Se seus funcionários não se expressam, culpe a cultura da empresa

Se seus fun­cionários não se expres­sam, culpe a cul­tura da empre­sa

As empre­sas se ben­e­fi­ci­am quan­do os fun­cionários se expres­sam. Quan­do os fun­cionários se sen­tem à von­tade para expres­sar suas opiniões, sug­estões ou pre­ocu­pações, as empre­sas lidam mel­hor com ameaças e opor­tu­nidades.

Mas os fun­cionários geral­mente per­manecem em silên­cio em relação às suas opiniões, pre­ocu­pações ou ideias. Geral­mente, exis­tem dois pon­tos de vista sobre uma questão: um é a per­spec­ti­va da per­son­al­i­dade, que sug­ere que ess­es fun­cionários iner­ente­mente não têm dis­posição para se lev­an­tar e se posi­cionar sobre questões críti­cas, que podem ser muito intro­ver­tidos ou tími­dos para efe­ti­va­mente artic­u­lar seus pon­tos de vista à equipe. Essa per­spec­ti­va dá origem a soluções como a con­tratação de fun­cionários com dis­posição pró-ati­va e que estão mais propen­sos a falar a ver­dade a quem está no coman­do.

Por out­ro lado, a per­spec­ti­va situa­cional demon­stra que os fun­cionários fal­ham em se expres­sar porque sen­tem que seu ambi­ente de tra­bal­ho não é propí­cio para isso. Podem temer sofr­er cus­tos soci­ais sig­ni­fica­tivos ao desafi­ar seus chefes. Essa per­spec­ti­va leva a soluções focadas em como os chefes podem cri­ar as nor­mas soci­ais cor­re­tas que incen­ti­vam os fun­cionários a expres­sar suas pre­ocu­pações sem medo de sanções.

Essas duas per­spec­ti­vas não são mutu­a­mente exclu­si­vas, mas queríamos tes­tar qual delas é mais impor­tante: se a per­son­al­i­dade é o prin­ci­pal pred­i­tor pelo qual um fun­cionário se man­i­fes­ta, os fatores situa­cionais não dev­e­ri­am impor­tar tan­to. Isso sig­nifi­ca que os fun­cionários que estão iner­ente­mente dis­pos­tos a se expres­sar são os que mais fre­quente­mente o fazem. Em con­tra­parti­da, se a situ­ação ou o ambi­ente for o prin­ci­pal moti­vador para que os tra­bal­hadores opinem, então a per­son­al­i­dade do fun­cionário deve ser menos impor­tante – eles expres­sari­am suas opiniões, inde­pen­den­te­mente de suas dis­posições sub­ja­centes, quan­do o ambi­ente de tra­bal­ho enco­ra­jasse suas man­i­fes­tações, e per­manece­ri­am em silên­cio quan­do isso não ocor­resse.

Em nos­sa pesquisa, cole­ta­mos dados de uma fábri­ca na Malásia em 2014. Anal­isamos 291 fun­cionários e seus super­vi­sores (de 35 equipes no ger­al). Per­gun­ta­mos aos fun­cionários qual a prob­a­bil­i­dade de estarem iner­ente­mente dis­pos­tos a bus­car opor­tu­nidades em sua área (tam­bém con­heci­dos na psi­colo­gia como sua ori­en­tação de abor­dagem); foi assim que avaliamos se os fun­cionários tin­ham uma per­son­al­i­dade propen­sa para que se expres­sas­sem. Per­gun­ta­mos tam­bém se esper­am que a man­i­fes­tação seja parte de seu tra­bal­ho cotid­i­ano, e se é enco­ra­ja­do, rec­om­pen­sa­do ou punido; foi assim que avaliamos as nor­mas situa­cionais asso­ci­adas ao seu ambi­ente de tra­bal­ho. Cada fun­cionário avaliou sua ori­en­tação de abor­dagem, bem como as expec­ta­ti­vas no tra­bal­ho, usan­do medi­das val­i­dadas. Ped­i­mos a cada super­vi­sor que avaliasse a fre­quên­cia de man­i­fes­tação de seus fun­cionários.

Essa empre­sa era respon­sáv­el pela fab­ri­cação e ven­da de sabonetes, deter­gentes e out­ros pro­du­tos de limpeza domés­ti­ca, e os fun­cionários muitas vezes encon­travam situ­ações em que havia uma neces­si­dade impe­riosa de falar sobre questões rela­cionadas às atu­ais oper­ações de tra­bal­ho. Por exem­p­lo, os fun­cionários pode­ri­am sug­erir novas abor­da­gens para o empil­hamen­to de matérias-pri­mas, mel­ho­ria dos lay­outs de equipa­men­tos ou da coor­de­nação durante as mudanças de turno. Eles tam­bém pode­ri­am apon­tar prob­le­mas como equipa­men­tos de segu­rança com defeito ou vio­lações de pro­ced­i­men­tos opera­cionais padrão no chão de fábri­ca.

Quan­do anal­isamos os dados, desco­b­ri­mos que tan­to a per­son­al­i­dade quan­to o ambi­ente tiver­am um efeito sig­ni­fica­ti­vo na tendên­cia dos fun­cionários de opinar sobre ideias ou pre­ocu­pações. Aque­les com uma ori­en­tação de alta abor­dagem, que ten­dem a bus­car opor­tu­nidades e assumir mais riscos, expres­sam mais fre­quente­mente suas ideias do que aque­les com uma ori­en­tação de abor­dagem mais baixa. E os que acred­i­tavam que dev­e­ri­am sug­erir ideias, se expres­savam mais do que aque­les que não sen­ti­am que isso fazia parte do seu tra­bal­ho.

