A dura realidade das culturas inovadoras

A dura real­i­dade das cul­turas ino­vado­ras.

Cul­turas que favore­cem a ino­vação são valiosas não só para a últi­ma lin­ha do bal­ancete, mas tam­bém para líderes e fun­cionários que prezam sua empre­sa.

Em sem­i­nários cor­po­ra­tivos do mun­do todo, eu per­gun­ta­va infor­mal­mente a cen­te­nas de exec­u­tivos se eles gostari­am de tra­bal­har numa orga­ni­za­ção onde a nor­ma eram com­por­ta­men­tos ino­vadores. Não con­si­go me lem­brar de uma úni­ca vez que alguém tivesse dito “não, não gostaria”. Quem pode culpá-los: as cul­turas ino­vado­ras geral­mente são descritas como muito diver­tidas. Quan­do pedi aos mes­mos exec­u­tivos que descrevessem essas cul­turas, eles ime­di­ata­mente fornece­r­am uma lista de car­ac­terís­ti­cas idên­ti­cas àque­las apre­goadas nos livros de admin­is­tração: tol­erân­cia ao fra­cas­so, dis­posição para exper­i­men­tar, segu­rança psi­cológ­i­ca, ambi­ente alta­mente colab­o­ra­ti­vo e não hierárquico. As pesquisas cor­rob­o­ram a ideia de que essas car­ac­terís­ti­cas se traduzem em desem­pen­ho ino­vador.

Mas, ape­sar do fato de que cul­turas ino­vado­ras são dese­jáveis e que a maio­r­ia dos líderes ale­ga enten­der o que sig­nifi­cam, elas são difí­ceis de cri­ar e man­ter. Isso é intri­g­ante. Como práti­cas aparente­mente tão uni­ver­salmente apre­ci­adas — até diver­tidas — podem ser tão difí­ceis de imple­men­tar?

Eu acred­i­to que é porque as cul­turas ino­vado­ras não são bem com­preen­di­das. Os com­por­ta­men­tos fáceis de aceitar, que mere­cem tan­ta atenção são somente um lado da moe­da. Eles pre­cisam ser con­tra­bal­ança­dos por alguns com­por­ta­men­tos mais rig­orosos e clara­mente menos diver­tidos. Tol­erân­cia ao fra­cas­so requer intol­erân­cia à incom­petên­cia. A dis­posição para o exper­i­men­to exige dis­ci­plina rig­orosa. A segu­rança psi­cológ­i­ca requer con­for­to com a fran­queza abso­lu­ta. A colab­o­ração pre­cisa ser equi­li­bra­da com respon­s­abil­i­dade indi­vid­ual. E um sis­tema de nive­la­men­to requer forte lid­er­ança. Cul­turas ino­vado­ras são para­dox­ais. A menos que ten­sões cri­adas por esse para­doxo sejam cuida­dosa­mente admin­istradas, qual­quer ten­ta­ti­va de cri­ar uma cul­tura ino­vado­ra fra­cas­sará.

1. Tol­erân­cia ao fra­cas­so, mas não tol­erân­cia à incom­petên­cia

Con­sideran­do que a ino­vação envolve a explo­ração de cam­in­hos incer­tos e descon­heci­dos, não sur­preende que a tol­erân­cia ao fra­cas­so seja uma car­ac­terís­ti­ca impor­tante das cul­turas ino­vado­ras. Alguns dos ino­vadores mais icôni­cos têm sua cota de fra­cas­so. Você se lem­bra do MobileMe da Apple, o Google Glass e o Fire Phone da Ama­zon?

E, ape­sar de estarem essen­cial­mente focadas na tol­erân­cia ao fra­cas­so, orga­ni­za­ções ino­vado­ras são intol­er­antes com a incom­petên­cia, esta­b­ele­cem padrões de desem­pen­ho extrema­mente altos para seus fun­cionários e recru­tam os mel­hores tal­en­tos pos­síveis. Explo­rar ideias de risco que acabam fra­cas­san­do é bom, mas cul­ti­var habil­i­dades téc­ni­cas medíocres, men­tal­i­dade neg­li­gente, maus hábitos profis­sion­ais e gestão defi­ciente não é. As pes­soas que não sat­is­fazem às expec­ta­ti­vas da empre­sa devem ser dis­pen­sadas ou trans­feri­das para out­ras funções que mel­hor se adéquem às suas habil­i­dades. Steve Jobs tornou-se famoso por des­pedir qual­quer pes­soa que não estivesse à altura da função. Na Ama­zon, os fun­cionários são clas­si­fi­ca­dos segun­do uma cur­va força­da, e a parte infe­ri­or da dis­tribuição é excluí­da. A Google é con­heci­da por sua cul­tura amigáv­el para com os fun­cionários, mas é tam­bém um dos lugares mais difí­ceis do mun­do de con­seguir emprego (todo ano a empre­sa recebe mais de 2 mil­hões de solic­i­tações de emprego para cer­ca de cin­co mil vagas). Ela tam­bém tem um sis­tema de gestão de desem­pen­ho rig­oroso que trans­fere as pes­soas para novas funções se elas não estiverem ren­den­do o máx­i­mo em seus pos­tos atu­ais. Na Pixar, dire­tores de filmes que não man­têm os pro­je­tos no cam­in­ho cer­to são sub­sti­tuí­dos.

