Quais os impactos da IA no mundo: será lucrativo para todos ou apenas para um pequeno grupo?

A inteligência artificial promete transformar empregos, empresas e economias.

A inteligência artificial pode enriquecer o mundo, mas isso não significa que todos ficarão ricos

Pou­cas tec­nolo­gias na história recente provo­caram simul­tane­a­mente tan­ta esper­ança e tan­ta inqui­etação quan­to a inteligên­cia arti­fi­cial.

Em poucos anos, sis­temas de IA deixaram de ser fer­ra­men­tas restri­tas a lab­o­ratórios de pesquisa e pas­saram a escr­ev­er tex­tos, pro­duzir ima­gens, desen­volver soft­ware, anal­is­ar exam­es, aten­der clientes, cri­ar vídeos, traduzir idiomas, pesquis­ar doc­u­men­tos, pro­gra­mar máquinas e aux­il­iar na toma­da de decisões empre­sari­ais.

A per­gun­ta já não é mais se a inteligên­cia arti­fi­cial trans­for­mará a econo­mia.

Ela já está trans­for­man­do.

A ver­dadeira questão é out­ra:

Quem ficará com a riqueza pro­duzi­da por essa trans­for­mação?

Será que a IA cri­ará uma nova era de pros­peri­dade, na qual peque­nas empre­sas serão mais pro­du­ti­vas, tra­bal­hadores terão jor­nadas menores e con­sum­i­dores rece­berão pro­du­tos mel­hores e mais baratos?

Ou estare­mos cam­in­han­do para uma econo­mia em que pou­cas empre­sas con­tro­larão os mod­e­los, os chips, os dados, os servi­dores e a dis­tribuição, enquan­to mil­hões de pes­soas pre­cis­arão dis­putar uma parcela cada vez menor da ren­da?

Os dados disponíveis per­mitem defend­er os dois cenários.

A IA pos­sui poten­cial extra­ordinário para aumen­tar pro­du­tivi­dade e cri­ar riqueza. Ao mes­mo tem­po, a infraestru­tu­ra necessária para desen­volver os sis­temas mais avança­dos está forte­mente con­cen­tra­da.

Segun­do a UNCTAD, órgão das Nações Unidas para comér­cio e desen­volvi­men­to, o mer­ca­do mundi­al de inteligên­cia arti­fi­cial poderá crescer de aprox­i­mada­mente US$ 189 bil­hões em 2023 para US$ 4,8 tril­hões em 2033. O mes­mo relatório aler­ta, porém, que ape­nas cer­ca de 100 empre­sas — con­cen­tradas prin­ci­pal­mente nos Esta­dos Unidos e na Chi­na — rep­re­sen­tam aprox­i­mada­mente 40% dos gas­tos cor­po­ra­tivos globais com pesquisa e desen­volvi­men­to.

Essa talvez seja a con­tradição cen­tral da rev­olução da IA:

a tec­nolo­gia pode se tornar extrema­mente acessív­el enquan­to sua pro­priedade per­manece extrema­mente con­cen­tra­da.

É pos­sív­el que bil­hões de pes­soas se ben­e­fi­ciem da inteligên­cia arti­fi­cial.

Mas isso não sig­nifi­ca que bil­hões de pes­soas pos­suirão os ativos que ger­arão os maiores lucros.

E essa difer­ença pode definir a econo­mia das próx­i­mas décadas.

A IA pode provocar um salto gigantesco de produtividade

A primeira razão para o enorme entu­si­as­mo econômi­co em torno da inteligên­cia arti­fi­cial está na pro­du­tivi­dade.

Em ter­mos sim­ples, pro­du­tivi­dade sig­nifi­ca pro­duzir mais uti­lizan­do a mes­ma quan­ti­dade de recur­sos — ou pro­duzir a mes­ma coisa gas­tan­do menos tem­po, din­heiro ou esforço.

Imag­ine uma peque­na empre­sa que ante­ri­or­mente pre­cisa­va de:

  • um reda­tor;
  • um design­er;
  • um anal­ista;
  • um aten­dente;
  • um pro­gra­mador;
  • um profis­sion­al de mar­ket­ing.

Com fer­ra­men­tas de inteligên­cia arti­fi­cial, uma peque­na equipe poderá exe­cu­tar parte dessas ativi­dades muito mais rap­i­da­mente.

Isso não sig­nifi­ca nec­es­sari­a­mente elim­i­nar todos ess­es profis­sion­ais.

Sig­nifi­ca aumen­tar dras­ti­ca­mente a capaci­dade pro­du­ti­va de cada pes­soa.

A OCDE esti­mou que, em econo­mias do G7 com ele­va­da exposição à IA e ráp­i­da adoção, a tec­nolo­gia poderá acres­cen­tar entre aprox­i­mada­mente 0,4 e 1,3 pon­to per­centu­al por ano ao cresci­men­to da pro­du­tivi­dade do tra­bal­ho em deter­mi­na­dos cenários ao lon­go de uma déca­da.

Esse número parece pequeno até perce­ber­mos seu efeito acu­mu­la­do.

Uma econo­mia que con­segue crescer con­sis­ten­te­mente alguns déci­mos adi­cionais de pro­du­tivi­dade todos os anos pode ter­mi­nar uma déca­da sig­ni­fica­ti­va­mente mais rica.

É o mes­mo princí­pio obser­va­do em rev­oluções ante­ri­ores.

A elet­ri­ci­dade não criou ape­nas empre­sas de elet­ri­ci­dade.

Ela aumen­tou a pro­du­tivi­dade das fábri­c­as.

A inter­net não criou ape­nas prove­dores.

Trans­for­mou ban­cos, lojas, mídia, logís­ti­ca, tur­is­mo, edu­cação e comu­ni­cação.

A inteligên­cia arti­fi­cial poderá seguir cam­in­ho semel­hante.

A maior riqueza talvez não apareça somente nas empre­sas que ven­dem IA.

Ela poderá sur­gir quan­do mil­hões de empre­sas tradi­cionais começarem a tra­bal­har mel­hor uti­lizan­do IA.

Mas produtividade maior não significa distribuição automática da riqueza

Aqui começa a parte mais com­pli­ca­da.

