Aneel quer cortar subsídios a eólica e solar

André Pepi­tone da Nóbre­ga (Aneel) — Apon­ta um desafio para seu manda­to de qua­tro anos que assume hoje à frente do órgão reg­u­lador: con­ter a escal­a­da de sub­sí­dios joga­dos nas costas dos con­sum­i­dores e respon­sáv­el, em boa parte, pelo aumen­to de tar­i­fas nos últi­mos anos.

E o prin­ci­pal alvo na mira de Pepi­tone já foi escol­hi­do: as sub­venções dadas para ger­adores e con­sum­i­dores de fontes incen­ti­vadas de ener­gia (basi­ca­mente eóli­ca e solar). Ess­es incen­tivos já rep­re­sen­tam prati­ca­mente metade de todas as despe­sas da Con­ta de Desen­volvi­men­to Energéti­co (CDE), o “super­fun­do” que ban­ca sub­sí­dios do setor, cujo orça­men­to para este ano foi revisa­do na sem­ana pas­sa­da e chega a estratos­féri­cos R$ 19,7 bil­hões.

Os recur­sos da CDE para dar mais com­pet­i­tivi­dade à ener­gia eóli­ca e solar der­am um salto em pouco tem­po. Eram R$ 4 bil­hões em 2013 e vão atin­gir R$ 8,7 bil­hões neste ano. Sem nen­hu­ma per­spec­ti­va de con­t­role e com tudo indo parar nas con­tas de luz.

Grosso modo, cada bil­hão adi­cional de despe­sa da CDE se reflete em aumen­to per­to de um pon­to per­centu­al para os con­sum­i­dores finais, numa dinâmi­ca per­ver­sa que fez as tar­i­fas subirem.

O novo chefe da Aneel, que toma posse hoje à tarde em cer­imô­nia no Min­istério de Minas e Ener­gia (MME), adverte: a lei não esta­b­elece pra­zo final para a con­cessão dos incen­tivos e o val­or deve aumen­tar ain­da mais com a tendên­cia de ampli­ação do mer­ca­do livre. “Se não fiz­er­mos nada, [os sub­sí­dios] vão con­tin­uar crescen­do”, disse Pepi­tone.

Engen­heiro civ­il de 44 anos, for­ma­do pela Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB), fun­cionário de car­reira da Aneel e dire­tor por dois mandatos con­sec­u­tivos, ele ago­ra sub­sti­tui Romeu Rufi­no no coman­do da agên­cia e se tor­na o ros­to mais visív­el de um novo grupo de reg­u­ladores. “O maior desafio para a nova com­posição da dire­to­ria cole­gia­da são as tar­i­fas cobradas dos con­sum­i­dores.”

Dois dire­tores assumi­ram no fim de maio. Out­ros dois, incluin­do Pepi­tone, ini­ci­am seus mandatos hoje. Fica fal­tan­do uma tro­ca na cúpu­la da agên­cia — o que deve ocor­rer neste ano.

Para ele, a questão dos sub­sí­dios é fun­da­men­tal. “Esta­mos em um momen­to de faz­er essa reflexão com a sociedade. O descon­to [para fontes incen­ti­vadas] é uma políti­ca públi­ca asse­gu­ra­da em lei. Será que não é o momen­to de dis­cu­tir com o Con­gres­so Nacional se esse sub­sí­dio ain­da se faz necessário?”, ques­tio­nou, na véspera de sua posse.

“Temos que pen­sar na justeza do sub­sí­dio. Em um momen­to ini­cial, ele pode se mostrar real­mente necessário, mas será o caso para fontes que já estão con­sagradas na matriz?”, acres­cen­ta o novo dire­tor-ger­al. Em sua análise, pro­postas de solução como repas­sar a con­ta para o Tesouro Nacional são fal­sas, porque no fim “sai tudo do mes­mo bol­so”.

Parece redundân­cia, mas tra­ta-se de uma alusão à MP 579, a polêmi­ca medi­da pro­visória assi­na­da pela ex-pres­i­dente Dil­ma Rouss­eff em 11 de setem­bro de 2012 — dia que é chama­do ironi­ca­mente de “11 de setem­bro do setor elétri­co” pelos investi­dores dev­i­do à exten­são dos desajustes cau­sa­dos. O ônus de pagar os sub­sí­dios saiu das tar­i­fas e foi dire­to para o colo dos con­tribuintes. Out­ro pon­to que ele diz não aceitar é rev­er os incen­tivos pactu­a­dos para con­tratos do pas­sa­do. “Um pilar bási­co para a gente é a esta­bil­i­dade reg­u­latória e a segu­rança jurídi­ca.”

