Atributos de liderança na era digital: as demandas das Gerações Y e Z

A diver­si­dade cul­tur­al decor­rente dos cos­tumes, dos val­ores, das leis, da lin­guagem, da ciên­cia e sobre­tu­do dos recur­sos tec­nológi­cos deter­mi­na em grande medi­da o desen­volvi­men­to social e orga­ni­za­cional do mun­do.  Não é de sur­preen­der então que, em difer­entes épocas, um esti­lo de lid­er­ança seja acol­hi­do em detri­men­to de out­ro. Com o adven­to da era dig­i­tal não é difer­ente. A Ger­ação Y – os Mil­lenials – intro­duz­iu nas orga­ni­za­ções um grupo com expec­ta­ti­vas profis­sion­ais dis­tin­tas, desafian­do os esti­los de lid­er­ança tradi­cionais. Não bas­tasse este fato, um novo grupo ago­ra tem recla­ma­do lugar – a Ger­ação Z, a ger­ação do “pos­so faz­er, vou faz­er”. Shahidul­lah, mem­bro do Depar­ta­men­to de Soci­olo­gia da Hamp­ton Uni­ver­si­ty, desta­ca que a ger­ação que sucede os Mil­lenials val­oriza ain­da mais a flex­i­bil­i­dade e a liber­dade, ansian­do por ambi­entes onde pos­sam pros­per­ar, igno­ran­do sobre­maneira as hier­ar­quias. Mil­lenials e Ger­ação Z pos­suem val­ores, demon­stram ati­tudes, fazem escol­has e defen­d­em prefer­ên­cias de modo com­ple­ta­mente difer­ente de seus pre­de­ces­sores.

Os mem­bros da Ger­ação Z for­maram suas per­cepções de mun­do em um con­tex­to onde a disponi­bil­i­dade de aces­so à inter­net e aos smart­phones não encon­tra prece­dente. Eles esper­am aces­so sem difi­cul­dades à web nos dis­pos­i­tivos que car­regam em seus bol­sos. Um estu­do de 2017, divul­ga­do pela revista eletrôni­ca Fast­mov­ing, rela­ta que esta ger­ação é com­pos­ta por 2.6 bil­hões de jovens que pref­er­em tra­bal­har e se comu­nicar vir­tual­mente. Além dis­so, gostam de con­tro­lar seu próprio tem­po, seu rit­mo de tra­bal­ho ou laz­er. David Still­mann, autor do livro “Gen Z work: how the next gen­er­a­tion is trans­form­ing the work­place”, desta­ca que, em cer­to sen­ti­do, esta tri­bo desafia o par­a­dig­ma da Hier­ar­quia das Neces­si­dades de Maslow. Seus inte­grantes se dis­põem ao tra­bal­ho sem a pre­ocu­pação com a esta­bil­i­dade, a segu­rança, a saúde ou a inqui­etação de adquirir pro­priedade. Inclu­sive os atrib­u­tos do ter­ceiro nív­el da pirâmide de Maslow per­dem o estatu­to de val­or. A família, a aceitação per­ante pares ou gestores, e as intim­i­dades afe­ti­vas, por exem­p­lo, não pare­cem estar na pau­ta de suas urgên­cias exis­ten­ci­ais. Eles são mais lib­erais políti­ca e social­mente, mais tol­er­antes às diver­si­dades raci­ais, sex­u­ais e reli­giosas.

Entre­tan­to, o con­tin­gente mais sig­ni­fica­ti­vo da força de tra­bal­ho atu­al está rep­re­sen­ta­do pela Ger­ação Y, ou os Mil­lenials. De acor­do com a revista Best Life, os Mil­lenials rep­re­sen­tarão 75% da força de tra­bal­ho ati­va até 2025. Edu­ca­dos a par­tir do lema “siga seus son­hos”, este grupo é bas­tante con­fi­ante, e fre­quente­mente são con­sid­er­a­dos nar­císi­cos, afi­nal, é a ger­ação do self­ie. Difer­ente­mente de seus ante­ces­sores – a Ger­ação X e os Baby Boomers –, os Mil­lenials acres­cen­tam sub­stan­cial­mente val­or à relação entre tra­bal­ho e qual­i­dade de vida. Eles efe­ti­va­mente pref­er­em o bem-estar à remu­ner­ação. E há um traço bas­tante pecu­liar a ser nota­do: são bas­tante céti­cos com relação às men­sagens fab­ri­cadas ou às relações estereoti­padas.