Parece óbvio que as empre­sas devem esta­b­ele­cer altos padrões de qual­i­dade para seus fun­cionários, mas infe­liz­mente muitas orga­ni­za­ções fal­ham nesse que­si­to. Veja, por exem­p­lo, uma com­pan­hia far­ma­cêu­ti­ca onde tra­bal­hei recen­te­mente. Eu fiquei saben­do que um dos gru­pos de P&D não havia descober­to um úni­co novo prováv­el can­dida­to a medica­men­to em mais de dez anos. Ape­sar de seu desem­pen­ho fra­co, os líderes seniores não fiz­er­am mudanças sig­ni­fica­ti­vas na gestão ou no pes­soal do grupo. Na ver­dade, com o sis­tema de rec­om­pen­sa igual­itário da empre­sa, os cien­tis­tas do grupo estavam receben­do prati­ca­mente os mes­mos salários e bônus que os cien­tis­tas de unidades mais pro­du­ti­vas de P&D. Um exec­u­ti­vo sênior me con­fi­den­ciou que se não fos­se por vio­lações éti­cas, a empre­sa rara­mente dis­pen­sa­va uma pes­soa de P&D por desem­pen­ho insat­is­fatório. Quan­do per­gun­tei por que, ele respon­deu “nos­sa cul­tura é como uma família. Des­pedir pes­soas é uma coisa que não nos agra­da”.

A ver­dade é que para haver tol­erân­cia ao fra­cas­so é pre­ciso dis­por de pes­soas extrema­mente com­pe­tentes. Ten­ta­ti­vas de cri­ar novos mod­e­los tec­nológi­cos ou de negó­cios são sola­padas pela incerteza. Muitas vezes, você não sabe o que você não sabe, e você tem de apren­der enquan­to cam­in­ha. Nes­sas cir­cun­stân­cias os fra­cas­sos fornecem lições valiosas sobre os cam­in­hos a seguir. Eles podem ser con­se­quên­cia de pro­je­tos mal elab­o­ra­dos, anális­es equiv­o­cadas, fal­ta de transparên­cia e má gestão. A Google pode enco­ra­jar a assunção de risco e o fra­cas­so porque tem certeza de que a maio­r­ia dos fun­cionários da empre­sa é muito com­pe­tente.

É difí­cil cri­ar uma cul­tura que val­orize tan­to o apren­diza­do resul­tante do fra­cas­so como o desem­pen­ho excep­cional em empre­sas cujo históri­co não priv­i­le­gia nen­hum deles. Um bom começo é que a lid­er­ança sênior artic­u­lar clara­mente a difer­ença entre fra­cas­sos pro­du­tivos e impro­du­tivos: fra­cas­sos pro­du­tivos lev­am a infor­mação valiosa rel­a­ti­va ao seu cus­to. O fra­cas­so dev­e­ria ser comem­o­ra­do somente se resul­tasse em apren­diza­do. (O clichê “comem­o­ran­do o fra­cas­so” não faz sen­ti­do — nós dev­eríamos comem­o­rar o apren­diza­do, não o fra­cas­so.) Um pro­tótipo sim­ples que não apre­sen­ta o desem­pen­ho esper­a­do dev­i­do a uma questão téc­ni­ca antes descon­heci­da é uma fal­ha digna de ser comem­o­ra­da se esse novo con­hec­i­men­to pud­er ser apli­ca­do em pro­je­tos futur­os. Lançar um pro­du­to mal pro­je­ta­do depois de gas­tar US$ 500 mil­hões para desen­volvê-lo é sim­ples­mente um fra­cas­so muito caro.

Cri­ar uma cul­tura de com­petên­cia requer artic­u­lar clara­mente os padrões de desem­pen­ho esper­a­dos. Se ess­es padrões não forem bem com­preen­di­dos, decisões difí­ceis a respeito do pes­soal podem pare­cer capri­chosas ou, pior, ser inter­pre­tadas erronea­mente como punição pelo fra­cas­so. Os líderes seniores e os gestores de toda a orga­ni­za­ção dev­e­ri­am expor suas expec­ta­ti­vas com clareza e reg­u­lar­i­dade. Padrões de con­tratação podem pre­cis­ar ser aumen­ta­dos, mes­mo se isso desacel­er­ar tem­po­rari­a­mente o cresci­men­to da empre­sa.

Os gestores sen­tem-se par­tic­u­lar­mente descon­fortáveis ao des­pedir ou trans­ferir pes­soas quan­do a “incom­petên­cia” não é cul­pa delas. Mudar tec­nolo­gias ou mod­e­los de negó­cio pode tornar uma pes­soa muito com­pe­tente num con­tex­to incom­pe­tente em out­ro. Pense em como a dig­i­tal­iza­ção impactou o val­or de difer­entes habil­i­dades em vários setores. Aque­la rep­re­sen­tante de ven­das cujas habil­i­dades inter­pes­soais excep­cionais a tornaram uma super­estrela pode não ser mais tão valiosa para a orga­ni­za­ção quan­to o intro­ver­tido engen­heiro de soft­ware que desen­volve os algo­rit­mos uti­liza­dos para pre­v­er que clientes têm maior prob­a­bil­i­dade de adquirir pro­du­tos da empre­sa. Em alguns casos, as pes­soas podem ser retreinadas para desen­volver novas com­petên­cias. Mas isso nem sem­pre é pos­sív­el quan­do, para exe­cu­tar um tra­bal­ho, são necessárias habil­i­dades real­mente espe­cial­izadas (por exem­p­lo, um Ph.D. em matemáti­ca apli­ca­da). Reter pes­soas que se tor­nam obso­le­tas pode ser lou­váv­el, mas é perigoso para a orga­ni­za­ção.

