Tecnologia avança, mas vagas de baixa qualificação predominam

Tecnologia avança, mas vagas de baixa qualificação predominam

Entre as 1.700 car­reiras que encol­her­am no ciclo reces­si­vo, está a de dig­i­ta­dor. O declínio da profis­são começou em mea­d­os da déca­da pas­sa­da e tem gan­hado fôlego, o que cul­mi­nou na elim­i­nação de 5.888 vagas com carteira assi­na­da de 2014 a 2016, ano mais recente para o qual há dados disponíveis.

As ativi­dades desem­pen­hadas por tra­bal­hadores dessas duas ocu­pações têm sido afe­tadas por novas tec­nolo­gias, mas em direções opostas.

Os anal­is­tas de pesquisa de mer­ca­do atu­am no plane­ja­men­to estratégi­co das empre­sas. Usam fer­ra­men­tas dig­i­tais para proces­sar e exam­i­nar vas­ta quan­ti­dade de dados.

Já os dig­i­ta­dores são respon­sáveis por reg­is­trar e tran­scr­ev­er infor­mações man­ual­mente. A cres­cente dig­i­tal­iza­ção de doc­u­men­tos e a difusão de equipa­men­tos como scan­ners têm tor­na­do ess­es profis­sion­ais obso­le­tos.

As tendên­cias dis­tin­tas de deman­da por anal­is­tas e dig­i­ta­dores indicam que as trans­for­mações cau­sadas pelas ino­vações das últi­mas décadas resp­ingam no Brasil. São mudanças incip­i­entes que estão longe de mudar a estru­tu­ra do mer­ca­do de tra­bal­ho do país, ain­da dom­i­na­do pelo emprego pouco qual­i­fi­ca­do.

Durante a crise, oito ocu­pações de baixa espe­cial­iza­ção –como aten­dentes de mer­ca­do, fax­ineiros e porteiros– foram respon­sáveis por metade das cer­ca de 900 mil vagas com carteira assi­na­da adi­cionadas ao estoque das profis­sões que cresce­r­am.

Essa, aliás, já havia sido a tôni­ca do boom do emprego no perío­do de cresci­men­to, ante­ri­or à recessão.

Porém, a quan­ti­dade de profis­sion­ais atuan­do como bio­médi­cos e anal­ista de infor­mações –ain­da que peque­na– tam­bém tem aumen­ta­do, enquan­to a de cobradores, super­vi­sores de caixas e sol­dadores enfrenta um proces­so de declínio.

Ess­es movi­men­tos não pare­cem restri­tos a algu­mas ocu­pações. Setores mais sofisti­ca­dos, como o de serviços de tec­nolo­gia da infor­mação, destacaram-se entre os que ger­aram vagas entre 2011 e 2016.

Os números foram lev­an­ta­dos pela reportagem da Fol­ha na Rais (Relação Anu­al de Infor­mações Soci­ais), prin­ci­pal ban­co de dados do mer­ca­do for­mal no país.

Iden­ti­ficar e enten­der os efeitos desse proces­so de trans­for­mação é impor­tante porque as ino­vações alter­am muito a for­ma como as pes­soas vivem e tra­bal­ham.

Foi assim na primeira rev­olução indus­tri­al, que lev­ou ao nasci­men­to da indús­tria têx­til, e na segun­da, mar­ca­da pela descober­ta da ener­gia elétri­ca. Tam­bém tem sido assim com as duas ondas mais recentes, que começaram com o com­puta­dor, avançaram com a inter­net e, ago­ra, abar­cam robóti­ca, inteligên­cia arti­fi­cial e out­ras novi­dades.

Uma difer­ença rel­e­vante, porém, é que a veloci­dade de difusão da atu­al trans­for­mação dig­i­tal tem sido muito mais ráp­i­da.

No livro “Apli­can­do a Quar­ta Rev­olução Indus­tri­al” (Edipro), o econ­o­mista Klaus Schwab e o advo­ga­do Nicholas Davis lem­bram que o tele­fone lev­ou 75 anos para alcançar o número de usuários atingi­dos pela inter­net em ape­nas uma déca­da.

