Entenda como a blockchain vai mudar seu voto

Entenda como a blockchain vai mudar seu voto

O con­ceito do primeiro blockchain públi­co nasceu em 2008, no arti­go acadêmi­co Bit­coin: um sis­tema finan­ceiro eletrôni­co peer-to-peer, pub­li­ca­do por uma pes­soa ou grupo sob o pseudôn­i­mo de Satoshi Nakamo­to (supos­to cri­ador do bit­coin).

Cri­a­do em um cenário de crise econômi­ca mundi­al e bol­ha imo­bil­iária, o bit­coin nasceu para, entre out­ras coisas, pre­venir o gas­to dup­lo dos val­ores e aumen­tar a con­fi­ança das transações finan­ceiras, levan­do-as para a inter­net.

No ambi­ente dig­i­tal, os dados podem ser copi­a­dos, alter­ados e tro­ca­dos. O blockchain foi a solução para elim­i­nar as duas primeiras car­ac­terís­ti­cas: uma pes­soa não pode gas­tar 1 BTC duas vezes ou diz­er que te envi­ou 10 BTC mas trans­ferir ape­nas 0,01 BTC, por exem­p­lo.

O blockchain é uma rede que fun­ciona com blo­cos encadea­d­os muito seguros que sem­pre car­regam um con­teú­do jun­to a uma impressão dig­i­tal. No caso do bit­coin, esse con­teú­do é uma transação finan­ceira. A saca­da aqui é que o blo­co pos­te­ri­or vai con­ter a impressão dig­i­tal do ante­ri­or mais seu próprio con­teú­do e, com essas duas infor­mações, ger­ar sua própria impressão dig­i­tal. E assim por diante.

A for­ma como vota­mos em nos­sos rep­re­sen­tantes parece ficar cada vez mais anacrôni­ca a medi­da que smart­phones pas­sam a aten­der e con­cen­trar nos­sas neces­si­dades rotineiras. De aplica­tivos de men­sagens a mobile bank­ing, pas­san­do por deliv­ery de comi­da ou ain­da falantes assis­tentes pes­soais para orga­ni­zar a sua agen­da, há uma ver­são dig­i­tal e móv­el para — quase — todo tipo de urgên­cia con­tem­porânea nos­sa.

Uma das fron­teiras ain­da a ser super­a­da diz respeito ao proces­so eleitoral. Se nos fos­se per­mi­ti­da a opção de votar por nos­sas telas, teríamos maior enga­ja­men­to das pop­u­lações ao redor do mun­do? Nos Esta­dos Unidos, por exem­p­lo, onde o voto não é obri­gatório, o país figu­ra na 31ª posição de um rank­ing de enga­ja­men­to que cobre 35 país­es, segun­do a Pew Foun­da­tion. Entre­tan­to, asse­gu­rar um exer­cí­cio democráti­co essen­cial às sociedades em platafor­mas móveis pas­sa por algu­mas com­plex­i­dades – afi­nal como garan­tir a idonei­dade do ato em dis­pos­i­tivos suscetíveis a vaza­men­tos ou invasões? A saí­da, defen­d­em espe­cial­is­tas, pode estar na blockchain.

O que faz da Blockchain segu­ra?

A tec­nolo­gia surgiu em 2008 para sus­ten­tar o bit­coin — mais tarde ela viria a ser usa­da por out­ras crip­to­moedas, como a ether. Em resumo, a blockchain (cor­rente de blo­cos, na tradução lit­er­al) é uma espé­cie de grande livro con­tá­bil, onde são reg­istradas, por exem­p­lo, transações de val­ores de um emis­sor para um des­ti­natário e de for­ma descen­tral­iza­da e dis­tribuí­da. Isso sig­nifi­ca que qual­quer pes­soa pode ter uma cópia dess­es reg­istros em seu próprio com­puta­dor, basi­ca­mente como fun­cionam os tor­rents.

