Como a Venezuela chegou ao colapso econômico e à maior crise de sua história

ORG XMIT: MSN005 Handout picture released by the Venezuelan Presidency showing Venezuela acting President Nicolas Maduro (R) delivering a speech after registering his candidacy for the upcoming presidential election at the National Electoral Council (SNE), in Caracas, on March 11, 2013. Venezuela has entered a bitter election race to succeed Hugo Chavez, with his chosen successor branding his challenger a "fascist" after the opposition candidate accused him of exploiting the late leader's death. AFP PHOTO/PRESIDENCIA/MARCELO GARCIA/HO --- RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO/PRESIDENCIA/HO" - NO MARKETING NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS

Como a Venezuela ao colapso econômico e à maior crise de sua história

A crise na Venezuela vem gan­han­do con­tornos de tragé­dia há alguns anos. A fome fez os venezue­lanos perderem, em média, 11 qui­los no ano pas­sa­do. A vio­lên­cia esvazia as ruas das grandes cidades quan­do anoitece. E a situ­ação provo­cou um êxo­do em mas­sa para país­es viz­in­hos. Esta sem­ana, uma reportagem da BBC News rela­tou a situ­ação de cor­pos que explo­dem nos necrotérios pela fal­ta de elet­ri­ci­dade para refrig­er­ação.

O país viz­in­ho vive a maior recessão de sua história: são 12 trimestres segui­dos de retração econômi­ca, segun­do anun­ciou em jul­ho a Assem­bleia Nacional, o par­la­men­to venezue­lano, que atual­mente é con­tro­la­do pela oposição.

A dimen­são do colap­so pode ser vista nos números do Pro­du­to Inter­no Bru­to. Entre 2013 e 2017, o PIB venezue­lano teve uma que­da de 37%. O Fun­do Mon­etário Inter­na­cional pre­vê que, neste ano, caia mais 15%.

A situ­ação tem sido explo­ra­da tam­bém na cam­pan­ha eleitoral brasileira. Can­didatos e eleitores de oposição ao Par­tido dos Tra­bal­hadores, que his­tori­ca­mente apoiou os gov­er­nos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, ten­tam usar o fra­cas­so venezue­lano como aler­ta do que pode­ria ocor­rer no Brasil. Fer­nan­do Had­dad e a crise na qual está imer­so o país cariben­ho.

Os petis­tas, por sua vez, lem­bram que Chávez era um mil­i­tar e é com apoio e par­tic­i­pação dire­ta das Forças Armadas que seu suces­sor gov­er­na.

Em agos­to, a Orga­ni­za­ção Inter­na­cional para as Migrações, lig­a­da à Orga­ni­za­ção das Nações Unidas, disse que o aumen­to do número de pes­soas deixan­do a Venezuela por causa do colap­so econômi­co hiper­in­fla­cionário faz o momen­to de crise estar próx­i­mo ao dos refu­gia­dos e migrantes que atrav­es­sam o Mediter­râ­neo rumo à Europa.

Mas como a situ­ação na Venezuela chegou a esse pon­to?

A BBC News Brasil faz aqui um resumo de como a Venezuela entrou em colap­so.

1 — Crise do petróleo

A Venezuela tem as maiores reser­vas de petróleo do mun­do — e o recur­so é prati­ca­mente a úni­ca fonte de recei­ta exter­na do país.

Após a Primeira Guer­ra Mundi­al, suces­sivos gov­er­nantes venezue­lanos deixaram o desen­volvi­men­to agrí­co­la e indus­tri­al de lado para focar em petróleo, que hoje responde por 96% das expor­tações — uma dependên­cia quase total.

A apos­ta no petróleo foi segu­ra durante anos e deu bons resul­ta­dos nos momen­tos em que o preço do bar­ril esta­va alto. Entre 2004 e 2015, nos gov­er­nos de Hugo Chávez e no iní­cio do de Nicolás Maduro — eleito em 2013 após a morte de seu padrin­ho políti­co, no mes­mo ano — , o país rece­beu 750 bil­hões de dólares prove­nientes da ven­da de petróleo.

O gov­er­no chav­ista aproveitou essa chu­va dos chama­dos “petrodólares” para finan­ciar de pro­gra­mas soci­ais a impor­tações de prati­ca­mente tudo que era con­sum­i­do no país.