Man­ter um equi­líbrio saudáv­el entre tol­er­ar fra­cas­sos pro­du­tivos e erradicar incom­petên­cias não é fácil. Um arti­go pub­li­ca­do no New York Times em 2015 sobre a Ama­zon ilus­tra essa difi­cul­dade. O arti­go, basea­do em entre­vis­tas com mais de cem fun­cionários ativos e ex-fun­cionários, tax­a­va a cul­tura da Ama­zon de “agres­si­va” e relata­va histórias de fun­cionários em pran­tos dev­i­do à forte cobrança de desem­pen­ho. Uma razão para ser tão difí­cil atin­gir o equi­líbrio é que as causas do fra­cas­so nem sem­pre são claras. Um design­er de pro­du­to acabou come­tendo uma fal­ha dev­i­do a uma avali­ação erra­da de um engen­heiro ou porque ele desco­briu um prob­le­ma que até um engen­heiro mais tal­en­toso não teria perce­bido? E no caso de decisões téc­ni­cas ou empre­sari­ais equiv­o­cadas, quais são as con­se­quên­cias per­ti­nentes? Todos come­tem erros, mas até que pon­to o perdão deixa de ser perdão e começa a se con­fundir com per­mis­sivi­dade? E até que pon­to altos padrões de desem­pen­ho não se trans­for­mam em cru­el­dade e desre­speito para com os fun­cionários, inde­pen­den­te­mente da qual­i­dade de seu desem­pen­ho?

2. Dis­posição para exper­i­men­tar, mas alta­mente dis­ci­plina­da

As orga­ni­za­ções que ado­tam a exper­i­men­tação con­vivem bem com a incerteza e a ambigu­idade. Elas não fin­gem que sabem todas as respostas óbvias nem que são capazes de anal­is­ar como chegaram ao insight. Sua exper­iên­cia é de apren­diza­do, não de fab­ri­cação de pro­du­tos ou prestação de serviços com­er­cial­izáveis.

No entan­to, exper­i­men­tar não é o mes­mo que jog­ar tin­ta aleato­ri­a­mente sobre uma tela como fazem cer­tos pin­tores abstratos de quin­ta cat­e­go­ria. Sem dis­ci­plina, quase tudo pode ser jus­ti­fi­ca­do num exper­i­men­to. Cul­turas focadas na dis­ci­plina sele­cionam os exper­i­men­tos cuida­dosa­mente com base em seu val­or poten­cial de apren­diza­do, e os pro­je­tam rig­orosa­mente para pro­duzir a maior quan­ti­dade de infor­mação pos­sív­el em relação aos cus­tos. Elas esta­b­ele­cem logo no iní­cio critérios claros para decidir se uma ideia deve avançar, ser mod­i­fi­ca­da ou aban­don­a­da. E enfrentam as con­se­quên­cias dos exper­i­men­tos, o que pode sig­nificar admi­tir que uma hipótese ini­cial esta­va erra­da e que um pro­je­to aparente­mente promis­sor pre­cisa ser aban­don­a­do ou redi­re­ciona­do de for­ma rad­i­cal. Ser mais dis­ci­plina­do ao abor­tar pro­je­tos perde­dores tor­na menos arrisca­do ten­tar novos exper­i­men­tos.

Um bom exem­p­lo de cul­tura que equi­li­bra bem dis­posição para o exper­i­men­to e dis­ci­plina rígi­da é a Flag­ship Pio­neer­ing — empre­sa sedi­a­da em Cam­bridge, Mass­a­chu­setts, cujo mod­e­lo de negó­cio é cri­ar novos empreendi­men­tos de risco basea­d­os em ciên­cia de pon­ta. A Flag­ship não cos­tu­ma solic­i­tar planos de negó­cio de empreende­dores inde­pen­dentes. Em vez dis­so, uti­liza equipes inter­nas de cien­tis­tas para desco­brir novas opor­tu­nidades de empreendi­men­tos de risco. A empre­sa uti­liza um proces­so de explo­ração for­mal pelo qual peque­nas equipes de cien­tis­tas assumem a pesquisa de um prob­le­ma de grande importân­cia social ou econômi­ca — nutrição, por exem­p­lo. Durante essas explo­rações, as equipes leem a lit­er­atu­ra sobre o assun­to e con­vo­cam uma ampla rede exter­na de con­sul­tores cien­tí­fi­cos para pen­sar em novos insights cien­tí­fi­cos. Não há nen­hu­ma restrição ini­cial sobre as explo­rações. Todas as ideias — mes­mo que pareçam imprat­icáveis ou descabidas — são con­sid­er­adas. De acor­do com Noubar Afeyan, CEO e fun­dador da empre­sa, “no iní­cio de nos­sas explo­rações não per­gun­tá­va­mos ‘isso é ver­dadeiro?’ ou ‘há dados que apoiam esta ideia?’. Não procu­ramos arti­gos acadêmi­cos que forneçam pro­va de que algo é ver­dade. Ao con­trário, nós nos per­gun­ta­mos ‘e se isso fos­se ver­dade?’ ou ‘se só isso fos­se ver­dade, teria algum val­or?’”. Além desse proces­so, as equipes devem for­mu­lar hipóte­ses de negó­cios que pos­sam ser tes­tadas.

