“A corrupção é adotada para ajudar as pessoas a progredir”, diz Clayton Christensen em novo livro

A cor­rupção é ado­ta­da para aju­dar as pes­soas a pro­gredir

Clay­ton Chris­tensen é o inven­tor do con­ceito de “ino­vação dis­rup­ti­va”. Sua teo­ria foi apre­sen­ta­da no livro O Dile­ma da Ino­vação, de 1997, e rev­olu­cio­nou o mun­do dos negó­cios. Pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Har­vard, aos 66 anos, Clay ampliou o alcance de sua ideia, aplicando‑a às nações. E é jus­ta­mente sobre esse tema sua nova obra The Pros­per­i­ty Para­dox – How Inno­va­tion can Lift Nations Out of Pover­ty (“O Para­doxo da Pros­peri­dade – Como a Ino­vação Pode Erguer Nações da pobreza”, em tradução livre). Lança­da hoje nos Esta­dos Unidos pela edi­to­ra Harp­er Busi­ness, ain­da não tem data para chegar ao Brasil.

Época NEGÓCIOS teve aces­so com exclu­sivi­dade ao livro, do qual pub­li­ca a seguir o capí­tu­lo 9. Nesse tre­cho, por meio do rela­to de vários casos, Clay mostra como as ino­vações e a cri­ação de novos mer­ca­dos, ao faz­er as sociedades pros­per­ar, é uma das estraté­gias mais efi­cazes con­tra a cor­rupção. Traduzi­do por Luiz Rober­to Gonçalves e Thaïs Cos­ta, ele pode ser lido a seguir.A cor­rupção não é o prob­le­ma; é uma solução

Na nos­sa teo­ria, qual­quer que seja a estraté­gia de apli­cação da lei escol­hi­da pela sociedade, os indi­ví­du­os pri­va­dos ten­tarão sub­vert­er seu fun­ciona­men­to em bene­fí­cio próprio.
– EDWARD L. GLAESER e ANDREI SHLEIFER, “THE RISE OF THE REGULATORY STATE“
A ideia em resumo

Cor­rupção. Per­gunte aos investi­dores por que eles deci­dem não inve­stir em deter­mi­nadas regiões, ou aos cidadãos dessas regiões por que seus país­es não estão se desen­vol­ven­do, e a cor­rupção estará quase sem­pre no topo da lista. Uma esti­ma­ti­va recente do Fun­do Mon­etário Inter­na­cional (FMI) situa o cus­to anu­al só de sub­or­nos em aprox­i­mada­mente US$ 1,5 tril­hão a US$ 2 tril­hões. Os cus­tos econômi­cos e soci­ais totais da cor­rupção são provavel­mente muito maiores, já que as propinas con­stituem ape­nas um aspec­to de suas pos­síveis for­mas. O prob­le­ma da cor­rupção é tão cor­ro­si­vo e dis­sem­i­na­do que cen­te­nas de mil­hões de dólares são gas­tos anual­mente para ten­tar erradicá-la em todo o mun­do — mas ela ain­da é teimosa­mente gen­er­al­iza­da.

Neste capí­tu­lo, exam­inare­mos o prob­le­ma da cor­rupção de modo difer­ente. Em vez de per­gun­tar como podemos erradicá-la, per­gun­ta­mos por que a cor­rupção per­siste, para começar? A respos­ta, acred­i­ta­mos, está não somente em algu­mas fal­has morais fun­da­men­tais, mas sobre­tu­do em com­preen­der por que muitas pes­soas pref­er­em “ado­tar” a cor­rupção. Através de um novo con­jun­to de lentes, poder­e­mos enten­der mel­hor a cor­rupção e, esper­amos, começar a encon­trar novas maneiras de mit­igá-la. Quan­do eu era mis­sionário na Cor­eia do Sul, éramos vis­i­ta­dos todo mês por um homem que ven­dia um seguro de “segu­rança”. Se você lhe pagasse (e não era uma quan­tia peque­na, da nos­sa per­spec­ti­va), ele garan­tiria que nos­sa casa não fos­se rouba­da. Se você não com­prasse o seguro, alguém “limpar­ia” sua casa. Garan­tir que nos­sas mod­estas poss­es não fos­sem lev­adas emb­o­ra era impor­tante para nos­sa sobre­vivên­cia, por isso pag­amos. Somente em ret­ro­spec­ti­va eu vejo que par­tic­i­pamos ati­va­mente de uma for­ma de cor­rupção de baixo nív­el — uma espé­cie que define um equi­líbrio de poder na comu­nidade local, facili­ta a vida (ou difi­cul­ta, para os que não quis­erem par­tic­i­par) e man­tém engrax­adas as engrena­gens econômi­cas da vida cotid­i­ana. A cor­rupção era uma questão de sobre­vivên­cia. Nos dois lados.

Ver quão facil­mente isso acon­te­ceu — não ape­nas conosco, mas com out­ros à nos­sa vol­ta — me fez per­gun­tar se a cor­rupção é só uma questão moral. Sei que os core­anos que con­hece­mos eram boas pes­soas. Mas se a cor­rupção é prin­ci­pal­mente uma questão moral, por que essas boas pes­soas par­tic­i­pavam dis­so com tan­ta facil­i­dade? E elas não são as úni­cas. Hoje, mais de dois terços dos país­es avali­a­dos pela Transparên­cia Inter­na­cional, uma ONG ded­i­ca­da ao com­bate à cor­rupção, tiver­am notas abaixo de 50 — sendo 100 a mais alta — no Índice Anu­al de Per­cepção da Cor­rupção. A nota 0 é muito cor­rup­to, 100 é muito “limpo”. A média mundi­al foi 43. Segun­do a orga­ni­za­ção, 6 bil­hões do total de 7,6 bil­hões de pes­soas no mun­do vivem em país­es com gov­er­nos “cor­rup­tos”. É mui­ta gente. É difí­cil esti­mar o efeito con­ge­lante que a cor­rupção — ou a ameaça de — tem nos país­es pobres, espe­cial­mente quan­do a mera per­cepção de cor­rupção impede inves­ti­men­tos que pode­ri­am aju­dar os país­es a cri­ar riqueza e pros­peri­dade, mas sabe­mos que o impacto é enorme.

O com­bate à cor­rupção muitas vezes parece o Jogo da Toupeira, em que um jogador usa um marte­lo para acer­tar toupeiras de brin­que­do que apare­cem aleato­ri­a­mente de diver­sos bura­cos na super­fí­cie do jogo. Você acer­ta uma toupeira e out­ra salta para cima em out­ro bura­co. Você gas­ta tan­ta ener­gia acer­tan­do os ani­mais que aca­ba desistin­do.

Isso nos fez per­gun­tar se esta­mos enfo­ca­dos basi­ca­mente nos sin­tomas da cor­rupção, em vez de ten­tar real­mente com­preen­der sua causa. Para chegar ao fun­do do prob­le­ma, deve­mos faz­er duas per­gun­tas impor­tantes: primeira, por que a cor­rupção escan­car­a­da é tão mais difun­di­da nos país­es mais pobres do que nos ricos? E segun­da: como muitos dos país­es hoje prósper­os min­i­mizaram as incidên­cias de cor­rupção? Como ver­e­mos, as respostas a essas per­gun­tas ofer­e­cem um quadro que poderá aju­dar a reduzir a prevalên­cia da cor­rupção em muitos dos país­es mais pobres do mundo.Compreendendo a cor­rupção

A cor­rupção não é um fenô­meno recente. Muitos país­es hoje prósper­os já foram cor­rup­tos; na ver­dade, alguns eram tão cor­rup­tos quan­to muitos país­es pobres são hoje. Mas a cor­rupção não é um fenô­meno per­ma­nente, tam­pouco. Ou pelo menos não pre­cisa ser. Ape­sar de saber­mos que ain­da ocor­rem casos indi­vid­u­ais até nos país­es mais admi­ra­dos do mun­do (e os Esta­dos Unidos não são exceção), ela não é mais uma parte dom­i­nante dessas cul­turas. Então o que cau­sou o dano? Você pode­ria faz­er uma lista ráp­i­da de respostas que pare­cem óbvias: boa lid­er­ança e gov­er­nança de cima para baixo, uma mudança nos val­ores morais da sociedade, ou a imple­men­tação de insti­tu­ições ade­quadas. Mas não acred­i­ta­mos que essas sejam as coisas que mod­i­fi­cam fun­da­men­tal­mente a tol­erân­cia de uma sociedade à cor­rupção. Isso é impor­tante para recon­hecer por que tan­tos pro­gra­mas anti­cor­rupção são volta­dos quase exclu­si­va­mente à gov­er­nança e fun­cionam na base de insti­lar um sen­ti­do de cer­to e erra­do. Se essa fos­se a chave para com­bat­er a cor­rupção, por que ess­es esforços muito dig­nos em ger­al tiver­am rel­a­ti­va­mente pouco impacto duradouro para vencer o com­bate à cor­rupção?