Dada as suas car­ac­terís­ti­cas, a blockchain con­figu­ra como um pro­to­co­lo da con­fi­ança. Nela, todas as transações que acon­te­cem são reunidas em blo­cos, onde cada um é lig­a­do ao ante­ri­or por um elo e cada blo­co é tran­ca­do por uma chave de crip­tografia. Para hack­ear o sis­tema, uma pes­soa pre­cis­aria hack­ear todos os blo­cos e cadeias, algo prati­ca­mente impos­sív­el. Ao mes­mo tem­po, dada que é públi­ca, qual­quer pes­soa pode ver­i­ficar e audi­tar as movi­men­tações nela reg­istradas, sejam transações de val­or do bit­coin ou uma con­tagem de votos em uma eleição, por exem­p­lo. Ao incor­po­rar a tec­nolo­gia nos sis­temas de votação, qual­quer pes­soa pode­ria audi­tar os resul­ta­dos, garan­ti­n­do que todos os votos foram con­ta­dos cor­re­ta­mente e que nen­hu­ma cédu­la fraud­u­len­ta foi adi­ciona­da.

O quão viáv­el é?

Nos últi­mos dois anos, a blockchain tem sido colo­ca­da como a tec­nolo­gia que rev­olu­cionará o mun­do. Para Don Tap­scott, autor do livro “A Econo­mia Dig­i­tal: Promes­sa e Peri­go na era da Inteligên­cia em Rede”, a blockchain sus­ten­tará o que ele chama de “a inter­net do val­or”. Nela, tudo que se tor­na um ati­vo, pode ser transa­ciona­do, geren­ci­a­do e comu­ni­ca­do de uma for­ma segu­ra. Em visi­ta a Cam­pus Par­ty, neste ano, Tap­scott colo­cou a tec­nolo­gia como a saí­da para com­bat­er a cor­rupção. “A blockchain é uma platafor­ma que per­mite uma grande transparên­cia e a luz do sol é um grande desin­fe­tante para a cor­rupção”, disse ele na ocasião em cole­ti­va de impren­sa. “Não é uma boa hora para ser um políti­co cor­rup­to com essas tec­nolo­gia”, com­ple­tou.

Entre­tan­to, dada que é uma tec­nolo­gia emer­gente, muito ain­da pre­cisa ser colo­ca­do em pro­va. André Leon S. Grad­vohl, pro­fes­sor de tec­nolo­gia da Uni­camp e mem­bro sênior do IEEE (Insti­tu­to de Engen­heiros Eletricis­tas e Eletrôni­cos), vê a blockchain como uma grande evolução tec­nológ­i­ca do nos­so sis­tema de votação, mas que ain­da está amadure­cen­do. “Há pou­cas apli­cações reais em sis­temas de votação e ain­da assim são apli­cações em peque­na escala”, diz em entre­vista ao IDG Now!

Entre os exem­p­los de uso da blockchain para um proces­so de votação está o aplica­ti­vo desen­volvi­do pela ONG Democ­ra­cy Earth, o Sov­er­eign. A fer­ra­men­ta recorre ao blockchain para sus­ten­tar o que chama de democ­ra­cia líqui­da — onde indi­ví­du­os pos­suem mais flex­i­bil­i­dade na for­ma como usam seus votos e, na teo­ria, não teri­am fron­teiras para votar. O primeiro teste pilo­to do app foi durante o plebisc­i­to pela paz na Colôm­bia, em 2016. A platafor­ma deu aos expa­tri­a­dos colom­bianos, que não pud­er­am votar no proces­so ofi­cial, uma opor­tu­nidade de par­tic­i­parem do plebisc­i­to.

Nas eleições de 2018 em Ser­ra Leoa, 70% dos votos foram armazena­dos e ver­i­fi­ca­dos na blockchain. Cri­a­da pela start­up Ago­ra, a tec­nolo­gia con­siste em um sis­tema que armazena votos de for­ma anôn­i­ma na cadeia de blo­cos. Uma vez que transações na blockchain podem ser vis­tas por qual­quer pes­soa, isso tor­na o anon­i­ma­to do voto um desafio. Mas fornece­dores da tec­nolo­gia afir­mam ter chega­do a for­mas de garan­tir o anon­i­ma­to, algo necessário para tam­bém con­fi­ar a segu­rança do proces­so democráti­co.

O quão seguro é o voto no Brasil?