Isso aju­da a explicar o fre­n­e­si cau­sa­do pelas indi­cações de que a automação tem o poten­cial de reduzir a neces­si­dade de fun­cionários em cer­tas tare­fas. E não são ape­nas as funções repet­i­ti­vas, desem­pen­hadas por tra­bal­hadores pouco esco­lar­iza­dos, que se mostram ameaçadas.

Mudanças na estru­tu­ra inter­na das empre­sas têm lev­a­do à elim­i­nação de níveis hierárquicos inter­mediários, como super­visão e gerên­cia, tendên­cia bati­za­da por espe­cial­is­tas de “esvazi­a­men­to do meio” ou “o medi­ano acabou”.

Em sen­ti­do con­trário, novas ocu­pações estão surgin­do na esteira das trans­for­mações.

Per­gun­ta­do sobre evidên­cias dis­so, o engen­heiro Marce­lo Seri­go, da con­sul­to­ria de tec­nolo­gia Avanade, é asserti­vo: “Há muitas, sem dúvi­da. Min­ha função, por exem­p­lo, não exis­tia até pouco tem­po atrás”, diz ele, exec­u­ti­vo de ino­vação em tec­nolo­gia (tech­nol­o­gy inno­va­tion offi­cer for growth mar­kets, em inglês).

Além do próprio pos­to, Seri­go cita a cri­ação de car­gos espe­cial­iza­dos em olhar para o cresci­men­to da empre­sa (“growth offi­cer”).

As novi­dades da rev­olução dig­i­tal cri­am maior neces­si­dade de ino­vação, plane­ja­men­to e respostas ráp­i­das para os prob­le­mas. A imen­sa quan­ti­dade de dados disponíveis em redes e nuvens que pre­cisam ser traduzi­dos em infor­mação estratég­i­ca deman­da uma grande capaci­dade analíti­ca.

Hoje, diplo­mas de ensi­no supe­ri­or em áreas antes muito val­orizadas, como engen­haria e tec­nolo­gia da infor­mação, podem não bas­tar na cor­ri­da por um bom emprego.

EMPRESAS VALORIZAM NOVAS HABILIDADES ALÉM DE FORMAÇÃO

Empre­sas sinal­izam que, emb­o­ra con­tin­ue impor­tante, a for­mação téc­ni­ca pre­cisa ser acom­pan­ha­da de out­ras habil­i­dades, como facil­i­dade para tra­bal­har em grupo.

O econ­o­mista David Dem­ing, de Har­vard, iden­ti­fi­cou exata­mente isso em uma análise que fez das tendên­cias do mer­ca­do de tra­bal­ho dos Esta­dos Unidos entre 1980 e 2012.

De acor­do com o pesquisador, os car­gos que com­bi­nam dos­es ele­vadas de matemáti­ca e inter­face social são os que mais gan­haram vagas e aumen­tos salari­ais no perío­do.

Um estu­do patroci­na­do pelo Ban­co Mundi­al iden­ti­fi­cou uma “peque­na tran­sição” para pos­tos que deman­dam maior capaci­dade de comu­ni­cação tam­bém no Brasil, entre 1996 e 2006, quan­do ocor­reu forte expan­são da inter­net.

Os autores da pesquisa, Rita Almei­da (Ban­co Mundi­al), Car­los Hen­rique Corseuil (Insti­tu­to de Pesquisa Econômi­ca Apli­ca­da) e Jen­nifer Poole (Uni­ver­si­dade Amer­i­cana), con­cluíram que a mudança ocor­reu em meio a uma tendên­cia mais ampla de redução dos tra­bal­hos repet­i­tivos e expan­são dos pos­tos mais qual­i­fi­ca­dos.

Ain­da há, porém, pou­ca inves­ti­gação sobre os efeitos das novas tec­nolo­gias no Brasil, talvez porque o debate públi­co este­ja hoje dom­i­na­do pelas con­se­quên­cias da recessão, como o desem­prego e a infor­mal­i­dade ele­va­dos.

Uma dis­cussão para­lela dos dois temas pode­ria favore­cer o desen­ho de políti­cas ade­quadas para lidar com pon­tos em comum das duas agen­das, como o sal­do entre gan­hadores e perde­dores.