Imag­ine uma empre­sa com 1.000 fun­cionários.

Ela imple­men­ta sis­temas de IA e con­segue pro­duzir exata­mente o mes­mo resul­ta­do com 700 fun­cionários.

A empre­sa ficou mais pro­du­ti­va.

A econo­mia reg­is­trará gan­ho de efi­ciên­cia.

Mas surgem duas per­gun­tas:

Quem ficará com o gan­ho?

E:

O que acon­te­cerá com os 300 tra­bal­hadores?

Se o aumen­to de pro­du­tivi­dade resul­tar em salários mel­hores, pro­du­tos mais baratos, novos inves­ti­men­tos e cri­ação de novas funções, os bene­fí­cios poderão se espal­har.

Mas se prati­ca­mente todo o gan­ho for trans­for­ma­do em lucro para acionistas e redução per­ma­nente do número de empre­ga­dos, a mes­ma tec­nolo­gia que elevou a pro­du­tivi­dade poderá aumen­tar a desigual­dade.

Esse é um dos prin­ci­pais aler­tas do Fun­do Mon­etário Inter­na­cional.

O FMI esti­ma que quase 40% dos empre­gos no mun­do estão poten­cial­mente expos­tos à inteligên­cia arti­fi­cial. Nas econo­mias avançadas, a exposição chega a aprox­i­mada­mente 60%.

Em janeiro de 2026, o próprio FMI voltou ao tema e desta­cou que essa trans­for­mação exi­girá políti­cas para que os bene­fí­cios da IA sejam dis­tribuí­dos de maneira mais ampla.

Por­tan­to, a per­gun­ta econômi­ca não é ape­nas:

“Quan­to a inteligên­cia arti­fi­cial pro­duzirá?”

Pre­cisamos per­gun­tar tam­bém:

“Como aqui­lo que ela pro­duzir será divi­di­do?”

A IA vai eliminar empregos?

Provavel­mente elim­i­nará algu­mas funções.

Mas a história é muito mais com­plexa do que a frase “a IA vai acabar com os empre­gos”.

A Orga­ni­za­ção Inter­na­cional do Tra­bal­ho real­i­zou uma das anális­es mais impor­tantes sobre o assun­to.

Segun­do a OIT, aprox­i­mada­mente um em cada qua­tro empre­gos no mun­do pos­sui algum grau de exposição à inteligên­cia arti­fi­cial gen­er­a­ti­va. Entre­tan­to, sua con­clusão é espe­cial­mente rel­e­vante: para grande parte dessas ocu­pações, a trans­for­mação do tra­bal­ho é mais prováv­el do que a sub­sti­tu­ição com­ple­ta do tra­bal­hador.

Isso acon­tece porque profis­sões são com­postas por várias tare­fas.

Um advo­ga­do não ape­nas escreve con­tratos.

Um médi­co não ape­nas inter­pre­ta exam­es.

Um pro­fes­sor não ape­nas prepara tex­tos.

Um vende­dor não ape­nas responde men­sagens.

Um pro­gra­mador não ape­nas escreve códi­go.

A IA pode autom­a­ti­zar algu­mas dessas tare­fas sem nec­es­sari­a­mente elim­i­nar toda a profis­são.

A questão é que a profis­são poderá exi­gir menos pes­soas para pro­duzir a mes­ma quan­ti­dade de tra­bal­ho.

E é exata­mente aí que o impacto econômi­co se tor­na difí­cil de pre­v­er.

A diferença entre substituir um emprego e substituir uma tarefa

Supon­ha que um escritório pos­sua dez fun­cionários admin­is­tra­tivos.

Grande parte do tra­bal­ho envolve:

📌 elab­o­rar relatórios;

📌 respon­der emails;

📌 orga­ni­zar infor­mações;

📌 preencher doc­u­men­tos;

📌 pesquis­ar arquiv­os;

📌 preparar apre­sen­tações.

Se a inteligên­cia arti­fi­cial reduzir pela metade o tem­po dessas ativi­dades, duas coisas podem acon­te­cer.

Cenário A: crescimento

O escritório man­tém os dez fun­cionários e atende duas vezes mais clientes.

A IA aumen­tou pro­du­tivi­dade sem destru­ir empre­gos.

Cenário B: redução de custos

O escritório man­tém o mes­mo número de clientes e pas­sa a oper­ar com cin­co fun­cionários.

A pro­du­tivi­dade tam­bém aumen­tou.

Mas cin­co pes­soas perder­am seus empre­gos.

A tec­nolo­gia é a mes­ma.

O resul­ta­do social é com­ple­ta­mente difer­ente.

Isso expli­ca por que é perigoso ten­tar pre­v­er o futuro ape­nas anal­isan­do o que uma IA con­segue tec­ni­ca­mente faz­er.

O impacto depen­derá de:

  • cresci­men­to da deman­da;
  • com­petição;
  • salários;
  • reg­u­la­men­tação;
  • novos mod­e­los de negó­cios;
  • cri­ação de novas profis­sões;
  • veloci­dade de adoção;
  • qual­i­fi­cação dos tra­bal­hadores.

Já vivemos isso antes com outras tecnologias

A automação não começou com Chat­G­PT.

Máquinas agrí­co­las reduzi­ram rad­i­cal­mente a quan­ti­dade de tra­bal­hadores necessária no cam­po.

Robôs indus­tri­ais autom­a­ti­zaram fábri­c­as.

Caixas eletrôni­cos trans­for­maram o tra­bal­ho bancário.

Planil­has sub­sti­tuíram enormes quan­ti­dades de cál­cu­los man­u­ais.

Soft­wares de con­tabil­i­dade autom­a­ti­zaram tare­fas antes real­izadas por grandes equipes.

Inter­net e comér­cio eletrôni­co elim­i­naram algu­mas funções e cri­aram out­ras.

O padrão históri­co cos­tu­ma ser:

tec­nolo­gia elim­i­na tare­fas → pro­du­tivi­dade aumen­ta → empre­sas mudam → novos mer­ca­dos surgem → novas profis­sões apare­cem.

O prob­le­ma é que esse proces­so não acon­tece instan­ta­nea­mente.

