
A inteligência artificial pode enriquecer o mundo, mas isso não significa que todos ficarão ricos
Poucas tecnologias na história recente provocaram simultaneamente tanta esperança e tanta inquietação quanto a inteligência artificial.
Em poucos anos, sistemas de IA deixaram de ser ferramentas restritas a laboratórios de pesquisa e passaram a escrever textos, produzir imagens, desenvolver software, analisar exames, atender clientes, criar vídeos, traduzir idiomas, pesquisar documentos, programar máquinas e auxiliar na tomada de decisões empresariais.
A pergunta já não é mais se a inteligência artificial transformará a economia.
Ela já está transformando.
A verdadeira questão é outra:
Quem ficará com a riqueza produzida por essa transformação?
Será que a IA criará uma nova era de prosperidade, na qual pequenas empresas serão mais produtivas, trabalhadores terão jornadas menores e consumidores receberão produtos melhores e mais baratos?
Ou estaremos caminhando para uma economia em que poucas empresas controlarão os modelos, os chips, os dados, os servidores e a distribuição, enquanto milhões de pessoas precisarão disputar uma parcela cada vez menor da renda?
Os dados disponíveis permitem defender os dois cenários.
A IA possui potencial extraordinário para aumentar produtividade e criar riqueza. Ao mesmo tempo, a infraestrutura necessária para desenvolver os sistemas mais avançados está fortemente concentrada.
Segundo a UNCTAD, órgão das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento, o mercado mundial de inteligência artificial poderá crescer de aproximadamente US$ 189 bilhões em 2023 para US$ 4,8 trilhões em 2033. O mesmo relatório alerta, porém, que apenas cerca de 100 empresas — concentradas principalmente nos Estados Unidos e na China — representam aproximadamente 40% dos gastos corporativos globais com pesquisa e desenvolvimento.
Essa talvez seja a contradição central da revolução da IA:
a tecnologia pode se tornar extremamente acessível enquanto sua propriedade permanece extremamente concentrada.
É possível que bilhões de pessoas se beneficiem da inteligência artificial.
Mas isso não significa que bilhões de pessoas possuirão os ativos que gerarão os maiores lucros.
E essa diferença pode definir a economia das próximas décadas.
A IA pode provocar um salto gigantesco de produtividade
A primeira razão para o enorme entusiasmo econômico em torno da inteligência artificial está na produtividade.
Em termos simples, produtividade significa produzir mais utilizando a mesma quantidade de recursos — ou produzir a mesma coisa gastando menos tempo, dinheiro ou esforço.
Imagine uma pequena empresa que anteriormente precisava de:
- um redator;
- um designer;
- um analista;
- um atendente;
- um programador;
- um profissional de marketing.
Com ferramentas de inteligência artificial, uma pequena equipe poderá executar parte dessas atividades muito mais rapidamente.
Isso não significa necessariamente eliminar todos esses profissionais.
Significa aumentar drasticamente a capacidade produtiva de cada pessoa.
A OCDE estimou que, em economias do G7 com elevada exposição à IA e rápida adoção, a tecnologia poderá acrescentar entre aproximadamente 0,4 e 1,3 ponto percentual por ano ao crescimento da produtividade do trabalho em determinados cenários ao longo de uma década.
Esse número parece pequeno até percebermos seu efeito acumulado.
Uma economia que consegue crescer consistentemente alguns décimos adicionais de produtividade todos os anos pode terminar uma década significativamente mais rica.
É o mesmo princípio observado em revoluções anteriores.
A eletricidade não criou apenas empresas de eletricidade.
Ela aumentou a produtividade das fábricas.
A internet não criou apenas provedores.
Transformou bancos, lojas, mídia, logística, turismo, educação e comunicação.
A inteligência artificial poderá seguir caminho semelhante.
A maior riqueza talvez não apareça somente nas empresas que vendem IA.
Ela poderá surgir quando milhões de empresas tradicionais começarem a trabalhar melhor utilizando IA.
Mas produtividade maior não significa distribuição automática da riqueza
Aqui começa a parte mais complicada.
Imagine uma empresa com 1.000 funcionários.
Ela implementa sistemas de IA e consegue produzir exatamente o mesmo resultado com 700 funcionários.
A empresa ficou mais produtiva.
A economia registrará ganho de eficiência.
Mas surgem duas perguntas:
Quem ficará com o ganho?
E:
O que acontecerá com os 300 trabalhadores?
Se o aumento de produtividade resultar em salários melhores, produtos mais baratos, novos investimentos e criação de novas funções, os benefícios poderão se espalhar.
Mas se praticamente todo o ganho for transformado em lucro para acionistas e redução permanente do número de empregados, a mesma tecnologia que elevou a produtividade poderá aumentar a desigualdade.
Esse é um dos principais alertas do Fundo Monetário Internacional.
O FMI estima que quase 40% dos empregos no mundo estão potencialmente expostos à inteligência artificial. Nas economias avançadas, a exposição chega a aproximadamente 60%.
Em janeiro de 2026, o próprio FMI voltou ao tema e destacou que essa transformação exigirá políticas para que os benefícios da IA sejam distribuídos de maneira mais ampla.
Portanto, a pergunta econômica não é apenas:
“Quanto a inteligência artificial produzirá?”
Precisamos perguntar também:
“Como aquilo que ela produzir será dividido?”
A IA vai eliminar empregos?
Provavelmente eliminará algumas funções.
Mas a história é muito mais complexa do que a frase “a IA vai acabar com os empregos”.
A Organização Internacional do Trabalho realizou uma das análises mais importantes sobre o assunto.
Segundo a OIT, aproximadamente um em cada quatro empregos no mundo possui algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Entretanto, sua conclusão é especialmente relevante: para grande parte dessas ocupações, a transformação do trabalho é mais provável do que a substituição completa do trabalhador.
Isso acontece porque profissões são compostas por várias tarefas.
Um advogado não apenas escreve contratos.
Um médico não apenas interpreta exames.
Um professor não apenas prepara textos.
Um vendedor não apenas responde mensagens.
Um programador não apenas escreve código.
A IA pode automatizar algumas dessas tarefas sem necessariamente eliminar toda a profissão.
A questão é que a profissão poderá exigir menos pessoas para produzir a mesma quantidade de trabalho.
E é exatamente aí que o impacto econômico se torna difícil de prever.
A diferença entre substituir um emprego e substituir uma tarefa
Suponha que um escritório possua dez funcionários administrativos.
Grande parte do trabalho envolve:
📌 elaborar relatórios;
📌 responder emails;
📌 organizar informações;
📌 preencher documentos;
📌 pesquisar arquivos;
📌 preparar apresentações.
Se a inteligência artificial reduzir pela metade o tempo dessas atividades, duas coisas podem acontecer.
Cenário A: crescimento
O escritório mantém os dez funcionários e atende duas vezes mais clientes.
A IA aumentou produtividade sem destruir empregos.
Cenário B: redução de custos
O escritório mantém o mesmo número de clientes e passa a operar com cinco funcionários.
A produtividade também aumentou.
Mas cinco pessoas perderam seus empregos.
A tecnologia é a mesma.
O resultado social é completamente diferente.
Isso explica por que é perigoso tentar prever o futuro apenas analisando o que uma IA consegue tecnicamente fazer.
O impacto dependerá de:
- crescimento da demanda;
- competição;
- salários;
- regulamentação;
- novos modelos de negócios;
- criação de novas profissões;
- velocidade de adoção;
- qualificação dos trabalhadores.
Já vivemos isso antes com outras tecnologias
A automação não começou com ChatGPT.
Máquinas agrícolas reduziram radicalmente a quantidade de trabalhadores necessária no campo.
Robôs industriais automatizaram fábricas.
Caixas eletrônicos transformaram o trabalho bancário.
Planilhas substituíram enormes quantidades de cálculos manuais.
Softwares de contabilidade automatizaram tarefas antes realizadas por grandes equipes.
Internet e comércio eletrônico eliminaram algumas funções e criaram outras.
O padrão histórico costuma ser:
tecnologia elimina tarefas → produtividade aumenta → empresas mudam → novos mercados surgem → novas profissões aparecem.
O problema é que esse processo não acontece instantaneamente.
A pessoa que perde o emprego hoje não recebe automaticamente o emprego criado daqui a cinco anos.
Essa diferença de tempo é crucial.
O FMI já advertiu que revoluções tecnológicas podem produzir longos períodos de transição, desemprego e incompatibilidade entre as habilidades que trabalhadores possuem e aquelas exigidas pelos novos empregos.
Mas novos empregos também serão criados
Existe outro lado da equação.
O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, estima que diferentes transformações econômicas e tecnológicas poderão criar aproximadamente 170 milhões de novos postos de trabalho até 2030, enquanto cerca de 92 milhões poderão desaparecer, deixando saldo líquido positivo de aproximadamente 78 milhões. Essas projeções incluem IA, automação e diversas outras tendências econômicas e demográficas.
Isso não significa que podemos ignorar os empregos destruídos.
Os novos trabalhos poderão:
- surgir em países diferentes;
- exigir qualificações diferentes;
- pagar salários diferentes;
- aparecer anos depois;
- beneficiar pessoas diferentes.
Um contador de 55 anos que perde parte de sua demanda devido à automação não necessariamente se tornará engenheiro de inteligência artificial.
É justamente por isso que educação e requalificação serão tão importantes.
A maior divisão poderá ser entre quem sabe usar IA e quem não sabe
É possível que a principal divisão econômica do futuro não seja simplesmente:
humanos versus máquinas.
Talvez seja:
humanos com IA versus humanos sem IA.
Um programador utilizando IA pode produzir muito mais.
Um advogado pode analisar documentos rapidamente.
Um vendedor pode preparar propostas personalizadas.
Um pequeno empresário pode produzir campanhas, imagens e textos que anteriormente exigiriam vários fornecedores.
Um médico poderá organizar históricos e pesquisas com mais velocidade.
Um professor poderá adaptar material para diferentes alunos.
Isso cria um novo tipo de vantagem competitiva.
Quem aprender a incorporar inteligência artificial ao próprio trabalho poderá se tornar significativamente mais produtivo.
O FMI destacou em 2026 que habilidades relacionadas à IA estão ganhando espaço no mercado e que a qualificação será fundamental para aproveitar os novos empregos criados.
E quem poderá ganhar mais dinheiro com a inteligência artificial?
É possível imaginar cinco grandes grupos econômicos capturando parte significativa dos ganhos.
1️⃣ Empresas que controlam infraestrutura
Grandes modelos dependem de:
- chips;
- data centers;
- energia;
- redes;
- armazenamento;
- computação em nuvem.
Quem controla essa infraestrutura funciona quase como fornecedor das “máquinas” da revolução industrial da IA.
Mesmo que milhares de empresas criem aplicativos utilizando inteligência artificial, grande parte delas continuará pagando pelos recursos computacionais que tornam esses sistemas possíveis.
2️⃣ Empresas que desenvolvem os grandes modelos
Outra camada econômica extremamente valiosa são os modelos fundamentais.
São sistemas capazes de:
- compreender linguagem;
- produzir texto;
- escrever código;
- gerar imagens;
- processar áudio;
- analisar vídeo;
- utilizar ferramentas.
Desenvolvê-los pode exigir enormes quantidades de dados, talento e infraestrutura.
Essa barreira pode favorecer empresas com capital muito elevado.
É um dos motivos pelos quais existe preocupação com concentração.
A UNCTAD chama atenção justamente para o fato de infraestrutura, conhecimento e investimento de IA estarem concentrados em poucas economias e empresas.
3️⃣ Empresas que possuem dados
Dados poderão se tornar ainda mais estratégicos.
Imagine duas empresas médicas utilizando modelos semelhantes.
Uma possui milhões de registros clínicos devidamente organizados e autorizados.
Outra não.
Qual delas poderá desenvolver soluções mais específicas?
O mesmo vale para:
bancos;
seguradoras;
varejistas;
indústrias;
plataformas;
empresas de logística.
A IA geral estará cada vez mais disponível.
Mas dados exclusivos e relevantes poderão continuar sendo uma vantagem competitiva extremamente poderosa.
4️⃣ Empresas que controlam a distribuição
Às vezes, possuir a melhor tecnologia não é suficiente.
Quem controla o relacionamento com o cliente possui enorme vantagem.
Sistemas operacionais.
Smart TVs.
Smartphones.
Marketplaces.
Redes sociais.
Buscadores.
Navegadores.
Plataformas corporativas.
Quem possui bilhões de usuários pode adicionar inteligência artificial àquilo que já utiliza.
É muito mais difícil para uma startup conquistar 100 milhões de usuários do que para uma plataforma com 100 milhões de usuários simplesmente adicionar uma nova função de IA.
5️⃣ Pequenos empreendedores — e aqui está uma enorme oportunidade
Até aqui, pode parecer que a inteligência artificial favorecerá apenas gigantes tecnológicos.
Mas existe uma força atuando no sentido oposto.
O custo para utilizar IA está despencando.
O AI Index da Stanford mostrou que o custo de inferência de um sistema com desempenho comparável ao GPT‑3.5 em determinado benchmark caiu mais de 280 vezes entre novembro de 2022 e outubro de 2024. Dependendo da tarefa analisada, os custos de utilização de modelos caíram em ordens de magnitude.
Esse fenômeno é fundamental.
Se ferramentas extremamente poderosas ficarem baratas, pequenos empresários poderão acessar recursos antes disponíveis somente para grandes corporações.
Uma empresa com três pessoas poderá ter:
🤖 atendimento automatizado;
🎨 geração de publicidade;
📊 análise de dados;
💻 desenvolvimento assistido;
📧 automação comercial;
🎬 criação de vídeos;
📝 produção de conteúdo;
🌎 tradução automática.
É possível que a IA produza uma explosão de microempresas altamente produtivas.
Pela primeira vez, pequenas empresas poderão ganhar “superpoderes corporativos”
Imagine uma pequena agência com quatro funcionários.
Dez anos atrás ela provavelmente não teria condições de manter:
um departamento de design;
um programador;
um departamento jurídico;
um tradutor;
uma equipe de análise;
um atendimento 24 horas.
Com IA, ela poderá acessar versões automatizadas de várias dessas capacidades.
Isso reduz barreiras de entrada.
A própria OCDE reconhece essa dualidade: inteligência artificial pode reduzir custos e favorecer novos entrantes, mas também pode fortalecer grandes empresas quando estas possuem vantagens em dados, computação, integração vertical e ecossistemas.
É uma verdadeira corrida entre duas forças:
democratização da capacidade versus concentração da infraestrutura.
O custo da IA está caindo, mas o custo de construir a fronteira está aumentando
Esse talvez seja o paradoxo mais interessante de toda a revolução.
Para usar IA, está ficando barato.
Para construir os sistemas mais avançados, pode continuar extremamente caro.
É semelhante à indústria aérea.
Comprar uma passagem tornou o transporte aéreo acessível a milhões de pessoas.
Construir uma fabricante mundial de aviões continua sendo extraordinariamente difícil.
É perfeitamente possível que a inteligência artificial siga esse padrão.
Bilhões poderão utilizar ferramentas avançadas.
Milhões poderão construir negócios sobre elas.
Mas apenas algumas empresas poderão controlar a infraestrutura fundamental.
Quem será mais rico: os criadores ou os usuários da IA?
Provavelmente ambos poderão ganhar.
Mas de maneiras diferentes.
Uma empresa que controla infraestrutura poderá capturar lucros extraordinários.
Um pequeno empresário poderá aumentar sua renda utilizando essa infraestrutura.
Um funcionário poderá ganhar salário maior por tornar-se mais produtivo.
Um consumidor poderá ganhar mesmo sem receber um único centavo diretamente.
Como?
Economizando dinheiro e tempo.
Imagine uma ferramenta gratuita que:
- traduza qualquer idioma;
- explique contratos;
- ajude a estudar;
- ensine programação;
- faça planejamento financeiro;
- produza documentos;
- organize informações.
Mesmo que o usuário nunca receba dinheiro da empresa que criou a IA, ele está recebendo valor econômico.
Esse ponto é frequentemente esquecido.
Benefício econômico não é a mesma coisa que lucro empresarial.
A IA poderá melhorar a vida de bilhões de pessoas enquanto grande parte do lucro financeiro fica concentrada.
As duas coisas podem acontecer simultaneamente.
O AI Index 2026 da Stanford aponta que a adoção da IA generativa continua se expandindo rapidamente, ao mesmo tempo em que os investimentos privados permanecem fortemente concentrados, especialmente nos Estados Unidos. Em 2025, o investimento privado americano em IA alcançou aproximadamente US$ 285,9 bilhões, segundo o relatório.
Países ricos podem ganhar mais do que países pobres
A desigualdade não acontecerá apenas entre pessoas e empresas.
Pode acontecer entre países.
A inteligência artificial depende de quatro elementos que o Banco Mundial resume como os “4 Cs”:
Connectivity — conectividade;
Compute — capacidade computacional;
Context — dados relevantes;
Competency — competências e habilidades.
Países que possuem esses elementos estarão melhor posicionados para aproveitar os benefícios da IA.
Onde falta internet confiável, energia, profissionais qualificados e infraestrutura computacional, a adoção poderá ser mais lenta.
Isso cria um risco perigoso.
Economias avançadas podem:
adotar IA mais rapidamente → aumentar produtividade → enriquecer → investir mais em IA → aumentar novamente produtividade.
É um ciclo positivo.
Países pobres podem ficar presos no ciclo inverso.
O Banco Mundial alerta que países de renda baixa e média enfrentam barreiras substanciais para implantar IA em escala, embora ferramentas de “Small AI”, mais baratas e executáveis em dispositivos comuns, possam ajudar a reduzir parte dessa distância.
E o Brasil?
Para o Brasil, a inteligência artificial representa tanto um risco quanto uma extraordinária oportunidade.
O país possui:
mais de 200 milhões de consumidores;
grande mercado digital;
sistema financeiro tecnologicamente avançado;
agricultura sofisticada;
forte ecossistema de fintechs;
empresas de software;
mercado publicitário expressivo;
enorme setor de serviços.
Ao mesmo tempo, possui desafios conhecidos:
desigualdade educacional;
baixa produtividade média;
grande informalidade;
diferenças regionais;
limitações de qualificação tecnológica.
Um estudo do FMI sobre produtividade na América Latina observou que a exposição regional à IA tende a ser inferior à das economias avançadas, em parte devido à estrutura produtiva e à informalidade. Isso significa menor risco imediato de automação em algumas áreas, mas também pode significar menos oportunidades de colher ganhos de produtividade.
O maior erro seria interpretar a exposição menor como vantagem.
Talvez o verdadeiro risco não seja:
“a IA substituirá todos os brasileiros.”
Pode ser:
“empresas e países que utilizam IA se tornarão muito mais produtivos enquanto parte da economia brasileira continuará trabalhando como antes.”
Uma padaria com IA continuará sendo uma padaria
Existe uma ideia equivocada de que todos terão de se tornar programadores ou cientistas de dados.
Não.
Grande parte da revolução acontecerá dentro de empresas tradicionais.
Imagine uma padaria utilizando IA.
Ela poderá prever demanda.
Controlar estoque.
Criar promoções.
Responder clientes.
Produzir conteúdo.
Analisar custos.
Planejar compras.
A empresa não deixou de ser uma padaria.
Apenas se tornou uma padaria tecnologicamente mais eficiente.
O mesmo ocorrerá com:
academias;
restaurantes;
igrejas;
clínicas;
imobiliárias;
lojas;
escolas;
hotéis;
canais de televisão;
transportadoras;
prestadores de serviços.
A maior oportunidade comercial talvez não seja simplesmente vender inteligência artificial.
Pode ser:
usar IA para operar melhor um negócio que já existe.
Existe risco de uma sociedade extremamente desigual?
Sim.
Imagine um cenário extremo.
As empresas mais poderosas controlam:
chips;
modelos;
dados;
cloud;
distribuição;
robótica.
A inteligência artificial passa a realizar parcela crescente do trabalho intelectual.
Robôs realizam parcela crescente do trabalho físico.
A produção econômica dispara.
Mas o número de trabalhadores necessários cai.
Nesse mundo, quem possui capital pode capturar uma parcela crescente da renda.
Quem depende exclusivamente de vender horas de trabalho enfrenta pressão.
Essa não é uma previsão inevitável.
É um possível resultado econômico.
O FMI já alertou que a inteligência artificial pode aumentar desigualdade em determinadas circunstâncias, especialmente quando os ganhos de produtividade e os retornos de capital ficam concentrados.
O grande debate será trabalho versus capital
Grande parte da renda das famílias vem de salários.
Grande parte da renda dos investidores vem da propriedade de ativos.
Se a IA aumentar drasticamente a produtividade do capital, poderemos observar uma mudança na relação entre os dois.
Imagine uma fábrica altamente automatizada.
O valor da fábrica cresce.
Os equipamentos ficam mais produtivos.
Os softwares ficam mais importantes.
Mas menos trabalhadores são necessários.
Quem possui:
ações;
empresas;
propriedade intelectual;
infraestrutura;
participações;
dados;
poderá capturar uma parcela crescente da riqueza.
Por isso o debate sobre IA não será apenas tecnológico.
Será também uma discussão sobre:
propriedade.
Educação será a política econômica mais importante da era da IA
Não basta ensinar pessoas a usar um chatbot.
A educação precisará mudar.
O profissional do futuro precisará combinar:
🧠 pensamento crítico;
🤖 capacidade de trabalhar com IA;
🎯 conhecimento específico de um setor;
🗣️ comunicação;
💡 criatividade;
🤝 relacionamento humano;
📊 interpretação de dados;
⚖️ julgamento e responsabilidade.
As tarefas mais repetitivas e previsíveis serão as mais vulneráveis.
Trabalhos que combinam conhecimento, julgamento, interação humana e responsabilidade tendem a ter maior capacidade de complementar a tecnologia.
A OIT destaca que a questão central provavelmente será a transformação da qualidade e do conteúdo dos empregos, e não simplesmente uma eliminação generalizada de profissões inteiras.
O empreendedor individual poderá ser um dos grandes vencedores
Existe um cenário bastante otimista.
Imagine alguém com uma boa ideia.
Antigamente, precisava contratar:
designer;
programador;
redator;
suporte;
marketing;
contador;
vendedor.
O custo inicial podia matar o projeto.
Com inteligência artificial, um indivíduo poderá realizar uma parte significativa dessas atividades sozinho.
Isso permite uma nova categoria de empresa:
negócios minúsculos em estrutura e enormes em produtividade.
Uma pessoa pode administrar uma plataforma.
Duas pessoas podem operar uma agência.
Cinco pessoas podem atender milhares de clientes.
É por isso que seria precipitado concluir que os ganhos econômicos da IA serão exclusivos das grandes empresas.
As plataformas podem ficar concentradas.
Mas os negócios construídos sobre essas plataformas podem ser extremamente distribuídos.
O smartphone pode se transformar em uma pequena empresa
Essa talvez seja uma das maiores democratizações possíveis.
Um empreendedor de uma pequena cidade poderá utilizar o mesmo tipo de ferramenta de IA usada em grandes centros.
Poderá:
criar anúncios;
programar;
vender;
traduzir;
pesquisar;
produzir vídeos;
atender clientes;
analisar contratos;
criar apresentações.
O Banco Mundial chama atenção justamente para o potencial das aplicações menores e mais acessíveis de inteligência artificial em países em desenvolvimento, especialmente quando podem funcionar em equipamentos comuns.
Se essa tendência continuar, a IA poderá reduzir a vantagem histórica de quem tinha acesso a equipes caras e conhecimento especializado.
Mas existe outro risco: todo mundo usar as mesmas ferramentas
Se milhões de pessoas utilizarem IA para produzir:
artigos;
vídeos;
publicidade;
aplicativos;
lojas;
ebooks;
design;
a quantidade de conteúdo pode explodir.
Quando produzir fica barato, distribuir e conquistar atenção ficam mais valiosos.
Isso significa que alguns recursos se tornarão ainda mais importantes:
marca;
reputação;
audiência;
comunidade;
confiança;
relacionamento;
dados exclusivos.
A IA pode democratizar produção.
Mas não necessariamente democratizar atenção.
O recurso escasso mudará
Antes, escrever software era escasso.
Criar um vídeo profissional era caro.
Produzir uma imagem exigia trabalho especializado.
Criar uma campanha demandava equipe.
A IA reduz parte dessa escassez.
Quando algo deixa de ser escasso, outra coisa passa a valer mais.
No futuro, talvez os recursos realmente escassos sejam:
confiança, audiência, reputação, originalidade, dados próprios e relacionamento humano.
Esse é um aspecto importante para empresários.
A tecnologia pode ser copiada.
A confiança construída com clientes é muito mais difícil de copiar.
O papel dos governos será decisivo
Se a IA aumentar muito a riqueza econômica, governos enfrentarão uma pergunta inevitável:
como garantir que os benefícios sejam distribuídos de forma suficientemente ampla?
As respostas podem incluir:
- educação;
- requalificação profissional;
- políticas de competição;
- infraestrutura digital;
- acesso a computação;
- apoio a pequenas empresas;
- proteção social;
- tributação adequada;
- incentivo à inovação;
- regras de transparência e responsabilidade.
A OCDE destaca que políticas de concorrência e acesso serão importantes justamente porque desenvolvimento e adoção de IA podem ficar concentrados.
O objetivo não deveria ser impedir empresas de ganhar dinheiro com inteligência artificial.
Grandes retornos podem incentivar inovação.
O desafio é evitar uma estrutura na qual apenas algumas empresas consigam participar da nova economia.
Modelos abertos podem ajudar a democratizar a IA
Existe uma força importante contra a concentração: modelos abertos ou de pesos disponibilizados mais amplamente.
Se empresas, desenvolvedores e universidades conseguirem utilizar modelos avançados sem depender exclusivamente de plataformas fechadas, poderá surgir um ecossistema muito maior.
O AI Index 2025 mostrou que modelos de peso aberto estavam reduzindo rapidamente a diferença de desempenho em relação aos sistemas fechados em determinados benchmarks.
Isso não elimina a necessidade de infraestrutura.
Mas pode reduzir dependência.
É possível imaginar um futuro com:
grandes modelos globais;
modelos especializados;
modelos nacionais;
modelos corporativos;
modelos funcionando localmente.
Quanto maior a diversidade, menor o risco de uma única empresa controlar toda a inteligência digital.
Então a IA será lucrativa para todos ou para poucos?
A resposta mais provável é:
nem uma coisa nem outra de forma absoluta.
Os benefícios poderão atingir quase todos.
Os lucros provavelmente serão distribuídos de maneira muito mais desigual.
Podemos imaginar três níveis.
🟢 Nível 1 — consumidores
Bilhões poderão receber serviços melhores, baratos ou gratuitos.
Ganham valor.
🟡 Nível 2 — profissionais e empresas
Quem utilizar IA corretamente poderá aumentar produtividade e renda.
Ganham eficiência e oportunidades.
🔴 Nível 3 — proprietários da infraestrutura
Empresas que controlarem chips, modelos, cloud, dados e plataformas poderão capturar ganhos extraordinariamente grandes.
Ganham escala e lucros.
Os três podem prosperar ao mesmo tempo.
A questão política e econômica será impedir que o terceiro grupo concentre uma parcela tão grande do valor que os demais sejam economicamente enfraquecidos.
Dois futuros possíveis
Podemos imaginar dois caminhos.
🌈 Futuro A: IA amplamente distribuída
IA fica barata.
Pequenas empresas adotam.
Produtividade cresce.
Novas companhias surgem.
Educação se adapta.
Trabalhadores aprendem novas habilidades.
Concorrência permanece forte.
Produtos ficam baratos.
Salários acompanham produtividade.
Nesse cenário, a inteligência artificial poderá se tornar uma das maiores forças de prosperidade da história.
🌑 Futuro B: IA extremamente concentrada
Poucas empresas controlam infraestrutura.
Pequenos negócios tornam-se dependentes.
Empregos são automatizados rapidamente.
Requalificação ocorre lentamente.
Salários ficam pressionados.
Renda de capital cresce muito mais que renda do trabalho.
Países menos desenvolvidos ficam para trás.
Nesse cenário, a economia pode ficar muito mais rica enquanto grande parte da população sente que ficou mais pobre.
É perfeitamente possível ter crescimento do PIB e insatisfação social ao mesmo tempo.
O futuro provavelmente estará entre esses dois extremos
Tecnologia raramente produz apenas benefícios ou apenas problemas.
A internet criou:
Amazon e pequenos vendedores.
Google e milhões de sites.
YouTube e milhões de criadores.
Uber e milhões de motoristas.
App Store e milhões de desenvolvedores.
Ao mesmo tempo, criou algumas das maiores empresas já vistas.
A IA provavelmente fará algo semelhante — possivelmente em escala ainda maior.
Teremos gigantes.
Mas também teremos empresas minúsculas fazendo coisas que anteriormente exigiriam centenas de funcionários.
O que uma pessoa deveria fazer agora?
Esperar para descobrir quem vencerá é provavelmente a pior estratégia.
Há algumas atitudes razoáveis.
