
- A inteligência artificial é uma transformação tecnológica real, com aplicações econômicas concretas.
- Existe excesso de entusiasmo, investimento e valorização em algumas empresas e projetos relacionados à IA.
Portanto, eu não diria que “a IA é uma bolha”. Eu diria que há componentes de bolha dentro de uma revolução tecnológica verdadeira.
A comparação com a bolha das empresas “.com”
A comparação é válida, mas precisa ser entendida corretamente.
No fim dos anos 1990, a internet era apresentada como algo que transformaria comércio, comunicação, entretenimento, publicidade e serviços. Isso realmente aconteceu. O problema não era a tecnologia: eram as expectativas exageradas, empresas sem receitas consistentes, preços elevados das ações e investimentos feitos sem um modelo de negócio sustentável.
Muitas empresas desapareceram, investidores perderam dinheiro e a bolsa sofreu uma correção profunda. Porém, a infraestrutura construída permaneceu, o número de usuários continuou crescendo e empresas como Amazon e Google se tornaram gigantes.
Com a IA pode ocorrer algo semelhante:
- A tecnologia continuará evoluindo;
- algumas empresas se tornarão muito valiosas;
- várias startups desaparecerão;
- projetos de data centers poderão ficar ociosos;
- investidores que compraram ativos muito caros poderão ter prejuízo;
- aplicações realmente úteis sobreviverão.
Uma tecnologia pode mudar o mundo e, ainda assim, produzir péssimos retornos para quem investiu no momento ou no preço errado.
Existem sinais de que a IA é realmente útil
A demanda não é apenas imaginária.
No segundo trimestre de 2026, o Google informou crescimento de 82% na receita do Google Cloud, atingindo US$ 24,8 bilhões, com forte participação da infraestrutura e das soluções de IA. A carteira de contratos a executar chegou a US$ 514 bilhões, enquanto o lucro operacional do segmento mais do que triplicou. Esses números são divulgados pela própria companhia e não significam que todo o crescimento veio exclusivamente da IA, mas demonstram demanda empresarial concreta.
A Microsoft também relatou crescimento de 40% no Azure no terceiro trimestre do seu ano fiscal de 2026. A empresa afirmou que a demanda por serviços de nuvem e IA continuava superior à capacidade disponível. O Microsoft 365 Copilot já possuía mais de 20 milhões de licenças empresariais pagas naquele trimestre.
Isso mostra que já existem clientes pagando por:
- capacidade computacional;
- assistentes de programação;
- automação empresarial;
- ferramentas de produtividade;
- geração e análise de conteúdo;
- modelos utilizados por meio de APIs;
- infraestrutura para desenvolver produtos próprios.
Portanto, não estamos falando apenas de apresentações bonitas e promessas para o futuro.
Mas o retorno ainda é desigual
A adoção está crescendo, mas ainda não significa que todas as empresas estejam obtendo resultados financeiros relevantes.
Uma análise publicada pelo Federal Reserve em abril de 2026 estimou que aproximadamente 18% das empresas norte-americanas utilizavam alguma forma de IA no fim de 2025. Ao mesmo tempo, cerca de 41% dos trabalhadores pesquisados afirmavam utilizar IA generativa para atividades profissionais. A grande diferença entre esses números mostra que usar ocasionalmente uma ferramenta não é a mesma coisa que integrar a tecnologia profundamente ao negócio.
Um estudo recente sobre empresas do S&P 500 estimou que, em 2025, apenas 11% possuíam IA profundamente integrada aos processos empresariais e outros 10% a utilizavam diretamente na produção ou na prestação de serviços. Os pesquisadores encontraram sinais de uma “curva J”: inicialmente, a adoção pode elevar custos e reduzir resultados, pois exige reorganização, treinamento e integração antes de começar a gerar benefícios. Como se trata de uma pesquisa acadêmica recente, ela deve ser vista como evidência, não como resposta definitiva.
Também existem evidências positivas, mas moderadas, em programação. Uma meta-análise de 23 estudos encontrou aumento médio de produtividade com assistentes de IA, porém com grandes diferenças entre tarefas e ambientes. Os ganhos foram menores em situações empresariais e projetos reais do que em experiências controladas.
Em outras palavras: a IA funciona, mas não transforma automaticamente todo investimento em lucro.
O tamanho do investimento é realmente preocupante
As cifras são extraordinárias.
A Meta espera investir entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões em 2026, incluindo arrendamentos financeiros, principalmente para ampliar infraestrutura e iniciativas de inteligência artificial. Mesmo com esse gasto, a empresa afirma esperar lucro operacional superior ao de 2025.
