Crie e cultive o hábito de tomar notas

Crie e cul­tive o hábito de tomar notas.

A inter­ação dos par­tic­i­pantes de uma reunião pode faz­er com que esta seja óti­ma ou pés­si­ma. Quan­tas vezes você já esteve um uma reunião em que as pes­soas se inter­rompem con­stan­te­mente, dão novas ideias ou ficam repetindo as mes­mas ideias várias vezes até que sejam ouvi­das, quan­do, na ver­dade, dev­e­ri­am estar con­tribuin­do com o tema em pau­ta? Ess­es prob­le­mas de comu­ni­cação nos fazem des­perdiçar tem­po e esforços, e geral­mente nos lev­am a mais reuniões para cor­ri­gir­mos os mal-enten­di­dos, reit­er­ar decisões, apaziguar aque­les que se sen­tem ofen­di­dos e acal­mar as ten­sões no escritório.

Mas há algo que pode ser feito para mel­ho­rar sig­ni­fica­ti­va­mente a qual­i­dade do tem­po  que você pas­sa em reuniões: escu­tar. Ao mel­ho­rar sua habil­i­dade de escu­tar e enten­der os out­ros nas reuniões, você pode torná-las mais pro­du­ti­vas, dimin­uin­do repetições e mal-enten­di­dos.

Se a sim­ples ação de ouvir pode resolver tan­tos prob­le­mas, por que é tão difí­cil prat­icá-la? Uma das razões é que escu­ta­mos com a intenção de inter­romper os out­ros com nos­sas ideias ou con­tra-argu­men­tos. Escu­ta­mos somente para dar nos­sa visão dos fatos. Ou achamos que vamos esque­cer o que quer­e­mos diz­er se não o fiz­er­mos logo. Focamos em falar em vez de escu­tar e enten­der os out­ros.

Em meu tra­bal­ho com equipes de exec­u­tivos, desen­volvi uma téc­ni­ca sim­ples que pode aju­dar qual­quer pes­soa a escu­tar as out­ras mais efe­ti­va­mente em reuniões, e a denominei de Téc­ni­ca das Notas de margem. Talvez você já tome notas durante as reuniões, mas a menos que as use para enten­der os out­ros e plane­jar sua respos­ta, ain­da pode cair na mes­ma armadil­ha de falar sem pen­sar. Essas notas per­mitem que você pense, processe as infor­mações, crie conexões entre os pon­tos debati­dos e faça per­gun­tas efi­cazes em vez de sim­ples­mente diz­er o que vier à cabeça.

É assim que a téc­ni­ca fun­ciona:

  • Defi­na uma margem grande na sua fol­ha e tome notas quan­do alguém estiv­er falan­do. No cor­po prin­ci­pal de suas notas, escre­va somente o que a pes­soa está dizen­do.  Não pre­cisa escr­ev­er palavra por palavra, somente os pon­tos prin­ci­pais. Você pode faz­er as citações exatas depois.
  • Na margem, escre­va suas ideias, opiniões, con­tra-argu­men­tos e per­gun­tas para cada um dos pon­tos que anotou. Ao colo­car ess­es pon­tos na margem, você os sep­a­ra daqui­lo que as out­ras pes­soas dis­ser­am na reunião, fazen­do com que você (lit­eral­mente) deixe sua voz de lado e escute o que os out­ros têm a diz­er. Por exem­p­lo, quan­do seu chefe descreve com entu­si­as­mo ideias após ideias sobre o lança­men­to de um deter­mi­na­do pro­du­to, você pode ano­tar na margem, “Per­gunte sobre o orça­men­to” ou “Lem­bre-se do mem­o­ran­do do CEO”.
  • Ao falar, aten­ha-se ape­nas aos itens mais impor­tantes de suas notas que ain­da não foram dis­cu­ti­dos, e risque-os no papel à medi­da que forem abor­da­dos. Se você não con­seguir men­cionar alguns tópi­cos durante a reunião, mas os con­sid­era impor­tantes, mar­que-os para uma próx­i­ma reunião.

Por exem­p­lo, Ari é chefe de gabi­nete de Bren­da, CEO de uma orga­ni­za­ção cien­tí­fi­ca que esta­va pas­san­do por difi­cul­dades, na qual tra­bal­ham 200 pes­soas. Sua prin­ci­pal fonte de finan­cia­men­to tin­ha favore­ci­do seu con­cor­rente, e algu­mas pes­soas chave havi­am deix­a­do a empre­sa para ini­ciar o próprio empreendi­men­to. As ten­sões eram grandes, e alguns dos fun­cionários que sobraram ten­tavam se impor nas dis­cussões. Out­ros ficavam deses­per­a­dos para tomar a ini­cia­ti­va assim que pos­sív­el. As fal­has na comu­ni­cação, as decisões de alto risco e o pâni­co decor­rentes levaram a reuniões con­fli­tantes e impro­du­ti­vas.