A exper­i­men­tação é fun­da­men­tal para o proces­so de explo­ração da Flag­ship, porque é assim que as ideias são sele­cionadas, refor­mu­ladas e desen­volvi­das. Mas a exper­i­men­tação na Flag­ship é muito difer­ente da que estou acos­tu­ma­do a ver em out­ras empre­sas. Primeiro, a Flag­ship não real­iza exper­i­men­tos para val­i­dar ideias ini­ci­ais. Ao con­trário, ela espera que as equipes pro­jetem “exper­i­men­tos mata­dores” que max­i­mizem a prob­a­bil­i­dade de expor as fal­has de uma ideia. Segun­do, ao con­trário de muitas empre­sas con­sol­i­dadas que investem pesada­mente em novos empreendi­men­tos de risco na crença equiv­o­ca­da de que mais recur­sos se traduzem em maior veloci­dade e mais cria­tivi­dade, a Flag­ship nor­mal­mente pro­je­ta exper­i­men­tos mata­dores com um cus­to infe­ri­or a US$ 1 mil­hão e com duração máx­i­ma de seis meses. Essa abor­dagem enx­u­ta para exper­i­men­tar não só per­mite cir­cu­lar mais ideias com rapi­dez pela empre­sa, mas tam­bém tor­na psi­co­logi­ca­mente mais fácil aban­donar pro­je­tos que não lev­am a nada. Ela obri­ga as equipes a focar prin­ci­pal­mente nas incertezas téc­ni­cas mais críti­cas e lhes ofer­ece feed­back mais rápi­do. A filosofia é desco­brir logo no começo qual foi o erro, e depois avançar veloz­mente rumo a cenários promis­sores.
Ter­ceiro, na Flag­ship os dados exper­i­men­tais são sagra­dos. Se um exper­i­men­to pro­duz resul­ta­dos neg­a­tivos sobre uma hipótese, as equipes devem aban­donar ou refor­mu­lar suas ideias. Em muitas orga­ni­za­ções, um resul­ta­do ines­per­a­do pode sig­nificar “más notí­cias”. As equipes, muitas vezes, sen­tem neces­si­dade de rein­ter­pre­tar os dados — descreven­do os resul­ta­dos como algum tipo de aber­ração — para man­ter seus pro­gra­mas vivos. Na Flag­ship é ina­ceitáv­el igno­rar dados exper­i­men­tais.

Final­mente, os próprios mem­bros das equipes de empreendi­men­tos de risco da Flag­ship são forte­mente incen­ti­va­dos a ser dis­ci­plina­dos em seus pro­gra­mas. Eles não recebem nen­hum bene­fí­cio finan­ceiro por con­tin­uar pre­sos a um pro­gra­ma fada­do ao fra­cas­so. Na ver­dade, o opos­to é ver­dadeiro. Per­si­s­tir num pro­gra­ma dess­es sig­nifi­ca desi­s­tir da opor­tu­nidade de par­tic­i­par de um pro­gra­ma bem-suce­di­do. Mais uma vez, com­pare esse mod­e­lo com o que é comum em muitas empre­sas: ter seu pro­gra­ma can­ce­la­do é uma notí­cia ter­rív­el para você pes­soal­mente. Pode sig­nificar per­da de sta­tus ou talvez até de seu emprego. Man­ter seu pro­gra­ma vivo é bom para sua car­reira. Na Flag­ship, começar um negó­cio de risco bem-suce­di­do, inter­romper seu pro­gra­ma fada­do ao fra­cas­so, é bom para sua car­reira. (Esclarec­i­men­to: fui mem­bro do con­sel­ho de uma empre­sa da Flag­ship, mas a infor­mação deste exem­p­lo é de um caso dis­cu­ti­do na Har­vard Busi­ness School, que eu pesqui­sei e do qual fui coau­tor.)

A exper­i­men­tação dis­ci­plina­da é um ato de equi­líbrio. Como líder, você quer enco­ra­jar as pes­soas a con­sid­er­ar “ideias descabidas” e dar-lhes tem­po para for­mu­lar suas hipóte­ses. Exi­gir dados para con­fir­mar ou aban­donar uma hipótese rápi­do demais pode reprim­ir o desem­pen­ho int­elec­tu­al necessário para a cria­tivi­dade. É óbvio que nem sem­pre os exper­i­men­tos mais bem pro­je­ta­dos e bem exe­cu­ta­dos pro­duzem resul­ta­dos, pre­to no bran­co. É necessária uma avali­ação cien­tí­fi­ca e empre­sar­i­al para desco­brir que ideias são promis­so­ras, quais devem ser refor­mu­ladas e quais aban­donar. Mas os líderes seniores pre­cisam moldar a dis­ci­plina, por exem­p­lo, con­cluir pro­je­tos que eles pes­soal­mente lid­er­aram ou demon­strar dis­posição para mudar de opinião diante dos resul­ta­dos de exper­i­men­tos.