André Grad­vohl, do IEEE, argu­men­ta que há duas pro­priedades que fazem de uma eleição eletrôni­ca segu­ra e con­fiáv­el e que não são aten­di­das pelo atu­al sis­tema brasileiro e que pode­ri­am ser “aten­di­das” pela blockchain. A ver­i­fi­ca­bil­i­dade indi­vid­ual, isto é, a pos­si­bil­i­dade de o eleitor ver­i­ficar que seu voto foi con­tabi­liza­do, e a ver­i­fi­ca­bil­i­dade uni­ver­sal, que diz respeito à con­fir­mação que o resul­ta­do da eleição con­sider­ou todos os votos. Ter essas pro­priedades imple­men­tadas evi­taria que alguns par­tidos políti­cos con­tes­tassem o resul­ta­do das eleições, por exem­p­lo. “Acred­i­to que, depois de adap­ta­do e tes­ta­do para um sis­tema de votação eletrôni­ca, a blockchain pode ser útil para garan­tir todas as pro­priedades de segu­rança necessárias”, defende Grad­vohl.

O sis­tema de voto eletrôni­co no Brasil recen­te­mente imple­men­tou a bio­me­tria para colo­car mais uma cama­da de segu­rança ao voto. Mas o pro­fes­sor da Uni­camp é céti­co: “O voto eletrôni­co ain­da pos­sui vul­ner­a­bil­i­dades”.

Entre­tan­to, para com­pro­m­e­ter o sis­tema eletrôni­co de votação no Brasil é pre­ciso de muito tem­po e recur­sos com­puta­cionais para que­brar a segu­rança. Ataques desse tipo não são impos­síveis de faz­er, mas não são muito viáveis. Isso porque, expli­ca Grad­vohl, os algo­rit­mos de aleator­iza­ção dos votos foram mel­ho­ra­dos e a chave crip­tográ­fi­ca ago­ra é úni­ca para cada urna. Antes, uma úni­ca chave era usa­da todas as urnas.

“Atual­mente, essa chave crip­tográ­fi­ca é ger­a­da por um dis­pos­i­ti­vo especí­fi­co em cada urna. Dessa for­ma, mes­mo que um ata­cante con­si­ga desco­brir a chave crip­tográ­fi­ca, ele com­pro­m­e­terá ape­nas uma úni­ca urna. Por essa razão, os esforços e recur­sos envolvi­dos para com­pro­m­e­ter toda uma eleição talvez não sejam com­pen­satórios para um ata­cante ou um grupo mal inten­ciona­do”, detal­ha Grad­vohl.

Quan­do estare­mos aptos a votar através de nos­sos celu­lares?

Nos­sos níveis de ansiedade por tec­nolo­gias futurís­ti­cas são ali­men­ta­dos por um catál­o­go gen­eroso de obras de ficção cien­tí­fi­ca via stream­ing. Logo, soa coer­ente acred­i­tar que votar para pres­i­dente se torne algo cor­riqueiro até 2020. Não é o caso — infe­liz­mente. Ape­sar de testes como as eleições em Ser­ra Leoa mostrarem que a tec­nolo­gia é viáv­el para asse­gu­rar a legit­im­i­dade do voto, há ain­da uma série de testes, inves­ti­men­tos e aut­en­ti­cação no cam­in­ho.

Grad­vohl lem­bra que a blockchain não é exclu­si­va para ates­tar a aut­en­ti­ci­dade de um voto. Mas a bio­me­tria, cada vez mais imper­a­ti­va nos celu­lares atu­ais, como recon­hec­i­men­to facial e leitu­ra de impressão dig­i­tal, com­ple­men­taria a segu­rança do proces­so.

“Usá-los para aut­en­ticar os eleitores e con­tabi­lizar seus votos é uma pos­si­bil­i­dade para o futuro. Antes porém, é pre­ciso realizar muitos teste e ter equipa­men­tos (servi­dores) homolo­ga­dos para realizar essas tare­fas — aut­en­ti­cação, val­i­dação, con­tabi­liza­ção dos votos. É um proces­so que deve demor­ar”, diz o pro­fes­sor da Uni­camp e mem­bro do IEEE.

Posts Similares