Estamos ensinando pessoas para um mercado de trabalho que talvez não exista no futuro

Estamos preparando estudantes e profissionais para um mercado de trabalho que pode mudar antes mesmo de sua formação terminar?

Durante décadas, a lóg­i­ca da for­mação profis­sion­al pare­ceu rel­a­ti­va­mente pre­visív­el.

Uma pes­soa estu­da­va durante alguns anos, escol­hia uma profis­são, adquiria deter­mi­nadas com­petên­cias, entra­va no mer­ca­do de tra­bal­ho e uti­liza­va boa parte daque­le con­hec­i­men­to durante décadas.

Nat­u­ral­mente, havia evolução.

Novas fer­ra­men­tas sur­giam.

Proces­sos mudavam.

Empre­sas desa­pare­ci­am e out­ras nasci­am.

Mas a veloci­dade da trans­for­mação per­mi­tia que edu­cação e mer­ca­do de tra­bal­ho man­tivessem algu­ma prox­im­i­dade.

A inteligên­cia arti­fi­cial está colo­can­do essa relação em xeque.

Hoje, um jovem pode ini­ciar uma grad­u­ação de qua­tro ou cin­co anos para tra­bal­har em uma profis­são que, quan­do ele se for­mar, con­tin­uará existin­do, mas poderá ser exer­ci­da de uma maneira com­ple­ta­mente difer­ente.

Essa talvez seja a questão mais impor­tante.

O debate não dev­e­ria estar lim­i­ta­do à per­gun­ta:

“A inteligên­cia arti­fi­cial vai acabar com os empre­gos?”

Talvez devêsse­mos faz­er out­ra:

“Esta­mos ensi­nan­do as habil­i­dades cor­re­tas para empre­gos que con­tin­uarão existin­do de uma for­ma que ain­da não con­hece­mos?”

Essa difer­ença muda tudo.

A inteligên­cia arti­fi­cial provavel­mente não elim­i­nará o tra­bal­ho humano.

Mas poderá alter­ar pro­fun­da­mente o que sig­nifi­ca tra­bal­har.

E isso colo­ca esco­las, uni­ver­si­dades, empre­sas, gov­er­nos e profis­sion­ais diante de uma trans­for­mação para a qual talvez ain­da não este­jam sufi­cien­te­mente prepara­dos.

O emprego pode continuar existindo enquanto o trabalho muda completamente

Quan­do falam­os sobre inteligên­cia arti­fi­cial e empre­gos, existe uma tendên­cia nat­ur­al de imag­i­nar dois cenários.

No primeiro, o emprego con­tin­ua existin­do.

No segun­do, uma máquina sub­sti­tui com­ple­ta­mente a pes­soa.

A real­i­dade provavel­mente será muito mais com­plexa.

A Orga­ni­za­ção Inter­na­cional do Tra­bal­ho pub­li­cou em 2025 uma ampla análise sobre exposição ocu­pa­cional à inteligên­cia arti­fi­cial gen­er­a­ti­va. O estu­do con­cluiu que aprox­i­mada­mente um em cada qua­tro tra­bal­hadores no mun­do exerce uma profis­são com algum grau de exposição à IA gen­er­a­ti­va.

Mas a con­clusão mais impor­tante não foi que um quar­to da pop­u­lação perderá o emprego.

Foi exata­mente o con­trário.

A OIT con­sid­era que, na maior parte dos casos, a trans­for­mação das funções é mais prováv­el do que sua elim­i­nação com­ple­ta.

Isso sig­nifi­ca que talvez este­jamos olhan­do para o prob­le­ma erra­do.

O con­ta­dor pode con­tin­uar existin­do.

O advo­ga­do pode con­tin­uar existin­do.

O pro­gra­mador pode con­tin­uar existin­do.

O profis­sion­al de mar­ket­ing pode con­tin­uar existin­do.

O design­er pode con­tin­uar existin­do.

O pro­fes­sor pode con­tin­uar existin­do.

Mas o con­jun­to de tare­fas que jus­ti­fi­ca cada uma dessas profis­sões pode mudar pro­fun­da­mente.

