As cadeias de suprimentos estão prestes a melhorar graças à Blockchain

As cadeias de supri­men­tos estão prestes a mel­ho­rar graças à Blockchain.

Em 2015, quan­do um sur­to de E.coli na rede de fast food amer­i­cana Chipo­tle Mex­i­can Grill lev­ou à con­t­a­m­i­nação de 55 clientes, as notí­cias, o fechamen­to de algu­mas unidades e as inves­ti­gações arru­inaram a rep­utação da empre­sa. As ven­das dimin­uíram rap­i­da­mente, e o preço das ações da Chipo­tle caíram 42%, man­ten­do-se em baixa por três anos, situ­ação da qual a empre­sa não se recu­per­ou.

O prob­le­ma cen­tral da crise na Chipo­tle, sedi­a­da em Den­ver, é recor­rente em empre­sas que depen­dem de vários fornece­dores para entre­gar peças e ingre­di­entes: a fal­ta de transparên­cia e definição de respon­s­abil­i­dade em uma cadeia de supri­men­tos com­plexa. Sem con­seguir mon­i­torar os fornece­dores em tem­po real, a Chipo­tle não con­seguiu evi­tar a con­t­a­m­i­nação nem con­tê-la de for­ma obje­ti­va depois que foi descober­ta.

Atual­mente, diver­sas star­tups e empre­sas estu­dam uma solução rad­i­cal para o prob­le­ma: usar a tec­nolo­gia blockchain para trans­ferir tit­u­lar­i­dade, gravar per­mis­sões e reg­is­trar ativi­dades com o intu­ito de ras­trear o fluxo de bens e serviços entre empre­sas e além de fron­teiras.

Com a tec­nolo­gia blockchain, sis­tema prin­ci­pal que sus­ten­ta o bit­coin, com­puta­dores de empre­sas difer­entes seguem um pro­to­co­lo crip­tográ­fi­co para val­i­dar con­stan­te­mente atu­al­iza­ções em um livro-razão com­par­til­ha­do. Uma van­tagem fun­da­men­tal desse sis­tema dis­tribuí­do, do qual nen­hu­ma empre­sa tem o con­t­role, é que resolve prob­le­mas de divul­gação de infor­mações e definição de respon­s­abil­i­dade entre pes­soas e insti­tu­ições cujos inter­ess­es não estão nec­es­sari­a­mente alin­hados. Infor­mações impor­tantes para ambos os lados podem ser atu­al­izadas em tem­po real, tor­nan­do desnecessárias con­cil­i­ações tra­bal­hosas e propen­sas a erros entre os reg­istros inter­nos de cada empre­sa. Isso per­mite a cada mem­bro da rede uma vis­i­bil­i­dade mel­hor e mais ráp­i­da de toda a ativi­dade.

Em resumo, tra­ta-se um sis­tema glob­al para mudar os atu­ais padrões de con­fi­ança e transparên­cia sele­ti­va. Segun­do seus defen­sores, a tec­nolo­gia blockchain ele­vará o poder da inter­net. Ape­sar de mui­ta atenção e din­heiro já terem sido investi­dos em apli­cações finan­ceiras da tec­nolo­gia, o uso des­ta é igual­mente promis­sor no rela­ciona­men­to de cadeias de supri­men­to globais, cuja com­plex­i­dade e diver­si­dade de inter­ess­es propõem exata­mente os desafios que essa tec­nolo­gia procu­ra abor­dar. A tec­nolo­gia pode rev­e­lar infor­mações ocul­tas até o momen­to e per­mi­tir usuários a anexar tokens dig­i­tais — recur­so dig­i­tal úni­co e nego­ciáv­el, basea­do no bit­coin — para acom­pan­har as mer­cado­rias nas várias fas­es de pro­dução, trans­porte e entre­ga e tam­bém a faz­er a trans­fer­ên­cia de tit­u­lar­i­dade entre ele­men­tos da cadeia de supri­men­tos. Isso pode pro­por­cionar às empre­sas maior flex­i­bil­i­dade para iden­ti­ficar mer­ca­dos e preços de risco, ao cap­turar o val­or investi­do no proces­so em qual­quer pon­to ao lon­go da cadeia. O resul­ta­do são cadeias de deman­da dinâmi­cas no lugar de cadeias de supri­men­tos rígi­das, resul­tan­do no uso mais efi­ciente dos recur­sos.