Mas, em 2014, o preço do petróleo desabou. Em parte dev­i­do à recusa de Irã e Arábia Sau­di­ta — out­ros dois dos grandes pro­du­tores — em assi­nar um com­pro­mis­so para reduzir a pro­dução. Out­ros fatores foram a desacel­er­ação da econo­mia chi­ne­sa e o cresci­men­to, nos EUA, do mer­ca­do de pro­dução de óleo e gás pelo méto­do “frack­ing” — o frat­u­ra­men­to hidráuli­co de rochas.

No iní­cio daque­le ano, depois de ter alcança­do um pico de US$ 138,54 em 2008, o preço do bar­ril de petróleo era nego­ci­a­do a cer­ca de US$ 100 dólares e caiu pela metade no fim do ano, man­ten­do essa que­da sig­ni­fica­ti­va até este ano, quan­do voltou a atin­gir o pata­mar de US$ 80.

Além de rece­ber menos din­heiro por seu prin­ci­pal pro­du­to, a Venezuela tam­bém teve uma que­da sig­ni­fica­ti­va na pro­dução. Quan­do Chávez assum­iu pela primeira vez o país, em 1999, a pro­dução era de mais de 3 mil­hões de bar­ris por dia. Hoje, é de cer­ca de 1,5 mil­hão, segun­do a Orga­ni­za­ção dos País­es Expor­ta­dores de Petróleo (Opep) — é o pior nív­el em 33 anos.

Essa que­da de pro­dução acon­te­ceu prin­ci­pal­mente pela má gestão da PDVSA, a Petróleos de Venezuela, estatal que gere a explo­ração do recur­so no país com exclu­sivi­dade. Em 2007, Chávez orde­nou que todas as empre­sas estrangeiras cedessem a maior parte do con­t­role de suas ativi­dades de explo­ração ao Esta­do ven­zue­lanos. Com­pan­hias com o a Exxon não aceitaram, tiver­am seus bens con­fis­ca­dos e batal­has jurídi­cas por ind­eniza­ções se desen­ro­lam até os dias atu­ais.

Na PDVSA, Não hou­ve inves­ti­men­to em infraestru­tu­ra e a empre­sa sofre com má gestão e alto grau de cor­rupção. Para se ter uma ideia, des­de agos­to de 2017, a Justiça venezue­lana proces­sou 90 ex-fun­cionários da petroleira por cor­rupção. Em setem­bro, o Min­istério Públi­co de lá man­dou pren­der 9 dire­tores.

O Depar­ta­men­to de Justiça dos EUA tam­bém con­duz­iu uma inves­ti­gação com base em Mia­mi que rev­el­ou um esque­ma de lavagem de din­heiro da PDVSA que desvi­ou US$ 1,2 bil­hão, entre 2014 e 2015 . A oper­ação chama­da Fuga de Din­heiro con­tou com a coop­er­ação de Reino Unido, Espan­ha, Itália e Mal­ta. Dois sus­peitos foram pre­sos.

Out­ra coisa que aju­dou a prej­u­dicar as finanças da PDVSA foi a cri­ação, ain­da no gov­er­no Chávez, da Petro­caribe, uma ini­cia­ti­va na qual a Venezuela se com­pro­me­tia a fornecer petróleo a preços muito mais baixos para país­es cariben­hos ali­a­dos ao chav­is­mo, com lon­gos pra­zos para paga­men­to. Era como emprestar din­heiro com retorno a perder de vista.

Com o apro­fun­da­men­to da crise, a ini­cia­ti­va começou a min­guar e país­es como Jamaica e Repúbli­ca Domini­cana pas­saram a bus­car out­ros con­tratos para seu abastec­i­men­to.

2 — Dependência das importações e controle cambial

Com o foco volta­do para o petróleo e usan­do parte do din­heiro arrecada­do com as expor­tações do com­bustív­el para sus­ten­tar pro­gra­mas soci­ais, o chav­is­mo não se pre­ocupou com o desen­volvi­men­to agrí­co­la e indus­tri­al do país. O gov­er­no não investiu nem na própria indús­tria do petróleo — levan­do à que­da na pro­dução de bar­ris.

Chávez tomou uma série de medi­das que acabaram emper­ran­do o desen­volvi­men­to da indús­tria local: nacional­i­zou as indús­trias de cimen­to e aço, entre out­ras, e expro­pri­ou cen­te­nas de empre­sas e de pro­priedades rurais.