3. Fran­queza e segu­rança psi­cológ­i­ca

Segu­rança psi­cológ­i­ca no ambi­ente profis­sion­al per­mite que as pes­soas se expressem aber­ta e fran­ca­mente, sem medo de represália. Décadas de pesquisa sobre esse con­ceito pela pro­fes­so­ra Amy Edmond­son, da Har­vard Busi­ness School, mostram que ambi­entes psi­co­logi­ca­mente seguros não só aju­dam as empre­sas a evi­tar erros cat­a­stró­fi­cos, mas tam­bém pro­movem o apren­diza­do e apoiam a ino­vação. Quan­do Edmond­son, Richard Bohmer, espe­cial­ista em assistên­cia de saúde, e eu real­izamos uma pesquisa sobre a adoção de uma nova tec­nolo­gia cirúr­gi­ca min­i­ma­mente inva­si­va por equipes de cirur­gia cardía­ca, desco­b­ri­mos que as equipes com enfer­meiras que se sen­ti­am seguras em expor prob­le­mas domi­navam as novas tec­nolo­gias com mais rapi­dez. Se as pes­soas têm medo de criticar, desafi­ar aber­ta­mente pon­tos de vista dos supe­ri­ores, debater ideias de out­ros e lev­an­tar per­spec­ti­vas con­trárias, a ino­vação pode ser reprim­i­da.

Todos nós val­orizamos a liber­dade de expor nos­sas ideias sem medo — nós quer­e­mos ser ouvi­dos —, mas a segu­rança psi­cológ­i­ca é uma via de mão dupla. Se para mim é seguro criticar suas ideias, tam­bém pre­cisa ser seguro para você criticar as min­has — este­ja você hier­ar­quica­mente aci­ma de mim na orga­ni­za­ção ou abaixo. A fran­queza irrestri­ta é críti­ca para a ino­vação porque é o meio pelo qual as ideias evoluem e são apri­moradas. Por ter obser­va­do ou assis­ti­do a inúmeras reuniões de equipes de pro­je­tos em P&D, sessões de análise de pro­je­to e reuniões de con­sel­hos de dire­to­ria, pos­so ates­tar que o con­for­to com a fran­queza varia tremen­da­mente. Em algu­mas empre­sas, as pes­soas sen­tem-se muito à von­tade para dis­cu­tir com os cole­gas suas ideias, méto­dos e resul­ta­dos. A críti­ca pode ser fer­oz, e elas têm de ser capazes de defend­er suas pro­postas com dados, ou lóg­i­ca.

Em out­ras empre­sas, o cli­ma é poli­do, as divergên­cias con­ti­das, as palavras cuida­dosa­mente anal­isadas, as críti­cas abafadas (pelo menos aber­ta­mente). Ques­tionar com ênfase exager­a­da é cor­rer o risco de pare­cer que você não é um mem­bro da equipe. Uma gesto­ra de uma grande empre­sa onde tra­bal­hei como con­sul­tor cap­tur­ou a essên­cia da cul­tura: “Nos­so prob­le­ma é que somos uma orga­ni­za­ção incriv­el­mente agradáv­el”.

Quan­do se tra­ta de ino­vação, a orga­ni­za­ção sin­cera terá sem­pre desem­pen­ho supe­ri­or ao da agradáv­el. Esta últi­ma con­funde polidez e sim­pa­tia com respeito. Não há nada de incon­sis­tente em ser fran­co e respeitoso. Na ver­dade, eu diria que criticar e aceitar críti­cas com sin­ceri­dade é mar­ca de respeito. Só é pos­sív­el aceitar uma críti­ca dev­as­ta­do­ra às suas ideias se você respeitar a opinião da pes­soa que fornece o feed­back.

No entan­to, à parte desse impor­tante aler­ta, as orga­ni­za­ções “abso­lu­ta­mente fran­cas” não são, nec­es­sari­a­mente, os ambi­entes mais agradáveis para tra­bal­har. Para os out­siders e os recém-chega­dos, as pes­soas podem pare­cer agres­si­vas ou de pavio cur­to. Ninguém mede as palavras sobre filosofias de pro­je­to, estraté­gia, pres­su­pos­tos ou per­cepções do mer­ca­do. Tudo que é dito é avali­a­do (inde­pen­den­te­mente de títu­los e car­gos).

Cri­ar uma cul­tura de debate fran­co é par­tic­u­lar­mente difí­cil em orga­ni­za­ções onde as pes­soas ten­dem a se esqui­var do con­fron­to ou onde embat­es são vis­tos como vio­lação das nor­mas de civil­i­dade. Os líderes seniores pre­cisam definir o tom por meio de seu próprio com­por­ta­men­to e estar dis­pos­tos (e ser capazes) de criticar as ideias dos out­ros con­stru­ti­va­mente, sem ser rudes. Para eles, uma for­ma de enco­ra­jar esse tipo de cul­tura é solic­i­tar críti­cas às suas próprias ideias e pro­postas. O brief­ing do plano de batal­ha do gen­er­al Dwight D. Eisen­how­er aos ofi­ci­ais do alto coman­do das Forças Ali­adas três sem­anas antes da invasão da Nor­man­dia é um bom exem­p­lo dis­so. Como nar­ra­do em Eisen­how­er, biografia escri­ta por Geof­frey Per­ret, o gen­er­al começou a reunião dizen­do “con­sidero um dev­er de todos os que virem uma fal­ha neste plano apon­tá-la sem hes­i­tar. Não ten­ho sim­pa­tia por ninguém que não tol­ere críti­cas, qual­quer que seja seu pos­to. Esta­mos aqui para con­seguir os mel­hores resul­ta­dos pos­síveis”.

Eisen­how­er esta­va não só con­vi­dan­do os ofi­ci­ais a faz­er críti­cas ou solic­i­tan­do input. Ele esta­va lit­eral­mente exigin­do, e invo­can­do out­ro aspec­to sagra­do da cul­tura mil­i­tar: o dev­er. Com que fre­quên­cia você pede a seus supe­ri­ores que cri­tiquem suas ideias?”