Diver­sos esforços já estão em anda­men­to. Prove­nance, uma start­up do Reino Unido, expli­ca a clientes poten­ci­ais que poderão uti­lizar sua tec­nolo­gia basea­da na blockchain para “com­par­til­har a jor­na­da de seus pro­du­tos e o impacto da empre­sa no meio ambi­ente e na sociedade.” A Wal­mart está tra­bal­han­do em con­jun­to com a IBM e a Tsinghua Uni­ver­si­ty, em Pequim, para acom­pan­har o tra­je­to da carne de por­co pela Chi­na com o blockchain. A gigante da min­er­ação, BHP Bil­li­ton, está usan­do a tec­nolo­gia para ras­trear a análise de min­erais fei­ta por vende­dores exter­nos. A start­up Everledger trans­feriu infor­mações de iden­ti­fi­cação exclu­si­vas de um mil­hão de dia­mantes para um sis­tema livro-razão em um blockchain para esta­b­ele­cer garan­tia de qual­i­dade e para aju­dar joal­heiros a cumprirem os reg­u­la­men­tos con­tra pro­du­tos com “dia­mantes de sangue”.progressos nas tec­nolo­gias de chips e sen­sores, que traduzem infor­mações sobre o trans­porte autom­a­ti­za­do de pro­du­tos físi­cos, devem mel­ho­rar sig­ni­fica­ti­va­mente estes sis­temas de blockchain em desen­volvi­men­to. este sis­tema pode ser ain­da mais poderoso ali­a­do a “smart con­tracts” (con­tratos inteligentes), nos quais dire­itos e obri­gações con­trat­u­ais, incluin­do cláusu­las sobre paga­men­to e entre­ga dos pro­du­tos, podem ser cel­e­bra­dos auto­mati­ca­mente por um sis­tema autônomo em que todos os sig­natários con­fi­am.

Todavia, os poten­ci­ais bene­fí­cios de ras­trea­men­to e automação des­ta tec­nolo­gia não se limi­tam a pro­du­tos, tam­bém pode ser usa­da para con­tro­lar pes­soas. Fun­cionários e super­vi­sores de difer­entes empre­sas podem rece­ber per­mis­sões espe­ci­ais pro­te­gi­das por crip­tografia, que, den­tro do blockchain, apare­cem como iden­ti­fi­cadores ras­treáveis e úni­cos – de prefer­ên­cia crip­tografa­dos para pro­te­ger as infor­mações pes­soais do fun­cionário. Isto per­mi­tiria a todos os mem­bros da comu­nidade da cadeia de supri­men­tos mon­i­torar as ativi­dades de cada fun­cionário cre­den­ci­a­do. A Chipo­tle, por exem­p­lo, pode­ria ver em tem­po real se um fun­cionário cre­den­ci­a­do de um de seus fornece­dores de carne está real­izan­do os pro­ced­i­men­tos apro­pri­a­dos de ester­il­iza­ção e desin­fecção.
Este tipo de cre­den­ci­a­men­to trans­par­ente e com­pro­váv­el será impor­tante prin­ci­pal­mente para a pro­toti­pagem ráp­i­da, que é o núcleo do mod­e­lo de pro­dução dinâmi­co e por deman­da da chama­da Indús­tria 4.0. Uma equipe da fab­ri­cante de peças de pre­cisão Moog Inc. lançou um serviço chama­do Veri­part, cujo obje­ti­vo é super­ar um desafio que o dire­tor da unidade de pro­toti­pagem ráp­i­da e ino­vação, James Regenor, assim descreveu: “Como a equipe de manutenção de um por­ta-aviões norte-amer­i­cano poderá con­fi­ar total­mente que o arqui­vo baix­a­do para imprim­ir uma peça nova em 3D para um avião de caça não foi hack­ea­do por um adver­sário estrangeiro?” Essa per­gun­ta reforça um dos argu­men­tos mais con­vin­centes a favor da tec­nolo­gia blockchain: sem sua solução para a questão da con­fi­ança, a con­cretiza­ção da econo­mia sofisti­ca­da, descen­tral­iza­da, movi­da pela inter­net das coisas que muitos estão pro­je­tan­do pode acabar sendo impos­sív­el.

Essas poten­ci­ais mel­ho­ras de efi­ciên­cia, pos­si­bil­i­tadas por infor­mações não disponíveis até o momen­to, sug­erem que a tec­nolo­gia blockchain pode ger­ar econo­mias enormes para as empre­sas de todo o mun­do. Antes, porém, exis­tem enormes obstácu­los a ser super­a­dos.