“As novas tec­nolo­gias vêm sem­pre para mel­ho­rar a pro­du­tivi­dade. Mas sem políti­cas ade­quadas para lidar com suas con­se­quên­cias, ter­e­mos mor­tos e feri­dos no meio do cam­in­ho”, afir­ma o econ­o­mista André Portela, da FGV-EESP (Esco­la de Econo­mia da Fun­dação Getulio Var­gas).

A requal­i­fi­cação de tra­bal­hadores deslo­ca­dos é uma das medi­das con­sid­er­adas impor­tantes. Pode­ria aju­dar espe­cial­mente os desem­pre­ga­dos há dois anos ou mais, que eram 17,4% da força de tra­bal­ho no primeiro trimestre de 2015 e atin­gi­ram 22,2% no mes­mo perío­do deste ano.

“O profis­sion­al que fica desem­pre­ga­do tan­to tem­po assim perde habil­i­dades que havia adquiri­do com a práti­ca do tra­bal­ho”, diz o econ­o­mista Ser­gio Fir­po, do Insper.

A exper­iên­cia de out­ros país­es indi­ca que a ofer­ta efi­caz de cur­sos de reci­clagem depende de diag­nós­ti­co bem feito dos seg­men­tos mais promis­sores da econo­mia e da capac­i­tação exigi­da por eles.

BRASIL AINDA ESTÁ NO MEIO DO CAMINHO DA REVOLUÇÃO DIGITAL

Emb­o­ra úteis para ilu­mi­nar o debate, pesquisas sobre país­es dis­tin­tos entre si nem sem­pre sug­erem políti­cas públi­cas ade­quadas para todos.

Um dos estu­dos, por exem­p­lo, mais cita­dos recen­te­mente no meio econômi­co é a análise de Daron Ace­moglu e Pas­cual Restre­po, ambos do Mass­a­chu­setts Insti­tute of Tech­nol­o­gy (MIT), pub­li­ca­da em 2017, que rev­el­ou o impacto neg­a­ti­vo ‑emb­o­ra pequeno- da intro­dução de robôs indus­tri­ais sobre a ger­ação de pos­tos de tra­bal­ho nos EUA.

Esse debate é ain­da pouco rel­e­vante para o Brasil, onde havia só dez robôs para cada 10 mil tra­bal­hadores da indús­tria, em 2016, con­tra 189 nos EUA, segun­do a Fed­er­ação Inter­na­cional de Robóti­ca (IFR, na sigla em inglês).

As mudanças no mer­ca­do de tra­bal­ho do Brasil se man­têm lig­adas à dis­sem­i­nação de tec­nolo­gias mais anti­gas.

Um lev­an­ta­men­to da CNI (Con­fed­er­ação Nacional da Indús­tria), em parce­ria com uni­ver­si­dades, iden­ti­fi­cou que 77,8% das empre­sas indus­tri­ais de médio e pequeno porte estão nos dois está­gios ini­ci­ais –de um total de qua­tro– da rev­olução dig­i­tal. Out­ras 20,5% se encon­tram no ter­ceiro está­gio e só 1,6% alcançou o quar­to.

Isso sig­nifi­ca baixo nív­el de automação na pro­dução, pouco uso de tec­nolo­gias avançadas no con­ta­to com clientes e na admin­is­tração de pedi­dos, assim como inte­gração de sis­temas ain­da incip­i­ente.

O grande espaço para que o país avance rep­re­sen­ta, no entan­to, uma opor­tu­nidade. Em relatório recente, a con­sul­to­ria McK­in­sey ressalta que país­es menos desen­volvi­dos podem obter grandes gan­hos de pro­du­tivi­dade com a adoção de novas tec­nolo­gias.

Essa evolução dig­i­tal ali­men­ta­ria que­da de preços, aumen­to de ren­da e ala­van­car­ia a ger­ação de empre­gos. Como o impacto da automação ain­da ten­de­ria a provo­car menos dis­rupção do que em nações mais avançadas, o sal­do entre car­gos elim­i­na­dos e novos pode­ria ser pos­i­ti­vo.

“Há espaço para avançar­mos na rev­olução dig­i­tal, mas pre­cisamos cor­rer pois os país­es que ficarem para trás se tornarão menos com­pet­i­tivos”, diz João Emílio Gonçalves, ger­ente-exec­u­ti­vo de políti­ca indus­tri­al da CNI.

Por Éri­ca Fra­ga e Guil­herme Gar­cia

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