Pepi­tone acha urgente, no entan­to, uma dis­cussão em torno do futuro dos sub­sí­dios. Até porque o mer­ca­do livre — aque­le no qual grandes con­sum­i­dores, como indús­trias e shop­ping cen­ters, podem bus­car fornec­i­men­to em qual­quer ger­ador e não ficam ata­dos à dis­tribuido­ra local de ener­gia — tem cresci­do forte­mente. O novo mar­co reg­u­latório do setor elétri­co, desen­hado pelo MME e atual­mente em trami­tação como sub­sti­tu­ti­vo na Câmara dos Dep­uta­dos, pre­vê a ampli­ação grad­ual do mer­ca­do e sua aber­tu­ra com­ple­ta até 2026.

As sub­venções para fontes incen­ti­vadas já alcançam val­or 64% aci­ma dos gas­tos de R$ 5,3 bil­hões em 2018 com a com­pra de com­bustíveis para os sis­temas iso­la­dos, na rubri­ca con­heci­da como CCC pelo setor elétri­co, que vin­ham ocu­pan­do até ago­ra o pos­to de vilão na con­ta dos sub­sí­dios.

Ape­sar da pre­ocu­pação com as tar­i­fas, Pepi­tone sug­ere um olhar mais pro­lon­ga­do. Segun­do ele, de 2001 a 2017, as con­tas de luz tiver­am alta de 190%. O IGP‑M, a inflação do aluguel, subiu 215%.

Nos últi­mos anos, além da explosão no orça­men­to da CDE, o dire­tor men­ciona a hidrolo­gia des­fa­voráv­el e a desval­oriza­ção do real como fatores que pres­sion­am as tar­i­fas. A ener­gia da usi­na bina­cional de Itaipu é cota­da em dólar e tem reflexo no “mix” de ener­gia com­pra­da pelas dis­tribuido­ras das regiões Sul, Sud­este e Cen­tro-Oeste. Já a escassez de chu­vas e a que­da no vol­ume dos reser­vatórios fiz­er­am o aciona­men­to das tér­mi­cas, mais caras, ficar aci­ma do nor­mal. “Há uma con­junção de questões des­fa­voráveis.”

Pepi­tone não isen­ta, porém, a respon­s­abil­i­dade do poder públi­co. A trans­fer­ên­cia do risco hidrológi­co para os con­sum­i­dores, no caso das usi­nas que tiver­am suas con­cessões ren­o­vadas em 2012 e hoje oper­am pelo regime de cotas, encar­e­ceu as tar­i­fas em uma frente. Em out­ra, o atra­so na ven­da de dis­tribuido­ras admin­istradas pela Eletro­bras oner­ou os con­sum­i­dores em mais R$ 670 mil­hões ape­nas com o adi­a­men­to da pri­va­ti­za­ção do primeiro para o segun­do semes­tre do ano.

Ele defende o leilão. “His­tori­ca­mente as empre­sas estatais têm demon­stra­do difi­cul­dade em entre­gar o dinamis­mo exigi­do pelo seg­men­to de dis­tribuição”, opina, com a con­vicção de que o con­t­role das empre­sas pela ini­cia­ti­va pri­va­da per­mi­tiria mel­ho­rar índices de qual­i­dade do serviço e até que­da nas tar­i­fas.

Como fator de pressão pos­i­ti­vo nas con­tas de luz, a par­tir do próx­i­mo ano, Pepi­tone lem­bra que final­mente estará amor­ti­za­do um emprés­ti­mo de R$ 14 bil­hões (em val­ores cor­rigi­dos) toma­do pela Câmara de Com­er­cial­iza­ção de Ener­gia Elétri­ca (CCEE) para resolver os prob­le­mas finan­ceiros das dis­tribuido­ras em 2013. Os con­sum­i­dores pagavam R$ 3,7 bil­hões por ano nas suas tar­i­fas para quitar a dívi­da. Sem isso, os rea­justes de cada empre­sa poderão ser aten­u­a­dos.

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