Um dos desafios reside no desen­volvi­men­to e na admin­is­tração da tec­nolo­gia. Em ter­mos ideais, para estim­u­lar o livre aces­so, a con­cor­rên­cia e a ino­vação, as cadeias de supri­men­to globais teri­am a opção de se fir­mar em um blockchain públi­co, do qual nen­hu­ma enti­dade detém o con­t­role. Em out­ras palavras, infor­mações extraí­das da pro­dução e ativi­dade com­er­cial seri­am crip­tografadas e reg­istradas em livros-razão de livre aces­so. No entan­to, inevi­tavel­mente, tam­bém vão sur­gir os livros-razão par­tic­u­lares e de aces­so restri­to, geren­ci­a­dos por con­sór­cios de empre­sas, cujos mem­bros bus­carão pro­te­ger infor­mações sobre mar­ket share e lucro. Ambos são inevitáveis e apre­sen­tam out­ros desafios. O primeiro, atin­gir a capaci­dade econômi­ca glob­al para os mais sig­ni­fica­tivos blockchains públi­cos, serviço de moe­da dig­i­tal bit­coin e platafor­ma Ethereum de smart con­tracts, é restringi­do pelas divisões das comu­nidades open-source, difi­cul­tan­do um acor­do sobre atu­al­iza­ção de pro­to­co­los. O segun­do, a neces­si­dade de haver inter­op­er­abil­i­dade entre os blockchains públi­cos e pri­va­dos, o que exi­girá a cri­ação de padrões e acor­dos.

A lei é out­ro grande obstácu­lo. Uma com­plexa var­iedade de reg­u­la­men­tos, leis marí­ti­mas e códi­gos com­er­ci­ais regem os dire­itos de pro­priedade e posse pelas rotas de trans­porte mundi­ais e suas múlti­plas juris­dições. Será difí­cil con­seguir unir as leis do vel­ho mun­do e as empre­sas coman­dadas por pes­soas que as regem à natureza dig­i­tal, des­ma­te­ri­al­iza­da, autom­a­ti­za­da e desna­cional­iza­da dos blockchains e smart con­tracts.

Antes de con­vencer os gov­er­nos a apoiar essa ini­cia­ti­va, e de for­ma glob­al e coor­de­na­da, a indús­tria deve chegar a um acor­do sobre mel­hores práti­cas, padrões de tec­nolo­gia e estru­tu­ra de con­tratos através das fron­teiras e juris­dições inter­na­cionais. Em Hong Kong, o con­sór­cio de blockchain recen­te­mente for­ma­do, Belt and Road, bus­ca orga­ni­zar esse proces­so com a adoção de abor­da­gens de gov­er­nança da inter­net, ide­al­iza­da e tes­ta­da pela ICANN (Inter­net Cor­po­ra­tion for Assigned Names and Num­bers), empre­sa gesto­ra de domínios. Na condição de orga­ni­za­ção inter­na­cional e lid­er­a­da pelo setor pri­va­do, ICANN já se mostrou ser uma admin­istrado­ra e juíza glob­al efi­caz.

Estes desafios devem ser medi­dos em relação às deman­das de uma econo­mia glob­al que ain­da não se recu­per­ou com­ple­ta­mente da crise finan­ceira de 2008 e está poten­cial­izan­do forças de desin­te­gração e iso­la­cionis­mo nos EUA e na Europa. Qual­quer sis­tema que prometa com­bat­er essas tendên­cias ao remover os atri­tos inter­com­er­ci­ais que freiam os negó­cios e ao mes­mo tem­po aumen­tar a transparên­cia e o con­t­role para as empre­sas e seus clientes vale a pena ser explo­rado. É por esse moti­vo que um número cres­cente de investi­dores, empre­sas, acadêmi­cos e até gov­er­nos está começan­do a ver a blockchain como uma tec­nolo­gia extrema­mente necessária para a ren­o­vação econômi­ca.


Michael J. Casey é autor de The Age of Cryp­tocur­ren­cy: How Bit­coin and the Blockchain Are Chal­leng­ing the Glob­al Eco­nom­ic Order. É con­sel­heiro sênior do Media Lab’s Dig­i­tal Cur­ren­cy Ini­tia­tive do MIT e sócio do Agen­tic Group.


Pin­dar Wong é pres­i­dente da Ver­i­Fi Ltd, empre­sa de con­sul­to­ria de infraestru­tu­ra finan­ceira na inter­net e fun­dador do OBOR.IO, pre­cur­sor do ‘Belt and Road Blockchain’. Ele é um entu­si­as­ta do Bit­coin e pre­side o ScalingBitcoin.org.

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