Bren­da reuniu seus sub­or­di­na­dos dire­tos para dis­cu­tir como pode­ri­am apri­morar seus esforços em relação à diminuição dos recur­sos. Ari, seguin­do o mod­e­lo de notas de margem, escreveu o seguinte:

Ano­tações de Margem da Reunião de Equipe
Nesse exem­p­lo, Ari anotou os pon­tos prin­ci­pais à esquer­da, e à dire­i­ta escreveu suas ideias, opiniões e per­gun­tas para cada pon­to.
Temas dis­cu­ti­dos em EquipeNotas de margem de Ari
Neces­si­dade de reduzir o orça­men­to em 25% no próx­i­mo ano fis­cal.·     Em vez de olhar para o todo e procu­rar critérios para cor­tar os gas­tos, John e Josh sim­ples­mente ficam descreven­do as van­ta­gens de seu tra­bal­ho.
Decidir que pro­je­tos serão final­iza­dos em vez de cor­tar gas­tos em todos os pro­je­tos.·     John não cumpriu o pra­zo duas vezes. Dev­eríamos rev­er os pro­je­tos que não foram entregues?
John fala dos méri­tos de seu pro­je­to.·     Bren­da é quem vai tomar a decisão final?·     Ela esta deixan­do que eles falem para acu­mu­lar dados ou está ten­tan­do evi­tar con­fli­tos?
Josh colo­ca grá­fi­co no quadro bran­co para mostrar a importân­cia de seu pro­je­to.·     Por que é impor­tante acabar com pro­je­tos inteiros em vez de dividir todas as per­das em todos os pro­je­tos?
John per­gun­ta que dados deve­mos ter para tomar essa decisão.·     E se fiz­er­mos cortes em infraestru­tu­ra e mar­ket­ing em vez de pro­je­tos indi­vid­u­ais?·     John e Josh somente olham para Bren­da quan­do estão falan­do.
Bren­da nos dá a lin­ha do tem­po.·     Ninguém men­ciona como com­pen­sar os 25% – sim­ples­mente vamos dire­to aos cortes e como podemos preser­var o que é mais impor­tante
Jen­nifer per­gun­ta à Bran­da quais são suas expec­ta­ti­vas.·     Essa já é a ter­ceira reunião em que Jen­nifer pede ori­en­tação à Bren­da, enquan­to John e Josh ficam mudan­do de opinião.·     Há vários aspec­tos em nos­sa equipe que são dis­fun­cionais.
Fonte: Sabi­na NawazHBR.org

Ari avaliou suas notas e focou suas per­gun­tas durante a reunião sobre as questões mais impor­tantes que havia ano­ta­do: Quais são os critérios de decisão para cortes no orça­men­to, e devem eles ser divi­di­dos pelos pro­je­tos, em vez de acabar com a total­i­dade destes? Ele esper­ou até o fim da reunião para tam­bém per­gun­tar sobre cortes em infraestru­tu­ra e mar­ket­ing.

Depois, a sós com Bren­da, Ari abor­dou algu­mas de suas pre­ocu­pações. “Vive­mos em uma cul­tura que pri­or­iza ações. Pre­cisamos mes­mo desacel­er­ar? Perdemos opor­tu­nidades por não ques­tionar as hipóte­ses? “Ele tam­bém anotou, “a equipe não a ques­tiona; sim­ples­mente faz o que quer. Esta­mos con­fian­do demais somente no seu jul­ga­men­to? Não dev­eríamos del­e­gar algu­mas decisões a out­ros mem­bros da equipe? “Por últi­mo, Ari obser­vou: “Min­ha pre­ocu­pação é não fomen­tar­mos uma cul­tura de con­fli­to saudáv­el. Jen­nifer parece ner­vosa sem­pre que Josh e John dão a impressão de dis­cu­tir e tende a recor­rer à sua ori­en­tação. Havia tam­bém vários pon­tos que Ari optou por não comen­tar porque eram de baixa pri­or­i­dade no momen­to. Ele mar­cou ess­es comen­tários, então, se con­tin­u­assem a ser um prob­le­ma, pode­ria abor­dá-los mais tarde.

As notas de margem de Ari per­mi­ti­ram-lhe tomar uma decisão pon­der­a­da sobre como guiar a con­ver­sa de for­ma mais estratég­i­ca para os resul­ta­dos do negó­cio, em vez de aumen­tar ain­da mais a con­cor­rên­cia entre John e Josh. Ele foi útil para Bren­da ao refle­tir sobre algu­mas das dinâmi­cas que ele obser­vou em uma out­ra reunião. Isso per­mi­tiu que Bren­da abor­dasse a agen­da da reunião seguinte com mais pon­der­ação e ajus­tasse seu próprio com­por­ta­men­to com base nos comen­tários de Ari sobre a cul­tura da equipe, em seu próx­i­mo retiro da equipe de lid­er­ança, Bren­da facil­i­tou uma dis­cussão sobre as nor­mas cul­tur­ais implíc­i­tas da empre­sa Todos pen­saram em con­jun­to em mudanças para se tornar uma equipe mais efi­ciente durante ess­es tem­pos difí­ceis.