Segun­do o mais recente Índice de Per­cepção de Cor­rupção, relatório pub­li­ca­do pela Transparên­cia Inter­na­cional, “a maio­r­ia dos país­es fez pouco ou nen­hum pro­gres­so para acabar com a cor­rupção “.2 Assim, mes­mo com o inten­so enfoque inter­na­cional — e uma enx­ur­ra­da de recur­sos para com­bat­er o prob­le­ma, incluin­do ini­cia­ti­vas para incul­car um sen­ti­do fun­da­men­tal de inte­gri­dade nas cri­anças –, o pro­gres­so tem sido muito lento.

Não acred­i­ta­mos que as pes­soas que nascem nas sociedades pobres este­jam de algum modo per­den­do a fibra moral fun­da­men­tal das que têm a feli­ci­dade de nascer em cir­cun­stân­cias mais prósperas. Tam­pouco elas sim­ples­mente igno­ram que exista um cam­in­ho mel­hor. A cor­rupção é o mel­hor cam­in­ho, um atal­ho, uma util­i­dade em lugares onde há pou­cas opções mel­hores. A cor­rupção é ado­ta­da para se realizar um tra­bal­ho, ou, mais especi­fi­ca­mente, para aju­dar as pes­soas a pro­gredir em uma deter­mi­na­da cir­cun­stân­cia. Essa é uma visão impor­tante. Quan­do com­preen­der­mos por que as pes­soas recor­rem à cor­rupção, poder­e­mos começar a ver difer­entes abor­da­gens para solu­cionar o prob­le­ma.

Não esta­mos dizen­do que a cor­rupção pos­sa ser com­ple­ta­mente errad­i­ca­da de uma sociedade, mas acred­i­ta­mos que pos­sa ser aten­u­a­da de modo sig­ni­fica­ti­vo. E isso é impor­tante para o poten­cial de cresci­men­to de uma sociedade, porque lim­i­tar a cor­rupção abre espaço para a pre­vis­i­bil­i­dade, que em últi­ma instân­cia mel­ho­ra a con­fi­ança e a transparên­cia. A con­fi­ança enraiza­da nos sis­temas é o obje­ti­vo, porque as pes­soas se dis­põem a ver opor­tu­nidade e inve­stir em econo­mias con­struí­das sobre con­fi­ança e transparên­cia. E, assim como pros­peri­dade, con­stru­ir con­fi­ança é um processo.Por que as pes­soas ado­tam a cor­rupção?



Para ini­ciar o proces­so de con­stru­ir con­fi­ança e transparên­cia, pre­cisamos com­preen­der por que as pes­soas ado­tam a cor­rupção para resolver seus prob­le­mas. Desco­b­ri­mos três motivos poderosos.

Primeiro, a vas­ta maio­r­ia dos indi­ví­du­os na sociedade quer pro­gredir. Da pes­soa pobre que procu­ra emprego à rica que dese­ja gan­har sta­tus, a maio­r­ia quer mel­ho­rar seu bem-estar finan­ceiro, social e emo­cional. É por isso que estu­damos, tiramos férias e vamos a locais de cul­to reli­gioso. Tam­bém é por isso que guardamos din­heiro, com­pramos casas, abri­mos empre­sas e dis­puta­mos car­gos públi­cos. Cada uma dessas coisas, de uma maneira ou de out­ra, nos aju­da a sen­tir que esta­mos pro­gredin­do na vida. Quan­do a sociedade nos ofer­ece pou­cas opções de pro­gres­so, a cor­rupção se tor­na mais inter­es­sante.

Segun­do, todo indi­ví­duo, assim como toda empre­sa, tem uma estru­tu­ra de cus­tos. Nos negó­cios, a estru­tu­ra de cus­tos de uma empre­sa se ref­ere à com­bi­nação das despe­sas fixas e var­iáveis que ela efe­t­ua para con­duzir seus negó­cios. Ela define quan­to uma empre­sa tem de gas­tar para pro­je­tar, fab­ricar, vender e apoiar um pro­du­to. Por exem­p­lo, quan­do uma com­pan­hia gas­ta US$ 100 para cri­ar e entre­gar um pro­du­to a um cliente, para ter lucro ela deve vender o pro­du­to por mais de US$ 100.

De modo semel­hante, os indi­ví­du­os tam­bém têm uma estru­tu­ra de cus­tos — quan­to eles gas­tam para man­ter um deter­mi­na­do esti­lo de vida. Isto inclui despe­sas como aluguel ou prestações de hipote­ca, matrícu­las esco­lares, con­tas de hos­pi­tal, ali­men­tação etc., e, assim como as com­pan­hias, os indi­ví­du­os devem ter receitas (de tra­bal­ho ou de inves­ti­men­tos) maiores que os cus­tos. Com­preen­der essa sim­ples relação receitas-despe­sas pode aju­dar a pre­v­er cir­cun­stân­cias em que a prob­a­bil­i­dade de cor­rupção será alta, assim como a eficá­cia das inter­venções anti­cor­rupção. Essen­cial­mente, se os pro­gra­mas anti­cor­rupção não afetarem fun­da­men­tal­mente a equação receitas-despe­sas, é improváv­el que sejam sus­ten­táveis.

Como ilus­tração, con­sidere este sim­ples exem­p­lo. Se um poli­cial na Índia gan­ha 20 mil rúpias por mês (aprox­i­mada­mente US$ 295), mas tem uma estru­tu­ra de cus­tos que exige que ele gaste US$ 400 por mês, ele será suscetív­el à cor­rupção, inde­pen­den­te­mente do que digam as leis. Em con­se­quên­cia, podemos pre­vi­sivel­mente esper­ar que o poli­cial médio peça propinas, espe­cial­mente em uma sociedade onde a apli­cação da lei e os proces­sos de crimes de cor­rupção não são preva­lentes. Não é que ele seja iner­ente­mente uma pes­soa má — na ver­dade, acred­i­to pes­soal­mente que as pes­soas sejam intrin­se­ca­mente boas –, mas as cir­cun­stân­cias de sua vida exigem que ele faça opções difí­ceis para sobre­viv­er.

O ter­ceiro moti­vo pelo qual as pes­soas prati­cam cor­rupção é que a maio­r­ia dos indi­ví­du­os — inde­pen­den­te­mente do nív­el de ren­da — ten­tará sub­vert­er as estraté­gias pre­dom­i­nantes de apli­cação da lei para pro­gredir ou se ben­e­fi­ciar, segun­do os pro­fes­sores de Har­vard Edward Glaeser e Andrei Shleifer, que estu­daram o aumen­to da reg­u­la­men­tação nos Esta­dos Unidos na vira­da do sécu­lo XX. Os seres humanos são “pro­gra­ma­dos” para tomar a mel­hor decisão para si mes­mos con­forme as cir­cun­stân­cias. Quan­do somos con­fronta­dos com uma lei que limi­ta nos­sa capaci­dade de faz­er algo que quer­e­mos, a maio­r­ia de nós instin­ti­va­mente faz um cál­cu­lo men­tal. Eu pre­ciso obe­de­cer a essa lei, ou pos­so des­obe­decê-la sem con­se­quên­cias? E de que modo me sairei mel­hor?

O raciocínio por trás des­ta ideia é muito sim­ples: viv­er de acor­do com as leis definidas pelo Esta­do exige esforço, e por isso a pes­soa racional média vai justapor os bene­fí­cios de obe­de­cer à lei com as con­se­quên­cias da des­obe­diên­cia. Se a bal­ança se incli­nar para a des­obe­diên­cia, é de fato irra­cional que o indi­ví­duo obe­deça à lei, por mais que ela pareça “boa para a sociedade”. Um exem­p­lo sim­ples dis­so que ocorre no mun­do todo é o fato de que tan­tas pes­soas ultra­pas­sam o lim­ite de veloci­dade quan­do não há poli­ci­ais à vista. Vinte anos atrás, ter um detec­tor de radar no car­ro era quase um sím­bo­lo de sta­tus nos EUA. Hoje em dia, o aplica­ti­vo Waze, basea­do em GPS, nos per­mite avis­ar uns aos out­ros quan­do há um car­ro da polí­cia à espre­i­ta atrás de arbus­tos na estra­da. Desen­volve­mos um pro­du­to de rede social que depende de muitas pes­soas con­cor­darem que deve­mos nos aju­dar mutu­a­mente a evi­tar ser­mos apan­hados por radares. Quer­e­mos pro­gredir — ir aonde dese­jamos rap­i­da­mente — e ao mes­mo tem­po igno­rar a lei que nos infor­ma do lim­ite de veloci­dade, porque acred­i­ta­mos que ficare­mos mel­hor fazen­do essa opção. Enquan­to as cir­cun­stân­cias podem diferir, o proces­so de avali­ação rara­mente o faz.

Mas as sociedades evoluem. Entre­tan­to, o cam­in­ho de uma sociedade mer­gul­ha­da em cor­rupção para out­ra em que con­fi­ança e transparên­cia pros­per­am geral­mente segue um padrão pre­definido e muitas vezes pre­visív­el, com três fas­es: “cor­rupção escan­car­a­da e impre­visív­el”, segui­da de “cor­rupção encober­ta e pre­visív­el”, tran­si­tan­do afi­nal para o que chamare­mos de uma sociedade “trans­par­ente”.

Só porque um deter­mi­na­do país é clas­si­fi­ca­do como estando na fase 1 não sig­nifi­ca que não ten­ha alguns com­po­nentes da fase 2. Em vez de pen­sar nes­sas três fas­es como abso­lu­ta­mente difer­entes, pense nelas como três pon­tos em um espec­tro. Nos­sa suposição é que todos quer­e­mos ter­mi­nar o mais próx­i­mo pos­sív­el da fase 3 — uma sociedade em que a con­fi­ança e a transparên­cia são val­orizadas. O cam­in­ho para a transparên­cia se man­i­fes­ta de modo ligeira­mente difer­ente em país­es diver­sos, levan­do em con­ta sua cul­tura e suas cir­cun­stân­cias. A história nos diz, porém, que o cam­in­ho da cor­rupção à transparên­cia em muitos dos país­es menos cor­rup­tos do mun­do seguiu um cam­in­ho rel­a­ti­va­mente pre­visív­el ao pas­sar por essas fas­es. Veja como ele geral­mente se desenrola.Fase 1: Escan­car­a­da e impre­visív­el

A primeira fase é o que chamamos de Cor­rupção Escan­car­a­da e Impre­visív­el, e é aí que se encon­tram muitos país­es pobres. Neles, os con­tratos são difí­ceis de aplicar, as insti­tu­ições gov­er­na­men­tais rara­mente são con­fiáveis e os escân­da­los de cor­rupção, comuns. Em qual­quer dess­es país­es, quan­do você lê um jor­nal provavel­mente encon­tra uma manchete na primeira pági­na sobre grandes desvios de ver­bas pelas elites empre­sari­ais e políti­cas. Muitos país­es nes­sa fase têm nota baixa no Índice de Per­cepção da Cor­rupção, da Transparên­cia Inter­na­cional. É muito difí­cil que o cap­i­tal seja empre­ga­do nesse tipo de ambi­ente. Os investi­dores com­preen­sivel­mente evi­tam esse tipo de impre­vis­i­bil­i­dade e opaci­dade. Por exem­p­lo, imag­ine faz­er negó­cios na Venezuela, onde o gov­er­no não pode mais finan­ciar as neces­si­dades bási­cas de muitas pes­soas.

Emb­o­ra a situ­ação na Venezuela pos­sa pare­cer deses­per­ado­ra, é impor­tante notar que muitos país­es prósper­os e avança­dos já tiver­am cir­cun­stân­cias semel­hantes. No final dos anos 1940, por exem­p­lo, Tai­wan era muito cor­rup­ta e impre­visív­el. Prefeitos e autori­dades públi­cas dis­tribuíam favores aos ami­gos e for­ravam os bol­sos no proces­so, e muitas for­mas de cor­rupção, como propina, enriquec­i­men­to ilíc­i­to, nepo­tismo e até crime orga­ni­za­do cor­ri­am soltos. Mas des­de então Tai­wan se tornou uma econo­mia muito bem suce­di­da e pro­du­ti­va, e se situa no 29º lugar entre os 180 país­es no Índice de Per­cepção de Cor­rupção.

Nes­ta primeira fase da evolução de uma sociedade, espe­cial­mente quan­do o país é pobre, uma estraté­gia de com­bate à cor­rupção enfo­ca­da basi­ca­mente na insti­tu­ição de novas leis não é muito efi­caz para con­ter a cor­rupção. De fato, elas ten­dem a agravar as coisas, pois é dado um prêmio para se encon­trar maneiras de con­tornar as leis que atra­pal­ham o pro­gres­so das pes­soas. Além dis­so, muitos país­es pobres são inca­pazes de impor a lei ade­quada­mente. Acon­tece que a apli­cação da lei é cara — do pon­to de vista finan­ceiro, social e políti­co. Isso não quer diz­er que a cor­rupção passe des­perce­bi­da. Os protestos con­tra ela são enormes e fre­quentes em todo o mun­do. Esse fer­vor lev­ou a uma pro­lif­er­ação de can­didatos anti­cor­rupção dis­putan­do car­gos políti­cos impor­tantes. Às vezes eles até gan­ham. Vladimir Putin, na Rús­sia, e o fale­ci­do Hugo Chávez, na Venezuela, por exem­p­lo, chegaram ao poder prom­e­tendo erradicar a cor­rupção. Dig­amos ape­nas que essas cam­pan­has não tiver­am o efeito que os eleitores esper­avam.

Mes­mo no raro caso de líderes gen­uina­mente bons com uma von­tade poderosa de trans­for­mar um país — veja o exem­p­lo da influên­cia de Nel­son Man­dela na África do Sul nos anos em que ele a coman­dou — a cor­rupção não desa­parece magi­ca­mente com boas intenções do gov­er­no. Quan­do Man­dela foi eleito pres­i­dente da África do Sul pós-apartheid, em 1994, ele era sem dúvi­da um dos líderes mais admi­ra­dos do mun­do. Vinte e sete anos como pri­sioneiro políti­co não havi­am aten­u­a­do sua von­tade de tornar a África do Sul um lugar mel­hor. Pelo con­trário, a havi­am for­t­ale­ci­do. Ain­da hoje pen­samos nele como a per­son­ifi­cação de uma grande lid­er­ança. “Emb­o­ra ele ten­ha declar­a­do ser um homem comum que se tornou um líder por causa de cir­cun­stân­cias extra­ordinárias”, disse min­ha cole­ga Nitin Nohria, reito­ra da Esco­la de Econo­mia de Har­vard, por ocasião da morte de Man­dela, “ele exem­pli­fi­cou as car­ac­terís­ti­cas de lid­er­ança que mais val­orizamos: inte­gri­dade, moral, com­paixão e humil­dade.”

Mas mes­mo durante os anos mais esper­ançosos de seu manda­to a África do Sul esta­va — e con­tin­ua — mer­gul­ha­da na cor­rupção. De fato, nos anos des­de que Man­dela deixou o gov­er­no, a cor­rupção só piorou. Jacob Zuma, que se tornou pres­i­dente depois que o suces­sor ini­cial de Man­dela foi removi­do do car­go, foi chama­do de “pres­i­dente Teflon”, por sua capaci­dade de repelir um número extra­ordinário de denún­cias e escân­da­los de cor­rupção em seus oito anos na Presidên­cia. Antes de final­mente ced­er à pressão para renun­ciar, no iní­cio de 2018, a mag­ni­tude das denún­cias de cor­rupção con­tra Zuma, 78 anos, era sur­preen­dente. Ele enfren­tou mais de 780 denún­cias rela­cionadas somente a um acor­do de armas de 1999, e enfren­tou críti­cas inter­na­cionais por suas lig­ações inco­mu­mente próx­i­mas com uma poderosa família de empresários sul-africanos. A ven­da de influên­cia em seu gov­er­no era tão gen­er­al­iza­da, segun­do The New York Times, que se tornou uma espé­cie de cap­tura do Esta­do em que os par­ceiros de negó­cios ou ami­gos de Zuma influ­en­ci­avam as decisões do gov­er­no em seu inter­esse pes­soal.

Como a África do Sul, tão fam­inta por mudanças durante a lid­er­ança de Man­dela, escor­re­gou para tão longe e tão depres­sa da esper­ança que ele rep­re­sen­ta­va? Segun­do a maio­r­ia dos relatos, a África do Sul pos­sui muitas das car­ac­terís­ti­cas insti­tu­cionais necessárias para com­bat­er a cor­rupção: uma Con­sti­tu­ição admiráv­el, um Judi­ciário inde­pen­dente e uma mídia robus­ta. Na maio­r­ia dos índices de cor­rupção, incluin­do os pro­duzi­dos pela Transparên­cia Inter­na­cional, a África do Sul ain­da se clas­si­fi­ca em um lugar medi­ano — clas­si­fi­cação que na ver­dade se dete­ri­o­ra ano a ano.

A luta da África do Sul não é úni­ca. Cin­co anos depois que Ellen John­son Sir­leaf se tornou a primeira mul­her demo­c­ra­ti­ca­mente elei­ta pres­i­dente na África, ela rece­beu uma das mais altas hon­rarias inter­na­cionais, o Prêmio Nobel da Paz, por sua lid­er­ança em garan­tir a paz na Libéria. Ela havia se ded­i­ca­do durante anos a con­stru­ir — ou recon­stru­ir — as insti­tu­ições democráti­cas do país e reforçar a posição das mul­heres. Mas mes­mo com essa acla­mação inter­na­cional a lid­er­ança de Sir­leaf não con­seguiu trans­for­mar total­mente a Libéria, onde a Transparên­cia Inter­na­cional rela­tou que 69% da pop­u­lação admi­ti­ram ter pago propina em 2016 para ter aces­so a serviços bási­cos como saúde e edu­cação. Sir­leaf acabou deixan­do o car­go com o país ain­da enfrentan­do o que ela chamou de “inimi­go públi­co número um” quan­do assum­iu o gov­er­no, há mais de uma déca­da. “Não cump­ri­mos total­mente a promes­sa anti­cor­rupção que fize­mos em 2006”, disse Sir­leaf aos leg­is­ladores em seu últi­mo dis­cur­so sobre a situ­ação do país. “Não é por fal­ta de von­tade políti­ca de fazê-lo, mas por causa da intrata­bil­i­dade da dependên­cia e des­on­esti­dade cul­ti­vadas em anos de pri­vação e mau gov­er­no.”