A pes­soa que perde o emprego hoje não recebe auto­mati­ca­mente o emprego cri­a­do daqui a cin­co anos.

Essa difer­ença de tem­po é cru­cial.

O FMI já adver­tiu que rev­oluções tec­nológ­i­cas podem pro­duzir lon­gos perío­dos de tran­sição, desem­prego e incom­pat­i­bil­i­dade entre as habil­i­dades que tra­bal­hadores pos­suem e aque­las exigi­das pelos novos empre­gos.

Mas novos empregos também serão criados

Existe out­ro lado da equação.

O Future of Jobs Report 2025, do World Eco­nom­ic Forum, esti­ma que difer­entes trans­for­mações econômi­cas e tec­nológ­i­cas poderão cri­ar aprox­i­mada­mente 170 mil­hões de novos pos­tos de tra­bal­ho até 2030, enquan­to cer­ca de 92 mil­hões poderão desa­pare­cer, deixan­do sal­do líqui­do pos­i­ti­vo de aprox­i­mada­mente 78 mil­hões. Essas pro­jeções incluem IA, automação e diver­sas out­ras tendên­cias econômi­cas e demográ­fi­cas.

Isso não sig­nifi­ca que podemos igno­rar os empre­gos destruí­dos.

Os novos tra­bal­hos poderão:

  • sur­gir em país­es difer­entes;
  • exi­gir qual­i­fi­cações difer­entes;
  • pagar salários difer­entes;
  • apare­cer anos depois;
  • ben­e­fi­ciar pes­soas difer­entes.

Um con­ta­dor de 55 anos que perde parte de sua deman­da dev­i­do à automação não nec­es­sari­a­mente se tornará engen­heiro de inteligên­cia arti­fi­cial.

É jus­ta­mente por isso que edu­cação e requal­i­fi­cação serão tão impor­tantes.

A maior divisão poderá ser entre quem sabe usar IA e quem não sabe

É pos­sív­el que a prin­ci­pal divisão econômi­ca do futuro não seja sim­ples­mente:

humanos ver­sus máquinas.

Talvez seja:

humanos com IA ver­sus humanos sem IA.

Um pro­gra­mador uti­lizan­do IA pode pro­duzir muito mais.

Um advo­ga­do pode anal­is­ar doc­u­men­tos rap­i­da­mente.

Um vende­dor pode preparar pro­postas per­son­al­izadas.

Um pequeno empresário pode pro­duzir cam­pan­has, ima­gens e tex­tos que ante­ri­or­mente exi­giri­am vários fornece­dores.

Um médi­co poderá orga­ni­zar históri­cos e pesquisas com mais veloci­dade.

Um pro­fes­sor poderá adap­tar mate­r­i­al para difer­entes alunos.

Isso cria um novo tipo de van­tagem com­pet­i­ti­va.

Quem apren­der a incor­po­rar inteligên­cia arti­fi­cial ao próprio tra­bal­ho poderá se tornar sig­ni­fica­ti­va­mente mais pro­du­ti­vo.

O FMI desta­cou em 2026 que habil­i­dades rela­cionadas à IA estão gan­han­do espaço no mer­ca­do e que a qual­i­fi­cação será fun­da­men­tal para aproveitar os novos empre­gos cri­a­dos.

E quem poderá ganhar mais dinheiro com a inteligência artificial?

É pos­sív­el imag­i­nar cin­co grandes gru­pos econômi­cos cap­turan­do parte sig­ni­fica­ti­va dos gan­hos.

1️⃣ Empresas que controlam infraestrutura

Grandes mod­e­los depen­dem de:

  • chips;
  • data cen­ters;
  • ener­gia;
  • redes;
  • armazena­men­to;
  • com­putação em nuvem.

Quem con­tro­la essa infraestru­tu­ra fun­ciona quase como fornece­dor das “máquinas” da rev­olução indus­tri­al da IA.

Mes­mo que mil­hares de empre­sas criem aplica­tivos uti­lizan­do inteligên­cia arti­fi­cial, grande parte delas con­tin­uará pagan­do pelos recur­sos com­puta­cionais que tor­nam ess­es sis­temas pos­síveis.


2️⃣ Empresas que desenvolvem os grandes modelos

Out­ra cama­da econômi­ca extrema­mente valiosa são os mod­e­los fun­da­men­tais.

São sis­temas capazes de:

  • com­preen­der lin­guagem;
  • pro­duzir tex­to;
  • escr­ev­er códi­go;
  • ger­ar ima­gens;
  • proces­sar áudio;
  • anal­is­ar vídeo;
  • uti­lizar fer­ra­men­tas.

Desen­volvê-los pode exi­gir enormes quan­ti­dades de dados, tal­en­to e infraestru­tu­ra.

Essa bar­reira pode favore­cer empre­sas com cap­i­tal muito ele­va­do.

É um dos motivos pelos quais existe pre­ocu­pação com con­cen­tração.

A UNCTAD chama atenção jus­ta­mente para o fato de infraestru­tu­ra, con­hec­i­men­to e inves­ti­men­to de IA estarem con­cen­tra­dos em pou­cas econo­mias e empre­sas.


3️⃣ Empresas que possuem dados

Dados poderão se tornar ain­da mais estratégi­cos.

Imag­ine duas empre­sas médi­cas uti­lizan­do mod­e­los semel­hantes.

Uma pos­sui mil­hões de reg­istros clíni­cos dev­i­da­mente orga­ni­za­dos e autor­iza­dos.

Out­ra não.

Qual delas poderá desen­volver soluções mais especí­fi­cas?

O mes­mo vale para:

ban­cos;

segu­rado­ras;

vare­jis­tas;

indús­trias;

platafor­mas;

empre­sas de logís­ti­ca.

A IA ger­al estará cada vez mais disponív­el.

Mas dados exclu­sivos e rel­e­vantes poderão con­tin­uar sendo uma van­tagem com­pet­i­ti­va extrema­mente poderosa.


4️⃣ Empresas que controlam a distribuição

Às vezes, pos­suir a mel­hor tec­nolo­gia não é sufi­ciente.