Aprenda IA.
Não apenas prompts. Entenda como aplicá-la ao seu trabalho.
Construa ativos.
Audiência, marca, empresa, conhecimento, software, conteúdo, propriedade intelectual.
Use IA para produtividade.
Pergunte:
“O que atualmente leva três horas e poderia levar 20 minutos?”
Observe seu setor.
As melhores oportunidades podem não estar em criar outra empresa de inteligência artificial.
Podem estar em aplicar IA a um mercado tradicional.
Continue aprendendo.
A tecnologia está mudando rapidamente.
A própria adoção corporativa já avançou bastante: segundo dados compilados pela OCDE, entre os países com informações disponíveis, a parcela de empresas relatando utilização de IA passou de 8,7% em 2023 para 20,2% em 2025.
Ainda estamos no começo.
Perguntas frequentes sobre os impactos da IA
A inteligência artificial vai acabar com os empregos?
Não há evidência suficiente para afirmar que acabará com o trabalho humano. Os estudos atuais apontam mais para transformação de tarefas e profissões, embora algumas funções possam desaparecer e outras sejam criadas.
Quais trabalhadores correm mais risco?
Funções com grande quantidade de tarefas digitais, repetitivas, previsíveis e baseadas em processamento de informação tendem a possuir maior exposição. Ocupações administrativas estão entre as mais expostas à IA generativa segundo a OIT.
A inteligência artificial aumentará a desigualdade?
Pode aumentar, especialmente se os ganhos de produtividade e os retornos sobre capital forem muito concentrados. Mas o resultado dependerá de competição, acesso à tecnologia, educação e políticas econômicas.
Pequenas empresas podem ganhar dinheiro com IA?
Sim. A forte queda dos custos de utilização de modelos torna ferramentas avançadas acessíveis a empresas pequenas. Isso pode reduzir custos e permitir novos negócios.
Os países pobres ficarão para trás?
Existe esse risco. Infraestrutura, conectividade, capacidade computacional, dados e habilidades são distribuídos de maneira desigual. Entretanto, aplicações menores e mais baratas também podem ajudar países em desenvolvimento a capturar benefícios.
A IA produzirá riqueza. A grande batalha será decidir quem ficará com ela
A inteligência artificial provavelmente será uma extraordinária máquina de geração de valor.
Ela poderá reduzir custos.
Acelerar pesquisas.
Melhorar empresas.
Criar medicamentos.
Automatizar burocracia.
Produzir software.
Personalizar educação.
Aumentar produtividade.
Criar negócios que hoje sequer conseguimos imaginar.
Por isso, perguntar se a inteligência artificial será “lucrativa” talvez seja a parte fácil.
Quase certamente será.
A questão difícil é:
lucrativa para quem?
Uma parcela enorme dos lucros poderá ficar com empresas que possuem os chips, modelos, dados, cloud e plataformas.
Mas isso não significa que o restante da sociedade esteja condenado a perder.
A queda acelerada do custo da IA cria uma oportunidade histórica para profissionais, pequenos empreendedores e empresas tradicionais aumentarem dramaticamente sua capacidade produtiva.
A inteligência artificial possui simultaneamente duas características aparentemente contraditórias:
pode concentrar poder e democratizar capacidade.
O resultado dependerá daquilo que fizermos com ela.
Se acesso, educação, concorrência e empreendedorismo avançarem junto com a tecnologia, milhões de pessoas poderão utilizar IA para produzir, empreender e melhorar sua renda.
Se a tecnologia avançar muito mais rapidamente que nossas instituições e nossa capacidade de adaptação, poderemos criar uma economia extraordinariamente produtiva — porém extraordinariamente desigual.
A discussão sobre IA, portanto, não é apenas sobre máquinas inteligentes.
É sobre qual sociedade desejamos construir com essas máquinas.
Talvez essa seja a grande questão econômica das próximas décadas.
Não será simplesmente:
“A inteligência artificial substituirá o ser humano?”
Será:
“Quando humanos e máquinas conseguirem produzir muito mais riqueza, como essa riqueza será distribuída?”
E essa resposta não será determinada apenas pelos algoritmos.
Será determinada por empresas, trabalhadores, empreendedores, governos e pela sociedade.
A tecnologia está sendo construída agora.
A forma como dividiremos seus benefícios também.