Da saúde ao cinema: como a IA está mudando 5 setores fundamentais da economia

A inteligência artificial está transformando saúde, mercado imobiliário, bancos, cinema e desenvolvimento de software.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia para se tornar infraestrutura econômica

Nos primeiros anos da inteligên­cia arti­fi­cial gen­er­a­ti­va, grande parte da dis­cussão ficou con­cen­tra­da em fer­ra­men­tas.

Qual chat­bot responde mel­hor?

Qual mod­e­lo escreve mel­hor?

Quem gera as mel­hores ima­gens?

Qual empre­sa pos­sui o mod­e­lo mais poderoso?

Essa fase foi impor­tante, mas talvez este­jamos entran­do em uma eta­pa muito mais rel­e­vante.

A questão ago­ra não é ape­nas o que a inteligên­cia arti­fi­cial con­segue faz­er.

A questão é:

o que acon­tece quan­do ela entra de ver­dade nos proces­sos que fazem uma indús­tria fun­cionar?

Quan­do uma IA deixa de pro­duzir ape­nas um tex­to e começa a par­tic­i­par da descober­ta de medica­men­tos, anal­is­ar con­tratos imo­bil­iários, exe­cu­tar partes de uma oper­ação bancária, reduzir eta­pas de uma pro­dução cin­e­matográ­fi­ca ou desen­volver soft­ware prati­ca­mente de pon­ta a pon­ta, já não esta­mos falan­do ape­nas de uma fer­ra­men­ta de pro­du­tivi­dade.

Esta­mos falan­do de trans­for­mação econômi­ca.

Em 2026, a McK­in­sey reuniu jus­ta­mente essa dis­cussão na série AI in five indus­tries: What’s now, and what’s next, anal­isan­do como a inteligên­cia arti­fi­cial está evoluin­do em cin­co setores muito difer­entes: ciên­cias da vida, imóveis, ban­cos, cin­e­ma e tele­visão e desen­volvi­men­to de soft­ware.

Con­heça a série AI in five indus­tries da McK­in­sey

O mais inter­es­sante não é sim­ples­mente con­statar que todos ess­es setores uti­lizam IA.

É perce­ber que a mes­ma tec­nolo­gia está pro­duzin­do trans­for­mações com­ple­ta­mente difer­entes depen­den­do do con­tex­to.

Em um lab­o­ratório, IA pode aju­dar a iden­ti­ficar uma molécu­la.

Em um ban­co, pode exe­cu­tar eta­pas de um proces­so finan­ceiro.

Em um pré­dio, pode iden­ti­ficar um vaza­men­to antes de o admin­istrador chegar ao tra­bal­ho.

Em um estú­dio, pode reduzir sem­anas de pré pro­dução.

Em uma empre­sa de tec­nolo­gia, agentes podem escr­ev­er, tes­tar e revis­ar códi­go enquan­to os desen­volve­dores humanos dormem.

Essa diver­si­dade talvez seja um dos maiores sinais de que a inteligên­cia arti­fi­cial está pas­san­do de uma tec­nolo­gia hor­i­zon­tal para uma espé­cie de nova cama­da opera­cional da econo­mia.

1. Saúde e ciências da vida: quando a IA começa a participar da descoberta científica

Pou­cas áreas demon­stram mel­hor o poten­cial e, ao mes­mo tem­po, os riscos da inteligên­cia arti­fi­cial do que a saúde.

É impor­tante faz­er uma dis­tinção.

Quan­do falam­os aqui em trans­for­mação da saúde, uma parte impor­tante das apli­cações está acon­te­cen­do den­tro das ciên­cias da vida, incluin­do indús­tria far­ma­cêu­ti­ca, biotec­nolo­gia, equipa­men­tos médi­cos, pesquisa clíni­ca e desen­volvi­men­to de medica­men­tos.

A inteligên­cia arti­fi­cial já era uti­liza­da nesse setor muito antes do surg­i­men­to do Chat­G­PT.

Algo­rit­mos de apren­diza­do de máquina aju­davam na análise de molécu­las, otimiza­ção da pro­dução e inter­pre­tação de grandes con­jun­tos de dados.

O que mudou foi a escala.

Segun­do espe­cial­is­tas ouvi­dos pela McK­in­sey, a nova ger­ação de IA con­segue com­bi­nar con­hec­i­men­tos antes dis­per­sos, iden­ti­ficar relações em enormes vol­umes de infor­mação e per­mi­tir que pesquisadores explorem uma quan­ti­dade de pos­si­bil­i­dades que seria imprat­icáv­el para equipes humanas.

IA em ciên­cias da vida segun­do a McK­in­sey

Imag­ine o desen­volvi­men­to de um medica­men­to.

Tradi­cional­mente, pesquisadores pre­cisam iden­ti­ficar um alvo biológi­co, procu­rar molécu­las capazes de atu­ar nesse alvo, tes­tar com­bi­nações, anal­is­ar segu­rança, realizar ensaios clíni­cos e pro­duzir uma quan­ti­dade gigan­tesca de doc­u­men­tação.

A IA começa a par­tic­i­par de várias dessas eta­pas.

Ela pode sug­erir can­didatos mol­e­c­u­lares.

Pode aju­dar a pre­v­er pro­priedades.

Pode anal­is­ar dados de pesquisas ante­ri­ores.

Pode iden­ti­ficar gru­pos especí­fi­cos de pacientes.

Pode apoiar desen­ho de ensaios clíni­cos.

Pode autom­a­ti­zar parte da doc­u­men­tação cien­tí­fi­ca e reg­u­latória.

A McK­in­sey divide esse poten­cial entre IA cien­tí­fi­ca e IA opera­cional.

Na parte cien­tí­fi­ca, o obje­ti­vo é aumen­tar nos­sa capaci­dade de com­preen­der doenças e desen­volver trata­men­tos.

Na opera­cional, o obje­ti­vo é acel­er­ar proces­sos gigan­tescos que sus­ten­tam lab­o­ratórios, fábri­c­as, pesquisas clíni­cas e empre­sas far­ma­cêu­ti­cas.

Essa dis­tinção é impor­tante porque o maior impacto econômi­co talvez não ven­ha de uma úni­ca descober­ta espetac­u­lar.

Pode vir da soma de mil­hares de peque­nas mel­ho­rias.

Segun­do os espe­cial­is­tas entre­vis­ta­dos pela McK­in­sey, aprox­i­mada­mente 80% dos flux­os de tra­bal­ho anal­isa­dos em empre­sas de ciên­cias da vida apre­sen­tam algum poten­cial de uti­liza­ção de agentes de IA. Em imple­men­tações em escala, eles relatam opor­tu­nidades de mel­ho­rias de cresci­men­to e margem, emb­o­ra ess­es val­ores depen­dam forte­mente da empre­sa, do proces­so e da qual­i­dade da imple­men­tação.

Isso tam­bém expli­ca por que o setor exige tan­ta cautela.

Uma respos­ta incor­re­ta em uma cam­pan­ha pub­lic­itária é um prob­le­ma.

Uma respos­ta incor­re­ta asso­ci­a­da a um medica­men­to, diag­nós­ti­co ou decisão clíni­ca pode envolver vidas.

Por isso, saúde talvez rep­re­sente per­feita­mente a nova fase da IA:

quan­to maior sua capaci­dade, maior pre­cisa ser a gov­er­nança.

A tec­nolo­gia não elim­i­na a neces­si­dade do médi­co, cien­tista ou pesquisador.

Ela pode mudar aqui­lo em que ess­es profis­sion­ais gas­tam seu tem­po.

2. Mercado imobiliário: prédios começam a gerar dados e agentes começam a tomar providências

À primeira vista, inteligên­cia arti­fi­cial e mer­ca­do imo­bil­iário pare­cem per­tencer a mun­dos difer­entes.

Um é dig­i­tal.

O out­ro é for­ma­do por imóveis físi­cos, ter­renos, con­tratos, obras e manutenção.

Mas jus­ta­mente por isso a trans­for­mação pode ser enorme.

O setor imo­bil­iário pos­sui uma car­ac­terís­ti­ca per­fei­ta para IA: uma quan­ti­dade gigan­tesca de proces­sos admin­is­tra­tivos, doc­u­men­tos, con­tratos, avali­ações, solic­i­tações de manutenção e decisões de inves­ti­men­to.

Segun­do a McK­in­sey, orga­ni­za­ções já uti­lizam IA para inter­pre­tar con­tratos de locação, pri­orizar chama­dos de manutenção e apoiar decisões de inves­ti­men­to. A mudança mais impor­tante, porém, está ocor­ren­do quan­do empre­sas deix­am de aplicar IA ape­nas em tare­fas iso­ladas e pas­sam a redesen­har flux­os inteiros.

Veja como a IA está crian­do val­or no mer­ca­do imo­bil­iário

Con­sidere um prob­le­ma extrema­mente comum.

Um cano começa a vazar em um aparta­men­to durante a madru­ga­da.

No mod­e­lo tradi­cional, alguém percebe água, liga para a admin­is­tração, o respon­sáv­el ten­ta localizar a origem, procu­ra um fun­cionário, chama um presta­dor e ten­ta entrar no aparta­men­to.

Ago­ra imag­ine o mes­mo pré­dio equipa­do com sen­sores e agentes.

Um sen­sor detec­ta a anom­alia.

Um agente iden­ti­fi­ca o aparta­men­to prováv­el.

Con­sul­ta per­mis­sões.

Noti­fi­ca manutenção.

Orga­ni­za aces­so autor­iza­do.

Aciona presta­dores.

Atu­al­iza moradores.

Reg­is­tra o inci­dente.

Esse exem­p­lo aparece em uma análise da McK­in­sey sobre o futuro do mod­e­lo opera­cional imo­bil­iário.

A difer­ença é pro­fun­da.

A IA não está ape­nas dizen­do:

“Existe um vaza­men­to.”

Ela começa a par­tic­i­par da res­olução.

Essa é pre­cisa­mente a difer­ença entre IA assis­ti­va e IA agen­ti­va.

Uma responde.

A out­ra exe­cu­ta eta­pas de um obje­ti­vo.

A McK­in­sey esti­ma que a apli­cação de IA pos­sa rep­re­sen­tar até aprox­i­mada­mente US$ 550 bil­hões em val­or anu­al ao lon­go da cadeia imo­bil­iária, incluin­do con­strução e desen­volvi­men­to, depen­den­do da escala e da adoção.

Esse val­or pode apare­cer em diver­sas áreas.

Análise de pro­priedades.

Pre­ci­fi­cação.

Com­pra e ven­da.

Gestão de ativos.

Manutenção pre­ven­ti­va.

Efi­ciên­cia energéti­ca.

Rela­ciona­men­to com moradores.

Análise de con­tratos.

Plane­ja­men­to de empreendi­men­tos.

Con­strução.

Gestão de fornece­dores.

O edifí­cio deixa pro­gres­si­va­mente de ser ape­nas uma estru­tu­ra físi­ca.

Ele pas­sa a fun­cionar como um sis­tema pro­duzin­do infor­mações con­stan­te­mente.

A empre­sa imo­bil­iária capaz de trans­for­mar essas infor­mações em decisões pode oper­ar de for­ma com­ple­ta­mente difer­ente daque­la que ain­da admin­is­tra mil­hares de imóveis ape­nas com e mail, tele­fone e planil­has.

3. Bancos: quando a IA deixa de orientar o funcionário e começa a executar o trabalho

O setor finan­ceiro sem­pre foi um dos grandes usuários de tec­nolo­gia.

Ban­cos pos­suem enormes bases de dados, mil­hões de clientes e oper­ações alta­mente estru­tu­radas.

Durante anos, IA já era uti­liza­da para iden­ti­ficar fraudes, avaliar risco e seg­men­tar clientes.