À medi­da que você faz essas notas, não reg­istre ape­nas os fatos da dis­cussão. Aqui estão alguns itens a con­sid­er­ar ao reg­istrá-las para que pos­sa ouvir mel­hor:

  • Escol­ha temas para suas notas mais impor­tantes. Quan­do você escu­ta os assun­tos, qual o tema comum a todos? Como se rela­cionam? O que eles estão real­mente falan­do? Para Ari, suas obser­vações sobre a cul­tura da empre­sa era um dess­es temas.
  • Escre­va as per­gun­tas e sinal­ize-as para que você pos­sa fazê-las no momen­to apro­pri­a­do. Ari demor­ou a faz­er a per­gun­ta sobre cortes em infraestru­tu­ra e mar­ket­ing, além de pro­je­tos até o final da reunião, de modo a não con­cen­trar desviar o foco das nego­ci­ações difí­ceis que dev­e­ri­am ser feitas nos pro­je­tos em primeiro lugar. Ele tam­bém lev­ou algu­mas das dinâmi­cas pes­soais a uma con­ver­sa par­tic­u­lar com Bren­da, em vez de criticar aber­ta­mente out­ros mem­bros da equipe na reunião. Isso o aju­dou a evi­tar enver­gonhar seus cole­gas, ao mes­mo tem­po em que ofer­e­ceu à Bren­da a opor­tu­nidade de cri­ar condições para uma mel­hor comu­ni­cação em futuras reuniões.
  • Teste suas hipóte­ses. Quan­do alguém faz um comen­tário ger­al pela primeira vez em uma reunião, analise‑o por todos os ângu­los antes de diz­er algo. Ari con­sider­ou vários pres­su­pos­tos sobre como os cortes no orça­men­to pode­ri­am ser imple­men­ta­dos e se havia for­mas de expandir fun­dos em vez de sim­ples­mente cor­tar o orça­men­to.
  • Preste atenção ao que não é dito. Há uma pro­fusão de dados no que é dito e no que não é dito. No caso de Ari, ele obser­vou que ninguém fazia per­gun­tas ou desafi­a­va os pres­su­pos­tos; a equipe ime­di­ata­mente dis­cu­tiu pro­je­tos especí­fi­cos e imple­men­tou o corte do orça­men­to. Além dis­so, ele obser­vou alguns com­por­ta­men­tos não ver­bais. Quan­do John e Josh falaram sobre seus pro­je­tos, eles olhavam para Bren­da e nun­ca se olhavam ou olhavam para out­ros mem­bros da equipe. Isso fez Ari se per­gun­tar se John e Josh estavam com­petindo para pres­sion­ar Bren­da a con­sid­er­ar os méri­tos de seus respec­tivos pro­je­tos em detri­men­to dos out­ros.  Ele decid­iu abor­dar ess­es pon­tos com Bren­da em par­tic­u­lar para que ela pudesse anal­isá-los mel­hor.
  •  Seja cauteloso com o que vai par­til­har. Você não deve com­par­til­har tudo o que escreveu em suas notas, espe­cial­mente em uma reunião. Ari sim­ples­mente fez três per­gun­tas que mudaram o tom da reunião. Depois teve uma sessão de fol­low-up com Bren­da sobre algu­mas de suas out­ras pre­ocu­pações e anotou alguns pon­tos que pode­ri­am esper­ar até que assun­tos de alta pri­or­i­dade fos­sem abor­da­dos.

Ano­tar as palavras dos out­ros aju­da você a ras­trear o que estão dizen­do, e ao escr­ev­er seus pen­sa­men­tos ao lado de cada pon­to, pode garan­tir que não se esque­cerá de fol­low-ups impor­tantes enquan­to ain­da pen­sa sobre a con­ver­sa. Per­mi­tir-se ouvir mais nas reuniões lhe dará a opor­tu­nidade de crias conexões entre os pon­tos debati­dos, apre­sen­tar suas ideias de for­ma mais con­vin­cente e alcançar resul­ta­dos mais con­cre­tos e mel­hores em suas reuniões.


Sabi­na Nawaz é CEO glob­al de treina­men­to, palestrante prin­ci­pal de lid­er­ança e escrito­ra tra­bal­han­do em mais de 26 país­es. Ela acon­sel­ha os exec­u­tivos do nív­el C em cor­po­rações For­tune 500, agên­cias gov­er­na­men­tais, orga­ni­za­ções sem fins lucra­tivos e orga­ni­za­ções acadêmi­cas. Sab­ri­na já fez palestras em cen­te­nas de sem­i­nários, even­tos e con­fer­ên­cias incluin­do o  TEDx e escreveu para a FastCompany.com, para a Inc.com, e para  a Forbes.com,além da HBR.org.

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