Por que a inteligência artificial está provocando uma corrida pelas fitas magnéticas?

A inteligência artificial impulsiona a demanda por fitas magnéticas. Entenda o investimento da Fujifilm, os 40 TB por cartucho e as vantagens para data centers.

O crescimento da inteligência artificial está levando gigantes da tecnologia a investir em uma solução criada há mais de sete décadas. A explicação envolve bilhões de dados, economia de energia, segurança digital e uma surpreendente vantagem financeira.

A inteligência artificial está transformando a economia mundial, impulsionando investimentos em processadores avançados, centros de dados e sistemas de computação cada vez mais sofisticados.

Entretanto, uma das tecnologias que mais despertam interesse nessa transformação não é exatamente uma novidade.

São as fitas magnéticas.

Associadas durante décadas a computadores antigos, equipamentos de gravação e sistemas tradicionais de backup, essas mídias continuam presentes em grandes operações de armazenamento empresarial.

Agora, a expansão da inteligência artificial está ampliando sua importância.

A explicação é simples: quanto mais dados a inteligência artificial produz e utiliza, maior se torna a necessidade de armazená-los de maneira econômica, segura e duradoura.

E, para determinadas aplicações, as fitas magnéticas continuam oferecendo vantagens difíceis de ignorar.

Fujifilm investe milhões para multiplicar produção

Em 29 de outubro de 2026, a japonesa Fujifilm anunciou um investimento de aproximadamente 10 bilhões de ienes, equivalente a cerca de US$ 63 milhões, para ampliar sua capacidade de produção de fitas magnéticas destinadas ao armazenamento de dados.

A empresa pretende multiplicar sua capacidade por aproximadamente cinco vezes até o ano fiscal de 2028, tomando como referência a capacidade de 2025.

O investimento será realizado na fábrica de Odawara, na província de Kanagawa, no Japão.

A expansão inclui novas instalações industriais, contratação de profissionais e aumento da produção de cartuchos LTO Ultrium 10.

Segundo a fabricante, o crescimento da inteligência artificial generativa e dos serviços em nuvem está aumentando a quantidade de informações que precisam ser preservadas.

Isso representa uma oportunidade importante para o mercado de armazenamento corporativo.

A Fujifilm não está investindo em uma tecnologia nostálgica. Está ampliando a produção de um componente que considera estratégico para a infraestrutura digital moderna.

💾 Afinal, como funcionam as fitas magnéticas modernas?

As fitas utilizadas atualmente nos data centers são muito diferentes das antigas fitas cassete.

Elas possuem materiais magnéticos avançados e sistemas de gravação de alta precisão, capazes de registrar enormes volumes de informações.

Uma das tecnologias mais utilizadas é o padrão LTO, sigla de Linear Tape-Open.

Sua décima geração, conhecida como LTO-10, permite armazenar até 40 terabytes de dados sem compressão em um único cartucho.

Em condições específicas, a capacidade anunciada pode alcançar 100 TB com compressão, dependendo das características dos arquivos.

Esses números impressionam porque permitem armazenar grandes quantidades de informações em dispositivos relativamente compactos.

O avanço foi possível graças à evolução dos materiais magnéticos e das tecnologias de gravação.

A Fujifilm utiliza partículas magnéticas desenvolvidas para aumentar a densidade de armazenamento, incluindo tecnologias baseadas em ferrita de bário e estrôncio.

O resultado é uma mídia que continua evoluindo, mesmo depois de décadas de utilização.

Por que a inteligência artificial precisa de tanto armazenamento?

O treinamento de modelos de IA envolve grandes conjuntos de documentos, imagens, vídeos, códigos e outras informações digitais.

Além dos dados originais, as empresas precisam preservar versões processadas, registros de experimentos, resultados intermediários e informações utilizadas para avaliar os modelos.

Com a expansão da inteligência artificial generativa, esse volume pode crescer rapidamente.

Entretanto, nem todos os dados precisam permanecer disponíveis para acesso imediato.

Determinados arquivos são consultados continuamente e exigem sistemas de armazenamento extremamente rápidos.

Outros precisam ser preservados por meses ou anos, embora sejam acessados com pouca frequência.

É justamente nesse segundo grupo que as fitas magnéticas apresentam vantagens.

Elas são utilizadas para o chamado cold storage, ou armazenamento frio, destinado à preservação de informações que não precisam ser recuperadas constantemente.

Dessa maneira, as empresas podem reservar sistemas mais rápidos e caros para operações que realmente exigem elevado desempenho.

O baixo custo é uma das maiores vantagens

O armazenamento de grandes quantidades de dados representa uma despesa significativa para as empresas de tecnologia.

Discos SSD oferecem velocidade elevada, mas geralmente apresentam custos superiores por unidade de capacidade.

Discos rígidos tradicionais continuam relevantes para grandes volumes de informações, enquanto as fitas magnéticas são especialmente competitivas em arquivamento de longo prazo.

Uma pesquisa técnica publicada pela IBM Research em 2025 destaca que o baixo custo por terabyte e o reduzido consumo energético tornam as fitas atraentes para dados pouco acessados.

Isso não significa que elas sejam sempre a alternativa mais barata.

O custo total depende da quantidade armazenada, dos equipamentos de leitura, da infraestrutura, da frequência de recuperação e das necessidades operacionais.

Entretanto, em ambientes de grande escala, a economia pode ser relevante.

Para empresas responsáveis por armazenar volumes gigantescos de informações, pequenas diferenças no custo por terabyte podem representar milhões de dólares ao longo dos anos.

Menos energia para armazenar informações

Existe outro fator importante nessa transformação: o consumo de eletricidade.

Centros de dados exigem grandes quantidades de energia para manter servidores, processadores, equipamentos de rede e sistemas de refrigeração funcionando.

Enquanto discos rígidos e SSDs instalados em sistemas ativos normalmente precisam de alimentação elétrica, cartuchos de fita guardados adequadamente não necessitam de eletricidade contínua.

Essa característica torna as fitas interessantes para arquivos de longa duração.

A utilização de armazenamento em camadas permite reduzir a dependência de equipamentos permanentemente ativos.

Além da economia financeira, essa estratégia pode contribuir para diminuir o impacto ambiental de determinadas operações digitais.

A tecnologia, portanto, combina uma característica aparentemente antiga com uma necessidade extremamente atual: armazenar mais informações utilizando recursos de maneira eficiente.

Proteção contra ransomware aumenta interesse

A segurança digital é outro motivo para a valorização das fitas magnéticas.

Ataques de ransomware podem criptografar informações e comprometer sistemas inteiros, colocando empresas diante da possibilidade de perder acesso a dados essenciais.

Uma das vantagens das fitas é a possibilidade de mantê-las fisicamente desconectadas das redes corporativas.

Essa técnica é conhecida como air gap.

Quando uma cópia está armazenada offline, ela pode ficar menos exposta a ataques que se propagam remotamente pela rede.

A IBM destaca essa característica em suas soluções de armazenamento em fita, especialmente para proteção de arquivos e recuperação após incidentes.

Entretanto, a proteção não é absoluta.

Cartuchos podem ser danificados, perdidos ou manipulados indevidamente. Por isso, políticas de armazenamento seguro, criptografia, controle de acesso e testes de recuperação continuam indispensáveis.

A fita magnética deve complementar uma estratégia de segurança, não substituí-la.

Mercado registra crescimento de 57% em 2026

O interesse não aparece apenas nos anúncios dos fabricantes.

Em setembro de 2026, o LTO Program divulgou que a capacidade de armazenamento em fitas comercializada no primeiro trimestre havia crescido 57% em comparação com o mesmo período de 2025.

O consórcio reúne empresas como IBM, Hewlett Packard Enterprise e Quantum.

O resultado foi impulsionado pela continuidade das vendas de LTO‑9 e pela introdução de cartuchos LTO-10 de maior capacidade.

Contudo, existe um detalhe importante: o crescimento de 57% refere-se à capacidade total comercializada, não necessariamente ao número de fitas vendidas.

Em 2025, a capacidade comercializada havia recuado aproximadamente 9% em comparação com 2024.

Portanto, os dados apontam para uma recuperação significativa em 2026, mas não demonstram crescimento contínuo em todos os períodos.

As fitas magnéticas vão substituir os SSDs?

Não.

Essa é uma das interpretações equivocadas mais comuns sobre o assunto.

Os SSDs são utilizados em aplicações que exigem acesso rápido, baixa latência e elevado desempenho.

As fitas magnéticas são mais adequadas ao armazenamento de informações consultadas ocasionalmente.

Como os dados são gravados sequencialmente, localizar e recuperar determinados arquivos pode demorar mais do que em sistemas de acesso direto.

Por isso, as duas tecnologias desempenham funções diferentes.

Uma infraestrutura moderna pode utilizar SSDs para processamento, discos rígidos para armazenamento frequente e fitas magnéticas para arquivamento de longo prazo.

A tendência é a integração entre tecnologias, não a substituição completa de uma pela outra.

O que essa tendência representa para o Brasil?

O crescimento do armazenamento em fita também oferece oportunidades para empresas brasileiras.

Organizações dos setores financeiro, de telecomunicações, saúde, educação, audiovisual e infraestrutura digital precisam preservar grandes volumes de informações.

Com a expansão da inteligência artificial, cresce a importância de planejar políticas adequadas de armazenamento, recuperação e proteção dos dados.

Para empresas que operam data centers, a escolha da tecnologia pode afetar custos, consumo energético e capacidade de expansão.

O desafio está em analisar o ciclo completo das informações e identificar quais precisam permanecer acessíveis rapidamente e quais podem ser arquivadas.

O futuro da IA também depende de tecnologias do passado

A inteligência artificial representa uma das transformações tecnológicas mais relevantes da atualidade.

Mas seu crescimento não depende exclusivamente de algoritmos sofisticados ou processadores avançados.

Também exige infraestrutura capaz de preservar quantidades gigantescas de informações.

Nesse cenário, as fitas magnéticas demonstram que uma tecnologia não precisa ser nova para continuar economicamente relevante.

O investimento da Fujifilm, a expansão das capacidades LTO e o interesse dos operadores de data centers revelam que o armazenamento de longo prazo voltou a ocupar posição estratégica.

O paradoxo é fascinante: enquanto a inteligência artificial promete reinventar o futuro, parte dos dados que sustentam essa revolução continuará sendo armazenada numa tecnologia criada há mais de 70 anos.

A verdadeira inovação nem sempre consiste em abandonar o passado. Às vezes, está em descobrir como utilizá-lo de maneira mais inteligente.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *