi­dades.

Mas sua per­gun­ta per­manece descon­for­t­avel­mente poderosa:

se uma inteligên­cia arti­fi­cial for real­mente supe­ri­or aos humanos em prati­ca­mente todos os domínios int­elec­tu­ais e robôs pud­erem exe­cu­tar prati­ca­mente qual­quer tare­fa físi­ca, qual tra­bal­ho con­tin­uará depen­den­do nec­es­sari­a­mente de nós?

Talvez a respos­ta não seja “cin­co empre­gos”.

Talvez a respos­ta seja que, pela primeira vez na história, pre­cis­are­mos sep­a­rar duas ideias que sem­pre con­sid­er­amos insep­a­ráveis:

tra­bal­har para sobre­viv­er

e

ter uma vida com propósi­to.

E essa trans­for­mação, caso real­mente acon­teça, poderá ser muito maior do que qual­quer rev­olução indus­tri­al que veio antes.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *