Blockchain: entenda a tecnologia que passa a fazer parte da vida de empresas, governos e indivíduos

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Dolfi Müller, prefeito da cidadez­in­ha suíça de Zug, lem­bra-se bem do dia em que dois nerds apare­ce­r­am na prefeitu­ra com a ideia de cri­ar ali um “Crip­to­vale”. Pen­savam numa especie de Vale do Silí­cio da crip­tografia e da tec­nolo­gia blockchain. “Esse OVNI ater­ris­sou na cidade em 2013”, con­ta o prefeito, usan­do o avis­ta­men­to de dis­cos voadores como metá­fo­ra para seu assom­bro. “Ini­cial­mente, não reag­i­mos. Crip­to­vale? Blockchain? Nem sabíamos o que era isso. Dis­se­mos: ‘Ok, algo novo’.” Os nerds em questão eram uma dupla chama­ti­va — o sul-africano Johann Gev­ers, extrema­mente rui­vo, alto e magro, e o dina­mar­quês Niklas Niko­la­jsen, que cul­ti­va cabe­lo e bigode ao esti­lo sécu­lo 17, ambos cri­adores de star­tups. Insta­laram-se em Zug com o obje­ti­vo de cri­ar um ambi­ente per­feito para microem­pre­sas do seg­men­to em que atu­avam. Aos poucos, acon­te­ceu. Star­tups de vários país­es começaram a chegar, espal­han­do-se num raio de 30 quilômet­ros. As primeiras foram Mon­e­tas (a empre­sa de Gev­ers), Bit­coin (onde tra­bal­ha Niko­la­jsen), Ethereum, Tezos e Xapo. Hoje, há cer­ca de 200 empre­sas na área.

Empresários e exec­u­tivos que ain­da ficam intri­ga­dos com a tec­nolo­gia, assim como o prefeito de Zug se sen­tiu em 2013, pre­cisam começar por algu­mas car­ac­terís­ti­cas fun­da­men­tais da novi­dade. Pode-se pen­sar em blockchain como estru­turas fun­da­men­tadas em crip­tografia para cri­ação e tro­ca de ativos. Isso, num ban­co de dados públi­co (ver­i­ficáv­el por qual­quer inter­es­sa­do) e suposta­mente invi­o­láv­el (pode-se faz­er cópias, mas não adul­ter­ações).

Pes­soas, enti­dades e ativos (físi­cos e dig­i­tais) podem ser rep­re­sen­ta­dos, iden­ti­fi­ca­dos e nego­ci­a­dos nesse ambi­ente. A depen­der do blockchain usa­do, em espe­cial aque­les públi­cos (como Bit­coin e Ethereum), as transações ficarão reg­istradas. Atos dess­es indi­ví­du­os e orga­ni­za­ções — como com­prar um bem ou vio­lar um con­tra­to — podem dis­parar instruções ime­di­atas para out­ras partes inter­es­sadas. O con­ceito vem sendo tes­ta­do des­de os anos 90, amadure­ceu nes­ta déca­da e se tornou pop­u­lar com a crip­to­moe­da bit­coin — no fim das con­tas, um exem­p­lo muito restri­to de uso da tec­nolo­gia.

O poten­cial da novi­dade ini­ciou uma cor­ri­da do ouro a apli­cações em todos os setores. Como em qual­quer cor­ri­da do ouro, há dois tipos de empreende­dores — os que garim­pam ouro e os que ven­dem fer­ra­men­tas para o garim­po. No Brasil, dois dos garimpeiros são Eduar­do Car­val­ho e Fabio Asduri­an, fun­dadores da Dynasty (leia mais sobre eles no quadro nes­ta reportagem). A empre­sa se propõe a orga­ni­zar inves­ti­men­tos imo­bil­iários transna­cionais, com o uso da tec­nolo­gia. Se o con­ceito fun­cionar, investi­dores poderão gan­har com com­pra, ven­da e aluguel de imóveis em qual­quer lugar do mun­do, de for­ma bem mais sim­ples que a atu­al.

Entre os que ven­dem fer­ra­men­tas de garim­po, desta­ca-se Rosine Kadamani, fun­dado­ra da Blockchain Acad­e­my. A empreende­do­ra tem exper­iên­cia de 12 anos como advo­ga­da no escritório Pin­heiro Neto, um dos maiores do país. Ela e seus sócios ofer­e­cem aulas sobre o tema, cada vez mais con­cor­ri­das. Já rece­ber­am fun­cionários de orga­ni­za­ções tão difer­entes quan­to a Ora­cle, o Ban­co Votoran­tim, o Insper e a Polí­cia Fed­er­al. “Em oito horas, você con­segue enten­der o assun­to e sair con­ver­san­do com con­sul­tores”, afir­ma. “Blockchain toca em dire­ito, tec­nolo­gia, negó­cios… então, o advo­ga­do, o desen­volve­dor e o empresário pre­cisam saber mais a respeito.”

Muitos empreende­dores, mun­do afo­ra, pen­saram o mes­mo que Rosine. Por isso Zug, a cidade suíça que antes abri­ga­va multi­na­cionais da indús­tria far­ma­cêu­ti­ca e exec­u­tivos de paletó e gra­va­ta, foi inva­di­da nos últi­mos anos por out­ra tri­bo — os jovens de jeans e tênis dis­cutin­do ideias mirabolantes. Até o dia em que o con­sel­ho da prefeitu­ra, for­ma­do por cin­co pes­soas, de cin­co par­tidos difer­entes, acor­dou: o Crip­to­vale era real­i­dade.

No fim de jun­ho de 2018, a cidade abrigou mais um even­to inter­na­cional sobre o tema, a Con­fer­ên­cia sobre Tec­nolo­gia Blockchain do Crip­to­vale. Em março de 2019 é a vez do CV Sum­mit. Zug, com seu lago, vista idíli­ca para os Alpes e a mais famosa tor­ta de cere­ja da Suíça, virou um hub mundi­al de star­tups e exper­i­men­ta­dores da tec­nolo­gia mais cel­e­bra­da do momen­to. Em jul­ho de 2016, a prefeitu­ra local tornou-se a primeira do mun­do a aceitar bit­coins — decisão unân­ime dos cin­co con­sel­heiros, que nem con­sul­taram os buro­cratas locais, “para não atra­pal­harem”, segun­do o prefeito. No ano pas­sa­do, a cidade se tornou pio­neira ao ofer­e­cer a seus 30 mil habi­tantes uma iden­ti­dade dig­i­tal basea­da em blockchain. Pode ser usa­da, por exem­p­lo, para tomar um livro empresta­do na bib­liote­ca. Ape­nas 160 habi­tantes a ado­taram. Mas o prefeito Müller acred­i­ta que é só questão de tem­po para a difusão. 

A mudança não será indo­lor. Blockchain não é um ban­co de dados tradi­cional, sob os cuida­dos de um úni­co guardião. Adep­tos mais rad­i­cais da tec­nolo­gia bus­cam o ide­al utópi­co: um mun­do dig­i­tal descen­tral­iza­do e seguro, onde todos têm par­tic­i­pação e con­t­role. Os nerds do blockchain não escol­her­am Zug por aca­so. A cidade tem os impos­tos mais baixos da Suíça, e o país se encaixa num ide­al dos adep­tos do crip­to: neu­tro, descen­tral­iza­do, democráti­co, lib­er­al e seguro. O ape­lo é fortís­si­mo entre espe­cial­is­tas iden­ti­fi­ca­dos com o movi­men­to cypher­punk (ativis­tas da pri­vaci­dade e do dire­ito do indi­ví­duo ao con­t­role de seu ras­tro dig­i­tal). Além dis­so, blockchain prom­ete diz­imar inter­mediários de todo tipo — o que pode incluir tabeliões, ban­queiros e advo­ga­dos, a depen­der de como tra­bal­hem.

Son­ho grande demais? O Fórum Econômi­co Mundi­al de 2018, em Gene­bra, aler­tou para o cres­cente número de “evan­ge­lis­tas tec­nológi­cos” com expec­ta­ti­vas infladas — pes­soas que acred­i­tam no blockchain como solução para tudo, da desigual­dade finan­ceira glob­al ao com­bate da cen­sura de gov­er­nos. Con­ceitos para lá de ousa­dos surgem em sequên­cia. Alguns dão cer­to. Ativis­tas estu­dan­tis da Chi­na do movi­men­to  #MeToo, que protes­tam con­tra abu­so sex­u­al, recor­reram à tec­nolo­gia para con­tornar a cen­sura do gov­er­no. Uma estu­dante colo­cou uma car­ta denun­cian­do abu­sos na platafor­ma de blockchain Ethereum. A transação cus­tou US$ 0,52. Out­ro cidadão fez uma denún­cia rel­a­ti­va ao uso de vaci­nas de má qual­i­dade. Como no blockchain tudo é copi­a­do, dis­tribuí­do e um dado não pode ser alter­ado sem que out­ros saibam ou aprovem, o gov­er­no chinês não tem como alter­ar nem apa­gar as denún­cias. Qual­quer um com aces­so à platafor­ma pode ver.

Como na chega­da da inter­net nos anos 90, a promes­sa de mudança é rad­i­cal e não respei­ta lim­ites entre setores — o impacto vai da agri­cul­tura à indús­tria cul­tur­al. “Isso vai afe­tar todos os negó­cios”, avalia o secretário da Econo­mia de Zug, Matthias Michel. “Por isso, temos de aju­dar as empre­sas nes­sa vira­da tec­nológ­i­ca.” Zug não aju­da com­pan­hias com din­heiro, avisa o secretário, mas sim facil­i­tan­do a vida dos nerds para que operem sem entrav­es.

A Suíça não corre soz­in­ha. Empre­sas e gov­er­nos preparam-se para uma dis­pu­ta tec­nológ­i­ca. A IBM par­ticipou como fornece­do­ra de serviços de mais de cem pro­je­tos de blockchain no mun­do. O UBS, maior ban­co da Suíça, esti­ma que o blockchain pode acres­cen­tar entre US$ 300 bil­hões e US$ 400 bil­hões à econo­mia glob­al até 2027. Os ban­cos exper­i­men­tam a tec­nolo­gia para se rein­ven­tar. O dina­mar­quês Søren Lemvig Fog, fun­dador da start­up Ipro­tus e um dos pio­neiros do Crip­to­vale, lem­bra-se de como foi mal rece­bido em 2013, quan­do vis­i­tou ban­cos e propôs que eles usassem blockchain para ofer­e­cer bit­coins aos clientes. “Fui trata­do como ter­ror­ista!”, con­ta. Hoje, ban­cos par­tic­i­pam dos even­tos do Crip­to­vale.

O UBS criou um “Lab­o­ratório de Ino­vação” em Lon­dres e lid­era várias ini­cia­ti­vas de blockchain. A tec­nolo­gia força ban­cos a colab­o­rarem entre si. Seis deles (Deutsche Bank, HSBC, Natix­is, Rabobank, Société Générale, Uni­Cred­it) lançaram uma platafor­ma para facil­i­tar o finan­cia­men­to de peque­nas e médias empre­sas para o comér­cio inter­na­cional. No Brasil, Brade­sco e Itaú já fiz­er­am testes con­jun­tos. Por meio da Febra­ban, asso­ci­ação do setor, 17 enti­dades acom­pan­ham as exper­iên­cias.

“Temos de colab­o­rar. Se todo mun­do optar por tec­nolo­gia própria, não vamos chegar a lugar nen­hum. Nos­sos grandes con­cor­rentes não são os ban­cos, mas sim os Gafa — os Google, Apple, Face­book, Ama­zon, Aliba­ba”, diz Anja Bed­ford, que coman­da a divisão de blockchain do Deutsche Bank, o quar­to maior da Europa. “Isso vai mudar os ban­cos”, recon­hece a exec­u­ti­va. “Mas por que fomos cri­a­dos? Para emprestar din­heiro e tirar o risco do mer­ca­do. Em uma oper­ação finan­ceira, é pre­ciso con­fi­ar que o din­heiro será pago. É por isso que os ban­cos estão inter­me­dian­do: fornece­mos o finan­cia­men­to.”

Søren, o empreende­dor da Ipro­tus, acha que os ban­cos ain­da subes­ti­mam a mudança que terão de enfrentar. “Antes, ban­cos eram o lugar onde colocá­va­mos tudo o que tín­hamos de val­or. Com blockchain, isso pode não ser mais necessário. Mas temos out­ros val­ores que podem ser entregues aos ban­cos, para que pre­servem com segu­rança — por exem­p­lo, nos­sos dados pri­va­dos.”

A Comis­são Europeia lançou em dezem­bro 2017 um con­cur­so chama­do “Blockchain para o bem comum”, que vai pre­mi­ar com € 5 mil­hões quem apre­sen­tar o pro­je­to mais ino­vador que ten­ha impacto para a sociedade. O finan­cia­men­to sai do pro­gra­ma Horizon2020, de incen­ti­vo à ino­vação, e o resul­ta­do sai em 2020. A Sué­cia tes­ta blockchain em reg­istros imo­bil­iários. A Estô­nia, em ban­cos de dados de saúde. A Irlan­da vai lançar o seu Crip­to­vale. E a Espan­ha elab­o­ra uma lei de incen­tivos fis­cais para atrair empre­sas de blockchain, de olho nas ofer­tas ini­ci­ais de moedas (ICO, na sigla em inglês) e nas ven­das de tokens, iden­ti­dades dig­i­tais e vales dig­i­tais para aces­so a bens e serviços.

Espe­cial­is­tas, empresários e adep­tos veem desafios pel frente. Os órgãos reg­u­ladores não mudaram. Seja lá o que for feito no blockchain, um ban­co cen­tral ain­da poderá exi­gir um papel assi­na­do. Nos Esta­dos Unidos, agên­cias reg­u­lado­ras, como a SEC (respon­sáv­el pelo mer­ca­do de cap­i­tais), começam a reprim­ir as ven­das de tokens, ale­gan­do que muitos deles equiv­alem a ações nego­ci­adas em bol­sa. Além dis­so, algu­mas redes não per­mitem transações com blockchain em grande escala. Mas ess­es entrav­es podem ser nego­ci­a­dos ou resolvi­dos. Pelo seu impacto poten­cial, o blockchain terá de pas­sar mes­mo é por out­ro tipo de obstácu­lo, muito maior — uma trans­for­mação filosó­fi­ca, para uma cul­tura de tra­bal­ho e mod­e­los de negó­cio mais descen­tral­iza­dos, coop­er­a­tivos e trans­par­entes.

BRF E CARREFOUR: O CAMINHO DA ROÇA

O assun­to ficou em segun­do plano, diante da sus­pei­ta de fraude san­itária lev­an­ta­da pela Oper­ação Carne Fra­ca em relação à BRF, em março de 2017. Mas a com­pan­hia testou ain­da no mes­mo ano um sis­tema de ras­trea­men­to com poten­cial para dar um salto de transparên­cia na cadeia pro­du­ti­va. Cri­a­do em parce­ria com Car­refour e IBM, o pro­je­to Food Track­ing reg­istrou em blockchain as eta­pas do ciclo de vida de um lote de lom­bo suíno da Sadia, da fazen­da ao vare­jo. Ao escanear um QRCode na embal­agem, o con­sum­i­dor aces­sa­va infor­mações como local e data de pro­dução, embal­agem e trans­porte. A com­pan­hia não infor­ma os resul­ta­dos desse teste, mas Ney San­tos, vice-pres­i­dente de tec­nolo­gia da BRF, con­sid­era blockchain uma opção viáv­el para atin­gir um fim ambi­cioso: “cer­ti­ficar os pro­du­tos e garan­tir a qual­i­dade do cam­po até o con­sum­i­dor”. Nada mais urgente.


AXIOM ZEN: NEW KITTIES ON THE BLOCK

A obsessão da inter­net por gat­in­hos foi alça­da a um novo pata­mar com o jogo Cryp­toKit­ties. Cri­a­do pelo estú­dio de design canadense Axiom Zen, lid­er­a­do por Roham Ghare­go­zlou, o game é um dos primeiros em platafor­ma blockchain. O obje­ti­vo é cruzar gat­in­hos vir­tu­ais e obter novos, cada um com car­ac­terís­ti­cas úni­cas. E cole­cionar, tro­car e vender. O suces­so em dezem­bro cau­sou lentidão na robus­ta platafor­ma Ethereum. Em abril, havi­am sido ven­di­dos 350 mil gat­in­hos, com preço médio de US$ 67. O exem­plar mais caro já arremata­do alcançou US$ 110 mil — sim, muitos mil­hares de dólares. O movi­men­to atraiu tubarões do Vale do Silí­cio. Andreessen Horowitz e a Union Square Ven­tures lid­er­aram uma roda­da de inves­ti­men­tos em março, que levan­tou US$ 12 mil­hões para a start­up.


COMCAST: RELACIONAMENTO ÍNTIMO E DISCRETO


O grupo de mídia Com­cast lançou o Blockchain Insights Plat­form, uma parce­ria com canais como Chan­nel 4, Dis­ney e Uni­ver­sal. As emis­so­ras pre­ten­dem, com blockchain, refi­nar o foco dos anún­cios e medir seu grau de suces­so. O sis­tema per­mite o uso de dados dos espec­ta­dores para diri­gir anún­cios, de for­ma mais trans­par­ente que a habit­u­al, entre serviços de inter­net e aplica­tivos. “Essa abor­dagem dá efi­ciên­cia à pro­pa­gan­da e pro­tege mel­hor os dados do con­sum­i­dor”, diz Mar­cien Jenck­es, pres­i­dente de pub­li­ci­dade da Com­cast. O braço de inves­ti­men­tos do grupo, Com­cast Ven­tures, criou a MState, uma acel­er­ado­ra de star­tups de blockchain. Gil Bey­da, dire­tor da Com­cast Ven­tures, con­ta que entre os pro­je­tos em desen­volvi­men­to com blockchain há um pro­gra­ma de fidel­i­dade e um dis­pos­i­ti­vo de aces­so à inter­net.


DORAE: FIO DA MEADA


Cadeias globais de supri­men­tos são lon­gas e difí­ceis de mon­i­torar. Dev­as­tação ambi­en­tal, tra­bal­ho infan­til e finan­cia­men­to de con­fli­tos são comuns na extração de metais nobres, usa­dos em equipa­men­tos eletrôni­cos. Uma start­up cal­i­for­ni­ana tes­ta um sis­tema para dar mais transparên­cia ao mer­ca­do. Fun­da­da pela amer­i­cana Aba Schu­bert e pelo por­tuguês Ricar­do San­tos Sil­va, a Dorae reg­is­tra em blockchain todas as eta­pas de pro­dução, trans­for­mação e trân­si­to das matérias-pri­mas. Para saber o históri­co dos mate­ri­ais, empre­sas envolvi­das podem com­prar tokens da Dorae e usá-los para pagar por con­sul­tas ao sis­tema. O pro­je­to pilo­to vai ocor­rer em minas de cobal­to na Repúbli­ca Democráti­ca do Con­go. A ini­cia­ti­va tem o aval do gov­er­no local, inter­es­sa­do em evi­tar sone­gação fis­cal.


LATHAM & WATKINS: A LIGA DA JUSTIÇA

Segun­do maior escritório de advo­ca­cia do mun­do, o Lath­am & Watkins (L&W) entrou para o grupo de tra­bal­ho do setor cri­a­do pela platafor­ma de blockchain Enter­prise Ethereum Alliance. Ao lado de 13 enti­dades, como ban­cos e uni­ver­si­dades, o L&W vai desen­volver, até o fim do ano, um padrão de fer­ra­men­tas para o uni­ver­so da Justiça. A deman­da é grande: das cem maiores fir­mas de advo­ga­dos no mun­do, 25% asso­cia­ram-se à Ethereum. Querem se preparar para faz­er con­tratos inteligentes (leia mais a par­tir da pági­na 74). A primeira ven­da de aparta­men­to com­bi­na­da por blockchain ocor­reu em novem­bro, na Ucrâ­nia. Nos Esta­dos Unidos, o Ari­zona aprovou uma lei para recon­hecer a legal­i­dade de con­tratos com blockchain, e Ver­mont pas­sou a aceitar reg­istros de blockchain como evidên­cia em inves­ti­gações.


OWL DOCS: ASSINATURA DIGITAL SEM IMPRESSÃO


Os ritos de gov­er­nança de uma empre­sa cos­tu­mam vir acom­pan­hados de buro­c­ra­cia. Fluxo de assi­nat­uras, de uma sim­ples ata de reunião a com­plex­os con­tratos de crédi­to, pre­cisam pas­sar por várias pes­soas e podem demor­ar dias até ficar pron­tos. Con­tratos inteligentes, porém, prom­e­tem sim­pli­ficar e reduzir cus­tos. O proces­so fun­ciona com uma chave dig­i­tal que val­i­da doc­u­men­tos eletrôni­cos e gera provas de existên­cia. Uma das empre­sas que prestam o serviço no Brasil é a Owl Docs. Fun­da­da no final de 2015 por Bruno Ken­ji e Sil­via Val­adares, a start­up desen­volveu uma platafor­ma de gestão de doc­u­men­tos cor­po­ra­tivos com assi­natu­ra eletrôni­ca em blockchain, que reg­is­tra datas e o horário legal do Brasil. Em jun­ho, a empre­sa vai lançar a Owl Docs Sign, com foco em con­tratos de câm­bio.

FINKA: UM “TOKEN” QUE PASTA


Blockchain pode ser usa­do para dar iden­ti­dade a um bem, como um automóv­el. Que tal usá-lo para iden­ti­ficar ani­mais? O empresário boli­viano Car­los Fer­nan­dez Mazzi garante que dá. Ele vai man­ter vacas de ver­dade numa fazen­da na Bolívia. Cada vaca vai ser asso­ci­a­da a um token. Por cer­ta quan­tia, o usuário com­pra um token e vira dono de uma vaca. Brasileiros que acom­pan­havam finanças nos anos 90 podem se arrepi­ar com o tema ao lem­brar da promes­sa de inves­ti­men­to na Boi Gor­do — no fim das con­tas, era um golpe no esti­lo pirâmide. Mas blockchain pode dar segu­rança a transações. Fer­nan­dez expli­ca que a com­pra vai ser reg­istra­da com a nova tec­nolo­gia e o dono da vaca vai ter dire­ito a um seguro, caso o ani­mal mor­ra ou seja rou­ba­do. “Vou colo­car um chip eletrôni­co em cada vaca para medir o peso. Em dois anos, vamos dividir o lucro”, diz.

DAIMLER: DIREÇÃO LUCRATIVA

A Daim­ler, fab­ri­cante alemã de car­ros e cam­in­hões, dona da Mer­cedes-Benz, lançou em fevereiro uma crip­to­moe­da própria — Mobi­coin — para rec­om­pen­sar motoris­tas que diri­girem de maneira respon­sáv­el. Quin­hen­tos motoris­tas foram recru­ta­dos para a exper­iên­cia. Lig­a­do ao sis­tema do car­ro, o aplica­ti­vo para celu­lar Mobi­coin cole­ta infor­mações (como acel­er­ação, fre­nagem e veloci­dade) e trans­mite os dados para a Daim­ler. Os motoris­tas que con­duzem de for­ma mais segu­ra são rec­om­pen­sa­dos. A Mobi­coin pode ser usa­da para com­prar, por exem­p­lo, ingres­sos VIP para com­petições esporti­vas. Em jun­ho, a Daim­ler testou blockchain numa oper­ação finan­ceira: levan­tou € 100 mil­hões com qua­tro ban­cos por meio da emis­são de títu­los. Toda a transação — do con­tra­to à con­fir­mação do paga­men­to de juros — foi fei­ta com blockchain.

BRON.TECH: MEU PERFIL, MINHA GRANA

Dados pes­soais, hoje, valem muito din­heiro — mas não para seus donos. Quem gan­ha com os dados são com­pan­hias de inter­net, como Google e Face­book. Com base em infor­mações sobre o usuário, essas empre­sas aju­dam anun­ciantes a dire­cionar pub­li­ci­dade. A empreende­do­ra macedôni­ca Emma Popos­ka ofer­ece uma alter­na­ti­va. Emma fun­dou em Syd­ney, Aus­trália, a start­up Bron.tech. O negó­cio, ain­da em está­gio ini­cial, propõe-se a per­mi­tir que o indi­ví­duo crie uma “carteira dig­i­tal” com suas infor­mações pes­soais, pro­te­gi­da por blockchain. Se o cidadão autor­izar, a Bron.tech vai extrair insights do con­jun­to de dados e vender no mer­ca­do. A start­up fatu­ra e remu­nera o dono dos dados. A remu­ner­ação virá em brons, tokens que podem ser tro­ca­dos por pro­du­tos e serviços numa rede cre­den­ci­a­da.

UBS: AÇÃO EM BLOCO

Os grandes ban­cos se unem para tes­tar a tec­nolo­gia blockchain, temen­do ser atro­pela­dos pela rev­olução. O UBS, maior ban­co da Suíça, lançou uma “Ini­cia­ti­va blockchain” em seu lab­o­ratório de ino­vação em Lon­dres. Con­ce­beu uma crip­to­moe­da — Util­i­ty Set­tle­ment Coin (USC) — somente para uso em transações entre ban­cos. Além de sim­pli­ficar e reduzir cus­tos, a USC pode abrir cam­in­ho para o uso de crip­to­moedas pelos ban­cos cen­trais. A ini­cia­ti­va inclui Bar­clays, Crédit Suisse, Deutsche Bank e HSBC. Em out­ro pro­je­to, chama­do Batavia, UBS e IBM cri­aram uma platafor­ma glob­al de blockchain para sim­pli­ficar as transações finan­ceiras na ven­da de mer­cado­rias. As com­pan­hias tes­taram a platafor­ma com a ven­da de car­ros alemães para a Espan­ha e de têx­teis aus­tría­cos para a pro­dução de móveis no mes­mo país.

SANTANDER: SEM ESCALAS

O ban­co espan­hol San­tander lançou em abril um serviço gra­tu­ito de trans­fer­ên­cia inter­na­cional de val­ores equiv­a­lentes a até US$ 3 mil, basea­do em blockchain. A trans­fer­ên­cia leva menos de duas horas, se acon­te­cer em horário de expe­di­ente bancário do país de des­ti­no. Pelo méto­do tradi­cional, lev­a­va ao menos dois dias. Por ora, o serviço só vale para clientes do ban­co no Brasil, Espan­ha, Polô­nia e Reino Unido. E os brasileiros só podem enviar din­heiro para o Reino Unido. A lista deve crescer em breve. “Temos a meta de ofer­e­cer trans­fer­ên­cias instan­tâneas entre vários mer­ca­dos até mea­d­os deste ano”, disse a pres­i­dente mundi­al do Grupo, Ana Botín, sobre o One Pay FX, como é chama­do o serviço. “É a primeira de muitas poten­ci­ais apli­cações do blockchain”, afir­mou a empresária. Con­cor­rentes do San­tander no Brasil, como Itaú e Brade­sco, estu­dam a tec­nolo­gia.

DINASTY: COM UM PÉ NO REAL

A dupla de brasileiros Eduar­do Car­val­ho e Fabio Asduri­an avança para lançar a primeira crip­to­moe­da do mun­do com las­tro no mer­ca­do imo­bil­iário, o DYN. O lança­men­to, afir­mam, depende do aval do gov­er­no da Suíça, para onde trans­feri­ram a sede da Dynasty, a start­up que fun­daram e dirigem (o escritório fica em Zug, no Crip­to­vale). A ideia é faz­er uma ofer­ta ini­cial da moe­da ain­da neste ano e lev­an­tar na primeira fase US$ 150 mil­hões. Pelo plano, o din­heiro vai ser investi­do na cri­ação de um fun­do de US$ 500 mil­hões com imóveis com­er­ci­ais nas prin­ci­pais cidades do mun­do. A expec­ta­ti­va é que o val­or de mer­ca­do das pro­priedades bal­ize o preço do DYN, que terá 21 mil­hões de unidades. Os com­pradores tam­bém serão remu­ner­a­dos pelos aluguéis.

ONU: CIDADANIA SEM ESTADO

O Pro­gra­ma Mundi­al de Ali­men­tos (WFP, na sigla em inglês) da ONU está tro­can­do os anti­gos vales-refeição pelo Build­ing Blocks — um sis­tema de blockchain deriva­do da platafor­ma Ethereum. A primeira exper­iên­cia ocorre no cam­po de refu­gia­dos em Azraq, na Jordâ­nia. Cer­ca de 10 mil refu­gia­dos sírios pagam suas com­pras no super­me­r­ca­do sem din­heiro nem cartão — a leitu­ra da íris dá aces­so à “con­ta cor­rente”. Crédi­tos e débitos acres­cen­tam infor­mações ao códi­go crip­tografa­do. Bern­hard Kowatsch, chefe do lab­o­ratório de ino­vações da WFP, afir­ma que o Build­ing Blocks reduz­iu em 98% os gas­tos com taxas bancárias. O blockchain previne desvio de ver­ba e assaltos — habit­u­ais, numa área onde o Esta­do é ausente. Os refu­gia­dos gan­ham autono­mia.

BERKELEY: OFERTA INICIAL COMUNITÁRIA

A prefeitu­ra de Berke­ley, na Cal­ifór­nia (hoje uma exten­são do Vale do Silí­cio), plane­ja lançar uma crip­to­moe­da para ban­car pro­je­tos especí­fi­cos de infraestru­tu­ra, como habitação para baixa ren­da. Há obstácu­los políti­cos, legais e reg­u­latórios, mas o poten­cial é imen­so. O plano é que a moe­da ten­ha car­ac­terís­ti­cas de títu­los de dívi­da públi­ca — paga­men­to reg­u­lar de juros e, no venci­men­to, do val­or prin­ci­pal —, mas com difer­enças fun­da­men­tais. Com blockchain, é pos­sív­el dis­pen­sar inter­mediários finan­ceiros, acel­er­ar o proces­so e reduzir cus­tos da cap­tação. Emi­tir um títu­lo de dívi­da públi­ca tradi­cional cus­ta tan­to que invi­a­bi­liza seu uso em pro­je­tos menores. Ben Bartlett, do con­sel­ho munic­i­pal de Berke­ley, chama o mod­e­lo de “Ofer­ta Ini­cial de Comu­nidade”, em vez de Ofer­ta Ini­cial de Moe­da (ambas têm a sigla ICO, em inglês).

HOLANDA: PRAZOS BAIXOS

A provín­cia de Noord-Bra­bant, no sul da Holan­da, lev­a­va 13 sem­anas para autor­izar e lib­er­ar um pedi­do de sub­sí­dio. Com o uso de blockchain, o pra­zo baixou para 13 min­u­tos. “As pes­soas não pre­cisam mais apre­sen­tar ao gov­er­no doc­u­men­tos que o próprio gov­er­no emi­tiu”, diz Mar­loes Pomp, chefe do depar­ta­men­to de pro­je­tos de blockchain do gov­er­no holandês. O pro­je­to liga uni­ver­si­dades, investi­dores e gov­er­nantes. A exec­u­ti­va aler­ta para uma pro­lif­er­ação de ini­cia­ti­vas de blockchain inter­es­santes, mas fada­dos à irrelevân­cia, por não con­tar com a par­tic­i­pação dos reg­u­ladores. O gov­er­no holandês con­sid­era estratégi­co dom­i­nar a tec­nolo­gia, mas só para extrair dela usos muito práti­cos. É difer­ente de Dubai, cuja pre­ten­são é ter um gov­er­no “100% blockchain”, por vol­ta de 2020.

ESTÔNIA: NAÇÃO BLOCKCHAIN

Em 2007, a Estô­nia foi sacu­d­i­da pelo primeiro ataque cibernéti­co a um país inteiro de que se tem notí­cia. Des­de então, segu­rança dig­i­tal se tornou uma obsessão nacional. Nos anos seguintes, o país (bem guarneci­do de engen­heiros e matemáti­cos) pas­sou a fig­u­rar na van­guar­da mundi­al das pesquisas com blockchain. Hoje, usa a tec­nolo­gia para garan­tir a inte­gri­dade de dados guarda­dos pelo gov­er­no — infor­mações como reg­istros médi­cos, legais e poli­ci­ais. O país ofer­ece tam­bém uma das reg­u­la­men­tações mais amigáveis a negó­cios na área. “Con­stru­ir con­fi­ança tem pouco a ver com soluções téc­ni­cas e muito com cul­tura e men­tal­i­dade”, disse o primeiro min­istro Jüri Ratas, em even­to recente da União Europeia. “Requer tra­bal­ho duro todos os dias na con­strução de um ambi­ente trans­par­ente e aber­to à exper­i­men­tação, que res­guarde a pri­vaci­dade dos cidadãos.”

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