A cor­rupção não ocorre basi­ca­mente por fal­ta de boa lid­er­ança. Emb­o­ra ela cer­ta­mente faça parte, os fatores casuais são muito mais bási­co fun­da­men­tais. Cor­rupção sig­nifi­ca “ado­tar” a solução mais apro­pri­a­da para o que parece ser, no momen­to, o bem maior entre as opções disponíveis.Fase 2: Encober­ta e pre­visív­el

A segun­da fase no espec­tro da cor­rupção é a encober­ta e pre­visív­el. Nes­ta fase, a cor­rupção é mais ou menos um seg­re­do em aber­to — pense no filme Casablan­ca, em que o capitão de polí­cia Louis Renault declara estar “Choca­do! Choca­do!” ao desco­brir que há jogo na boate ilíci­ta e próspera de Rick, esta­b­elec­i­men­to que habit­ual­mente “mol­ha a mão” de Renault. As pes­soas sabem que há cor­rupção, mas ela está embu­ti­da no sis­tema. Como o desen­volvi­men­to acon­tece em para­le­lo, a cor­rupção é vista como um cus­to necessário para se faz­er negó­cios. A tran­sição da cor­rupção impre­visív­el para a pre­visív­el pode ser muito dis­pendiosa econômi­ca e politi­ca­mente — e exige basi­ca­mente a cri­ação de novos mer­ca­dos, e não leis. A maio­r­ia das pes­soas que se envolvem em cor­rupção sabem que não devem faz­er o que estão fazen­do. Novas leis só aju­dam a resolver um prob­le­ma quan­do há dúvi­da sobre o que faz­er e quan­do os gov­er­nos têm capaci­dade para aplicar as leis.

Veja a Chi­na. Segun­do algu­mas esti­ma­ti­vas, a cor­rupção pode estar cus­tan­do ao gov­er­no chinês até US$ 86 bil­hões por ano. “É mais que o PIB de 61 dos país­es mais pobres do mun­do. Des­de 2000, entre US$ 1 tril­hão e US$ 4 tril­hões teri­am deix­a­do o país, segun­do esti­ma­ti­vas, e parte dess­es fun­dos estavam lig­a­dos a autori­dades do gov­er­no, incluin­do o cun­hado do pres­i­dente Xi Jin­ping. Segun­do uma reportagem, o val­or líqui­do dos 153 par­la­mentares comu­nistas chi­ne­ses chegou a US$ 650 bil­hões em 2017, um aumen­to de mais de 30% em relação ao ano ante­ri­or. Isso é mais que os PIBs da Fin­lân­dia e da Norue­ga com­bi­na­dos.

A Chi­na e muitos out­ros país­es pobres ten­taram erradicar a cor­rupção primeira­mente usan­do leis, mas com suces­so lim­i­ta­do. Para­doxal­mente, quan­to mais leis ess­es país­es aprovam para com­bat­er a cor­rupção, mais a cor­rupção parece se espal­har. A Chi­na, por exem­p­lo, tem “mais de 1.200 leis, reg­u­la­men­tos e dire­trizes con­tra a cor­rupção”. Mas de que serve uma lei se o órgão que a provê não tem força, din­heiro ou von­tade para aplicá-la?

Ao mes­mo tem­po, é difí­cil dis­cu­tir o recente desen­volvi­men­to da Chi­na e o influxo de inves­ti­men­to estrangeiro dire­to (IED) nas últi­mas qua­tro décadas. Em 1970, o PIB per capi­ta da Chi­na era de aprox­i­mada­mente US$ 112; hoje é de cer­ca de US$ 8.200. Naque­la época, a expec­ta­ti­va de vida era de 59 anos; hoje é de aprox­i­mada­mente 76. O país cresceu em uma taxa anu­al média de mais de 10% e rep­re­sen­tou aprox­i­mada­mente 40% do cresci­men­to glob­al durante esse perío­do. Deve-se notar, entre­tan­to, que mes­mo enquan­to a Chi­na exper­i­men­ta esse cresci­men­to o país ain­da fica em 77º lugar entre os 180 da clas­si­fi­cação de cor­rupção da Transparên­cia Inter­na­cional, abaixo do Sene­gal (66º) e ao lado de Trinidad e Toba­go. A cor­rupção não impediu que o desen­volvi­men­to se enraizasse. Talvez mais rev­e­lador seja o meteóri­co aumen­to de IED na Chi­na nos últi­mos 40 anos. Em 1980, o IED na Chi­na foi de cer­ca de US$ 400 mil­hões. Em 2016, total­i­zou mais de US$ 170 bil­hões, um aumen­to de 42.500%. Na ver­dade, de 2006 a 2016 mais de US$ 2,3 tril­hões em IED fluíram para a Chi­na. Os investi­dores estrangeiros que despe­jaram tril­hões de dólares na Chi­na não sabi­am que a cor­rupção era gen­er­al­iza­da no país? Por que eles não quis­er­am esper­ar que o país errad­i­cas­se a cor­rupção antes de inve­stir? Basi­ca­mente porque o tipo de cor­rupção na Chi­na difere do de out­ros país­es, para começar. Ela é encober­ta, mas pre­visív­el. Assim, pode ser incluí­da no cál­cu­lo do “cus­to de faz­er negó­cios” lá. Emb­o­ra o desen­volvi­men­to este­ja ocor­ren­do na Chi­na (como men­cionamos antes, o país tirou cer­ca de 1 bil­hão de pes­soas da pobreza nas últi­mas décadas), todos ain­da con­cor­dari­am que ain­da não é uma sociedade trans­par­ente, e que a cor­rupção ain­da pros­pera. Para que a pros­peri­dade se torne sus­ten­táv­el em lon­go pra­zo, um país deve tran­si­tar para a ter­ceira fase.Fase 3: Transparên­cia

Em 2017, o lob­by nos Esta­dos Unidos total­i­zou mais de US$ 3,3 bil­hões. Os lobis­tas são uti­liza­dos para influ­en­ciar os gov­er­nos a aprovar leis favoráveis a suas causas, indús­trias ou inter­ess­es par­tic­u­lares. Mas mes­mo com bil­hões de dólares influ­en­cian­do as autori­dades amer­i­canas o país ain­da se clas­si­fi­ca em um respeitáv­el 16º lugar entre os 180 no Índice de Per­cepção de Cor­rupção da Transparên­cia Inter­na­cional.

A cor­rupção é ampla­mente neg­li­gen­ci­a­da nos EUA, e rara­mente proces­sa­da em toda a exten­são da lei. A Lei de Práti­cas Cor­rup­tas Estrangeiras de 1977 (FCPA) serve como dis­sua­sor para pos­síveis empre­sas amer­i­canas cor­rup­toras que atu­am fora do país, ou fir­mas inter­na­cionais que oper­am nos Esta­dos Unidos. Wal­mart, Siemens, Avon e Alstom, um grupo indus­tri­al francês, e muitas out­ras com­pan­hias burlaram a FCPA e em con­se­quên­cia pagaram cen­te­nas de mil­hões de dólares em mul­tas.

Então como essas duas coisas se coad­unam — pag­amos aber­ta­mente bil­hões de dólares para influ­en­ciar nos­sos gov­er­nos, mas tam­bém perseguimos agres­si­va­mente e proces­samos os envolvi­dos em cor­rupção? Além do fato de que faz­er lob­by é legal, ele tam­bém é bas­tante trans­par­ente. Os amer­i­canos curiosos podem obter dados do Escritório de Reg­istros Públi­cos do Sena­do e desco­brir quem faz lob­by para quem e para que causas.

Além de trans­par­ente, a econo­mia amer­i­cana tam­bém é rel­a­ti­va­mente pre­visív­el. Emb­o­ra os EUA não sejam imunes a escân­da­los de cor­rupção — e as pes­soas racionais podem dis­cor­dar de quão cor­rup­tos os EUA real­mente são –, o que é difer­ente e esper­ançoso é que a cor­rupção nos EUA é com fre­quên­cia denun­ci­a­da, proces­sa­da e puni­da. Não é pre­ciso procu­rar muito para encon­trar notí­cias sobre políti­cos amer­i­canos cor­rup­tos. Três dos últi­mos qua­tro pres­i­dentes da Câmara dos Dep­uta­dos do Esta­do de Mass­a­chu­setts foram con­de­na­dos por acusações de cor­rupção. O ex-gov­er­nador de Illi­nois Rob Blago­je­vich foi jul­ga­do e con­de­na­do a 14 anos de prisão por acusações de cor­rupção quan­do ten­tou “vender” o lugar vago no Sena­do do ex-pres­i­dente Barack Oba­ma. Mas os EUA nem sem­pre proces­saram, e ain­da menos con­denaram seus infratores. Então como evoluíram de um país onde a cor­rupção vice­ja­va para um em que a transparên­cia se tornou a norma?De “Boss” Tweed a Sal­va­tore DiMasi

Assim como é difí­cil imag­i­nar os Esta­dos Unidos pobres, é igual­mente difí­cil imag­i­nar esse país aber­ta­mente cor­rup­to e onde tais inci­dentes não seri­am inves­ti­ga­dos. Mas hou­ve uma época em que a cor­rupção nos Esta­dos Unidos era com­paráv­el à cor­rupção atu­al em alguns dos país­es mais pobres.

Talvez mais do que ninguém, o políti­co amer­i­cano do sécu­lo XIX William Magear “Boss” Tweed exem­pli­fi­ca­va o que sig­nifi­ca­va ser escan­car­ada­mente cor­rup­to. Nasci­do em 1823, Tweed entrou cedo na políti­ca e foi eleito vereador quan­do tin­ha 28 anos. Após vários anos no car­go, Tweed abriu um escritório de advo­ca­cia, emb­o­ra não fos­se advo­ga­do. Por meio do escritório, ele rece­bia paga­men­tos de grandes cor­po­rações por seus “serviços jurídi­cos”, que em sua maio­r­ia não pas­savam de extorsões. Com um grande cap­i­tal acu­mu­la­do, Tweed com­prou muitos hectares de ter­ras em Man­hat­tan e aumen­tou sua influên­cia políti­ca na cidade de Nova York. Isso foi ape­nas o começo.

“O cír­cu­lo de Tweed em seu auge era uma mar­avil­ha de engen­haria, forte, sól­i­da e empre­ga­da estrate­gi­ca­mente para con­tro­lar cen­tros-chave do poder: os tri­bunais, o Leg­isla­ti­vo, o tesouro e as urnas eleitorais”, escreveu o bió­grafo Ken­neth Ack­er­man. “Suas fraudes tin­ham escala grandiosa e elegân­cia estru­tur­al: lavagem de din­heiro, par­til­ha de lucros e organização.“13 Durante sua época como chefão da gangue Tam­many Hall, Tweed, que tam­bém era mem­bro da Câmara dos Dep­uta­dos dos Esta­dos Unidos, roubou um mon­tante esti­ma­do entre US$ 1 bil­hão e US$ 4 bil­hões em val­ores cor­rigi­dos para a atu­al­i­dade.

Em 1889, o semanário satíri­co Puck pub­li­cou a car­i­catu­ra The Boss­es of the Sen­ate que ilus­tra­va per­feita­mente como a cor­rupção nos Esta­dos Unidos era escan­car­a­da naque­la época.  A car­i­catu­ra mostra mem­bros do Sena­do tra­bal­han­do febril­mente como lobis­tas pelos inter­ess­es de con­sór­cios como Steel Beam Trust, Cop­per Trust, Sug­ar Trust e assim por diante, obser­va­dos da gale­ria aci­ma. Entre as várias entradas para a câmara do Sena­do, uma tin­ha a seguinte inscrição: “Este é um Sena­do dos Monop­o­lis­tas pelos Monop­o­lis­tas!” A por­ta rep­re­sen­tan­do a “Entra­da do Povo” esta­va “FECHADA”.  A cor­rupção era tão grave e dis­sem­i­na­da que o pres­i­dente Woodrow Wil­son (1913–1921) teve de abor­dá-la durante sua gestão.

Em 1913, Wil­son escreveu em um de seus livros: “Há tri­bunais nos Esta­dos Unidos que são con­tro­la­dos por inter­ess­es. Há juízes cor­rup­tos; há juízes que atu­am como ser­vos de out­ros home­ns, não como servi­dores públi­cos. Oh, há alguns capí­tu­los ver­gonhosos na história. O proces­so judi­cial é a sal­va­guar­da supre­ma das coisas que pre­cisamos man­ter estáveis neste país. Mas supon­hamos que essa sal­va­guar­da este­ja cor­romp­i­da e não pro­te­ja os meus e os seus inter­ess­es, porém pro­te­ja ape­nas os inter­ess­es de um grupo muito pequeno de indi­ví­du­os. Então, onde está sua sal­va­guar­da?”

A cor­rupção nos Esta­dos Unidos tam­bém per­me­a­va grandes pro­je­tos de infraestru­tu­ra, como fer­rovias e estradas. Emb­o­ra as fer­rovias nos idos de 1800 e as estradas nos idos de 1900 fos­sem boas para o país, elas tam­bém impli­cavam um grau inédi­to de cor­rupção. Quan­do o gov­er­no amer­i­cano entrou no negó­cio das fer­rovias e esten­deu sub­sí­dios a empre­it­eiras, ess­es sub­sí­dios fre­quente­mente eram dados com base no número de quilômet­ros de tril­hos fer­roviários insta­l­a­dos, não na qual­i­dade ou efe­tivi­dade dos tril­hos. As empre­it­eiras con­struíam fer­rovias lon­gas e sin­u­osas, muitas vezes usan­do mate­ri­ais abaixo do padrão dese­jáv­el, pois com­peti­am sobre­tu­do por “favores fed­erais, não por usuários das fer­rovias.”

Vejamos o que acon­te­ceu com a con­strução de estradas após o boom dos automóveis no iní­cio do sécu­lo XX. Thomas Mac­Don­ald, então à frente da Admin­is­tração Rodoviária Fed­er­al dos Esta­dos Unidos, “vis­i­tou estradas em obras onde se deparou com des­perdí­cio e tra­bal­ho ordinário em abundân­cia”, obser­va Earl Swift em seu livro The Big Roads. “Era comum local­i­dades con­seguirem uma estra­da que valia dez cen­tavos por cada dólar que gas­tavam… as empre­it­eiras loteavam o esta­do entre si para que cada uma asse­gurasse todas as obras em um deter­mi­na­do ter­ritório, um esque­ma que cus­ta­va aos con­tribuintes de impos­tos o dobro em con­tratos alta­mente super­fat­u­ra­dos.”

Se os rank­ings anu­ais da Transparên­cia Inter­na­cional exis­tis­sem naque­la época, os Esta­dos Unidos não estari­am uma posição tão alta na lista dos país­es “menos cor­rup­tos”. Mas, ao lon­go do tem­po, o país encon­trou suas sal­va­guardas e hoje está em 16º lugar na lista. Será que isso se deveu basi­ca­mente a leis mel­hores? À eleição de políti­cos mel­hores? À cri­ação de insti­tu­ições mel­hores? Cer­ta­mente todos ess­es fatores aju­daram a cri­ar e a apoiar a cul­tura de transparên­cia que ago­ra temos, mas eles não fiz­er­am os Esta­dos Unidos pararem repenti­na­mente de ser cor­rup­tos.

À medi­da que um número cres­cente de amer­i­canos ameal­hou cada vez mais riqueza e achou maneiras mel­hores de sobre­viv­er, seus clam­ores de insat­is­fação com a cor­rupção gan­haram um vol­ume maior. “Politi­ca­mente, a ira das víti­mas impor­ta­va pouco em 1840 e não muito em 1860, mas em 1890 era uma força extrema­mente rui­dosa”, comen­ta Lawrence Fried­man, pro­fes­sor de dire­ito em Stan­ford. Clara­mente, a cor­rupção não foi errad­i­ca­da em 1890, mas hou­ve um proces­so de evolução nos Esta­dos Unidos e o surg­i­men­to da esper­ança por algo mel­hor.

Assim, o que apren­demos sobre o desen­volvi­men­to dos Esta­dos Unidos é que isso acon­te­ceu ape­sar da cor­rupção dis­sem­i­na­da e da impre­vis­i­bil­i­dade reinantes. A luta con­tra a cor­rupção no país não foi ati­va­da basi­ca­mente pela leg­is­lação ou pela maior inten­si­dade no cumpri­men­to das leis. Ela acon­te­ceu porque a equação fun­da­men­tal sobre como os amer­i­canos comuns e ricos podi­am gan­har din­heiro, pro­gredir e sus­ten­tar suas famílias começou a mudar. “O cap­i­tal­is­mo amer­i­cano nos anos 1920 era menos cor­rup­to e menos abu­si­vo com os tra­bal­hadores e con­sum­i­dores do que em 1900”, 21, con­cluíram Glaeser e Shleifer em seu tra­bal­ho. Hoje em dia, o cap­i­tal­is­mo nos Esta­dos Unidos, emb­o­ra não seja per­feito, cer­ta­mente é supe­ri­or àquele que vig­o­ra­va nos anos 1920.

O desen­volvi­men­to muitas vezes pre­cede pro­gra­mas anti­cor­rupção bem-suce­di­dos, não o con­trário. Emb­o­ra, algu­mas pes­soas se tornem mais cor­rup­tas no decor­rer do tem­po porque é isso que sem­pre praticaram, eu não creio que a maio­r­ia delas acorde de man­hã ape­nas para agir de for­ma cor­rup­ta, emb­o­ra seja fácil acred­i­tar nis­so.

Quan­do há pou­cas alter­na­ti­vas para as pes­soas pro­gredi­rem, a cor­rupção muitas vezes se desta­ca como a opção mais viáv­el. Mas quan­do surge uma maneira mel­hor, tem iní­cio o proces­so que leva à transparên­cia. Isso é evi­dente em país­es em todos os continentes.Sobre Monar­cas e Home­ns

Vejamos como a cor­rupção evoluiu na Europa, onde suas for­mas mais óbvias — monar­quias abso­lutis­tas que se apro­pri­avam de ter­ras e bens e matavam cidadãos à von­tade- — eram comuns. Os monar­cas eram igual­a­dos a ladrões que estavam “per­ma­nen­te­mente à espre­i­ta, sem­pre ten­te­an­do… sem­pre bus­can­do… algo para roubar”.  A cor­rupção per­me­a­va a sociedade europeia, na qual ban­dos de home­ns arma­dos, com a bênção sec­re­ta de algum grau de nobreza, ater­ror­izavam dis­tri­tos inteiros com chan­tagem ou out­ros meios dra­co­ni­anos de extorquir din­heiro ou recur­sos. Eles não poupavam nen­hu­ma faixa etária, gênero ou lugar. Até ple­beus podi­am faz­er isso, des­de que dis­pusessem de din­heiro sufi­ciente, juízes e júris cor­rup­tos, de maneiras incon­ce­bíveis hoje em dia.

Emb­o­ra a tran­sição da cor­rupção escan­car­a­da para a transparên­cia na Europa ten­ha sido mais lenta e talvez mais dolorosa do que nos Esta­dos Unidos, em últi­ma análise, ela deslan­chou em parte dev­i­do a um fator semel­hante: ino­vações que cri­aram novos mer­ca­dos para muitos não con­sum­i­dores do con­ti­nente, ofer­e­cen­do opções viáveis para a pes­soa comum gan­har a vida. Os novos mer­ca­dos tam­bém obri­garam os gov­er­nos a se tornar mais cria­tivos para cobrar impos­tos e con­tro­lar seus cidadãos.

À medi­da que as sociedades se tornaram menos agrárias, riquezas como ouro, pra­ta e out­ros metais pre­ciosos gan­haram mais mobil­i­dade, e os gov­er­nos tiver­am de cri­ar maneiras mel­hores para cobrar impos­tos de seus cidadãos. “Os monar­cas ino­varam nas maneiras de drenar a riqueza pri­va­da de seus cidadãos. Uma das medi­das mais sig­ni­fica­ti­vas foi a cri­ação de par­la­men­tos – onde podi­am nego­ciar con­cessões em políti­cas públi­cas para o paga­men­to de receitas públi­cas”, con­clui o pro­fes­sor de Har­vard Robert Bates em Pros­per­i­ty & Vio­lence: The Polit­i­cal Econ­o­my of Devel­op­ment. Os gov­er­nos optaram pela sedução em detri­men­to da intim­i­dação porque, de repente, os cidadãos podi­am movi­men­tar seus val­ores mais facil­mente. A econo­mia então se trans­for­mou – em vez de saque­ar a riqueza, bus­ca­va criá-la.

Além dis­so, à medi­da que con­tin­u­avam envolvi­dos em mais guer­ras e na con­quista de mais ter­ritórios, os monar­cas pre­cisavam pedir cada vez mais din­heiro empresta­do. Há numerosos relatos, por exem­p­lo, do monar­ca inglês no sécu­lo XVII que esta­va sem­pre pre­cisan­do de din­heiro. Tan­to naque­le tem­po como hoje em dia há pou­cas coisas piores do que um gov­er­no sem din­heiro quan­do está em guer­ra. E, difer­ente­mente de ago­ra, quan­do a dívi­da sober­ana é tipi­ca­mente con­sid­er­a­da como mais segu­ra do que a dívi­da pri­va­da (emb­o­ra isso depen­da do país em questão), naque­la época esse era o tipo mais arrisca­do de dívi­da no mer­ca­do. A dívi­da sober­ana era maior do que a dívi­da pri­va­da, deman­da­va mais tem­po para ser sal­da­da, e os monar­cas podi­am igno­rar a dívi­da, haven­do pou­ca ou nen­hu­ma con­se­quên­cia. Assim, os investi­dores que geral­mente emprestavam din­heiro aos monar­cas, e cujos mon­tantes de din­heiro ago­ra eram mais móveis por não estar mais atre­la­dos à ter­ra, e sim à ino­vação, levaram os monar­cas a cri­arem insti­tu­ições menos cor­rup­tas e mais trans­par­entes.

Ini­cial­mente, essas insti­tu­ições estavam longe do ide­al, mas cri­aram uma cer­ta pre­vis­i­bil­i­dade para os investi­dores na Europa. Os tri­bunais, por exem­p­lo, se con­cen­travam mais em faz­er jul­ga­men­tos rápi­dos do que em min­is­trar a justiça acu­rada­mente. Assim, os investi­dores podi­am ter uma boa esti­ma­ti­va de quan­to tem­po um proces­so iria durar e como isso afe­taria seus negó­cios. Isso é impor­tante, pois pesquisas sug­erem que a impre­vis­i­bil­i­dade em um sis­tema, ain­da que reple­to de cor­rupção, de fato pode ser mais danosa do que a própria cor­rupção.

Com o cresci­men­to dos mer­ca­dos europeus, os sis­temas jurídi­cos tam­bém gan­haram mais relevân­cia e autono­mia. Isso afe­tou a cul­tura do europeu comum, que pas­sou a dar imen­so val­or a essas novas insti­tu­ições em prol da transparên­cia. Elas fun­cionavam, mas é cru­cial enten­der por que: muitas dessas insti­tu­ições que pro­movi­am a transparên­cia eram lig­adas a novos mer­ca­dos que as sus­ten­tavam e as tor­navam necessárias.

Hoje, as cir­cun­stân­cias são clara­mente difer­entes. Nem todo país pobre está envolvi­do em algu­ma guer­ra ou é regi­do por um gov­er­no que está pre­cisan­do deses­per­ada­mente de din­heiro, como muitos gov­er­nos europeus quin­hen­tos anos atrás. Mas a equação fun­da­men­tal con­tin­ua a mes­ma. Deve haver uma boa razão para as pes­soas em uma sociedade quer­erem obe­de­cer às leis do lugar. Imag­inem como tem sido difí­cil para o gov­er­no da Argenti­na faz­er peque­nas empre­it­eiras declararem sua ren­da e pagarem impos­tos. Mas a empre­sa Igua­naFix, ao ofer­e­cer-lhes algo além de respon­s­abil­i­dade moral — a capaci­dade de pro­gredir nas batal­has da vida — con­seguiu mudar isso.A Transparên­cia se Enraiza

Até em país­es muito difer­entes dos Esta­dos Unidos e daque­les na Europa, há um padrão semel­hante no cam­in­ho para a transparên­cia. Se alguém dissesse ao gen­er­al Park Chung-hee, líder dita­to­r­i­al da Cor­eia do Sul de 1963 até 1979, que sua fil­ha, Park Geun-hye, seria algum dia pres­i­dente do país, ele cer­ta­mente não ficaria sur­pre­so. Mas se aque­la pes­soa dissesse ao gen­er­al que sua fil­ha seria alvo de impeach­ment pelo Par­la­men­to da Cor­eia do Sul e acu­sa­da de cor­rupção, ele pode­ria ficar estu­pefa­to.

Isso, porém, foi exata­mente o que acon­te­ceu na Cor­eia do Sul. No final de 2016, a pres­i­dente Park Geun-hye, fil­ha do gen­er­al Park, foi des­ti­tuí­da do car­go por ale­gações de sub­or­no, abu­so de poder e out­ros crimes rela­ciona­dos a cor­rupção. Em março de 2017, o Tri­bunal Con­sti­tu­cional da Cor­eia do Sul man­teve unanime­mente a decisão do Par­la­men­to e, em abril de 2018, a ex-pres­i­dente foi con­de­na­da a 24 anos de prisão.

Para aquilatar o quan­to isso é impor­tante, bas­ta diz­er que a Cor­eia do Sul foi gov­er­na­da pelo gen­er­al Park até seu assas­si­na­to em 1979. Sob sua ditadu­ra, a escala de desen­volvi­men­to econômi­co no país era inve­jáv­el, mas a escala de cor­rupção era igual­mente inegáv­el. O gov­er­no dis­tribuía favores para várias cor­po­rações grandes que, por sua vez, resti­tuíam din­heiro para autori­dades do gov­er­no. Isso esco­ra­va o sis­tema e, enquan­to a econo­mia esta­va crescen­do, a cor­rupção pare­cia rel­a­ti­va­mente minús­cu­la. No entan­to, essa impressão era abso­lu­ta­mente equiv­o­ca­da.

“Medi­das insti­tu­cionais baseadas em buro­c­ra­cia, esta­do de dire­ito, risco de expro­pri­ação e repú­dio de con­tratos por parte de gov­er­nos de país­es bem-suce­di­dos do Leste Asiáti­co em mea­d­os dos anos 1980 eram ape­nas um pouco mel­hores do que em muitos país­es com mau desem­pen­ho”, comen­ta o econ­o­mista Mush­taq Khan acer­ca da cor­rupção e desen­volvi­men­to insti­tu­cional na região. “A Indonésia, que está crescen­do rap­i­da­mente, teve a mes­ma nota que Mian­mar e Gana, e Cor­eia do Sul, Malásia e Tailân­dia tiver­am nota igual à da Cos­ta do Marfim. O índice de cor­rupção cri­a­do pela Transparên­cia Inter­na­cional mostrou que país­es em rápi­do cresci­men­to no Leste Asiáti­co tin­ham notas de cor­rupção nos anos 1980 que dife­ri­am pouco daque­las de out­ros país­es em desen­volvi­men­to.” Ain­da assim, a Cor­eia do Sul está avançan­do no cam­in­ho por uma sociedade mais trans­par­ente.

À medi­da que sociedades invis­tam mais em ino­vação, o que gera pros­peri­dade para seus cidadãos, seus sis­tema con­tra a cor­rupção irão mel­ho­rar lenta­mente e a per­spec­ti­va de declarar impeach­ment a um chefe de Esta­do cor­rup­to será não só pos­sív­el, como prováv­el.

Muitos país­es cor­rup­tos da atu­al­i­dade tam­bém têm poten­cial de se tornar mais trans­par­entes, mas para chegar lá, é pre­ciso haver a sequên­cia cor­re­ta. Na maio­r­ia dos país­es prósper­os, o cumpri­men­to ade­qua­do de leis con­tra cor­rupção se deu a reboque de inves­ti­men­tos em ino­vações que cri­aram novos mer­ca­dos ou expandi­ram os já exis­tentes. Obe­de­cen­do a sequên­cia cor­re­ta, pode-se começar a atiçar o pro­gres­so até nos país­es mais cor­rup­tos do mun­do. A história com­pro­va isso continuamente.Então, O Que Deve­mos Faz­er?

Então, o que podemos faz­er para diminuir a cor­rupção? Com nos­so entendi­men­to de que as pes­soas estão ten­tan­do pro­gredir na vida quan­do “apelam” para a cor­rupção, damos duas sug­estões. Primeiro: que tal se parásse­mos de con­cen­trar todo nos­so esforço para com­bat­er a cor­rupção? Sem ofer­e­cer simul­tane­a­mente um sub­sti­tu­to para algo proveitoso para as pes­soas, será dificílimo min­i­mizar a cor­rupção. Como naque­le jogo de Toupeira, assim que um esforço para elim­i­nar uma dá cer­to, surge out­ra for­ma de cor­rupção.

cir­cun­stân­cia em que se encon­tra um deter­mi­na­do esta­do dev­e­ria deter­mi­nar qual insti­tu­ição ou mecan­is­mo de cumpri­men­to da lei ele empre­ga, sug­erem Glaeser e Shleifer de Har­vard. O mod­e­lo deles propõe que “quan­do a capaci­dade admin­is­tra­ti­va do gov­er­no é muito lim­i­ta­da, e seus juízes e reg­u­ladores são vul­neráveis a intim­i­dação e cor­rupção, seria mel­hor aceitar as fal­has do mer­ca­do e fatores exter­nos exis­tentes do que lidar com eles por meio de proces­sos admin­is­tra­tivos ou judi­ci­ais. Pois se um país ten­ta de fato cor­ri­gir as fal­has do mer­ca­do, a justiça será sub­ver­ti­da, e recur­sos serão des­perdiça­dos com a sub­ver­são sem que as fal­has do mer­ca­do sejam de fato con­tro­ladas”. Em out­ras palavras, se um país não tiv­er a capaci­dade de cumprir as leis à risca, impor­tará muito pouco quan­tas novas leis, insti­tu­ições ou mandatos públi­cos sejam cri­a­dos para com­bat­er a cor­rupção ou impor transparên­cia.

Em vez de con­tin­uar com­bat­en­do agres­si­va­mente a cor­rupção com seus recur­sos muito lim­i­ta­dos, o que acon­te­ceria se gov­er­nos zelosos de país­es pobres se empen­has­sem em fomen­tar a cri­ação de novos mer­ca­dos que aju­dassem os cidadãos a resolverem seus prob­le­mas cotid­i­anos? Com a cri­ação de mer­ca­dos sufi­cientes, as pes­soas terão inter­esse no êxi­to dess­es mer­ca­dos. Gov­er­nos começarão a ger­ar mais recei­ta para mel­ho­rar seus tri­bunais, o cumpri­men­to das leis e os sis­temas leg­isla­tivos. Além dis­so, os mer­ca­dos cri­am empre­gos que dão às pes­soas uma alter­na­ti­va viáv­el a acu­mu­lar for­tu­na com meios cor­rup­tos. Pedir às pes­soas que rejeit­em a cor­rupção sem lhes dar um sub­sti­tu­to viáv­el não é muito real­ista e, con­forme os dados mostram, nem sem­pre funciona.Integrando e Inter­nal­izan­do as Oper­ações de Sua Orga­ni­za­ção

Segun­do, é pre­ciso enfo­car aqui­lo que podemos con­tro­lar, ou seja, inte­grar e inter­nalizar nos­sas oper­ações a fim de reduzir as opor­tu­nidades para a cor­rupção vice­jar. Orga­ni­za­ções enten­dem a importân­cia da inte­gração ver­ti­cal ou hor­i­zon­tal para con­tro­lar cus­tos e cri­ar pre­vis­i­bil­i­dade em suas oper­ações. Essa é uma das razões de muitas empre­sas grandes em mer­ca­dos emer­gentes inte­grarem ver­ti­cal e hor­i­zon­tal­mente oper­ações que podem pare­cer desnecessárias em país­es mais prósper­os. Con­forme descreve­mos ante­ri­or­mente, a Tolaram – fab­ri­cante do tal­harim Indomie — por exem­p­lo, é autossu­fi­ciente em ter­mos de ener­gia elétri­ca e mon­tou uma rede de dis­tribuição e vare­jo que garante o fornec­i­men­to estáv­el e pre­visív­el a seus clientes. A inte­gração não é uma nova estraté­gia de negó­cios, mas inte­grar as oper­ações tam­bém pode aju­dar a diminuir a cor­rupção.

Quan­to mais com­po­nentes do mod­e­lo de negó­cio de uma orga­ni­za­ção são inter­nos, mais opor­tu­nidades a orga­ni­za­ção tem para reduzir a cor­rupção. Em um cer­to sen­ti­do, é como se uma orga­ni­za­ção tivesse uma nova base para cri­ar novas regras que defi­nam seu sis­tema inter­no de rec­om­pen­sa e punição. Foi exata­mente isso que a Roshan, prin­ci­pal prove­do­ra de tele­co­mu­ni­cações no Afe­gan­istão, fez para reduzir a cor­rupção.

Com uma pon­tu­ação de 15/100, o Afe­gan­istão está no 177º lugar em meio a 180 país­es no Índice de Per­cepção da Cor­rupção da Transparên­cia Inter­na­cional. Um relatório recente da Transparên­cia lnter­na­cional indi­ca a improb­a­bil­i­dade de o país cumprir seus com­pro­mis­sos para ref­rear a cor­rupção, ape­sar dos esforços nesse sen­ti­do. Mas a Roshan enten­deu que, para sobre­pu­jar a cul­tura de cor­rupção cul­ti­va­da há tan­to tem­po no país, era pre­ciso faz­er algo difer­ente.

Muitas pes­soas talvez não saibam o quan­to era difí­cil faz­er tele­fone­mas no Afe­gan­istão duas décadas atrás, mas Philip Auers esclarece isso em seu livro, The Com­ing Pros­per­i­ty (2012). Ele cita Karim Kho­ja, fun­dador da Rashan, que obser­vou que, “a menos que fos­se muito rico, se você quisesse faz­er um tele­fone­ma era pre­ciso andar sete­cen­tos quilômet­ros até o país mais próx­i­mo. Havia uma empre­sa de tele­fo­nia celu­lar que cobra­va US$ 550 pelo apar­el­ho e US$ 12 por min­u­to, ou US$ 3 para lig­ações locais. Era pre­ciso sub­ornar o pes­soal de ven­das da empre­sa até para con­seguir um con­ta­to pes­soal.” Hoje em dia, a Roshan atende cer­ca de seis mil­hões de pes­soas e tem a rep­utação de atu­ar eti­ca­mente, empre­gan­do 1.200 indi­ví­du­os, em sua maio­r­ia afegãos. Mas não foi fácil chegar a esse pon­to. Em 2009, a Roshan gas­ta­va mais de US$ 1.500 com cada fun­cionário afegão local, treinando‑o em aspec­tos téc­ni­cos do negó­cio e em éti­ca.