4. Colab­o­ração, mas com respon­s­abil­i­dade indi­vid­ual

Sis­temas de ino­vação que fun­cionam bem pre­cisam de infor­mação, input e uma inte­gração sig­ni­fica­ti­va de esforços de diver­sos gru­pos de colab­o­radores. Em cul­turas colab­o­ra­ti­vas, é nat­ur­al para os fun­cionários procu­rar aju­da de cole­gas, sem se pre­ocu­par se isso faz parte da descrição for­mal da função destes. Tais fun­cionários têm sen­so de respon­s­abil­i­dade cole­ti­va.

Mas, com mui­ta fre­quên­cia, a colab­o­ração se con­funde com con­sen­so. E o con­sen­so é veneno para tomar decisões ráp­i­das e nave­g­ar pelos prob­le­mas com­plex­os asso­ci­a­dos à ino­vação trans­for­mado­ra. No final, alguém pre­cisa tomar uma decisão e se respon­s­abi­lizar por ela. Em cul­turas de respon­s­abil­i­dade as pes­soas devem tomar decisões e assumir as con­se­quên­cias.

Não há nada iner­ente­mente incon­sis­tente em cul­turas colab­o­ra­ti­vas e focadas na respon­s­abil­i­dade. A admin­is­tração pode rev­er decisões, ou as equipes fornecer input, mas no fim do dia deter­mi­nadas pes­soas estão encar­regadas de faz­er escol­has críti­cas sobre o pro­je­to — decidir que aspec­tos devem prosseguir ou parar, que fornece­dores uti­lizar, que canais estratégi­cos são mais ade­qua­dos, que plano de mar­ket­ing é o mel­hor e assim por diante. A Pixar criou várias for­mas de fornecer feed­back aos dire­tores de filmes, mas como Ed Cat­mull, seu cofun­dador e pres­i­dente, descreve em seu livro Cre­ativ­i­ty, Inc., o dire­tor escol­he qual feed­back aceitar e qual igno­rar e se respon­s­abi­liza pelo con­teú­do do filme.Responsabilidade e colab­o­ração podem ser com­ple­mentares, e a respon­s­abil­i­dade pode moti­var a colab­o­ração.

Um bom exem­p­lo de como a respon­s­abil­i­dade pode levar a um com­por­ta­men­to colab­o­ra­ti­vo é o da Ama­zon. Ao pesquis­ar um caso da Har­vard Busi­ness School, eu desco­bri que quan­do Andy Jassy se tornou dire­tor do negó­cio de com­putação em nuvem, então emer­gente, da Ama­zon, em 2003, seu maior desafio foi desco­brir que serviços cri­ar (uma tare­fa provavel­mente nada fácil, dado que os serviços em nuvem eram um espaço com­ple­ta­mente novo na Ama­zon — e no mun­do). Jassy ime­di­ata­mente procurou aju­da das equipes de tec­nolo­gia da Ama­zon, de líderes de negó­cio e líderes téc­ni­cos e de desen­volve­dores exter­nos. O feed­back que rece­beu sobre exigên­cias, prob­le­mas e neces­si­dades foi críti­co para o suces­so ini­cial do que final­mente acabaria se tor­nan­do a Ama­zon Web Ser­vices — atual­mente um negó­cio lucra­ti­vo de US$ 12 bil­hões geri­dos por Jassy. Para ele, a colab­o­ração foi essen­cial para o suces­so do pro­gra­ma do qual foi pes­soal­mente respon­sáv­el.

Os líderes podem enco­ra­jar a respon­s­abil­i­dade sendo eles mes­mos pub­li­ca­mente respon­sáveis, mes­mo quan­do isso impli­ca risco pes­soal.

5. Nive­la­men­to, mas forte lid­er­ança

Um grá­fi­co orga­ni­za­cional fornece uma ideia muito boa do nive­la­men­to estru­tur­al de uma empre­sa, mas rev­ela pouco sobre seu nive­la­men­to cul­tur­al — como as pes­soas se com­por­tam e inter­agem inde­pen­den­te­mente de sua posição ofi­cial. Em orga­ni­za­ções cul­tural­mente nive­ladas, as pes­soas têm ampla liber­dade de ado­tar medi­das, tomar decisões e expor suas opiniões. A defer­ên­cia é con­ce­di­da com base na com­petên­cia, não em títu­los. Cul­tural­mente as orga­ni­za­ções nive­ladas nor­mal­mente con­seguem rea­gir com mais agili­dade a cir­cun­stân­cias que mudam com rapi­dez, porque a toma­da de decisão é descen­tral­iza­da e mais próx­i­ma das fontes de infor­mação rel­e­vantes. Elas ten­dem a ger­ar maior diver­si­dade de ideias que as empre­sas hier­ar­quizadas porque aproveitam o con­hec­i­men­to, a exper­tise e as per­spec­ti­vas de uma comu­nidade mais ampla de colab­o­radores.

No entan­to, fal­ta de hier­ar­quia não sig­nifi­ca fal­ta de lid­er­ança.

