O ‘vale tudo’ das livrarias

O vale tudo das livrarias

Em menos de um mês, duas das maiores livrarias do país entraram em recu­per­ação judi­cial, com dívi­das que, somadas, chegam per­to de R$ 1 bil­hão. A Cul­tura recor­reu à medi­da no fim de out­ubro. Na sex­ta-feira (23/11), foi a vez da líder Sarai­va seguir o mes­mo cam­in­ho. Ain­da que edi­toras e out­ros vare­jis­tas do setor insis­tam que não se tra­ta de uma crise de deman­da por livros — que está em disc­re­ta expan­são -, os prob­le­mas das duas vare­jis­tas obrigam o mer­ca­do edi­to­r­i­al a desar­mar uma bom­ba a pou­cas sem­anas do Natal: a mis­são ago­ra é con­vencer o cliente acos­tu­ma­do a com­prar livros nes­sas duas empre­sas a procu­rar o pro­du­to em sites, clubes de assi­natu­ra ou out­ras redes.Não se tra­ta de um vol­ume pequeno: Sarai­va e Cul­tura respon­dem por cer­ca de 35% das ven­das do setor.

Diante da neces­si­dade, redes region­ais, grandes sites de vare­jo eletrôni­co — do Brasil e dos EUA — e até as próprias edi­toras estão viran­do opções para aju­dar os livros a chegar às mãos do con­sum­i­dor. “Vive­mos um para­doxo, pois não se tra­ta de fal­ta de leitores — esse é um prob­le­ma crôni­co, mas que não se agravou”, diz Cas­siano Elek Macha­do, dire­tor edi­to­r­i­al da Plan­e­ta. “Mas vamos pas­sar por essa trav­es­sia do deser­to, porque existe deman­da pelo livro.“Embora a estraté­gia da Plan­e­ta seja evi­tar con­cor­rer a sua rede de dis­tribuição, há grandes edi­toras que pen­sam difer­ente.

Um dos gru­pos mais tradi­cionais do país, a Record vai estrear um e‑commerce próprio antes do Natal. A ideia era estrear a novi­dade na Black Fri­day, mas a vice-pres­i­dente da com­pan­hia, Sônia Macha­do Jardim, diz que a opção foi resolver fal­has téc­ni­cas, para evi­tar prob­le­mas em dezem­bro. Além do novo site, a Record — que con­cen­tra 15 selos, em difer­entes seg­men­tos — tam­bém está lançan­do um clube de assi­nat­uras, com curado­ria de escritores.

Nesse sen­ti­do, a empre­sa segue o cam­in­ho da Intrínse­ca, que lançou em out­ubro o Intrínsec­os, em que assi­nantes têm aces­so a edições espe­ci­ais, em capa dura, de obras que só serão lançadas pos­te­ri­or­mente. “É mais uma opção de recei­ta”, disse Jorge Oakim, fun­dador da Intrínse­ca, que insiste que a crise é das vare­jis­tas, e não dos livros. De janeiro a out­ubro, a Intrínse­ca acu­mu­lou alta de 23% em ven­das, na com­para­ção com o mes­mo perío­do de 2017.

Na web

Além dos testes de ven­da dire­ta pelas edi­toras, os grandes sites de e‑commerce tam­bém devem abo­can­har parte das ven­das da Sarai­va e da Cul­tura, segun­do fontes do setor. Para algu­mas grandes edi­toras, a amer­i­cana Ama­zon já rep­re­sen­ta cer­ca de 15% do fat­u­ra­men­to — e ofer­ece a van­tagem de com­prar livros, em vez de pegá-los em consignação.

Neste fim de ano, gigantes brasileiras, como Americanas.com e Sub­mari­no, tam­bém reforçaram aquisições de títu­los. Procu­ra­da, a B2W não quis comen­tar. Emb­o­ra a Ama­zon não rev­ele sua par­tic­i­pação de mer­ca­do, o dire­tor da área de livros da gigante amer­i­cana no Brasil, Mário Meirelles, diz que a recei­ta com o seg­men­to foi recorde na Black Fri­day 2018. “O cresci­men­to está rela­ciona­do ao aumen­to do número de títu­los ofer­e­ci­dos e tam­bém ao atendi­men­to”, diz. “A Black Fri­day é a nos­sa data de maior vol­ume em ven­das. Começamos o plane­ja­men­to no iní­cio do ano, para garan­tir que a disponi­bil­i­dade de pro­du­tos e a exper­iên­cia de atendi­men­to fos­sem as mes­mas de um dia comum.”

Rivais

Emb­o­ra a ven­da dire­ta e a bus­ca pelos canais online sejam opção às redes tradi­cionais, há empre­sas que no vare­jo físi­co tam­bém con­seguem obter bons resul­ta­dos. Uma das com­pan­hias vis­tas pelo mer­ca­do edi­to­r­i­al como can­di­da­ta a assumir parte do espaço da Sarai­va é a Leitu­ra, hoje vice-líder do setor, com 70 lojas. Em entre­vista na sem­ana pas­sa­da, o pres­i­dente da Leitu­ra, Mar­cus Teles, disse já ter ini­ci­a­do nego­ci­ações com shop­ping cen­ters para assumir até cin­co lojas que a Sarai­va encer­rou.

Out­ra rede de médio porte, a Livrarias Curiti­ba, atual­mente com 29 lojas, a maior parte delas no Paraná e em San­ta Cata­ri­na, começa a ocu­par espaços em São Paulo sem medo da con­cor­rên­cia já esta­b­ele­ci­da. “Bus­camos espaço ain­da não ocu­pa­do, com aluguel mais bara­to do que o cobra­do nos shop­pings de primeira lin­ha”, expli­ca Mar­cos Pedri, dire­tor com­er­cial da Livrarias Curiti­ba e mem­bro da família que fun­dou o negó­cio há 55 anos. A Curiti­ba chegou em solo paulista pelos shop­ping Ari­can­du­va e Tucu­ru­vi, na cap­i­tal, e por Taboão da Ser­ra. A empre­sa tam­bém abriu uma unidade em Diade­ma.

Todas essas áreas tin­ham um pon­to em comum: eram “ter­ritório virgem” para livrarias. Pedri diz que o fato de o preço do livro ter caí­do nos últi­mos anos acabou abrindo uma opor­tu­nidade para o pro­du­to cair no gos­to da classe C. “Ser­e­mos ben­e­fi­ci­a­dos pelos prob­le­mas enfrenta­dos pela concorrência.“Para garan­tir um dis­cre­to cresci­men­to — de 5% a 10% -, tan­to a Leitu­ra quan­to a Curiti­ba vêm apo­s­tan­do em lojas sim­ples, de porte médio e longe dos endereços “classe A”. O mod­e­lo das chiques mega­s­tores virou coisa do pas­sa­do, segun­do Teles. O nome do jogo, na atu­al situ­ação, é a aus­teri­dade.

Acordo

Depois de sofr­er com atra­sos no paga­men­to tan­to da Cul­tura quan­to da Sarai­va — que, ape­sar da dilatação de pra­zos dos fornece­dores, tiver­am de recor­rer à recu­per­ação judi­cial -, as edi­toras bat­er­am o marte­lo: ago­ra só aceitam enviar livros para as duas redes se tiverem algum tipo de garan­tia de rece­bi­men­to. Foi o que acon­te­ceu no acor­do fecha­do com a Sarai­va na últi­ma quin­ta-feira: ao apoiarem a recu­per­ação judi­cial da líder em ven­das no País, as edi­toras aceitaram adi­ar o rece­bi­men­to de débitos anti­gos, mas exi­gi­ram garan­tias claras daqui para frente. Pelo acor­do, todos os livros envi­a­dos à Sarai­va dev­erão ser pagos à vista. É assim que fun­cionará para as encomen­das para o Natal, por exem­p­lo.

Segun­do apurou a reportagem, um con­tra­to pare­ci­do, com garan­tias claras de rece­bi­men­to, é esper­a­do tam­bém da Cul­tura. As nego­ci­ações com a rede se esten­der­am pela sex­ta-feira, segun­do uma fonte lig­a­da à empre­sa. No entan­to, um pon­to difi­cul­taria a con­strução de um entendi­men­to: a situ­ação de caixa da rede da família Herz, que não per­mi­tiria paga­men­tos ime­di­atos de grande porte. Out­ra questão que pesaria con­tra a com­pan­hia seria o próprio acor­do com a Sarai­va.

Emb­o­ra resol­va ape­nas o prob­le­ma de cur­to pra­zo rela­ciona­do às ven­das de fim de ano, ele tira das edi­toras uma pressão muito maior do que a exer­ci­da pela Cul­tura. Ape­sar de ter fecha­do quase 20 pon­tos de ven­da nas últi­mas sem­anas, a Sarai­va tem uma pre­sença espal­ha­da pelo país, com 85 unidades em fun­ciona­men­to, enquan­to a Cul­tura está restri­ta a algu­mas cap­i­tais, com 15 lojas.

Débitos

Emb­o­ra a Sarai­va ten­ha chega­do à recu­per­ação judi­cial com uma dívi­da de R$ 674 mil­hões, seus débitos são pro­por­cional­mente menores em relação à capaci­dade de fat­u­ra­men­to da empre­sa. A Cul­tura, em seu plano de recu­per­ação judi­cial, infor­mou um endi­vi­da­men­to de R$ 285 mil­hões. O resul­ta­do equiv­ale a 42% do val­or total da dívi­da da Sarai­va.

Ape­sar de afir­marem que as edi­toras têm todo o inter­esse em nego­ciar, fontes do mer­ca­do já se ques­tion­am se a Cul­tura teria las­tro finan­ceiro para garan­tir o fornec­i­men­to de livros nas próx­i­mas sem­anas. Procu­ra­da, a asses­so­ria de impren­sa da Cul­tura não retornou os con­tatos da reportagem até o fechamen­to des­ta edição.

Estratégias

O tra­bal­ho de star­tups brasileiras mostra que existe espaço para abor­da­gens cria­ti­vas na hora de vender livros — e que pen­sar fora da caixa pode ger­ar lucros. Entre os mod­e­los já con­sagra­dos está o da Tag Livros, clube de livros cri­a­do em Por­to Ale­gre, em 2014, e que pre­vê fat­u­rar R$ 26 mil­hões em 2018 — val­or equiv­a­lente a cer­ca de um déci­mo da recei­ta esti­ma­da pelo mer­ca­do para a Livraria Cul­tura (a empre­sa deixou de divul­gar dados em 2016).

Gus­ta­vo Lem­bert, sócio-fun­dador da Tag, engrossa o coro dos que defen­d­em que a crise que as livrarias é de canal de ven­da, e não de fal­ta de leitores. “Ain­da vemos grande deman­da por livros”, diz o empreende­dor. Ele defende a aprox­i­mação dire­ta com os leitores: “O con­ta­to com nos­sos leitores rompe a lóg­i­ca his­tori­ca­mente prat­i­ca­da pelas edi­toras, que viam as livrarias, e não o leitor, como seus clientes. As difi­cul­dades da Sarai­va e da Cul­tura vão obri­gar as edi­toras a mudarem de pen­sa­men­to.”

A Ubook é out­ro exem­p­lo de empre­sa que detec­tou uma deman­da que os gru­pos esta­b­ele­ci­dos do mer­ca­do edi­to­r­i­al jamais con­seguiram desen­volver no Brasil: os livros em áudio. O pres­i­dente da Ubook, Flávio Osso, diz que resolveu inve­stir no negó­cio depois de detec­tar que as pes­soas gostari­am de ler mais, mas não fazi­am isso por fal­ta de tem­po.

Disponív­el por meio de um aplica­ti­vo, o Ubook man­tém parce­ria com grandes edi­toras e tam­bém pro­duz con­teú­dos exclu­sivos, encomen­da­dos con­forme a deman­da perce­bidas entre os clientes.

Entre as edi­toras parce­rias da Ubook está a Todavia. Cri­a­da em 2017, a Todavia já nasceu ante­na­da com as novas for­mas de com­er­cial­iza­ção: man­tém um site de ven­das dire­tas de seus títu­los e se asso­ciou à start­up por acred­i­tar que o livro pode chegar ao con­sum­i­dor em difer­entes for­matos. “O vare­jo pas­sa por uma trans­for­mação muito impor­tante, e acred­i­ta­mos que o audio­book é um for­ma­to viáv­el, uma nova for­ma de as nar­ra­ti­vas chegarem às pes­soa”, diz Marce­lo Levy, dire­tor com­er­cial da edi­to­ra.

Cri­a­da em 2014, a Ubook tem hoje 6 mil­hões de usuários ativos e aprox­i­mada­mente 25 mil livros disponíveis em inglês, espan­hol e por­tuguês. “O nos­so mod­e­lo de audi­o­livro é com­ple­men­tar a out­ras for­mas de lit­er­atu­ra. Não acred­i­ta­mos que ire­mos sub­sti­tuir out­ros for­matos. Até porque, em alguns momen­tos, como em frente a uma lareira, em um momen­to de des­can­so, é difí­cil sub­sti­tuir o livro tradi­cional.”

Crianças

A Sto­ry­max, fun­da­da em 2013 por Sami­ra Almei­da, ded­i­ca-se à cri­ação do hábito da leitu­ra em cri­anças. A empreende­do­ra Sami­ra Almei­da tra­bal­hou em uma edi­to­ra de livros infan­tis por 12 anos — e perce­bia con­stante que­da nas ven­das. Por isso, decid­iu cri­ar uma solução para traz­er os livros para os celu­lares e tablets, cada vez mais usa­dos pelas crianças.Logo no iní­cio das ativi­dades da Sto­ry­max, alguns aplica­tivos foram ven­di­dos para esco­las amer­i­canas.

A empre­sa já fez parte do Google Cam­pus (pro­gra­ma que sele­ciona star­tups com poten­cial para rece­ber apoio do Google por um semes­tre) e acu­mu­la vários prêmios, incluin­do dois Jabutis. A com­pan­hia não rev­ela fat­u­ra­men­to, mas esti­ma ter alcança­do 120 mil leitores.

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