A Roshan, porém, não se lim­i­tou ao treina­men­to éti­co, na esper­ança de que o lado mel­hor das pes­soas sem­pre aflo­re. A empre­sa enten­deu que era pre­ciso haver ain­da mais inte­gração, então abriu um depar­ta­men­to de relações com o gov­er­no que lida com ale­gações e relatos de cor­rupção. Sem­pre que alguém lhes pede propina, os fun­cionários são instruí­dos a relatar o fato a esse depar­ta­men­to que, por sua vez, repas­sa essas infor­mações para min­istros, enti­dades doado­ras e inte­grantes da mídia no Afe­gan­istão.  Hoje em dia, a empre­sa é con­sid­er­a­da um farol de esper­ança e um trun­fo comu­nitário no país, per­mitin­do que ele con­solide sua cul­tura con­tra a cor­rupção.

O Afe­gan­istão ain­da tem mau desem­pen­ho em muitas men­su­rações de cor­rupção, mas o caso da Roshan mostra que é pos­sív­el pre­venir a cor­rupção até nos ambi­entes mais difí­ceis para negó­cios. Se a transparên­cia pud­er começar a se enraizar no Afe­gan­istão, que é noto­ri­a­mente um dos país­es mais cor­rup­tos no mun­do, há esper­ança de que isso tam­bém ocor­ra em out­ros países.De Pira­ta a Assi­nante Pagante

Para a maio­r­ia das pes­soas, sobre­tu­do em país­es pobres, a cor­rupção é sim­ples­mente um meio visan­do uma final­i­dade. Temos certeza de que, se hou­vesse uma alter­na­ti­va, a maio­r­ia das pes­soas não apelar­ia à cor­rupção para pro­gredir. E em vez de apos­tar na moral­i­dade, uma estraté­gia muitas vezes cara, difí­cil e com resul­ta­dos mis­tos, achamos que não há estraté­gia mel­hor para ref­rear a cor­rupção do que a cri­ação sub­se­quente de novos mer­ca­dos.

Vejamos o que acon­te­ceu com a indús­tria fono­grá­fi­ca nos Esta­dos Unidos no iní­cio deste sécu­lo. Em uma sequên­cia rel­a­ti­va­mente ráp­i­da, a cul­tura da pirataria e do par­til­hamen­to ile­gal de músi­ca deu lugar à out­ra na qual os con­sum­i­dores optam por pagar para obter músi­cas por stream­ing.

Se tiv­er idade sufi­ciente para se lem­brar da era doura­da da “fita cas­sete com uma seleção musi­cal”, você sabe o quan­to ficou fácil copi­ar músi­cas após o lança­men­to do gravador de fitas cas­sete. Bas­ta­va com­prar uma fita cas­sete para faz­er cópias para si mes­mo e seus ami­gos, e a febre se espal­hou. Cas­setes com seleções musi­cais para fes­tas. Cas­setes com seleções musi­cais para par­til­har com namoradas ou namora­dos. Cas­setes com seleções musi­cais para via­gens de car­ro. Com ess­es cas­setes caseiros, era pos­sív­el cri­ar a ordem musi­cal dese­ja­da e ouvi-la a qual­quer momen­to. Exec­u­tivos da indús­tria fono­grá­fi­ca pas­saram anos pres­sio­n­an­do o Con­gres­so para obter pro­teções mais rig­orosas de dire­itos autorais, e gas­taram mil­hões de dólares em cam­pan­has de con­sci­en­ti­za­ção para dis­suadir as pes­soas de “roubarem” músi­ca dessa maneira. Mas nada deteve o hábito de faz­er cópias. O ensaís­ta Geof­frey O’Brien chamou a fita cas­sete com uma seleção musi­cal per­son­al­iza­da de “a for­ma de arte amer­i­cana mais dis­sem­i­na­da”. Mais pre­cisa­mente, essa era a arte de roubar dos artis­tas que adorá­va­mos. De repente, os Esta­dos Unidos se tornaram uma nação de ladrões de músi­ca. E pou­cas pes­soas de fora da indús­tria fono­grá­fi­ca pare­ci­am se impor­tar.

A situ­ação inclu­sive piorou para a indús­tria fono­grá­fi­ca com a invenção do Nap­ster, uma tec­nolo­gia pio­neira de par­til­hamen­to de arquiv­os entre pares que, em com­para­ção, fez o hábito de copi­ar fitas em casa pare­cer pitoresco. Repenti­na­mente, pes­soas no mun­do inteiro podi­am par­til­har suas músi­cas a qual­quer hora, com qual­quer um. E elas fazi­am isso indis­crim­i­nada­mente. A situ­ação se agravou tan­to que prati­ca­mente todos na indús­tria fono­grá­fi­ca proces­saram o Nap­ster, e gan­haram a causa.  O Nap­ster teve de encer­rar suas oper­ações e até declar­ou falên­cia. Mas, emb­o­ra ten­ha ven­ci­do essa batal­ha, a indús­tria fono­grá­fi­ca perdeu a guer­ra, pois não impediu que os amer­i­canos con­tin­u­assem par­til­han­do músi­ca ile­gal­mente, emb­o­ra de for­ma mais vela­da.

Em um livro con­fes­sion­al extra­ordinário inti­t­u­la­do How Music Got Free, o jor­nal­ista Stephen Witt nar­ra sua incursão hilari­ante no mun­do da pirataria musi­cal – e sua pos­te­ri­or mudança de ati­tude. Ele não parou de roubar músi­ca porque teve um momen­to “de Jesus no coração”. Na ver­dade, após anos se divertin­do com a indús­tria furti­va da pirataria musi­cal online, Witt final­mente decid­iu jog­ar a toal­ha em 2014 porque isso sim­ples­mente não valia mais a pena. “A pirataria esta­va se tor­nan­do cara e demor­a­da demais – a uma cer­ta altura, ficou mais bara­to ser assi­nante do Spo­ti­fy e da Net­flix”, escreve Witt. “A posse indi­vid­ual de pro­priedade dig­i­tal pri­va­da esta­va desa­pare­cen­do; no novo par­a­dig­ma, os bens dig­i­tais eram pro­priedade cor­po­ra­ti­va, com os usuários pagan­do por aces­so lim­i­ta­do. Ao usar o Spo­ti­fy pela primeira vez, enten­di ime­di­ata­mente que as cor­po­rações havi­am ven­ci­do – seu escopo e prati­ci­dade fazi­am baixar músi­ca pelo Tor­rent pare­cer algo anti­qua­do. Pela primeira vez, um negó­cio legal esta­va ofer­e­cen­do um pro­du­to supe­ri­or ao que esta­va disponív­el na clan­des­tinidade.”

A indús­tria fono­grá­fi­ca pode até ter der­ruba­do piratas musi­cais por aí, mas até enten­der real­mente por que as pes­soas estavam recor­ren­do a essas soluções alter­na­ti­vas, ela nun­ca iria prevale­cer, pois esta­va envolvi­da em seu próprio jogo de Toupeira. O mes­mo se apli­ca à toda a sociedade. Nós podemos gan­har proces­sos con­tra políti­cos e práti­cas cor­rup­tos, mas até enten­der­mos real­mente por que as pes­soas optam pela cor­rupção, con­tin­uare­mos gas­tan­do nos­sos recur­sos gan­hos a duras penas no com­bate a esse prob­le­ma. Não esta­mos sug­erindo que o mun­do faça vista grossa para a cor­rupção, esperan­do que as ino­vações que cri­am mer­ca­dos acabem deixando‑a de lado. Nós com­preen­demos que esse proces­so deman­da tem­po, mas é pre­ciso com­ple­men­tar agres­si­va­mente os esforços exis­tentes com ino­vações que criem mer­ca­dos, a fim de ter uma chance real de vitória con­tra cor­rupção que sufo­ca a esper­ança de pros­peri­dade de uma econo­mia.

Eram cor­rup­tos os agentes na Cor­eia do Sul que que­ri­am que eu pagasse por um seguro de “segu­rança” há quarenta anos? Segun­do nos­sa definição, sim. O que diz­er de poli­ci­ais em país­es pobres que aceitam propinas? Essas pes­soas se envolvem com a cor­rupção por ser indi­ví­du­os moral­mente fali­dos? Não é essa a nos­sa opinião. Para cada uma dessas pes­soas, a cor­rupção é a solução para uma batal­ha e, muitas vezes, a maneira com a mel­hor relação custo/benefício para que pro­gri­dam em suas sociedades e aju­dem suas famílias. E, con­forme vemos con­tin­u­a­mente, ape­nas dec­re­tar novas leis – ou até punições mais duras – não fará com que elas mudem seu com­por­ta­men­to. Isso ape­nas faz a cor­rupção ficar mais encober­ta.

Ao exam­i­nar as crenças muito difun­di­das de que esta­b­ele­cer insti­tu­ições sól­i­das e extin­guir a cor­rupção são pré-req­ui­si­tos para o desen­volvi­men­to de uma econo­mia, con­stata­mos con­tin­u­a­mente que as ino­vações, espe­cial­mente aque­las que cri­am mer­ca­dos, podem ser um catal­isador cru­cial para a mudança. Ino­vações que cri­am mer­ca­dos con­seguem intro­duzir aqui­lo que é necessário, inde­pen­den­te­mente da existên­cia de insti­tu­ições firmes ou do grau de cor­rupção. Isso virá na sequên­cia, assim como a peça mais visív­el do que­bra-cabeça do desen­volvi­men­to: a infraestru­tu­ra.

 

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