Emb­o­ra Mil­lenials e Ger­ação Z rep­re­sen­tem a essên­cia da sociedade dig­i­tal, há algu­mas difer­enças a notar. No que­si­to atenção, por exem­p­lo, a Ger­ação Z é muito mais propen­sa a aban­donar um assun­to do que os Mil­lenials. Os Z’s podem ain­da alternar entre ativi­dades de tra­bal­ho e diver­são, com dis­trações múlti­plas ao redor, tra­bal­han­do em várias tare­fas simul­tane­a­mente com grande facil­i­dade. Eles tam­bém se dis­põem ao empreende­doris­mo com maior facil­i­dade e val­orizam muito a exper­iên­cia do faz­er.

Evi­den­te­mente, existe risco nesse reducionis­mo categóri­co das ger­ações. Pode-se facil­mente gen­er­alizar as car­ac­terís­ti­cas de cada parte a par­tir de aspec­tos descon­tex­tu­al­iza­dos. Porém há algo em comum: ambas as ger­ações foram inevi­tavel­mente encor­padas pelos fun­da­men­tos da rev­olução dig­i­tal e req­ui­si­tam esti­los de lid­er­ança onde mod­e­los de autori­dade, ati­tudes, ele­men­tos moti­va­cionais e sis­temas de avali­ação difi­ram sub­stan­cial­mente dos mod­e­los tradi­cionais. Elas esper­am lid­er­anças flexíveis e adap­táveis, com man­i­fes­ta curiosi­dade pelas suas real­iza­ções. Nesse aspec­to, líderes com a capaci­dade de con­ferir per­spec­ti­vas dis­tin­tas em um grupo de tra­bal­ho e com o empen­ho de con­duzir abor­da­gens mais igual­itárias, recon­hecen­do os esforços tran­sientes e os resul­ta­dos par­ci­ais, seri­am mel­hor aceitos. A habil­i­dade de for­mar ou incluir-se em comu­nidades de inter­esse, expres­san­do clara­mente o que sabem e o que não sabem e a capaci­dade de mobi­lizar suas redes de rela­ciona­men­to em prol da exper­iên­cia de realizar o bem para a sociedade em ger­al é cru­cial.

Há, con­tu­do, expec­ta­ti­vas especí­fi­cas dos Z’s com relação aos líderes. Eles esper­am que os líderes fomentem a cul­tura da mudança con­stante e do uso pleno da tec­nolo­gia, com proces­sos autom­a­ti­za­dos ou robo­t­i­za­dos que per­mi­tam a otimiza­ção con­tínua das ativi­dades. Eles tam­bém requerem autono­mia, sem microgeren­ci­a­men­to, livres das hier­ar­quias e, em ger­al, gostam de procu­rar seus próprios recur­sos e enco­ra­jar out­ros à bus­ca da infor­mação em tem­po real, evi­tan­do con­fer­ence calls ou reuniões for­mais. Há entre eles um sen­so de “esta­mos nis­so jun­tos e podemos aju­dar-nos mutu­a­mente” e é exata­mente assim que eles querem ver a lid­er­ança: alguém que é parte do grupo. Este grupo demográ­fi­co quer ser ver­dadeira­mente ori­en­ta­do e entende que tra­bal­har para líderes que estão dis­pos­tos a falar sobre seus próprios cam­in­hos lhes per­mi­tirá for­jar rela­ciona­men­tos de men­tor-apren­diz que per­durem ao lon­go de suas car­reiras.

Enfim, inde­pen­dente da ger­ação que ora inte­gra a sociedade dig­i­tal, é a própria essên­cia des­ta sociedade que faz exigên­cias para um novo esti­lo de lid­er­ança nas orga­ni­za­ções. Está claro que a capaci­dade de inspi­rar ago­ra é defin­i­ti­va­mente o traço fun­da­men­tal e é tam­bém notório que, antes de ser um car­go ou uma função, a lid­er­ança deve-se esta­b­ele­cer como com­por­ta­men­to que, den­tro do grupo, acon­tece sem­pre ori­en­ta­do para a val­oriza­ção de seus inte­grantes diante dos obje­tivos (e não somente para os obje­tivos). Assim a lid­er­ança tor­na-se antes uma posição que deve ser redis­tribuí­da para quem deten­ha as mel­hores infor­mações ou capaci­dades. O atrib­u­to mais rel­e­vante da era dig­i­tal é a exigên­cia de encon­trar o que há de comum nas difer­enças, ou seja, aque­la inter­secção que define e deter­mi­na cer­to movi­men­to de con­strução do bem-estar, do bem faz­er e do bem alcançar. É aqui­lo que se aco­mo­da às expec­ta­ti­vas comuns de todos os inte­grantes da sociedade dig­i­tal e que, em grande medi­da, deri­va para a liber­dade de tornar pos­sív­el ser o que se alme­ja ser.

Por Cás­sio Pan­ta­le­oni é CEO da SAS Brasil.

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