Para­doxal­mente, as orga­ni­za­ções nive­ladas requerem lid­er­ança mais forte que as hier­ar­quizadas. As orga­ni­za­ções nive­ladas geral­mente se trans­for­mam em caos quan­do a lid­er­ança não con­segue esta­b­ele­cer pri­or­i­dades estratég­i­cas e direções claras. A Ama­zon e a Google são orga­ni­za­ções muito nive­ladas, nas quais a toma­da de decisão e a respon­s­abil­i­dade se esten­dem até os níveis mais baixos e os fun­cionários de todos os níveis des­fru­tam de um alto grau de autono­mia para desen­volver ideias ino­vado­ras. No entan­to, em ambas os líderes são incriv­el­mente fortes e visionários, comu­ni­cam metas e artic­u­lam princí­pios impor­tantes sobre como essas orga­ni­za­ções devem oper­ar.
Aqui nova­mente o equi­líbrio entre nive­la­men­to e forte lid­er­ança requer a mão hábil dos gestores. Nive­la­men­to não sig­nifi­ca que os líderes seniores devem se dis­tan­ciar dos detal­h­es opera­cionais ou pro­je­tos. Na ver­dade, o nive­la­men­to per­mite que os líderes este­jam mais próx­i­mos da ação. O fale­ci­do Ser­gio Mar­chionne, que lid­er­ou a ressur­reição primeiro da Fiat e depois da Chrysler (e foi o arquite­to de sua fusão), comen­tou numa entre­vista um caso da Har­vard Busi­ness School que escrevi: “Nas duas empre­sas uti­lizei os mes­mos princí­pios bási­cos para a mudança. Primeiro nivelei a orga­ni­za­ção. Tive de reduzir a dis­tân­cia entre mim e as pes­soas que tomavam decisões. (Em deter­mi­na­do momen­to Mar­chionne tin­ha 46 sub­or­di­na­dos dire­tos nas duas orga­ni­za­ções.) Se havia algum prob­le­ma, eu que­ria ouvi-lo dire­ta­mente da pes­soa envolvi­da, não de seu chefe”.

Tan­to na Fiat como na Chrysler, Mar­chionne trans­feriu seu escritório para o piso da engen­haria para poder estar mais per­to do plane­ja­men­to do pro­du­to e dos pro­gra­mas de desen­volvi­men­to. Ele era famoso por focar nos detal­h­es e por esten­der as tomadas de decisão até os níveis mais baixos da orga­ni­za­ção. (Com tan­tos sub­or­di­na­dos dire­tos, era prati­ca­mente impos­sív­el não faz­er isso.)

É difí­cil con­seguir o jus­to equi­líbrio entre nive­la­men­to e forte lid­er­ança da alta gestão e dos fun­cionários de toda a orga­ni­za­ção. Para os líderes seniores, isso exige capaci­dade de artic­u­lar visões estratég­i­cas con­vin­centes (o que com­põe a big-pic­ture) e, ao mes­mo tem­po, ser habili­doso e com­pe­tente em questões téc­ni­cas e opera­cionais. Steve Jobs foi um grande exem­p­lo de líder com essa capaci­dade. Ele deli­neou ideias visionárias para a Apple e ao mes­mo tem­po era obceca­do por questões téc­ni­cas e de pro­je­to. Para os fun­cionários, o nive­la­men­to exi­gia que eles desen­volvessem suas próprias capaci­dades de forte lid­er­ança e se sen­tis­sem con­fortáveis em tomar medi­das e se respon­s­abi­lizar por suas decisões.

Lid­er­ar a jor­na­da

Todas as mudanças cul­tur­ais são difí­ceis. As cul­turas orga­ni­za­cionais são como con­tratos soci­ais que especi­fi­cam as regras das partes inter­es­sadas. Quan­do os líderes resolvem mudar a cul­tura de uma orga­ni­za­ção, eles estão, em cer­to sen­ti­do, rompen­do um con­tra­to social. Não seria de sur­preen­der que muitas pes­soas da orga­ni­za­ção — prin­ci­pal­mente as bem-suce­di­das com as regras em vig­or — se opusessem.

Lid­er­ar a jor­na­da para cri­ar e man­ter uma cul­tura ino­vado­ra é par­tic­u­lar­mente difí­cil por três motivos. Primeiro, como as cul­turas ino­vado­ras requerem uma com­bi­nação de com­por­ta­men­tos aparente­mente con­tra­ditórios, elas cor­rem o risco de cri­ar con­fusão. Um grande pro­je­to fra­cas­sou. Deve­mos comem­o­rar? O líder do pro­gra­ma deve ser respon­s­abi­liza­do? A respos­ta a essas per­gun­tas depende das cir­cun­stân­cias. A fal­ha podia ser evi­ta­da? Havia o con­hec­i­men­to prévio de questões que pudessem resul­tar em escol­has difer­entes? Os mem­bros da equipe foram trans­par­entes? O apren­diza­do decor­rente da exper­iên­cia seria rel­e­vante? E assim por diante. Se não hou­ver clareza sobre essas questões, as pes­soas se tor­nam con­fusas e até céti­cas quan­to às intenções da lid­er­ança.

Segun­do, enquan­to cer­tos com­por­ta­men­tos exigi­dos por cul­turas ino­vado­ras são rel­a­ti­va­mente fáceis de aceitar, out­ros são menos palatáveis para algu­mas pes­soas da orga­ni­za­ção. Aque­las que pen­sam na ino­vação como aber­ta para todos, verão a dis­ci­plina como uma restrição desnecessária à sua cria­tivi­dade. Aque­las que se aproveitam do anon­i­ma­to do con­sen­so não aceitarão uma mudança que val­oriza a respon­s­abil­i­dade pes­soal. Algu­mas pes­soas se adap­tarão rap­i­da­mente às novas regras, mas out­ras não.