Quem con­tro­la o rela­ciona­men­to com o cliente pos­sui enorme van­tagem.

Sis­temas opera­cionais.

Smart TVs.

Smart­phones.

Mar­ket­places.

Redes soci­ais.

Bus­cadores.

Nave­g­adores.

Platafor­mas cor­po­ra­ti­vas.

Quem pos­sui bil­hões de usuários pode adi­cionar inteligên­cia arti­fi­cial àqui­lo que já uti­liza.

É muito mais difí­cil para uma start­up con­quis­tar 100 mil­hões de usuários do que para uma platafor­ma com 100 mil­hões de usuários sim­ples­mente adi­cionar uma nova função de IA.


5️⃣ Pequenos empreendedores — e aqui está uma enorme oportunidade

Até aqui, pode pare­cer que a inteligên­cia arti­fi­cial favore­cerá ape­nas gigantes tec­nológi­cos.

Mas existe uma força atuan­do no sen­ti­do opos­to.

O cus­to para uti­lizar IA está despen­can­do.

O AI Index da Stan­ford mostrou que o cus­to de infer­ên­cia de um sis­tema com desem­pen­ho com­paráv­el ao GPT‑3.5 em deter­mi­na­do bench­mark caiu mais de 280 vezes entre novem­bro de 2022 e out­ubro de 2024. Depen­den­do da tare­fa anal­isa­da, os cus­tos de uti­liza­ção de mod­e­los caíram em ordens de mag­ni­tude.

Esse fenô­meno é fun­da­men­tal.

Se fer­ra­men­tas extrema­mente poderosas ficarem baratas, pequenos empresários poderão aces­sar recur­sos antes disponíveis somente para grandes cor­po­rações.

Uma empre­sa com três pes­soas poderá ter:

🤖 atendi­men­to autom­a­ti­za­do;

🎨 ger­ação de pub­li­ci­dade;

📊 análise de dados;

💻 desen­volvi­men­to assis­ti­do;

📧 automação com­er­cial;

🎬 cri­ação de vídeos;

📝 pro­dução de con­teú­do;

🌎 tradução automáti­ca.

É pos­sív­el que a IA pro­duza uma explosão de microem­pre­sas alta­mente pro­du­ti­vas.

Pela primeira vez, pequenas empresas poderão ganhar “superpoderes corporativos”

Imag­ine uma peque­na agên­cia com qua­tro fun­cionários.

Dez anos atrás ela provavel­mente não teria condições de man­ter:

um depar­ta­men­to de design;

um pro­gra­mador;

um depar­ta­men­to jurídi­co;

um tradu­tor;

uma equipe de análise;

um atendi­men­to 24 horas.

Com IA, ela poderá aces­sar ver­sões autom­a­ti­zadas de várias dessas capaci­dades.

Isso reduz bar­reiras de entra­da.

A própria OCDE recon­hece essa dual­i­dade: inteligên­cia arti­fi­cial pode reduzir cus­tos e favore­cer novos entrantes, mas tam­bém pode for­t­ale­cer grandes empre­sas quan­do estas pos­suem van­ta­gens em dados, com­putação, inte­gração ver­ti­cal e ecos­sis­temas.

É uma ver­dadeira cor­ri­da entre duas forças:

democ­ra­ti­za­ção da capaci­dade ver­sus con­cen­tração da infraestru­tu­ra.

O custo da IA está caindo, mas o custo de construir a fronteira está aumentando

Esse talvez seja o para­doxo mais inter­es­sante de toda a rev­olução.

Para usar IA, está fican­do bara­to.

Para con­stru­ir os sis­temas mais avança­dos, pode con­tin­uar extrema­mente caro.

É semel­hante à indús­tria aérea.

Com­prar uma pas­sagem tornou o trans­porte aéreo acessív­el a mil­hões de pes­soas.

Con­stru­ir uma fab­ri­cante mundi­al de aviões con­tin­ua sendo extra­or­di­nar­i­a­mente difí­cil.

É per­feita­mente pos­sív­el que a inteligên­cia arti­fi­cial siga esse padrão.

Bil­hões poderão uti­lizar fer­ra­men­tas avançadas.

Mil­hões poderão con­stru­ir negó­cios sobre elas.

Mas ape­nas algu­mas empre­sas poderão con­tro­lar a infraestru­tu­ra fun­da­men­tal.

Quem será mais rico: os criadores ou os usuários da IA?

Provavel­mente ambos poderão gan­har.

Mas de maneiras difer­entes.

Uma empre­sa que con­tro­la infraestru­tu­ra poderá cap­turar lucros extra­ordinários.

Um pequeno empresário poderá aumen­tar sua ren­da uti­lizan­do essa infraestru­tu­ra.

Um fun­cionário poderá gan­har salário maior por tornar-se mais pro­du­ti­vo.

Um con­sum­i­dor poderá gan­har mes­mo sem rece­ber um úni­co cen­ta­vo dire­ta­mente.

Como?

Econ­o­mizan­do din­heiro e tem­po.

Imag­ine uma fer­ra­men­ta gra­tui­ta que:

  • traduza qual­quer idioma;
  • explique con­tratos;
  • ajude a estu­dar;
  • ensine pro­gra­mação;
  • faça plane­ja­men­to finan­ceiro;
  • pro­duza doc­u­men­tos;
  • orga­nize infor­mações.

Mes­mo que o usuário nun­ca rece­ba din­heiro da empre­sa que criou a IA, ele está receben­do val­or econômi­co.

Esse pon­to é fre­quente­mente esque­ci­do.

Bene­fí­cio econômi­co não é a mes­ma coisa que lucro empre­sar­i­al.

A IA poderá mel­ho­rar a vida de bil­hões de pes­soas enquan­to grande parte do lucro finan­ceiro fica con­cen­tra­da.

As duas coisas podem acon­te­cer simul­tane­a­mente.

O AI Index 2026 da Stan­ford apon­ta que a adoção da IA gen­er­a­ti­va con­tin­ua se expandin­do rap­i­da­mente, ao mes­mo tem­po em que os inves­ti­men­tos pri­va­dos per­manecem forte­mente con­cen­tra­dos, espe­cial­mente nos Esta­dos Unidos. Em 2025, o inves­ti­men­to pri­va­do amer­i­cano em IA alcançou aprox­i­mada­mente US$ 285,9 bil­hões, segun­do o relatório.

