A negação das novas gerações em relação à TV tradicional e a ascensão do consumo de conteúdo via streaming

BRAZIL - 2022/07/06: In this photo illustration, a silhouetted woman holds a smartphone with the YouTube logo displayed on the screen. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
A negação das novas gerações em relação à TV tradicional e a ascensão do consumo de conteúdo via streaming

Durante décadas, a tele­visão foi o prin­ci­pal meio de con­sumo audio­vi­su­al, ocu­pan­do uma posição cen­tral na sala de estar e moldan­do hábitos soci­ais, cul­tur­ais e famil­iares. A pro­gra­mação lin­ear deter­mi­na­va horários, roti­nas e até con­ver­sas cotid­i­anas, crian­do uma relação pas­si­va entre espec­ta­dor e con­teú­do, em que a audiên­cia se adap­ta­va à grade impos­ta pelas emis­so­ras. Esse mod­e­lo fun­cio­nou ple­na­mente enquan­to a tec­nolo­gia disponív­el lim­i­ta­va as alter­na­ti­vas, mas começou a se des­gas­tar à medi­da que a inter­net ban­da larga se pop­u­lar­i­zou e novos meios de dis­tribuição de con­teú­do sur­gi­ram, espe­cial­mente a par­tir dos anos 2000.

As novas ger­ações cresce­r­am em um con­tex­to com­ple­ta­mente difer­ente, já imer­sas em um ecos­sis­tema dig­i­tal no qual a escol­ha, a per­son­al­iza­ção e a mobil­i­dade são ele­men­tos cen­trais. Para ess­es usuários, a ideia de esper­ar um horário fixo para assi­s­tir a um pro­gra­ma especí­fi­co soa anti­qua­da, e a lóg­i­ca da TV lin­ear entra em choque dire­to com a cul­tura do con­sumo sob deman­da. O espec­ta­dor mod­er­no não acei­ta mais um fluxo con­tín­uo e genéri­co de con­teú­do, preferindo decidir o que assi­s­tir, quan­do assi­s­tir, em qual dis­pos­i­ti­vo e por quan­to tem­po per­manecer enga­ja­do.

Nesse cenário, o celu­lar assume um papel dom­i­nante por sua ubiq­uidade e intim­i­dade. Ele está sem­pre pre­sente, acom­pan­ha o usuário em qual­quer con­tex­to e per­mite o con­sumo frag­men­ta­do de con­teú­do em pequenos inter­va­l­os do dia. A tele­visão tradi­cional, por out­ro lado, exige atenção pro­lon­ga­da, pos­tu­ra fixa e um ambi­ente especí­fi­co, o que entra em con­fli­to com a dinâmi­ca acel­er­a­da da vida con­tem­porânea. A atenção tornou-se um recur­so escas­so, e platafor­mas dig­i­tais com­petem por segun­dos, enquan­to a TV con­tin­ua estru­tu­ra­da para dis­putar horas inteiras de ded­i­cação.

Out­ro fator deter­mi­nante nes­sa mudança é a inter­a­tivi­dade. A tele­visão tradi­cional é essen­cial­mente uni­di­re­cional, enquan­to o con­sumo via mobile e stream­ing é par­tic­i­pa­ti­vo. Cur­tidas, comen­tários, com­par­til­hamen­tos e respostas em tem­po real fazem parte da exper­iên­cia dig­i­tal, trans­for­man­do o espec­ta­dor em agente ati­vo. As novas ger­ações val­orizam essa pos­si­bil­i­dade de inter­ação e influên­cia, algo que a TV, mes­mo com recur­sos mais recentes, ain­da ofer­ece de for­ma lim­i­ta­da. Além dis­so, os algo­rit­mos de recomen­dação sub­sti­tuíram os pro­gra­madores humanos, entre­gan­do con­teú­do alta­mente per­son­al­iza­do, o que aumen­ta a per­cepção de relevân­cia em com­para­ção com a pro­gra­mação genéri­ca da TV aber­ta.

O mod­e­lo pub­lic­itário tam­bém con­tribui para a rejeição da tele­visão tradi­cional. Inter­va­l­os lon­gos e repet­i­tivos são cada vez menos tol­er­a­dos, enquan­to o stream­ing ofer­ece exper­iên­cias com menos anún­cios ou pub­li­ci­dade seg­men­ta­da, mais cur­ta e con­tex­tu­al­iza­da. A lin­guagem visu­al e nar­ra­ti­va da TV, mar­ca­da por for­matos lon­gos e rit­mo mais lento, con­trasta com a estéti­ca dire­ta, acel­er­a­da e alta­mente edi­ta­da do con­teú­do mobile, pen­sa­do para telas peque­nas, con­sumo rápi­do e impacto ime­di­a­to.

Há ain­da uma mudança pro­fun­da na relação entre espaço e con­sumo. O con­teú­do audio­vi­su­al deixou de ser cole­ti­vo para se tornar indi­vid­ual. O quar­to sub­sti­tui a sala, o fone sub­sti­tui o alto-falante, e a exper­iên­cia tor­na-se pes­soal, per­son­al­iza­da e silen­ciosa. Per­fis indi­vid­u­ais em platafor­mas de stream­ing reforçam essa lóg­i­ca, enquan­to a TV aber­ta per­manece pre­sa à ideia de uma audiên­cia homogênea. Para­le­la­mente, a pro­dução de con­teú­do foi democ­ra­ti­za­da, per­mitin­do que qual­quer pes­soa crie, publique e alcance vis­i­bil­i­dade, algo que a TV tradi­cional, com seus gate­keep­ers e bar­reiras insti­tu­cionais, não con­segue ofer­e­cer com a mes­ma agili­dade.

Mes­mo ele­men­tos que antes eram van­ta­gens exclu­si­vas da TV, como trans­mis­sões ao vivo, migraram para o ambi­ente dig­i­tal, onde lives ofer­e­cem inter­ação instan­tânea e par­tic­i­pação do públi­co. Even­tos esportivos ain­da sus­ten­tam parte da relevân­cia da TV, mas tam­bém pas­sam por um proces­so acel­er­a­do de migração para platafor­mas de stream­ing. É impor­tante destacar que as novas ger­ações não rejeitam o vídeo em si, mas sim o mod­e­lo tradi­cional de tele­visão, basea­do em rigidez, pas­sivi­dade e fal­ta de con­t­role.

A Smart TV surge como uma ten­ta­ti­va de adap­tação, trans­for­man­do a tele­visão em uma platafor­ma conec­ta­da, mas, na práti­ca, ela se tor­na ape­nas uma tela para aces­sar con­teú­dos que já nascem no ecos­sis­tema dig­i­tal. A jor­na­da de con­sumo começa no mobile, pas­sa pelas redes soci­ais e pelo stream­ing, e ape­nas even­tual­mente chega à TV como dis­pos­i­ti­vo secundário. Esse movi­men­to rede­fine a indús­tria da mídia, deslo­ca inves­ti­men­tos pub­lic­itários, enfraque­ce a cen­tral­i­dade cul­tur­al da tele­visão aber­ta e con­sol­i­da um futuro audio­vi­su­al híbri­do, porém clara­mente cen­tra­do no mobile e no stream­ing.

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