Mas desco­b­ri­mos que nor­mas ambi­en­tais fortes podem anu­lar a influên­cia da per­son­al­i­dade na dis­posição dos fun­cionários em opinar no ambi­ente de tra­bal­ho. Mes­mo se algum deles tivesse uma ori­en­tação de abor­dagem baixa, opinavam quan­do achavam que isso era muito esper­a­do deles no tra­bal­ho. E se algum deles tivesse uma ori­en­tação de alta abor­dagem,  seri­am menos propen­sos a falar por acharem que isso era des­en­co­ra­ja­do ou punido. Nos­sos dados demon­straram que a per­spec­ti­va situa­cional é mel­hor do que a da per­son­al­i­dade.

Esta descober­ta sug­ere que, se você quis­er que os fun­cionários opinem, o ambi­ente de tra­bal­ho e as nor­mas soci­ais da equipe têm importân­cia. Até mes­mo as pes­soas mais propen­sas a dar ideias e sug­estões podem não expres­sar nada caso temam repressão ou penal­iza­ção. Por out­ro lado, incen­ti­var e rec­om­pen­sar que se man­i­festem pode aju­dar mais pes­soas a tomar a mes­ma ati­tude, mes­mo que sua per­son­al­i­dade os torne mais aves­sos ao risco.

Tam­bém desco­b­ri­mos que o ambi­ente pode­ria influ­en­ciar a maneira como os fun­cionários davam voz a suas ideias. Estes expres­saram suas opiniões de duas maneiras difer­entes – iden­ti­f­i­can­do áreas para mel­ho­ria no tra­bal­ho e diag­nos­ti­can­do pos­síveis ameaças à empre­sa e evi­tan­do com­por­ta­men­tos inde­se­jáveis ​​que pos­sam com­pro­m­e­ter a segu­rança ou as oper­ações. Percebe­mos que, quan­do as nor­mas de tra­bal­ho incen­ti­vavam a detecção de pos­síveis ameaças ou prob­le­mas, os fun­cionários opinavam mais sobre questões como vio­lações de segu­rança ou de práti­cas de tra­bal­ho esta­b­ele­ci­das. Mas quan­do essas nor­mas enco­ra­javam mel­ho­rias e ino­vação, os fun­cionários se man­i­fes­tavam com mais fre­quên­cia sobre novas ideias para redesen­har os proces­sos de tra­bal­ho que pro­movi­am ino­vações no chão de fábri­ca.

Isso sug­ere que as nor­mas de tra­bal­ho podem não ape­nas enco­ra­jar todos os fun­cionários a se man­i­festarem, mas tam­bém con­cen­trar sua voz em questões especí­fi­cas que con­frontam a orga­ni­za­ção. Os empre­gadores que tra­bal­ham em con­tex­tos em que a ino­vação é impor­tante, fari­am bem em cri­ar um ambi­ente que estim­ule especi­fi­ca­mente os fun­cionários a apre­sentarem ideias que pos­sam ofer­e­cer novas opor­tu­nidades de suces­so. Em con­tra­parti­da, empre­gadores que tra­bal­ham em con­tex­tos nos quais a con­fi­a­bil­i­dade é críti­ca, fari­am bem em cri­ar um ambi­ente onde os fun­cionários focassem na pro­jeção e no con­hec­i­men­to de pos­síveis ameaças que pos­sam atra­pal­har ou inter­romper as oper­ações de tra­bal­ho.

Emb­o­ra ten­hamos encon­tra­do evidên­cias con­vin­centes em favor da per­spec­ti­va situa­cional que demon­stram porque os fun­cionários se expres­sam ou não, nos­so estu­do tem suas lim­i­tações. Por exem­p­lo, este foi con­duzi­do no leste da Ásia, onde as pes­soas atribuem ao val­or cul­tur­al do cole­tivis­mo e nor­mas soci­ais. Assim, nes­sa região, é pos­sív­el que desem­pen­hem um papel mais forte do que no Oci­dente mais indi­vid­u­al­ista. Ape­sar des­ta advertên­cia, nos­sa pesquisa sug­ere que, se você quis­er que seus fun­cionários sejam mais falantes e con­tribuam com ideias e opiniões, você deve incen­ti­var ati­va­mente esse com­por­ta­men­to e rec­om­pen­sar aque­les que o fiz­erem.


Hemant Kakkar é doutoran­do na Orga­ni­za­tion­al Behav­ior na Lon­don Busi­ness School. Seus inter­ess­es de pesquisa giram ampla­mente em torno da auto-psi­colo­gia nas hier­ar­quias soci­ais, especi­fi­ca­mente como os ele­men­tos moti­va­cionais que envolvem o indi­ví­duo, influ­en­ci­am os próprios jul­ga­men­tos, as decisões e os com­por­ta­men­tos.


Sub­ra Tan­gi­rala — Pro­fes­sor asso­ci­a­do de gestão e orga­ni­za­ção na Smith School of Busi­ness, Uni­ver­si­dade de Mary­land.

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