Países ricos podem ganhar mais do que países pobres

A desigual­dade não acon­te­cerá ape­nas entre pes­soas e empre­sas.

Pode acon­te­cer entre país­es.

A inteligên­cia arti­fi­cial depende de qua­tro ele­men­tos que o Ban­co Mundi­al resume como os “4 Cs”:

Con­nec­tiv­i­ty — conec­tivi­dade;

Com­pute — capaci­dade com­puta­cional;

Con­text — dados rel­e­vantes;

Com­pe­ten­cy — com­petên­cias e habil­i­dades.

País­es que pos­suem ess­es ele­men­tos estarão mel­hor posi­ciona­dos para aproveitar os bene­fí­cios da IA.

Onde fal­ta inter­net con­fiáv­el, ener­gia, profis­sion­ais qual­i­fi­ca­dos e infraestru­tu­ra com­puta­cional, a adoção poderá ser mais lenta.

Isso cria um risco perigoso.

Econo­mias avançadas podem:

ado­tar IA mais rap­i­da­mente → aumen­tar pro­du­tivi­dade → enrique­cer → inve­stir mais em IA → aumen­tar nova­mente pro­du­tivi­dade.

É um ciclo pos­i­ti­vo.

País­es pobres podem ficar pre­sos no ciclo inver­so.

O Ban­co Mundi­al aler­ta que país­es de ren­da baixa e média enfrentam bar­reiras sub­stan­ci­ais para implan­tar IA em escala, emb­o­ra fer­ra­men­tas de “Small AI”, mais baratas e exe­cutáveis em dis­pos­i­tivos comuns, pos­sam aju­dar a reduzir parte dessa dis­tân­cia.

E o Brasil?

Para o Brasil, a inteligên­cia arti­fi­cial rep­re­sen­ta tan­to um risco quan­to uma extra­ordinária opor­tu­nidade.

O país pos­sui:

mais de 200 mil­hões de con­sum­i­dores;

grande mer­ca­do dig­i­tal;

sis­tema finan­ceiro tec­no­logi­ca­mente avança­do;

agri­cul­tura sofisti­ca­da;

forte ecos­sis­tema de fin­techs;

empre­sas de soft­ware;

mer­ca­do pub­lic­itário expres­si­vo;

enorme setor de serviços.

Ao mes­mo tem­po, pos­sui desafios con­heci­dos:

desigual­dade edu­ca­cional;

baixa pro­du­tivi­dade média;

grande infor­mal­i­dade;

difer­enças region­ais;

lim­i­tações de qual­i­fi­cação tec­nológ­i­ca.

Um estu­do do FMI sobre pro­du­tivi­dade na Améri­ca Lati­na obser­vou que a exposição region­al à IA tende a ser infe­ri­or à das econo­mias avançadas, em parte dev­i­do à estru­tu­ra pro­du­ti­va e à infor­mal­i­dade. Isso sig­nifi­ca menor risco ime­di­a­to de automação em algu­mas áreas, mas tam­bém pode sig­nificar menos opor­tu­nidades de col­her gan­hos de pro­du­tivi­dade.

O maior erro seria inter­pre­tar a exposição menor como van­tagem.

Talvez o ver­dadeiro risco não seja:

“a IA sub­sti­tuirá todos os brasileiros.”

Pode ser:

“empre­sas e país­es que uti­lizam IA se tornarão muito mais pro­du­tivos enquan­to parte da econo­mia brasileira con­tin­uará tra­bal­han­do como antes.”

Uma padaria com IA continuará sendo uma padaria

Existe uma ideia equiv­o­ca­da de que todos terão de se tornar pro­gra­madores ou cien­tis­tas de dados.

Não.

Grande parte da rev­olução acon­te­cerá den­tro de empre­sas tradi­cionais.

Imag­ine uma padaria uti­lizan­do IA.

Ela poderá pre­v­er deman­da.

Con­tro­lar estoque.

Cri­ar pro­moções.

Respon­der clientes.

Pro­duzir con­teú­do.

Anal­is­ar cus­tos.

Plane­jar com­pras.

A empre­sa não deixou de ser uma padaria.

Ape­nas se tornou uma padaria tec­no­logi­ca­mente mais efi­ciente.

O mes­mo ocor­rerá com:

acad­e­mias;

restau­rantes;

igre­jas;

clíni­cas;

imo­bil­iárias;

lojas;

esco­las;

hotéis;

canais de tele­visão;

trans­porta­do­ras;

presta­dores de serviços.

A maior opor­tu­nidade com­er­cial talvez não seja sim­ples­mente vender inteligên­cia arti­fi­cial.

Pode ser:

usar IA para oper­ar mel­hor um negó­cio que já existe.

Existe risco de uma sociedade extremamente desigual?

Sim.

Imag­ine um cenário extremo.

As empre­sas mais poderosas con­tro­lam:

chips;

mod­e­los;

dados;

cloud;

dis­tribuição;

robóti­ca.

A inteligên­cia arti­fi­cial pas­sa a realizar parcela cres­cente do tra­bal­ho int­elec­tu­al.

Robôs real­izam parcela cres­cente do tra­bal­ho físi­co.

A pro­dução econômi­ca dis­para.

Mas o número de tra­bal­hadores necessários cai.

Nesse mun­do, quem pos­sui cap­i­tal pode cap­turar uma parcela cres­cente da ren­da.

Quem depende exclu­si­va­mente de vender horas de tra­bal­ho enfrenta pressão.

Essa não é uma pre­visão inevitáv­el.

É um pos­sív­el resul­ta­do econômi­co.

O FMI já aler­tou que a inteligên­cia arti­fi­cial pode aumen­tar desigual­dade em deter­mi­nadas cir­cun­stân­cias, espe­cial­mente quan­do os gan­hos de pro­du­tivi­dade e os retornos de cap­i­tal ficam con­cen­tra­dos.

O grande debate será trabalho versus capital

Grande parte da ren­da das famílias vem de salários.