O setor pri­va­do foi lev­a­do a sub­sti­tuir a pro­dução própria pelas impor­tações mais baratas, sub­sidi­adas pelo gov­er­no. Além dis­so, o gov­er­no ado­tou uma políti­ca de con­t­role de preços, segu­ran­do artif­i­cal­mente a inflação, o que aju­dou ain­da mais a acabar com a indús­tria local.

A Venezuela pas­sou a depen­der mais e mais de impor­tações — de ali­men­tos e medica­men­tos até pneus e peças de reposição para o sis­tema de metrô das grandes cidades. Nos dois últi­mos anos, com menos din­heiro para impor­tação, a questão do desabastec­i­men­to — e, con­se­quente­mente, da fome — se agravou. Fal­ta até papel higiêni­co nos super­me­r­ca­dos.

O gov­er­no tam­bém implan­tou uma políti­ca cam­bial para segu­rar o val­or do bolí­var, a moe­da local, con­trolan­do a com­pra de dólares pela pop­u­lação, o que ger­ou um mer­ca­do para­le­lo da ven­da da divisa amer­i­cana.

Com o con­t­role cam­bial veio um aumen­to sig­ni­fica­ti­vo da cor­rupção, com desvio de dólares para o mer­ca­do para­le­lo, onde a moe­da valia até 12 vezes o preço do câm­bio ofi­cial. O gov­er­no ten­tou manobras diver­sas para ten­tar con­ter a escal­a­da do para­le­lo — como a cri­ação de ban­das cam­bi­ais dis­tin­tas que seri­am apli­cadas em difer­entes situ­ações. Mas não hou­ve resul­ta­do con­cre­to e o câm­bio ile­gal con­tin­u­ou a cor­roer o já com­bali­do sis­tema econômi­co.

“Chávez cap­i­tal­i­zou um descon­tenta­men­to social que exis­tia des­de gov­er­nos pas­sa­dos, com uma desigual­dade social acen­tu­a­da, e o iní­cio de seu gov­er­no mar­ca­do pelo peso ele­va­do que deu ao Esta­do e pelo aspec­to pop­ulista. Isso se car­ac­ter­i­zou por um repú­dio à pro­priedade pri­va­da e a um menor papel do mer­ca­do, o que resul­tou num estri­to con­t­role de preços e transações cam­bi­ais”, afir­ma à BBC New Brasil o econ­o­mista Luis Arturo Bárce­nas, da con­sul­to­ria venezue­lana Ecoanalíti­ca.

“Ele satani­zou o livre-mer­ca­do. O Esta­do pas­sou a ser um grande apara­to pro­du­ti­vo e cen­tral­izador. Então, isso vem de um forte sub­sí­dio cam­bial, onde arti­fi­cial­mente se deu um val­or à moe­da local maior que as estrangeiras. Isso acabou tor­nan­do muito mais bara­to para os pro­du­tores locais importarem do que pro­duzir inter­na­mente.”

O Esta­do tam­bém viu seus gas­tos públi­cos aumentarem para con­seguir man­ter os pro­gra­mas soci­ais. A dívi­da exter­na tam­bém aumen­tou em cin­co vezes, com esti­ma­ti­va do FMI de bater os US$ 159 bil­hões neste ano — este mon­tante inclui títu­los de dívi­da públi­ca emi­ti­dos pelo gov­er­no e pela PDVSA e crédi­tos com Chi­na e Rús­sia. Em 2015, a dívi­da era de US$ 31 bil­hões, segun­do esti­ma­ti­vas do FMI.

3 — Hiperinflação

Ao ten­tar super­val­orizar a moe­da venezue­lana, o gov­er­no provo­cou dis­torções de val­ores que, além de causarem a crise de desabastec­i­men­to, con­tribuíram para um cenário de hiper­in­flação.

Além dis­so, com a que­da do preço do petróleo e uma redução no fluxo de divisas, o gov­er­no pas­sou a imprim­ir mais din­heiro para cobrir o rom­bo nas con­tas públi­cas e isso foi geran­do cada vez mais inflação.

A pre­visão do Fun­do Mon­etário Inter­na­cional é que neste ano a inflação na Venezuela chegue a 1 mil­hão % (Isso sig­nifi­ca você mul­ti­plicar por 10 mil o preço de um pro­du­to). Por dia, o FMI esti­ma em 4% o val­or da inflação no país viz­in­ho.

A hiper­in­flação fez com que fal­tassem até cédu­las de din­heiro cir­cu­lan­do, já que as pes­soas pas­saram a pre­cis­ar de muito mais din­heiro para com­prar qual­quer coisa. Para tomar um café ou com­prar um papel higiêni­co, por exem­p­lo, aque­les que não usam cartão de débito do ban­co, pas­saram a ter de car­regar pil­has de cédu­las de bolí­var — quan­do con­seguiam sacar din­heiro.

“Com a escassez de divisas pro­du­toras, recor­re­mos muito mais a finan­cia­men­tos e imprim­i­mos muito din­heiro, com o Esta­do gas­tan­do sem ger­ar mais recur­sos”, diz o econ­o­mista Bárce­nas.

Com a dete­ri­o­ração da situ­ação, o chav­is­mo ado­tou uma espé­cie de con­t­role artif­i­cal da inflação: obri­ga­va os com­er­ciantes a adotarem um preço abaixo do que eles gas­tavam para pro­duzir, porque pre­cisavam impor­tar os insumos. Então, indús­trias e com­er­ciantes começaram a que­brar.

A hiper­in­flação provo­cou uma pul­ver­iza­ção da ren­da e a pobreza aumen­tou. Em 2017, o índice de pes­soas na lin­ha da pobreza no país de 30 mil­hões de habi­tantes chegou a 87%, um aumen­to de 40 pon­tos per­centu­ais em três anos, segun­do lev­an­ta­men­to da Uni­ver­si­dade Católi­ca Andrés Bel­lo.

Vale lem­brar que na era Chávez, a pobreza na Venezuela havia caí­do em mais de 20%, de acor­do com a Cepal (Comis­são Econômi­ca para Améri­ca Lati­na e Caribe), e o país pas­sou a reg­is­trar a menor desigual­dade entre ricos e pobres entre país­es lati­no-amer­i­canos, de acor­do com relatório da ONU.

Como a Venezuela chegou ao colapso econômico e à maior crise de sua história

4 — Crise política

A Venezuela vive tam­bém uma inten­sa crise políti­ca. O país está divi­di­do entre os chav­is­tas e os opos­i­tores, que esper­am o fim dos 19 anos de poder do grupo que atual­mente se reúne em torno do Par­tido Social­ista Unido da Venezuela (PSUV). Nos últi­mos anos, a inde­pendên­cia entre os Poderes se reduz­iu na práti­ca, o que con­tribuiu ain­da mais para a situ­ação críti­ca atu­al.

Em 2007, em seu segun­do manda­to, Chávez con­seguiu, por meio de um ref­er­en­do com voto pop­u­lar, aprovação para alter­ar a Con­sti­tu­ição e mudar a regra de reeleição para pres­i­dente. Des­de então, os pres­i­dentes venezue­lanos pas­saram a poder con­cor­rer a reeleições sem lim­ites.

O chav­is­mo, pro­je­to de poder que se con­soli­dou a par­tir da primeira eleição de Hugo Chávez, tem como ele­men­tos cen­trais uma atu­ação muito maior do Esta­do e a defe­sa de medi­das que ampli­am a par­tic­i­pação social na políti­ca — um exem­p­lo é a orga­ni­za­ção de “comu­nas” nos bair­ros mais car­entes das prin­ci­pais cidades, órgãos que se artic­u­lam, por sua vez, com o Leg­isla­ti­vo local para apre­sen­tar deman­das e con­tro­lar o fluxo de entra­da de alguns pro­gra­mas soci­ais.

Tam­bém é car­ac­ter­i­za­do por uma políti­ca “anti-impe­ri­al­ista”, defend­en­do a inte­gração dos povos sul-amer­i­canos para com­bat­er a influên­cia dos Esta­dos Unidos na região. No chav­is­mo, o man­datário tem seu poder basea­do num forte mil­i­taris­mo.

Depois da morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro, que era seu vice-pres­i­dente e tam­bém do PSUV, já foi eleito e reeleito pres­i­dente com a promes­sa de dar con­tinuidade às políti­cas do ante­ces­sor.

Só que Maduro her­dou a Venezuela já entran­do em colap­so econômi­co e tomou medi­das que con­tribuíram mais para a crise.

No iní­cio de 2014, o país foi foi toma­do por uma onda de protestos con­tra Maduro. A repressão do Esta­do foi vio­len­ta. Entre fevereiro e jun­ho, 43 pes­soas mor­reram. O líder oposi­cionista Leopol­do López foi pre­so.

Em 2015, o chav­is­mo perdeu o con­t­role do Par­la­men­to e isso fez com que a situ­ação do país se agravasse, já que Maduro acusa con­stan­te­mente os oposi­cionistas de tentarem tirá-lo do poder por meio de um golpe.

Após a der­ro­ta, ele decid­iu con­vo­car uma Assem­bleia Nacional Con­sti­tu­inte — na práti­ca, uma manobra para esvaziar total­mente o poder do Leg­isla­ti­vo coman­da­do pelos opos­i­tores e cri­ar uma instân­cia para­lela de decisão.

E essa instân­cia para­lela fun­ciona com aju­da do Judi­ciário, que é acu­sa­do pela oposição de ser total­mente chav­ista, já que o gov­er­no indi­cou a maio­r­ia dos juízes — Chávez aumen­tou o número de inte­grantes do Tri­bunal Supre­mo de Justiça (TSE), equiv­a­lente ao STF no Brasil, para com­por uma maio­r­ia com seus indi­ca­dos.

Em março de 2017, o TSJ assum­iu funções do Leg­isla­ti­vo, acu­san­do o Par­la­men­to de des­obe­diên­cia. A ação foi denun­ci­a­da como golpe pela oposição e, dois dias depois, o tri­bunal voltou atrás.

A acusação é, por­tan­to, de que não há inde­pendên­cia entre os Poderes Exec­u­ti­vo, Leg­isla­ti­vo e Judi­ciário na Venezuela.

“Na Venezuela, o Judi­ciário é poli­ti­za­do e muito forte. Ele se trans­for­mou em um anexo do Exec­u­ti­vo”, diz à BBC News Brasil Rafael Vila, pro­fes­sor da fac­ul­dade de relações inter­na­cionais da USP (Uni­ver­si­dade de São Paulo).

Em maio de 2017, após Maduro con­vo­car a Assem­bleia Con­sti­tu­inte, dizen­do que ela irá ren­o­var o Esta­do e redi­gir uma nova Con­stiuição, a Venezuela viu mais uma vez uma onda de protestos vio­len­tos tomar o país. Mais de 120 pes­soas mor­reram e 2 mil ficaram feri­das.

Em maio deste ano, para agravar a crise, Maduro foi reeleito com 68% dos votos numa eleição con­tes­ta­da den­tro e fora do país. O man­datário foi recon­duzi­do ao car­go num pleito que teve 54% de abstenção.

Na ocasião, o can­dida­to der­ro­ta­do da oposição, Hen­ri Fal­cón, disse que não recon­hecia a eleição e acu­sou Maduro de usar o Esta­do para coa­gir os mais pobres a votarem.

Fal­cón acu­sou o gov­er­no de influ­en­ciar a votação através do Carnê da Pátria, doc­u­men­to que per­mite que os venezue­lanos recol­ham bene­fí­cios do gov­er­no e usem os serviços públi­cos. Maduro prom­e­teu que quem votasse no dia do pleito teria dire­ito a um bene­fí­cio extra con­ce­di­do pelo gov­er­no.

A oposição acu­sou o gov­er­no de com­pra de votos e a maior parte dos oposi­cionistas boico­tou o pleito. O gov­er­no afir­mou que as eleições foram “livres e jus­tas”. Com muitos can­didatos-não gov­ernistas impos­si­bil­i­ta­dos de con­cor­rer ou pre­sos, a oposição disse que o pleito não tem legit­im­i­dade e que há indí­cios para descon­fi­ar de fraude eleitoral.

Toda essa insta­bil­i­dade políti­ca con­tribuiu para agravar a crise venezue­lana. Após a reeleição de Maduro, a OEA (Orga­ni­za­ção dos Esta­dos Amer­i­canos) pediu a sus­pen­são da Venezuela da enti­dade. O Brasil, além de EUA, Canadá, Argenti­na, Peru e Méx­i­co, entre out­ros, foi um dos país­es que pediu a sus­pen­são da Venezuela da orga­ni­za­ção con­ti­nen­tal, ale­gan­do desre­speito à Car­ta Democráti­ca Inter­amer­i­cana e ile­git­im­i­dade da reeleição de Maduro.

Os dois úni­cos país­es sus­pen­sos da OEA até hoje foram Cuba, em 62, quan­do Fidel Cas­tro se aliou à então União Soviéti­ca, e Hon­duras, em 2009, após o golpe de Esta­do que desi­ti­tu­iu o pres­i­dente Manuel Zelaya.

A Venezuela já havia se adi­anta­do a esse proces­so e pedi­do seu desliga­men­to da OEA em 2017, ale­gan­do que a orga­ni­za­ção estaria dom­i­na­da pelas “forças impe­ri­ais” amer­i­canas.

Esse fato, no entan­to, não impede que o proces­so de sus­pen­são con­tin­ue e que o país sin­ta seus efeitos diplomáti­cos. A sus­pen­são sig­nifi­caria que todas as nações amer­i­canas con­fir­maram que a Venezuela não segue mais a ordem democráti­ca.

Se a sus­pen­são for con­fir­ma­da, o país terá ain­da mais difi­cul­dade para obter apoio inter­na­cional, prin­ci­pal­mente na Europa e na Ásia.

A Car­ta Democráti­ca Inter­amer­i­cana foi cri­a­da em 2001 e reg­u­la o fun­ciona­men­to das democ­ra­cias dos 35 país­es-mem­bros da OEA. O doc­u­men­to pre­vê a pos­si­bil­i­dade de sus­pen­são em caso de des­cumpri­men­to dos princí­pios que a regem.

Em jun­ho, quan­do hou­ve a assem­bleia da OEA, o min­istro das Relações Exte­ri­ores do Brasil, Aloy­sio Nunes Fer­reira, afir­mou que o gov­er­no de Maduro tem car­ac­terís­ti­cas de um regime que não é democráti­co, como perseguição da oposição, fal­ta de liber­dade de impren­sa e ausên­cia de liber­dade de orga­ni­za­ção políti­ca.

5- Poder militar e controle da imprensa

Um out­ro pon­to que con­tribuiu para a crise venezue­lana foi a forte pre­sença do Exérci­to na gestão do Esta­do.

Em 25 anos, a Venezuela sofreu três ten­ta­ti­vas de golpe de Esta­do pelos mil­itares. Uma delas foi deflagra­da por um grupo do qual o então coro­nel Chávez era líder, em 1992.

Pre­so após a ten­ta­ti­va de golpe mil­i­tar, ele foi solto anos depois e con­seguiu se eleger em 1998.

Chávez trouxe as Forças Armadas para seu gov­er­no. Ele nomeou vários gen­erais para car­gos em estatais, sub­sti­tuin­do fun­cionários téc­ni­cos espe­cial­iza­dos.

Uma das empre­sas que teve parte de seu cor­po téc­ni­co sub­sti­tuí­do por mil­itares foi a petroleira PDVSA, o que, segun­do espe­cial­is­tas, expli­ca em parte o fato dela não ter investi­do em mel­ho­rias, não ter se desen­volvi­do.

O chav­is­mo tam­bém colo­cou mil­itares para atu­arem como min­istros. Um terço do gabi­nete de Maduro é com­pos­to por mil­itares e ex-mil­itares.

Pela Con­sti­tu­ição venezue­lana, as Forças Armadas dev­e­ri­am ser apolíti­cas. Mas o min­istro da Defe­sa, gen­er­al Vladimir Padri­no, escreve em seus despa­chos “Chávez vive, a pátria con­tin­ua. Inde­pendên­cia e pátria social­ista”.

Durante a crise de abastec­i­men­to ini­ci­a­da em 2016, Maduro tam­bém pas­sou o con­t­role da pro­dução, impor­tação e dis­tribuição de ali­men­tos para o Exérci­to. Há graves acusações de cor­rupção envol­ven­do o con­t­role dos mil­itares desse setor chave na crise.

Out­ro fator que con­tribuiu para a crise venezue­lana é o estri­to con­t­role da impren­sa. Veícu­los con­sid­er­a­dos de oposição foram com­pra­dos por chav­is­tas, enquan­to out­ros foram fecha­dos (caso da emis­so­ra RCTV, que teve sua con­cessão cas­sa­da).

Em out­ros casos, o chav­is­mo sufo­cou o supri­men­to de papel-jor­nal para veícu­los de lin­ha edi­to­r­i­al opos­i­to­ra — o gov­er­no venezue­lano con­tro­la, por meio de uma cor­po­ração estatal, a impor­tação e a dis­tribuição do insumo.

Fonte BBC

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