A trans­for­mação atu­al é difer­ente.

A IA começa a evoluir de copi­lo­to para agente.

A McK­in­sey descreve essa mudança de for­ma muito clara: sis­temas agen­tivos podem deixar de ape­nas aux­il­iar bancários e começar a exe­cu­tar proces­sos com múlti­plas eta­pas, inclu­sive uti­lizan­do sis­temas cor­po­ra­tivos medi­ante con­troles ade­qua­dos.

Leia a análise da McK­in­sey sobre ban­cos e IA agen­ti­va

Pense no atendi­men­to bancário.

Hoje um chat­bot responde:

“Qual é o sal­do da min­ha con­ta?”

Um agente futuro poderá rece­ber:

“Orga­nize min­has finanças para que eu econ­o­mize R$ 1.000 por mês.”

Para cumprir esse obje­ti­vo, o agente pode­ria anal­is­ar despe­sas, iden­ti­ficar assi­nat­uras, com­parar pro­du­tos finan­ceiros, sug­erir alter­ações e, medi­ante autor­iza­ção, exe­cu­tar deter­mi­nadas ações.

Isso cria uma situ­ação curiosa.

A dis­pu­ta do futuro talvez não acon­teça ape­nas entre ban­cos.

Pode acon­te­cer entre ban­cos e agentes pes­soais de IA.

A própria McK­in­sey já explo­ra um cenário em que con­sum­i­dores uti­lizam agentes exter­nos para procu­rar pro­du­tos finan­ceiros, com­parar ofer­tas e até exe­cu­tar transações. Nesse caso, o cliente pode inter­a­gir menos com o aplica­ti­vo ou com a mar­ca do ban­co.

Isso rep­re­sen­ta uma ameaça estratég­i­ca enorme.

Hoje, ban­cos com­petem pela inter­face com o cliente.

Aman­hã, talvez o cliente con­verse prin­ci­pal­mente com seu agente pes­soal, enquan­to o agente con­ver­sa com vários ban­cos.

A insti­tu­ição finan­ceira corre o risco de se tornar infraestru­tu­ra invisív­el.

Ao mes­mo tem­po, inter­na­mente, as opor­tu­nidades são grandes.

Proces­sos de cadas­tro.

Con­heça seu cliente.

Análise de crédi­to.

Liq­uidação.

Con­cil­i­ação.

Atendi­men­to.

Prospec­tação.

Gestão de rela­ciona­men­to.

Com­pli­ance.

Engen­haria.

A McK­in­sey obser­va que apli­cações ini­ci­ais de IA agen­ti­va já indicaram reduções rel­e­vantes de car­ga man­u­al em deter­mi­na­dos proces­sos e esti­ma poten­cial de redução de cus­tos opera­cionais em cer­tas con­fig­u­rações bancárias. Isso ain­da não sig­nifi­ca que todos os ban­cos con­seguirão cap­turar ess­es gan­hos.

Esse detal­he é fun­da­men­tal.

Com­prar IA não sig­nifi­ca trans­for­mar um ban­co.

A trans­for­mação exige redesen­har proces­sos, dados, respon­s­abil­i­dades, segu­rança e gov­er­nança.

A tec­nolo­gia é ape­nas uma parte.

4. Cinema e televisão: IA entra no processo criativo, mas talvez não da forma que imaginávamos

Nen­hum setor tornou a dis­cussão sobre IA tão emo­cional quan­to cin­e­ma e tele­visão.

Quan­do fer­ra­men­tas gen­er­a­ti­vas começaram a pro­duzir ima­gens e vídeos, uma per­gun­ta domi­nou o debate:

A IA sub­sti­tuirá atores, roteiris­tas, dire­tores e artis­tas?

Essa per­gun­ta con­tin­ua rel­e­vante.

Mas pode estar des­vian­do nos­sa atenção de uma trans­for­mação mais ime­di­a­ta.

A inteligên­cia arti­fi­cial já começa a mod­i­ficar o proces­so de pro­dução.

Segun­do a McK­in­sey, IA está reduzin­do tem­po de pré pro­dução, autom­a­ti­zan­do partes da pós pro­dução e tor­nan­do eco­nomi­ca­mente viáveis pro­je­tos que ante­ri­or­mente seri­am difí­ceis de jus­ti­ficar.

Leia Lights, cam­era, algo­rithm da McK­in­sey

Antes de uma câmera começar a gravar, uma pro­dução envolve enorme quan­ti­dade de tra­bal­ho.

Roteiro.

Sto­ry­board.

Pesquisa de locações.

Plane­ja­men­to de cenas.

Orça­men­to.

Cast­ing.

Fig­uri­no.

Pre­vi­su­al­iza­ção.

Crono­gra­ma.

Depois da fil­magem vêm mon­tagem, efeitos, áudio, cor­reção de imagem, leg­endagem, dublagem, dis­tribuição e mar­ket­ing.

A IA pode entrar em prati­ca­mente todos ess­es pon­tos.

Um dire­tor pode tes­tar visual­mente uma cena antes da gravação.

Uma pro­du­to­ra pode cri­ar ver­sões pre­lim­inares de cenários.

Equipes podem avaliar alter­na­ti­vas de edição.

Con­teú­dos podem ser local­iza­dos para out­ros idiomas mais rap­i­da­mente.

Mate­ri­ais pro­mo­cionais podem ser pro­duzi­dos para cen­te­nas de seg­men­tos.

E mod­e­los de audiên­cia podem aju­dar empre­sas a enten­der mel­hor quais pro­je­tos pos­suem deter­mi­nadas opor­tu­nidades com­er­ci­ais.

A McK­in­sey estu­dou o setor com­bi­nan­do entre­vis­tas com mais de vinte exec­u­tivos, agentes, espe­cial­is­tas e acadêmi­cos, além de anális­es próprias do mer­ca­do de mídia.

Mas há algo par­tic­u­lar­mente inter­es­sante aqui.

Talvez a maior con­se­quên­cia da IA não seja pro­duzir um filme inteiro aper­tan­do um botão.

Pode ser reduzir dras­ti­ca­mente o cus­to necessário para trans­for­mar uma ideia em um pro­du­to audio­vi­su­al profis­sion­al.

Isso mudaria quem con­segue pro­duzir.

Hoje, grandes pro­duções exigem aces­so a cap­i­tal, equipa­men­tos, profis­sion­ais espe­cial­iza­dos e dis­tribuição.

Quan­do parte dessa infraestru­tu­ra se tor­na soft­ware, peque­nas equipes gan­ham capaci­dades antes reser­vadas a grandes estú­dios.

É uma dinâmi­ca pare­ci­da com o que acon­te­ceu com músi­ca, fotografia, pub­li­cação e cri­ação de con­teú­do.

A bar­reira de entra­da cai.

Mas isso cria out­ro prob­le­ma.

Se pro­duzir con­teú­do fica muito mais bara­to, ter­e­mos muito mais con­teú­do.

Nesse cenário, o recur­so escas­so deixa de ser pro­dução.

Pas­sa a ser atenção.

E talvez essa seja uma das grandes iro­nias da IA no entreten­i­men­to.

Quan­to mais fácil for cri­ar, mais difí­cil será ser vis­to.

5. Desenvolvimento de software: talvez seja aqui que a transformação esteja avançando mais rapidamente

Se existe um setor no qual a IA gen­er­a­ti­va encon­trou uma apli­cação quase nat­ur­al, provavel­mente é desen­volvi­men­to de soft­ware.

Códi­go é lin­guagem.

Mod­e­los de IA são extra­or­di­nar­i­a­mente bons em tra­bal­har com lin­guagem estru­tu­ra­da.

Por isso, aqui­lo que começou como auto­com­plete rap­i­da­mente evoluiu.

Primeiro a IA com­ple­ta­va uma lin­ha.

Depois escrevia funções.

Depois anal­isa­va erros.

Depois cri­a­va testes.

Ago­ra agentes começam a rece­ber uma especi­fi­cação e exe­cu­tar várias eta­pas do ciclo de desen­volvi­men­to.

A McK­in­sey descreve sis­temas capazes de especi­ficar, escr­ev­er, tes­tar e implan­tar soft­ware com níveis cres­centes de autono­mia, com­pri­m­in­do deter­mi­na­dos cic­los de sem­anas para dias ou até horas.

Leia AI pow­ered soft­ware devel­op­ment da McK­in­sey

Essa mudança pode ter con­se­quên­cias econômi­cas gigan­tescas.

Durante décadas, havia um gar­ga­lo recor­rente nas empre­sas:

fal­ta­va capaci­dade de desen­volvi­men­to.

Havia mais pro­je­tos do que pro­gra­madores disponíveis.

Mais ideias do que orça­men­to.

Mais sis­temas anti­gos do que equipes capazes de mod­ern­izá los.

Se IA reduz sig­ni­fica­ti­va­mente o cus­to mar­gin­al de pro­duzir soft­ware, a con­se­quên­cia não é sim­ples­mente “pro­gra­madores escreverão códi­go mais rápi­do”.

A con­se­quên­cia pode ser:

muito mais coisas pas­sarão a virar soft­ware.

Uma peque­na empre­sa poderá desen­volver uma fer­ra­men­ta inter­na que antes não jus­ti­fi­caria con­tratar uma equipe.

Um profis­sion­al poderá autom­a­ti­zar proces­sos especí­fi­cos.

Depar­ta­men­tos poderão cri­ar sis­temas adap­ta­dos à própria oper­ação.

Empreende­dores poderão tes­tar pro­du­tos com equipes menores.

A própria função do desen­volve­dor tam­bém muda.

Quan­to mais códi­go a máquina pro­duz, mais impor­tante ficam arquite­tu­ra, decisão, segu­rança, con­tex­to, pro­du­to e val­i­dação.

Um estu­do mais recente da McK­in­sey sobre desen­volvi­men­to agen­ti­vo encon­trou orga­ni­za­ções obten­do gan­hos de pro­du­tivi­dade de aprox­i­mada­mente duas vezes em partes rel­e­vantes das equipes, enquan­to out­ras prati­ca­mente não cap­turavam bene­fí­cios. A difer­ença esta­va menos na sim­ples disponi­bil­i­dade da fer­ra­men­ta e mais no redesen­ho de proces­sos, papéis e mecan­is­mos de ver­i­fi­cação.

Isso é uma lição que se apli­ca aos cin­co setores deste arti­go.

A IA não cria val­or ape­nas porque foi insta­l­a­da.

Ela cria val­or quan­do o tra­bal­ho muda ao redor dela.

O verdadeiro padrão não é automação. É redesenho

Saúde, imóveis, ban­cos, cin­e­ma e soft­ware pare­cem setores com­ple­ta­mente difer­entes.

Mas quan­do obser­va­mos o que está acon­te­cen­do, encon­tramos um padrão comum.

A primeira fase da IA é:

aju­dar alguém em uma tare­fa.

A segun­da é:

exe­cu­tar partes da tare­fa.

A ter­ceira é:

redesen­har o proces­so inteiro con­sideran­do que humanos e agentes podem tra­bal­har jun­tos.

Isso expli­ca por que tan­tas empre­sas relatam uti­lizar inteligên­cia arti­fi­cial sem con­seguir mostrar impacto finan­ceiro equiv­a­lente.

Adi­cionar uma IA a um proces­so ruim pode sim­ples­mente pro­duzir o mes­mo proces­so ruim mais rap­i­da­mente.

A McK­in­sey chama atenção jus­ta­mente para empre­sas que estão indo além da adoção de fer­ra­men­tas e redesen­han­do pro­du­tos, serviços, proces­sos cen­trais e sis­temas orga­ni­za­cionais em torno da tec­nolo­gia.

Veja The AI Trans­for­ma­tion Man­i­festo

Essa talvez seja a difer­ença entre dig­i­tal­iza­ção e trans­for­mação.

Dig­i­tal­iza­ção per­gun­ta:

“Como podemos usar IA neste proces­so?”

Trans­for­mação per­gun­ta:

“Se pudésse­mos cri­ar este proces­so nova­mente hoje, saben­do o que a IA con­segue faz­er, ele con­tin­uar­ia existin­do des­ta for­ma?”

São per­gun­tas com­ple­ta­mente difer­entes.

O ser humano não desaparece. Sua posição dentro do sistema muda

Existe uma inter­pre­tação sim­plista segun­do a qual quan­to mais IA existe, menos seres humanos serão necessários.

Algu­mas tare­fas real­mente poderão desa­pare­cer.

Algu­mas funções serão reduzi­das.

Out­ras sur­girão.

Mas nos cin­co setores anal­isa­dos existe um padrão mais sutil.

O humano tende a sair da exe­cução repet­i­ti­va e se aprox­i­mar das decisões de maior respon­s­abil­i­dade.

Na med­i­c­i­na:

val­i­dação, jul­ga­men­to clíni­co, éti­ca.

Nos ban­cos:

risco, rela­ciona­men­to, super­visão.

No mer­ca­do imo­bil­iário:

nego­ci­ação, estraté­gia, decisões de cap­i­tal.

No cin­e­ma:

direção cria­ti­va, nar­ra­ti­va, iden­ti­dade.

No soft­ware:

arquite­tu­ra, pro­du­to, segu­rança, val­i­dação.

Isso não sig­nifi­ca que a tran­sição será sim­ples ou indo­lor.

Sig­nifi­ca ape­nas que a capaci­dade humana mais valiosa talvez deixe pro­gres­si­va­mente de ser exe­cu­tar cada eta­pa.

Pas­sará a ser:

decidir o que deve ser feito, super­vi­sion­ar como está sendo feito e assumir respon­s­abil­i­dade pelo resul­ta­do.

Quanto mais autonomia, maior o problema da confiança

Há um pon­to comum a todos ess­es setores:

a con­fi­ança.

Se um chat­bot escreve uma frase erra­da, podemos cor­ri­gi la.

Mas imag­ine:

uma IA indi­can­do um trata­men­to inad­e­qua­do,

um agente autor­izan­do uma transação incor­re­ta,

um sis­tema imo­bil­iário acio­nan­do uma oper­ação erra­da,

um mod­e­lo uti­lizan­do inde­v­i­da­mente a imagem de um ator,

um agente de soft­ware intro­duzin­do uma vul­ner­a­bil­i­dade.

Quan­to mais autono­mia entreg­amos, mais pre­cisamos de:

gov­er­nança,

audi­to­ria,

segu­rança,

ras­tre­abil­i­dade,

val­i­dação,

con­t­role de aces­so,

respon­s­abil­i­dade humana.

Esse é um para­doxo impor­tante da IA agen­ti­va.

Quan­to menos o ser humano pre­cis­ar exe­cu­tar dire­ta­mente, mais impor­tante pode se tornar sua capaci­dade de super­vi­sion­ar o sis­tema.

O que essas cinco indústrias nos dizem sobre o futuro da economia

Durante alguns anos, inteligên­cia arti­fi­cial foi trata­da quase como um pro­du­to.

Empre­sas per­gun­tavam:

“Qual fer­ra­men­ta deve­mos com­prar?”

Essa per­gun­ta está envel­he­cen­do rap­i­da­mente.

A per­gun­ta mais rel­e­vante ago­ra talvez seja:

“Que parte do nos­so negó­cio pode fun­cionar de maneira com­ple­ta­mente difer­ente porque existe IA?”

É aí que a trans­for­mação começa.

Nos lab­o­ratórios, inteligên­cia arti­fi­cial amplia a escala da exper­i­men­tação.

Nos pré­dios, agentes começam a conec­tar sen­sores a decisões.

Nos ban­cos, sis­temas evoluem de assis­tentes para execu­tores.

No cin­e­ma, o cus­to e o tem­po de pro­dução começam a mudar.

No desen­volvi­men­to de soft­ware, o códi­go deixa pro­gres­si­va­mente de ser o prin­ci­pal gar­ga­lo.

Cin­co setores.

Cin­co trans­for­mações difer­entes.

Uma mes­ma mudança estru­tur­al:

inteligên­cia está se tor­nan­do uma capaci­dade disponív­el sob deman­da.

E quan­do inteligên­cia, análise, cri­ação e exe­cução ficam mais acessíveis, a van­tagem com­pet­i­ti­va tende a migrar.

Não vence nec­es­sari­a­mente quem pos­sui aces­so à mel­hor IA.

As mes­mas fer­ra­men­tas podem estar disponíveis para mil­hares de empre­sas.

Vence quem con­segue conec­tá las mel­hor a:

dados,

proces­sos,

pes­soas,

pro­du­tos,

clientes,

decisões.

A próxima fase da IA será menos visível e muito mais importante

Talvez exista uma iro­nia na evolução da inteligên­cia arti­fi­cial.

Quan­to mais impor­tante ela se tornar, menos perce­ber­e­mos que esta­mos uti­lizan­do IA.

Hoje abri­mos uma janela e con­ver­samos com um chat­bot.

Isso tor­na a tec­nolo­gia extrema­mente visív­el.

No futuro, talvez a IA este­ja silen­ciosa­mente:

orga­ni­zan­do cadeias de supri­men­tos,

mon­i­toran­do edifí­cios,

preparan­do ensaios clíni­cos,

exe­cu­tan­do proces­sos finan­ceiros,

tes­tando soft­ware,

otimizan­do pro­duções audio­vi­suais,

anal­isan­do riscos,

coor­de­nan­do agentes.

A inter­face desa­pare­cerá.

O resul­ta­do per­manecerá.

Foi assim com muitas tec­nolo­gias impor­tantes.

Ninguém entra em uma empre­sa mod­er­na pen­san­do con­stan­te­mente:

“Estou uti­lizan­do elet­ri­ci­dade.”

Ninguém abre um aplica­ti­vo pen­san­do:

“Estou uti­lizan­do com­putação em nuvem.”

Essas tec­nolo­gias se tornaram infraestru­tu­ra.

A inteligên­cia arti­fi­cial pode seguir o mes­mo cam­in­ho.

E talvez seja jus­ta­mente aí que sua trans­for­mação econômi­ca se torne real­mente pro­fun­da.

Da saúde ao cinema, a pergunta deixou de ser se a IA chegará

A respos­ta já está diante de nós.

Ela chegou!

Mas não chegou da mes­ma maneira a todos os lugares.

Na saúde, pre­cisa provar segu­rança.

Nos ban­cos, pre­cisa con­quis­tar con­fi­ança.

Nos imóveis, pre­cisa conec­tar mun­do dig­i­tal e físi­co.

No cin­e­ma, pre­cisa con­viv­er com cria­tivi­dade, dire­itos e iden­ti­dade.

No soft­ware, pre­cisa ser con­tro­la­da enquan­to acel­era dras­ti­ca­mente a pro­dução.

Isso mostra por que per­gun­tar sim­ples­mente:

“A IA vai mudar os negó­cios?”

já parece pouco.

A questão mais inter­es­sante é:

“Como cada indús­tria será redesen­ha­da quan­do inteligên­cia, cri­ação e exe­cução pud­erem ser par­cial­mente del­e­gadas a máquinas?”

Essa respos­ta será difer­ente em cada setor.

E jus­ta­mente por isso esta­mos provavel­mente ape­nas no começo.

A inteligên­cia arti­fi­cial não está pro­duzin­do uma úni­ca rev­olução.

Ela está pro­duzin­do várias rev­oluções simul­tane­a­mente.

E algu­mas das mais impor­tantes talvez ain­da nem ten­ham começa­do.

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