A IA não pre­cisa elim­i­nar uma profis­são inteira para trans­for­mar o mer­ca­do.

Bas­ta assumir 20%, 30%, 50% ou 70% das tare­fas que atual­mente con­somem o tem­po daque­le profis­sion­al.

Quan­do isso acon­tece, o val­or econômi­co das habil­i­dades muda.

O conhecimento que ensinamos tem prazo de validade cada vez menor

Existe algo descon­fortáv­el na estru­tu­ra edu­ca­cional tradi­cional.

Muitas insti­tu­ições ain­da fun­cionam sob a lóg­i­ca de que existe um con­jun­to rel­a­ti­va­mente estáv­el de con­hec­i­men­tos que pre­cisa ser trans­mi­ti­do ao estu­dante.

O pro­fes­sor pos­sui con­hec­i­men­to.

O estu­dante pre­cisa absorvê lo.

A pro­va mede quan­to foi absorvi­do.

O diplo­ma cer­ti­fi­ca que aque­le con­hec­i­men­to foi adquiri­do.

Mas o que acon­tece quan­do uma fer­ra­men­ta con­segue aces­sar, inter­pre­tar e pro­duzir con­hec­i­men­to em segun­dos?

Isso não sig­nifi­ca que apren­der deixou de ser impor­tante.

Sig­nifi­ca exata­mente o con­trário.

Apren­der se tornou mais impor­tante porque aqui­lo que apren­demos envel­hece mais rap­i­da­mente.

Segun­do o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômi­co Mundi­al, os empre­gadores esti­mam que aprox­i­mada­mente 39% das habil­i­dades atual­mente uti­lizadas pelos tra­bal­hadores poderão ser trans­for­madas ou se tornar obso­le­tas entre 2025 e 2030.

Cin­co anos.

Esse inter­va­lo é prati­ca­mente a duração de uma grad­u­ação uni­ver­sitária.

Aqui surge uma provo­cação impor­tante.

Uma pes­soa pode entrar na uni­ver­si­dade prepara­da para um mer­ca­do e sair dela encon­tran­do out­ro.

Se a edu­cação con­tin­uar orga­ni­za­da ape­nas em torno da trans­mis­são de con­teú­do, poderá haver uma dis­tân­cia cres­cente entre aqui­lo que se ensi­na e aqui­lo que eco­nomi­ca­mente impor­ta.

Talvez a principal habilidade do futuro seja aprender novamente

Durante muito tem­po, exper­iên­cia sig­nifi­ca­va acu­mu­lar con­hec­i­men­to.

No futuro, exper­iên­cia talvez sig­nifique tam­bém ser capaz de aban­donar partes do con­hec­i­men­to anti­go e apren­der novas for­mas de tra­bal­har.

Isso muda o con­ceito de empre­ga­bil­i­dade.

O profis­sion­al valioso deixa de ser ape­nas aque­le que sabe muito.

Pas­sa a ser aque­le que con­segue:

enten­der prob­le­mas novos, inter­pre­tar infor­mações, apren­der rap­i­da­mente, tra­bal­har com máquinas inteligentes, ques­tionar respostas, tomar decisões e trans­for­mar con­hec­i­men­to em resul­ta­do.

O Fórum Econômi­co Mundi­al con­tin­ua apon­tan­do pen­sa­men­to analíti­co como uma das com­petên­cias mais val­orizadas pelas empre­sas. Resil­iên­cia, flex­i­bil­i­dade, lid­er­ança, cria­tivi­dade e habil­i­dades tec­nológ­i­cas tam­bém apare­cem entre as com­petên­cias cres­centes.

Isso pro­duz um para­doxo.

Quan­to mais poderosa fica a inteligên­cia arti­fi­cial, mais impor­tantes podem se tornar deter­mi­nadas capaci­dades pro­fun­da­mente humanas.

Porque pro­duzir uma respos­ta ficará bara­to.

Saber qual per­gun­ta faz­er con­tin­uará sendo valioso.

Ger­ar tex­to ficará bara­to.