A Microsoft investiu aproximadamente US$ 41 bilhões apenas em seu quarto trimestre fiscal de 2026, com cerca de dois terços direcionados a ativos de vida relativamente curta, como processadores e aceleradores.
Esse detalhe é importante: chips de IA podem ficar tecnologicamente ultrapassados rapidamente. Uma empresa pode gastar bilhões em equipamentos que precisarão ser substituídos antes de recuperar completamente o capital.
Autoridades do Federal Reserve já começaram a acompanhar os riscos decorrentes do ritmo dos investimentos, do aumento do uso de dívidas e das conexões financeiras entre data centers, fornecedores de energia e empresas de tecnologia. Ao mesmo tempo, dirigentes do banco central observam que boa parte dos investimentos é realizada por companhias com lucros elevados, o que reduz — mas não elimina — o risco de uma crise sistêmica.
Onde pode estar a verdadeira bolha
A bolha provavelmente não está na ideia de que a IA possui valor. Ela pode estar em quatro áreas:
Valorização de empresas
Algumas companhias podem estar avaliadas como se fossem dominar mercados que ainda nem existem.
Construção exagerada de infraestrutura
Caso os modelos se tornem mais eficientes ou a demanda cresça menos do que o previsto, parte dos data centers poderá gerar retornos inferiores ao esperado.
Startups sem diferenciação
Muitas empresas apenas colocam uma interface sobre modelos de terceiros. Se não possuírem clientes, distribuição, dados próprios ou conhecimento especializado, poderão ser facilmente substituídas.
Expectativa de retorno imediato
As organizações compram ferramentas, mas não mudam processos. O funcionário continua realizando o mesmo trabalho, apenas acrescentando uma etapa de IA. Nesse cenário, surge custo, mas não necessariamente produtividade.
Por que as grandes empresas continuam gastando tanto?
Porque elas enfrentam dois riscos.
O primeiro é investir demais e obter retorno insuficiente.
O segundo é investir pouco e perder a próxima grande plataforma tecnológica.
Para Microsoft, Google, Amazon e Meta, ficar para trás pode ameaçar negócios que já valem centenas de bilhões de dólares. Parte do investimento não busca apenas criar uma nova receita; busca proteger pesquisa, publicidade, serviços de nuvem, softwares corporativos e redes sociais.
Isso torna o cálculo mais complexo. O retorno pode aparecer como:
- aumento de receitas;
- redução de custos;
- permanência dos clientes;
- melhoria dos anúncios;
- proteção do negócio existente;
- criação de novos produtos;
- vantagem competitiva.
Nem sempre será possível apontar uma linha do balanço chamada “lucro da IA”.
O cenário que considero mais provável
Não acredito em um desaparecimento da inteligência artificial.
Acredito em uma fase de seleção mais dura nos próximos anos:
- muitas empresas serão compradas ou fecharão;
- preços de serviços de IA cairão;
- modelos básicos se tornarão mais baratos;
- investidores cobrarão receitas e margens;
- projetos sem utilidade perderão financiamento;
- aplicações especializadas ganharão importância;
- empresas que controlam clientes, dados e distribuição terão vantagem.
Pode ocorrer uma correção forte nas ações e nos investimentos sem que a tecnologia deixe de avançar. Foi exatamente essa distinção que muitas pessoas não fizeram durante a internet: confundiram o desempenho das empresas na bolsa com o futuro da tecnologia.
O que isso significa para pequenos empresários
Para quem desenvolve aplicativos, produz conteúdo ou vende serviços digitais, não é necessário apostar bilhões nem tentar adivinhar qual empresa dominará a IA.
O uso mais inteligente é medir resultados concretos:
- Quanto tempo foi economizado?
- O custo de produção diminuiu?
- A qualidade melhorou?
- Houve aumento de vendas?
- O atendimento ficou mais rápido?
- Quantas correções humanas continuam necessárias?
- A assinatura da ferramenta se paga?
A IA é uma ferramenta e uma infraestrutura. Não é, sozinha, um modelo de negócio.
Minha conclusão é esta: a revolução da IA é real, mas as expectativas financeiras provavelmente estão adiantadas em relação aos resultados econômicos. Haverá desperdício, fracassos e possivelmente correções severas. Ainda assim, as aplicações úteis continuarão se espalhando — assim como a internet continuou crescendo depois do estouro das empresas “.com”.