Ter­ceiro, como as cul­turas ino­vado­ras são sis­temas de com­por­ta­men­tos inter­de­pen­dentes, elas não podem ser imple­men­tadas de for­ma frag­men­ta­da. Pense em como os com­por­ta­men­tos se com­ple­men­tam e reforçam mutu­a­mente. Pes­soas extrema­mente com­pe­tentes se tornarão mais con­fortáveis com tomadas de decisão e respon­s­abil­i­dades — e suas “fal­has” provavel­mente levarão ao apren­diza­do, em vez de ao des­perdí­cio. A exper­i­men­tação dis­ci­plina­da cus­tará menos e pro­duzirá infor­mação mais útil — por isso, mais uma vez, a tol­erân­cia a exper­i­men­tos que fra­cas­sam tor­na-se pru­dente, e não míope. A respon­s­abil­i­dade facili­ta muito o nive­la­men­to — e orga­ni­za­ções nive­ladas cri­am um fluxo rápi­do de infor­mação, que leva a tomadas de decisão mais ráp­i­das e inteligentes.

Além das coisas triv­i­ais que os líderes podem faz­er para imple­men­tar uma mudança cul­tur­al (artic­u­lar e comu­nicar val­ores, mod­e­lar com­por­ta­men­tos-alvo e assim por diante), cri­ar uma cul­tura ino­vado­ra requer algu­mas ações especí­fi­cas. Primeiro, os líderes pre­cisam ser trans­par­entes para com a orga­ni­za­ção sobre a dura real­i­dade das cul­turas ino­vado­ras. Elas não são brin­cadeira. As pes­soas podem se empol­gar com as per­spec­ti­vas de ter mais liber­dade para exper­i­men­tar, fra­cas­sar, colab­o­rar, falar aber­ta­mente e tomar decisões. Mas tam­bém pre­cisam recon­hecer que essas liber­dades são acom­pan­hadas de sérias respon­s­abil­i­dades. É mel­hor ser dire­to logo no iní­cio que arriscar a ali­men­tar o ceti­cis­mo depois, quan­do as regras pare­cem mudar no meio do cam­in­ho.

Segun­do, os líderes pre­cisam recon­hecer que não há atal­hos na for­mação de uma cul­tura ino­vado­ra. Muitos líderes acred­i­tam que frag­men­tan­do a orga­ni­za­ção em unidades menores ou crian­do “pequenos depar­ta­men­tos” autônomos podem emu­lar o iní­cio de uma cul­tura ino­vado­ra. Essa abor­dagem rara­mente fun­ciona. Sim­ples­mente frag­men­tar uma grande orga­ni­za­ção buro­cráti­ca em unidades menores não as dota magi­ca­mente de espíri­to empreende­dor. Sem fortes esforços da gestão para moldar val­ores, nor­mas e com­por­ta­men­tos, essas unidades ger­adas ten­dem a her­dar a cul­tura da orga­ni­za­ção mãe. Isso não sig­nifi­ca que unidades ou equipes autôno­mas não pos­sam ser usadas para exper­i­men­tar uma cul­tura ou incubar uma nova. Elas podem. Mas o desafio de cri­ar cul­turas ino­vado­ras den­tro dessas unidades não deve ser subes­ti­ma­do. E elas não serão para todos, por isso você pre­cisa sele­cionar com muito cuida­do quem da orga­ni­za­ção mãe deve inte­grá-las.

Final­mente, como as cul­turas ino­vado­ras podem ser instáveis e a ten­são entre as forças de equi­líbrio pode facil­mente dese­qui­li­brá-las, os líderes pre­cisam estar aten­tos aos sinais de exces­so em qual­quer área e inter­vir para recu­per­ar o equi­líbrio quan­do necessário. Tol­erân­cia exager­a­da ao fra­cas­so pode enco­ra­jar a neg­ligên­cia e infind­áveis pedi­dos de des­cul­pas, mas exces­so de intol­erân­cia à incom­petên­cia pode ger­ar medo de assumir riscos. Nen­hum dess­es extremos é con­ve­niente. Se exager­a­da, a dis­posição ao exper­i­men­to se con­verte em per­mis­são para assumir riscos inde­v­i­dos e dis­ci­plina exager­ada­mente restri­ti­va reprime boas ideias, mas defor­madas. A colab­o­ração exces­si­va abafa a toma­da de decisão, mas ênfase exces­si­va na respon­s­abil­i­dade indi­vid­ual leva a um cli­ma dis­fun­cional no qual todos, dili­gen­te­mente, pro­tegem seus próprios inter­ess­es. Há difer­ença entre ser fran­co e ser desagradáv­el. Os líderes pre­cisam estar aten­tos às tendên­cias ao exagero, prin­ci­pal­mente em si mes­mos. Se você pre­tende que sua orga­ni­za­ção atin­ja o del­i­ca­do equi­líbrio necessário, então, como líder, demon­stre capaci­dade de atin­gir esse equi­líbrio.


Gary P. Pisano é pro­fes­sor e reitor assis­tente sênior de desen­volvi­men­to na Har­vard Busi­ness School. Ele é autor de Cre­ative con­struc­tion: the DNA of sus­tained inno­va­tion (a ser pub­li­ca­do em breve pela Pub­li­cAf­fairs).

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