Grande parte da ren­da dos investi­dores vem da pro­priedade de ativos.

Se a IA aumen­tar dras­ti­ca­mente a pro­du­tivi­dade do cap­i­tal, poder­e­mos obser­var uma mudança na relação entre os dois.

Imag­ine uma fábri­ca alta­mente autom­a­ti­za­da.

O val­or da fábri­ca cresce.

Os equipa­men­tos ficam mais pro­du­tivos.

Os soft­wares ficam mais impor­tantes.

Mas menos tra­bal­hadores são necessários.

Quem pos­sui:

ações;

empre­sas;

pro­priedade int­elec­tu­al;

infraestru­tu­ra;

par­tic­i­pações;

dados;

poderá cap­turar uma parcela cres­cente da riqueza.

Por isso o debate sobre IA não será ape­nas tec­nológi­co.

Será tam­bém uma dis­cussão sobre:

pro­priedade.

Educação será a política econômica mais importante da era da IA

Não bas­ta ensi­nar pes­soas a usar um chat­bot.

A edu­cação pre­cis­ará mudar.

O profis­sion­al do futuro pre­cis­ará com­bi­nar:

🧠 pen­sa­men­to críti­co;

🤖 capaci­dade de tra­bal­har com IA;

🎯 con­hec­i­men­to especí­fi­co de um setor;

🗣️ comu­ni­cação;

💡 cria­tivi­dade;

🤝 rela­ciona­men­to humano;

📊 inter­pre­tação de dados;

⚖️ jul­ga­men­to e respon­s­abil­i­dade.

As tare­fas mais repet­i­ti­vas e pre­visíveis serão as mais vul­neráveis.

Tra­bal­hos que com­bi­nam con­hec­i­men­to, jul­ga­men­to, inter­ação humana e respon­s­abil­i­dade ten­dem a ter maior capaci­dade de com­ple­men­tar a tec­nolo­gia.

A OIT desta­ca que a questão cen­tral provavel­mente será a trans­for­mação da qual­i­dade e do con­teú­do dos empre­gos, e não sim­ples­mente uma elim­i­nação gen­er­al­iza­da de profis­sões inteiras.

O empreendedor individual poderá ser um dos grandes vencedores

Existe um cenário bas­tante otimista.

Imag­ine alguém com uma boa ideia.

Antiga­mente, pre­cisa­va con­tratar:

design­er;

pro­gra­mador;

reda­tor;

suporte;

mar­ket­ing;

con­ta­dor;

vende­dor.

O cus­to ini­cial podia matar o pro­je­to.

Com inteligên­cia arti­fi­cial, um indi­ví­duo poderá realizar uma parte sig­ni­fica­ti­va dessas ativi­dades soz­in­ho.

Isso per­mite uma nova cat­e­go­ria de empre­sa:

negó­cios minús­cu­los em estru­tu­ra e enormes em pro­du­tivi­dade.

Uma pes­soa pode admin­is­trar uma platafor­ma.

Duas pes­soas podem oper­ar uma agên­cia.

Cin­co pes­soas podem aten­der mil­hares de clientes.

É por isso que seria pre­cip­i­ta­do con­cluir que os gan­hos econômi­cos da IA serão exclu­sivos das grandes empre­sas.

As platafor­mas podem ficar con­cen­tradas.

Mas os negó­cios con­struí­dos sobre essas platafor­mas podem ser extrema­mente dis­tribuí­dos.

O smartphone pode se transformar em uma pequena empresa

Essa talvez seja uma das maiores democ­ra­ti­za­ções pos­síveis.

Um empreende­dor de uma peque­na cidade poderá uti­lizar o mes­mo tipo de fer­ra­men­ta de IA usa­da em grandes cen­tros.

Poderá:

cri­ar anún­cios;

pro­gra­mar;

vender;

traduzir;

pesquis­ar;

pro­duzir vídeos;

aten­der clientes;

anal­is­ar con­tratos;

cri­ar apre­sen­tações.

O Ban­co Mundi­al chama atenção jus­ta­mente para o poten­cial das apli­cações menores e mais acessíveis de inteligên­cia arti­fi­cial em país­es em desen­volvi­men­to, espe­cial­mente quan­do podem fun­cionar em equipa­men­tos comuns.

Se essa tendên­cia con­tin­uar, a IA poderá reduzir a van­tagem históri­ca de quem tin­ha aces­so a equipes caras e con­hec­i­men­to espe­cial­iza­do.

Mas existe outro risco: todo mundo usar as mesmas ferramentas

Se mil­hões de pes­soas uti­lizarem IA para pro­duzir:

arti­gos;

vídeos;

pub­li­ci­dade;

aplica­tivos;

lojas;

ebooks;

design;

a quan­ti­dade de con­teú­do pode explodir.

Quan­do pro­duzir fica bara­to, dis­tribuir e con­quis­tar atenção ficam mais valiosos.

Isso sig­nifi­ca que alguns recur­sos se tornarão ain­da mais impor­tantes:

mar­ca;

rep­utação;

audiên­cia;

comu­nidade;

con­fi­ança;

rela­ciona­men­to;

dados exclu­sivos.

A IA pode democ­ra­ti­zar pro­dução.

Mas não nec­es­sari­a­mente democ­ra­ti­zar atenção.

O recurso escasso mudará

Antes, escr­ev­er soft­ware era escas­so.

Cri­ar um vídeo profis­sion­al era caro.

Pro­duzir uma imagem exi­gia tra­bal­ho espe­cial­iza­do.

Cri­ar uma cam­pan­ha deman­da­va equipe.

A IA reduz parte dessa escassez.

Quan­do algo deixa de ser escas­so, out­ra coisa pas­sa a valer mais.

No futuro, talvez os recur­sos real­mente escas­sos sejam:

con­fi­ança, audiên­cia, rep­utação, orig­i­nal­i­dade, dados próprios e rela­ciona­men­to humano.

Esse é um aspec­to impor­tante para empresários.

A tec­nolo­gia pode ser copi­a­da.

A con­fi­ança con­struí­da com clientes é muito mais difí­cil de copi­ar.

O papel dos governos será decisivo

Se a IA aumen­tar muito a riqueza econômi­ca, gov­er­nos enfrentarão uma per­gun­ta inevitáv­el:

como garan­tir que os bene­fí­cios sejam dis­tribuí­dos de for­ma sufi­cien­te­mente ampla?

As respostas podem incluir:

  • edu­cação;
  • requal­i­fi­cação profis­sion­al;
  • políti­cas de com­petição;
  • infraestru­tu­ra dig­i­tal;
  • aces­so a com­putação;
  • apoio a peque­nas empre­sas;
  • pro­teção social;
  • trib­u­tação ade­qua­da;
  • incen­ti­vo à ino­vação;
  • regras de transparên­cia e respon­s­abil­i­dade.

A OCDE desta­ca que políti­cas de con­cor­rên­cia e aces­so serão impor­tantes jus­ta­mente porque desen­volvi­men­to e adoção de IA podem ficar con­cen­tra­dos.

O obje­ti­vo não dev­e­ria ser impedir empre­sas de gan­har din­heiro com inteligên­cia arti­fi­cial.

Grandes retornos podem incen­ti­var ino­vação.

O desafio é evi­tar uma estru­tu­ra na qual ape­nas algu­mas empre­sas con­sigam par­tic­i­par da nova econo­mia.

Modelos abertos podem ajudar a democratizar a IA

Existe uma força impor­tante con­tra a con­cen­tração: mod­e­los aber­tos ou de pesos disponi­bi­liza­dos mais ampla­mente.

Se empre­sas, desen­volve­dores e uni­ver­si­dades con­seguirem uti­lizar mod­e­los avança­dos sem depen­der exclu­si­va­mente de platafor­mas fechadas, poderá sur­gir um ecos­sis­tema muito maior.

O AI Index 2025 mostrou que mod­e­los de peso aber­to estavam reduzin­do rap­i­da­mente a difer­ença de desem­pen­ho em relação aos sis­temas fecha­dos em deter­mi­na­dos bench­marks.

Isso não elim­i­na a neces­si­dade de infraestru­tu­ra.

Mas pode reduzir dependên­cia.

É pos­sív­el imag­i­nar um futuro com:

grandes mod­e­los globais;

mod­e­los espe­cial­iza­dos;

mod­e­los nacionais;

mod­e­los cor­po­ra­tivos;

mod­e­los fun­cio­nan­do local­mente.

Quan­to maior a diver­si­dade, menor o risco de uma úni­ca empre­sa con­tro­lar toda a inteligên­cia dig­i­tal.

Então a IA será lucrativa para todos ou para poucos?

A respos­ta mais prováv­el é:

nem uma coisa nem out­ra de for­ma abso­lu­ta.

Os bene­fí­cios poderão atin­gir quase todos.

Os lucros provavel­mente serão dis­tribuí­dos de maneira muito mais desigual.

Podemos imag­i­nar três níveis.

🟢 Nível 1 — consumidores

Bil­hões poderão rece­ber serviços mel­hores, baratos ou gra­tu­itos.

Gan­ham val­or.

🟡 Nível 2 — profissionais e empresas

Quem uti­lizar IA cor­re­ta­mente poderá aumen­tar pro­du­tivi­dade e ren­da.

Gan­ham efi­ciên­cia e opor­tu­nidades.

🔴 Nível 3 — proprietários da infraestrutura

Empre­sas que con­tro­larem chips, mod­e­los, cloud, dados e platafor­mas poderão cap­turar gan­hos extra­or­di­nar­i­a­mente grandes.

Gan­ham escala e lucros.

Os três podem pros­per­ar ao mes­mo tem­po.

A questão políti­ca e econômi­ca será impedir que o ter­ceiro grupo con­cen­tre uma parcela tão grande do val­or que os demais sejam eco­nomi­ca­mente enfraque­ci­dos.

Dois futuros possíveis

Podemos imag­i­nar dois cam­in­hos.

🌈 Futuro A: IA amplamente distribuída

IA fica bara­ta.

Peque­nas empre­sas ado­tam.

Pro­du­tivi­dade cresce.

Novas com­pan­hias surgem.

Edu­cação se adap­ta.

Tra­bal­hadores apren­dem novas habil­i­dades.

Con­cor­rên­cia per­manece forte.

Pro­du­tos ficam baratos.

Salários acom­pan­ham pro­du­tivi­dade.

Nesse cenário, a inteligên­cia arti­fi­cial poderá se tornar uma das maiores forças de pros­peri­dade da história.


🌑 Futuro B: IA extremamente concentrada

Pou­cas empre­sas con­tro­lam infraestru­tu­ra.

Pequenos negó­cios tor­nam-se depen­dentes.

Empre­gos são autom­a­ti­za­dos rap­i­da­mente.

Requal­i­fi­cação ocorre lenta­mente.

Salários ficam pres­sion­a­dos.

Ren­da de cap­i­tal cresce muito mais que ren­da do tra­bal­ho.

País­es menos desen­volvi­dos ficam para trás.

Nesse cenário, a econo­mia pode ficar muito mais rica enquan­to grande parte da pop­u­lação sente que ficou mais pobre.

É per­feita­mente pos­sív­el ter cresci­men­to do PIB e insat­is­fação social ao mes­mo tem­po.

O futuro provavelmente estará entre esses dois extremos

Tec­nolo­gia rara­mente pro­duz ape­nas bene­fí­cios ou ape­nas prob­le­mas.

A inter­net criou:

Ama­zon e pequenos vende­dores.

Google e mil­hões de sites.

YouTube e mil­hões de cri­adores.

Uber e mil­hões de motoris­tas.

App Store e mil­hões de desen­volve­dores.

Ao mes­mo tem­po, criou algu­mas das maiores empre­sas já vis­tas.

A IA provavel­mente fará algo semel­hante — pos­sivel­mente em escala ain­da maior.

Ter­e­mos gigantes.

Mas tam­bém ter­e­mos empre­sas minús­cu­las fazen­do coisas que ante­ri­or­mente exi­giri­am cen­te­nas de fun­cionários.

O que uma pessoa deveria fazer agora?

Esper­ar para desco­brir quem vencerá é provavel­mente a pior estraté­gia.