Saber qual ideia merece ser desen­volvi­da con­tin­uará sendo valioso.

Cri­ar uma apre­sen­tação ficará fácil.

Con­vencer uma equipe, com­preen­der pes­soas e tomar decisões em condições de incerteza con­tin­uará sendo difí­cil.

O problema não é apenas ensinar IA

Muitas insti­tu­ições perce­ber­am a trans­for­mação e começaram a intro­duzir inteligên­cia arti­fi­cial nos cur­rícu­los.

Isso é necessário.

Mas pode ser insu­fi­ciente.

Ensi­nar alguém a uti­lizar uma fer­ra­men­ta de IA é difer­ente de prepará lo para tra­bal­har em uma econo­mia reor­ga­ni­za­da pela IA.

Essa dis­tinção é fun­da­men­tal.

Uma uni­ver­si­dade pode ensi­nar prompts.

Pode apre­sen­tar Chat­G­PT.

Pode ensi­nar mod­e­los de lin­guagem.

Pode mostrar automações.

Tudo isso é útil.

Mas ain­da assim con­tin­uar for­man­do estu­dantes para uma estru­tu­ra de tra­bal­ho anti­ga.

O ver­dadeiro desafio é mais pro­fun­do.

Pre­cisamos per­gun­tar:

O que acon­te­cerá com deter­mi­na­da profis­são quan­do parte de suas tare­fas pud­er ser exe­cu­ta­da quase instan­ta­nea­mente?

Que habil­i­dades con­tin­uarão escas­sas?

Que novas funções sur­girão?

Que con­hec­i­men­tos fun­da­men­tais con­tin­uarão indis­pen­sáveis?

Que tare­fas devem per­manecer humanas?

Como avaliar com­petên­cia quan­do a IA pode pro­duzir o resul­ta­do solic­i­ta­do?

A UNESCO já tra­ta alfa­bet­i­za­ção em inteligên­cia arti­fi­cial como uma com­petên­cia edu­ca­cional estru­tur­al. Seu mar­co para estu­dantes propõe capaci­dades rela­cionadas a pen­sa­men­to cen­tra­do no ser humano, éti­ca, téc­ni­cas e apli­cações de IA e cri­ação de sis­temas, pas­san­do pelos níveis de com­preen­der, aplicar e cri­ar.

A dis­cussão, por­tan­to, deixou de ser ape­nas tec­nológ­i­ca.

É edu­ca­cional.

É econômi­ca.

É cul­tur­al.

O professor também está sendo preparado para um mundo diferente

Existe uma segun­da trans­for­mação menos comen­ta­da.

Não são ape­nas os alunos que pre­cisam apren­der nova­mente.

Os pro­fes­sores tam­bém.

A UNESCO obser­va que a inteligên­cia arti­fi­cial mod­i­fi­cou a relação tradi­cional pro­fes­sor e aluno, intro­duzin­do uma ter­ceira cama­da: pro­fes­sor, IA e estu­dante.

Por isso, seu mar­co de com­petên­cias para docentes inclui con­hec­i­men­to de IA, éti­ca, ped­a­gogia com inteligên­cia arti­fi­cial e desen­volvi­men­to profis­sion­al con­tín­uo.

Isso muda o papel do edu­cador.

Se a infor­mação pode ser encon­tra­da instan­ta­nea­mente, talvez o pro­fes­sor ten­ha de ser menos um dis­tribuidor de respostas e mais um arquite­to de apren­diza­gem.

Alguém que ensi­na:

como inves­ti­gar

como descon­fi­ar

como val­i­dar

como argu­men­tar

como exper­i­men­tar

como com­parar

como cri­ar

como recon­hecer lim­ites

como dis­tin­guir uma respos­ta con­vin­cente de uma respos­ta cor­re­ta

Essa função pode se tornar ain­da mais impor­tante na era da IA.

Porque existe uma difer­ença enorme entre ter aces­so à inteligên­cia e pos­suir jul­ga­men­to.

O mercado não vai esperar a educação se adaptar

Existe um prob­le­ma adi­cional.

Empre­sas não pre­cisam aguardar refor­mas cur­ric­u­lares.

Elas sim­ples­mente ado­tam tec­nolo­gias quan­do percebem van­tagem econômi­ca.

O inves­ti­men­to cor­po­ra­ti­vo em inteligên­cia arti­fi­cial está crescen­do rap­i­da­mente. O AI Index Report 2026, de Stan­ford, apon­ta forte expan­são do inves­ti­men­to pri­va­do em IA e mostra que os efeitos sobre o tra­bal­ho começam a apare­cer de maneira desigual, inclu­sive nas con­tratações de profis­sion­ais mais jovens em deter­mi­nadas áreas expostas à automação.

Isso sig­nifi­ca que mer­ca­do e edu­cação podem pas­sar a oper­ar em veloci­dades difer­entes.

Uma uni­ver­si­dade pode levar anos para refor­mu­lar um cur­rícu­lo.

Uma empre­sa pode imple­men­tar um agente de IA em algu­mas sem­anas.

Esse descom­pas­so cria um risco.

Esta­mos for­man­do pes­soas para realizar tare­fas que empre­sas podem estar jus­ta­mente ten­tan­do autom­a­ti­zar.

O caso dos profissionais iniciantes merece atenção especial

Existe um fenô­meno par­tic­u­lar­mente inter­es­sante.

Muitas car­reiras fun­cionam como uma esca­da.

O profis­sion­al começa real­izan­do tare­fas rel­a­ti­va­mente sim­ples.

Com o tem­po, gan­ha exper­iên­cia.

Depois assume prob­le­mas mais com­plex­os.

Um pro­gra­mador ini­ciante escreve códi­go sim­ples.

Um advo­ga­do ini­ciante pesquisa jurisprudên­cia.

Um anal­ista prepara relatórios.

Um profis­sion­al de mar­ket­ing pro­duz ver­sões de tex­tos.

Um design­er exe­cu­ta peças bási­cas.

Mas essas são jus­ta­mente algu­mas das tare­fas em que a IA está avançan­do rap­i­da­mente.

Surge então uma per­gun­ta del­i­ca­da:

Se autom­a­ti­zarmos o primeiro degrau da esca­da, como alguém chegará ao segun­do?

O relatório de Stan­ford de 2026 apon­ta sinais par­tic­u­lar­mente rel­e­vantes em algu­mas profis­sões expostas entre tra­bal­hadores mais jovens, emb­o­ra seja cedo para trans­for­mar ess­es sinais em uma con­clusão uni­ver­sal sobre todo o mer­ca­do.

Esse é um prob­le­ma que empre­sas e uni­ver­si­dades pre­cis­arão enfrentar.

Autom­a­ti­zar tare­fas ini­ci­ais aumen­ta pro­du­tivi­dade.

Mas empre­sas tam­bém pre­cisam con­tin­uar for­man­do profis­sion­ais capazes de assumir respon­s­abil­i­dades maiores no futuro.

Novos empregos também serão criados

Seria erra­do trans­for­mar essa dis­cussão em uma nar­ra­ti­va pura­mente pes­simista.

Toda grande trans­for­mação tec­nológ­i­ca elim­i­na algu­mas tare­fas, mod­i­fi­ca out­ras e cria novas opor­tu­nidades.

O Fórum Econômi­co Mundi­al esti­ma que mudanças tec­nológ­i­cas, demográ­fi­cas, econômi­cas e ambi­en­tais poderão cri­ar aprox­i­mada­mente 170 mil­hões de empre­gos até 2030, ao mes­mo tem­po em que cer­ca de 92 mil­hões poderão ser deslo­ca­dos.

O sal­do pro­je­ta­do é pos­i­ti­vo, com aprox­i­mada­mente 78 mil­hões de novas posições líquidas.

Por­tan­to, talvez não este­jamos cam­in­han­do para um mun­do sem tra­bal­ho.

Esta­mos cam­in­han­do para um mun­do com tra­bal­ho difer­ente.

E isso muda com­ple­ta­mente o prob­le­ma.

Não bas­ta cri­ar empre­gos novos.

É necessário per­mi­tir que as pes­soas con­sigam migrar para eles.

A carreira linear pode estar chegando ao fim

Nos­sa cul­tura profis­sion­al ain­da car­rega uma ideia pro­fun­da­mente indus­tri­al.

Escol­ha uma profis­são.

Estude.

Entre em uma empre­sa.

Con­strua car­reira.

Espe­cial­ize se.

Aposente se.

Essa tra­jetória poderá se tornar cada vez menos comum.

Um profis­sion­al de 25 anos talvez ten­ha de recon­stru­ir suas habil­i­dades diver­sas vezes durante a vida.

Ele poderá tra­bal­har em mar­ket­ing aos 25.

Automação aos 35.

Pro­du­to aos 45.

Gestão de agentes inteligentes aos 55.

Uma profis­são que hoje sequer pos­sui nome pode faz­er parte de sua car­reira aos 60.

A OCDE desta­cou em seu relatório Skills in the AI Age, pub­li­ca­do em 2026, que a inteligên­cia arti­fi­cial está alteran­do exigên­cias de habil­i­dades e que adap­tação, capac­i­tação e apren­diza­gem ao lon­go da vida serão fun­da­men­tais para aproveitar seus bene­fí­cios sem ampli­ar os riscos de deslo­ca­men­to profis­sion­al.

O diplo­ma provavel­mente con­tin­uará impor­tante.

Mas talvez deixe de fun­cionar como con­clusão da for­mação.

Pode se tornar ape­nas o primeiro capí­tu­lo.

Precisamos ensinar tarefas ou capacidades?

Essa per­gun­ta pode definir a edu­cação das próx­i­mas décadas.

Uma tare­fa é algo especí­fi­co.

For­matar deter­mi­na­do relatório.

Uti­lizar deter­mi­na­do soft­ware.

Exe­cu­tar deter­mi­na­do pro­ced­i­men­to.

Uma capaci­dade é mais ampla.

Inter­pre­tar dados.

Resolver prob­le­mas.

Tomar decisões.

Con­stru­ir argu­men­tos.

Apren­der fer­ra­men­tas novas.

Tra­bal­har colab­o­ra­ti­va­mente.

Cri­ar.

Se ensi­namos ape­nas tare­fas, cor­re­mos o risco de for­mar pes­soas alta­mente efi­cientes em ativi­dades que uma IA pas­sará a exe­cu­tar.

Se desen­volve­mos capaci­dades, aumen­ta­mos a pos­si­bil­i­dade de adap­tação.

Não sig­nifi­ca aban­donar con­hec­i­men­to téc­ni­co.

Muito pelo con­trário.

Quem pos­sui fun­da­men­tos sóli­dos con­segue uti­lizar novas fer­ra­men­tas de maneira muito mais inteligente.

O prob­le­ma é con­fundir con­hec­i­men­to téc­ni­co com treina­men­to para uma fer­ra­men­ta especí­fi­ca.

Saber usar IA não será diferencial por muito tempo

Hoje, colo­car “con­hec­i­men­to em inteligên­cia arti­fi­cial” no cur­rícu­lo ain­da chama atenção.

Talvez isso mude rap­i­da­mente.

Imag­ine diz­er, em 2035:

“Eu sei usar inteligên­cia arti­fi­cial.”

Pode soar tão genéri­co quan­to diz­er hoje:

“Eu sei usar inter­net.”

A questão não será sim­ples­mente saber usar IA.

Será:

o que você con­segue faz­er com ela que out­ras pes­soas não con­seguem?

Con­segue tomar decisões mel­hores?

Con­segue desen­volver pro­du­tos?

Con­segue orga­ni­zar equipes?

Con­segue pesquis­ar?

Con­segue iden­ti­ficar opor­tu­nidades?

Con­segue com­preen­der clientes?

Con­segue com­bi­nar con­hec­i­men­tos de áreas difer­entes?

Con­segue con­stru­ir algo novo?

A van­tagem não estará na fer­ra­men­ta.

Estará na com­bi­nação entre fer­ra­men­ta, con­hec­i­men­to, jul­ga­men­to e exe­cução.

Empresas também precisarão reaprender a contratar

Cur­rícu­los tradi­cionais são basea­d­os em sinais.

Diplo­ma.

Exper­iên­cia.

Car­go ante­ri­or.

Tem­po na empre­sa.

Cer­ti­fi­cações.

Mas em um ambi­ente que muda rap­i­da­mente, empre­sas poderão pre­cis­ar obser­var mais inten­sa­mente a capaci­dade de pro­duzir resul­ta­dos em situ­ações novas.

Port­fólios podem gan­har importân­cia.

Pro­je­tos podem valer mais.

Capaci­dade de apren­der pode se tornar critério cen­tral.

Exper­iên­cia tra­bal­han­do com agentes de IA pode impor­tar.

Con­hec­i­men­to mul­ti­dis­ci­pli­nar pode se tornar difer­en­cial.

Talvez ver­e­mos proces­sos sele­tivos em que o can­dida­to recebe um prob­le­ma real, aces­so às mes­mas fer­ra­men­tas de IA uti­lizadas pela empre­sa e pre­cisa demon­strar como pen­sa.

Não será ape­nas:

“Você sabe a respos­ta?”

Será:

“Você sabe chegar a uma boa respos­ta uti­lizan­do todos os recur­sos disponíveis?”

Existe o risco de criarmos uma nova desigualdade

Toda rev­olução tec­nológ­i­ca dis­tribui bene­fí­cios de maneira desigual.

Com inteligên­cia arti­fi­cial, uma das divisões mais impor­tantes poderá ocor­rer entre dois gru­pos.

Pes­soas que sabem tra­bal­har com sis­temas inteligentes.

E pes­soas cujo tra­bal­ho com­pete dire­ta­mente con­tra sis­temas inteligentes.

Essa difer­ença pode pro­duzir impactos pro­fun­dos em salários, pro­du­tivi­dade e opor­tu­nidades.

Profis­sion­ais capazes de uti­lizar IA para mul­ti­plicar sua pro­dução poderão gan­har mais importân­cia econômi­ca.

Profis­sion­ais pre­sos a tare­fas facil­mente autom­a­tizáveis poderão enfrentar pressão cres­cente.

A OIT chama atenção jus­ta­mente para a neces­si­dade de admin­is­trar essa tran­sição, porque exposição tec­nológ­i­ca não sig­nifi­ca auto­mati­ca­mente desem­prego. O resul­ta­do depen­derá tam­bém das decisões de empre­sas, tra­bal­hadores e políti­cas públi­cas.

Isso sig­nifi­ca que a desigual­dade futu­ra talvez não seja sim­ples­mente entre quem tem diplo­ma e quem não tem.

Pode ser entre:

quem con­seguiu se adap­tar e quem não teve opor­tu­nidade de fazê lo.

Educação precisa deixar de preparar pessoas apenas para o primeiro emprego

Talvez essa seja uma das mudanças mais impor­tantes.

O sis­tema edu­ca­cional tradi­cional se con­cen­tra forte­mente na entra­da no mer­ca­do.

Mas um jovem que começa a tra­bal­har aos 22 anos poderá per­manecer eco­nomi­ca­mente ati­vo durante qua­tro ou cin­co décadas.

Durante esse perío­do, tec­nolo­gias, empre­sas e profis­sões mudarão repeti­da­mente.

Prepará lo ape­nas para con­quis­tar o primeiro emprego será insu­fi­ciente.

Pre­cisamos prepará lo para con­quis­tar tam­bém o ter­ceiro, o quin­to e talvez o déci­mo emprego.

Ou para cri­ar seu próprio tra­bal­ho.

Ou para empreen­der.

Ou para recon­stru­ir com­ple­ta­mente sua profis­são.

Isso exige uma edu­cação que desen­vol­va autono­mia int­elec­tu­al.

Uma pes­soa que sabe apren­der pos­sui uma fer­ra­men­ta que con­tin­ua útil mes­mo quan­do as fer­ra­men­tas ao seu redor mudam.

Pensamento crítico será ainda mais importante em um mundo cheio de respostas

Durante sécu­los, infor­mação foi escas­sa.

Bib­liote­cas eram lim­i­tadas.

Livros eram caros.

Espe­cial­is­tas eram difí­ceis de aces­sar.

A inter­net reduz­iu dras­ti­ca­mente essa escassez.

A inteligên­cia arti­fi­cial está levan­do isso a out­ro nív­el.

Ago­ra não temos ape­nas aces­so à infor­mação.

Temos sis­temas capazes de orga­nizá la, resumir, com­parar, inter­pre­tar e ger­ar respostas.

Mas existe um prob­le­ma.

Uma respos­ta bem escri­ta pode estar erra­da.

Uma análise con­vin­cente pode ser super­fi­cial.

Uma imagem real­ista pode ser fal­sa.

Uma estatís­ti­ca pode estar fora de con­tex­to.

Por isso, pen­sa­men­to críti­co pode se tornar uma espé­cie de infraestru­tu­ra int­elec­tu­al.

Pre­cis­are­mos ensi­nar pes­soas a per­gun­tar:

De onde veio essa infor­mação?

Existe evidên­cia?

Qual é a fonte?

Que hipótese está sendo assum­i­da?

O que pode estar fal­tan­do?

Qual é o inter­esse por trás dessa respos­ta?

A abundân­cia de inteligên­cia arti­fi­cial aumen­ta o val­or do jul­ga­men­to humano.

As habilidades humanas podem se tornar mais valiosas, não menos

Quan­to mais tare­fas téc­ni­cas forem autom­a­ti­zadas, mais cer­tas capaci­dades humanas poderão se destacar.

Empa­tia.

Con­fi­ança.

Lid­er­ança.

Nego­ci­ação.

Respon­s­abil­i­dade.

Cria­tivi­dade.

Comu­ni­cação.

Visão estratég­i­ca.

Com­preen­são de con­tex­to.

Essas com­petên­cias sem­pre foram impor­tantes.

Mas num ambi­ente em que pro­duzir códi­go, tex­to, análise e imagem fica pro­gres­si­va­mente mais bara­to, elas podem rep­re­sen­tar uma parcela maior do val­or profis­sion­al.

A inteligên­cia arti­fi­cial pode pro­duzir uma pro­pos­ta com­er­cial.

Mas alguém pre­cisa con­stru­ir con­fi­ança sufi­ciente para o cliente ass­iná la.

Pode ger­ar uma estraté­gia.

Mas alguém pre­cisa con­vencer uma orga­ni­za­ção a exe­cutá la.

Pode pro­duzir infor­mações.

Mas alguém pre­cisa assumir respon­s­abil­i­dade pelas decisões.

O futuro do trabalho não será decidido apenas pela tecnologia

Esse talvez seja um pon­to essen­cial.

Tec­nolo­gia abre pos­si­bil­i­dades.

Sociedade decide como uti­lizá las.

Uma empre­sa pode usar IA ape­nas para reduzir fun­cionários.

Out­ra pode usar exata­mente a mes­ma tec­nolo­gia para aumen­tar a pro­du­tivi­dade e cri­ar novos pro­du­tos.

Uma esco­la pode usar IA para impedir que estu­dantes pensem.

Out­ra pode uti­lizá la para per­mi­tir que pensem sobre prob­le­mas muito mais com­plex­os.

Um profis­sion­al pode usar IA para evi­tar apren­der.

Out­ro pode uti­lizá la para apren­der dez vezes mais rápi­do.

Por­tan­to, o futuro do tra­bal­ho não está escrito den­tro de um algo­rit­mo.

Ele será resul­ta­do das escol­has que esta­mos fazen­do ago­ra.

Talvez estejamos formando profissionais para funções que já começaram a mudar

Essa não é uma pre­visão dis­tante.

A trans­for­mação já começou.

Empre­sas estão uti­lizan­do IA em pro­gra­mação, mar­ket­ing, atendi­men­to, pesquisa, análise, design, suporte, jurídi­co, finanças e diver­sas out­ras áreas.

Stan­ford iden­ti­fi­ca gan­hos rel­e­vantes de pro­du­tivi­dade em tra­bal­hos estru­tu­ra­dos e men­su­ráveis, emb­o­ra os bene­fí­cios variem muito con­forme a tare­fa e o con­tex­to.

Isso sig­nifi­ca que a per­gun­ta deixou de ser:

“Quan­do a inteligên­cia arti­fi­cial mudará o tra­bal­ho?”

A per­gun­ta ago­ra é:

“Quão rap­i­da­mente con­seguire­mos mudar a maneira como preparamos as pes­soas para tra­bal­har?”

O objetivo da educação precisa ser maior que empregabilidade imediata

Não podemos saber exata­mente quais profis­sões exi­s­tirão em 2040.

Nem quais fer­ra­men­tas dom­i­narão 2035.

Mas podemos preparar pes­soas para viv­er em ambi­entes de mudança.

Podemos ensi­nar fun­da­men­tos.

Pen­sa­men­to.

Curiosi­dade.

Raciocínio.

Comu­ni­cação.

Éti­ca.

Tec­nolo­gia.

Cria­tivi­dade.

Colab­o­ração.

Capaci­dade de apren­der.

O obje­ti­vo talvez não seja preparar alguém para uma profis­são especí­fi­ca durante toda a vida.

Talvez seja preparar alguém para con­tin­uar rel­e­vante mes­mo quan­do sua profis­são mudar.

Talvez o maior risco não seja a IA acabar com empregos

O maior risco pode ser con­tin­uar­mos preparan­do pes­soas como se o mer­ca­do per­manecesse estáv­el.

A inteligên­cia arti­fi­cial não pre­cisa elim­i­nar mil­hões de profis­sões para provo­car uma rev­olução.

Bas­ta alter­ar pro­fun­da­mente aqui­lo que faze­mos den­tro delas.

Quan­do tare­fas mudam, habil­i­dades mudam.

Quan­do habil­i­dades mudam, for­mação pre­cisa mudar.

Quan­do for­mação demo­ra demais para respon­der, surge um abis­mo entre edu­cação e mer­ca­do.

Não pre­cisamos ensi­nar menos.

Pre­cisamos ensi­nar de maneira difer­ente.

Pre­cisamos for­mar pes­soas capazes de uti­lizar inteligên­cia arti­fi­cial sem se tornar depen­dentes dela.

Capazes de pen­sar quan­do a máquina responde.

Capazes de per­gun­tar quan­do a máquina pro­duz.

Capazes de decidir quan­do a máquina recomen­da.

Capazes de cri­ar quan­do a máquina repli­ca.

Capazes de apren­der quan­do aqui­lo que sabem deixa de ser sufi­ciente.

Talvez uma cri­ança que entra hoje na esco­la tra­bal­he em profis­sões que ain­da não pos­suem nome.

Talvez um uni­ver­sitário que ini­cia hoje sua for­mação encon­tre um mer­ca­do sig­ni­fica­ti­va­mente difer­ente quan­do rece­ber o diplo­ma.

E talvez profis­sion­ais que já estão no mer­ca­do pre­cisem recon­stru­ir suas com­petên­cias diver­sas vezes antes de se aposentarem.

Isso não pre­cisa ser vis­to ape­nas como ameaça.

Pode rep­re­sen­tar uma das maiores expan­sões de capaci­dade pro­du­ti­va da história.

Mas existe uma condição.

Pre­cisamos parar de preparar pes­soas ape­nas para exe­cu­tar o tra­bal­ho que existe hoje.

Pre­cisamos prepará las para com­preen­der, apren­der, cri­ar e se adap­tar ao tra­bal­ho que sur­girá aman­hã.

Porque talvez a per­gun­ta mais impor­tante para esco­las, uni­ver­si­dades, empre­sas e gov­er­nos não seja:

“Que profis­são deve­mos ensi­nar?”

A per­gun­ta talvez seja:

“Como formar pessoas capazes de continuar aprendendo em um mundo no qual o próprio trabalho nunca mais permanecerá igual por muito tempo?”

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