Há algu­mas ati­tudes razoáveis.

Apren­da IA.

Não ape­nas prompts. Enten­da como aplicá-la ao seu tra­bal­ho.

Con­strua ativos.

Audiên­cia, mar­ca, empre­sa, con­hec­i­men­to, soft­ware, con­teú­do, pro­priedade int­elec­tu­al.

Use IA para pro­du­tivi­dade.

Per­gunte:

“O que atual­mente leva três horas e pode­ria levar 20 min­u­tos?”

Observe seu setor.

As mel­hores opor­tu­nidades podem não estar em cri­ar out­ra empre­sa de inteligên­cia arti­fi­cial.

Podem estar em aplicar IA a um mer­ca­do tradi­cional.

Con­tin­ue apren­den­do.

A tec­nolo­gia está mudan­do rap­i­da­mente.

A própria adoção cor­po­ra­ti­va já avançou bas­tante: segun­do dados com­pi­la­dos pela OCDE, entre os país­es com infor­mações disponíveis, a parcela de empre­sas rela­tan­do uti­liza­ção de IA pas­sou de 8,7% em 2023 para 20,2% em 2025.

Ain­da esta­mos no começo.

Perguntas frequentes sobre os impactos da IA

A inteligência artificial vai acabar com os empregos?

Não há evidên­cia sufi­ciente para afir­mar que acabará com o tra­bal­ho humano. Os estu­dos atu­ais apon­tam mais para trans­for­mação de tare­fas e profis­sões, emb­o­ra algu­mas funções pos­sam desa­pare­cer e out­ras sejam cri­adas.

Quais trabalhadores correm mais risco?

Funções com grande quan­ti­dade de tare­fas dig­i­tais, repet­i­ti­vas, pre­visíveis e baseadas em proces­sa­men­to de infor­mação ten­dem a pos­suir maior exposição. Ocu­pações admin­is­tra­ti­vas estão entre as mais expostas à IA gen­er­a­ti­va segun­do a OIT.

A inteligência artificial aumentará a desigualdade?

Pode aumen­tar, espe­cial­mente se os gan­hos de pro­du­tivi­dade e os retornos sobre cap­i­tal forem muito con­cen­tra­dos. Mas o resul­ta­do depen­derá de com­petição, aces­so à tec­nolo­gia, edu­cação e políti­cas econômi­cas.

Pequenas empresas podem ganhar dinheiro com IA?

Sim. A forte que­da dos cus­tos de uti­liza­ção de mod­e­los tor­na fer­ra­men­tas avançadas acessíveis a empre­sas peque­nas. Isso pode reduzir cus­tos e per­mi­tir novos negó­cios.

Os países pobres ficarão para trás?

Existe esse risco. Infraestru­tu­ra, conec­tivi­dade, capaci­dade com­puta­cional, dados e habil­i­dades são dis­tribuí­dos de maneira desigual. Entre­tan­to, apli­cações menores e mais baratas tam­bém podem aju­dar país­es em desen­volvi­men­to a cap­turar bene­fí­cios.


A IA produzirá riqueza. A grande batalha será decidir quem ficará com ela

A inteligên­cia arti­fi­cial provavel­mente será uma extra­ordinária máquina de ger­ação de val­or.

Ela poderá reduzir cus­tos.

Acel­er­ar pesquisas.

Mel­ho­rar empre­sas.

Cri­ar medica­men­tos.

Autom­a­ti­zar buro­c­ra­cia.

Pro­duzir soft­ware.

Per­son­alizar edu­cação.

Aumen­tar pro­du­tivi­dade.

Cri­ar negó­cios que hoje sequer con­seguimos imag­i­nar.

Por isso, per­gun­tar se a inteligên­cia arti­fi­cial será “lucra­ti­va” talvez seja a parte fácil.

Quase cer­ta­mente será.

A questão difí­cil é:

lucra­ti­va para quem?

Uma parcela enorme dos lucros poderá ficar com empre­sas que pos­suem os chips, mod­e­los, dados, cloud e platafor­mas.

Mas isso não sig­nifi­ca que o restante da sociedade este­ja con­de­na­do a perder.

A que­da acel­er­a­da do cus­to da IA cria uma opor­tu­nidade históri­ca para profis­sion­ais, pequenos empreende­dores e empre­sas tradi­cionais aumentarem dra­mati­ca­mente sua capaci­dade pro­du­ti­va.

A inteligên­cia arti­fi­cial pos­sui simul­tane­a­mente duas car­ac­terís­ti­cas aparente­mente con­tra­ditórias:

pode con­cen­trar poder e democ­ra­ti­zar capaci­dade.

O resul­ta­do depen­derá daqui­lo que fiz­er­mos com ela.

Se aces­so, edu­cação, con­cor­rên­cia e empreende­doris­mo avançarem jun­to com a tec­nolo­gia, mil­hões de pes­soas poderão uti­lizar IA para pro­duzir, empreen­der e mel­ho­rar sua ren­da.

Se a tec­nolo­gia avançar muito mais rap­i­da­mente que nos­sas insti­tu­ições e nos­sa capaci­dade de adap­tação, poder­e­mos cri­ar uma econo­mia extra­or­di­nar­i­a­mente pro­du­ti­va — porém extra­or­di­nar­i­a­mente desigual.

A dis­cussão sobre IA, por­tan­to, não é ape­nas sobre máquinas inteligentes.

É sobre qual sociedade dese­jamos con­stru­ir com essas máquinas.

Talvez essa seja a grande questão econômi­ca das próx­i­mas décadas.

Não será sim­ples­mente:

“A inteligên­cia arti­fi­cial sub­sti­tuirá o ser humano?”

Será:

“Quan­do humanos e máquinas con­seguirem pro­duzir muito mais riqueza, como essa riqueza será dis­tribuí­da?”

E essa respos­ta não será deter­mi­na­da ape­nas pelos algo­rit­mos.

Será deter­mi­na­da por empre­sas, tra­bal­hadores, empreende­dores, gov­er­nos e pela sociedade.

A tec­nolo­gia está sendo con­struí­da ago­ra.

A for­ma como dividi­re­mos seus bene­fí­cios tam­bém.

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