O alto custo da eficiência

Elim­i­nar o des­perdí­cio é o san­to graal da ciên­cia da gestão, mas enfa­tizá-lo causa uma infinidade de prob­le­mas. As empre­sas dev­e­ri­am dis­pen­sar a mes­ma atenção para a resil­iên­cia.

Em seu tra­bal­ho ref­er­en­cial de 1776 A riqueza das nações, Adam Smith mostrou que divisão inteligente de tra­bal­ho pode­ria tornar as empre­sas com­er­ci­ais extrema­mente mais pro­du­ti­vas se cada tra­bal­hador assumisse pes­soal­mente o encar­go de con­stru­ir pro­du­tos acaba­dos. Qua­tro décadas depois, em Sobre os princí­pios da econo­mia políti­ca e tax­ação, David Ricar­do esten­deu esse argu­men­to. Segun­do ele, como os tra­bal­hadores por­tugue­ses pro­duzi­am vin­ho com mais efi­ciên­cia e os tra­bal­hadores ingle­ses eram mais efi­cientes na fab­ri­cação de teci­dos, ambos os gru­pos tra­bal­hari­am mel­hor se cada um focasse em sua área de van­tagem com­pet­i­ti­va e se ambos nego­ci­assem entre si.

Ess­es insights não só refle­ti­ram como tam­bém nortear­am a Rev­olução Indus­tri­al, que se trata­va tan­to de ino­vações dos proces­sos que reduzi­am o descarte e aumen­tavam a pro­du­tivi­dade, como da apli­cação de novas tec­nolo­gias. A ideia de que a for­ma como orga­ni­zamos o tra­bal­ho pode influir mais na pro­du­tivi­dade que o esforço indi­vid­ual, e que a espe­cial­iza­ção cria van­tagem com­er­cial, está impreg­na­da no estu­do da gestão até os dias atu­ais. Nesse sen­ti­do Smith e Ricar­do foram os pre­cur­sores de Fred­er­ick Winslow Tay­lor, que intro­duz­iu a ideia de que a gestão pode­ria ser trata­da como ciên­cia — ini­cian­do assim um movi­men­to que chegou ao apogeu com W. Edwards Dem­ing, cujo
sis­tema de gestão de qual­i­dade total foi cri­a­do para elim­i­nar todos os rejeitos no proces­so de pro­dução.

Jun­tos, Smith, Ricar­do, Tay­lor e Dem­ing trans­for­maram a gestão numa ciên­cia cujo obje­ti­vo era elim­i­nar o des­perdí­cio — fos­se ele de tem­po, de mate­r­i­al ou de cap­i­tal. A crença na ver­dadeira vir­tude da efi­ciên­cia nun­ca diminuiu. Ela está incor­po­ra­da em orga­ni­za­ções mul­ti­lat­erais como a Orga­ni­za­ção Mundi­al do Comér­cio, cujo obje­ti­vo é max­i­mizar a efi­ciên­cia dos negó­cios. Ela está pro­te­gi­da pelo Wash­ing­ton Con­sen­sus via com­er­cial­iza­ção e lib­er­al­iza­ção de inves­ti­men­tos estrangeiros dire­tos, for­mas efi­cientes de tax­ação, desreg­u­la­men­tação, pri­va­ti­za­ção,
mer­ca­dos de cap­i­tal trans­par­entes, orça­men­tos equi­li­bra­dos e gov­er­nos que com­bat­em o des­perdí­cio. E é divul­ga­da nas salas de aula de todas as fac­ul­dades de admin­is­tração do plan­e­ta.

Elim­i­nar o des­perdí­cio parece uma meta razoáv­el. Então, por que não quer­e­mos que os gestores defendam o uso efi­ciente de recur­sos? Como dis­cu­tire­mos, o foco exager­a­do na efi­ciên­cia pode pro­duzir efeitos neg­a­tivos sur­preen­dentes, a pon­to de empre­sas super­efi­cientes terem o poten­cial de cri­ar a des­or­dem social. Isso porque, à medi­da que aumen­ta a efi­ciên­cia, as rec­om­pen­sas tor­nam-se cada vez mais desiguais, crian­do um alto grau de espe­cial­iza­ção e con­ferindo ao mer­ca­do um poder sem­pre cres­cente dos con­cor­rentes mais efi­cientes. O ambi­ente de negó­cios resul­tante é de alto risco, com altos retornos que acabam nas mãos de um número cada vez mais reduzi­do de empre­sas e pes­soas — um resul­ta­do clara­mente insus­ten­táv­el. Acred­i­to que a solução é que negó­cios, gov­er­no e edu­cação foquem mais deci­si­va­mente numa fonte menos ime­di­a­ta de van­tagem com­pet­i­ti­va: a resil­iên­cia. Isso pode reduzir os gan­hos de cur­to pra­zo da efi­ciên­cia, mas pro­duzirá um ambi­ente de negó­cios mais estáv­el e equân­ime a lon­go pra­zo. Na con­clusão descre­vo o que toda agen­da de resil­iên­cia deve envolver.

Para enten­der por que é tão perigoso focar com insistên­cia na efi­ciên­cia, pre­cisamos explo­rar primeira­mente nos­sas hipóte­ses mais bási­cas sobre a dis­tribuição de rec­om­pen­sas nas ativi­dades econômi­cas.

Os resul­ta­dos não são real­mente aleatórios

Ao pre­ver­mos resul­ta­dos econômi­cos— ren­da, lucros e out­ros —, geral­mente assum­i­mos que quais­quer paga­men­tos no nív­el indi­vid­ual são aleatórios: dita­dos pelo aca­so. É óbvio que não é assim. As van­ta­gens são deter­mi­nadas por numerosos fatores, incluin­do nos­sas escol­has. Mas ess­es fatores são tão com­plex­os que, até onde podemos afir­mar, os resul­ta­dos econômi­cos podem ser deter­mi­na­dos tam­bém pelo aca­so. A aleato­riedade é uma hipótese sim­pli­fi­cado­ra que se encaixa no que obser­va­mos.

Se os resul­ta­dos econômi­cos são aleatórios, a estatís­ti­ca mostra que eles devem seguir uma dis­tribuição gaus­siana: quan­do plota­dos num grá­fi­co, a grande maio­r­ia dos paga­men­tos estará per­to da média, e a ocor­rên­cia será cada vez menor quan­to mais nos afas­ta­mos em qual­quer direção. Esse resul­ta­do é geral­mente con­heci­do como dis­tribuição nor­mal, porque a maio­r­ia dos parâmet­ros que podemos medir segue esse padrão, como altura, peso e inteligên­cia.
Por razões óbvias, ele tam­bém é con­heci­do como cur­va em for­ma de sino. À medi­da que mais pon­tos são adi­ciona­dos no grá­fi­co, a nor­mal­i­dade da dis­tribuição se tor­na cada vez mais evi­dente.

Como a dis­tribuição gaus­siana é muito comum em nos­so dia a dia e na natureza, é esper­a­do que ocor­ra em várias situ­ações. Acred­i­ta­mos que os resul­ta­dos são e dev­e­ri­am ser nor­mal­mente dis­tribuí­dos — não só no mun­do físi­co, mas tam­bém no mun­do em ger­al.

Esper­amos, por exem­p­lo, que a dis­tribuição da ren­da pes­soal e do desem­pen­ho da empre­sa no âmbito das indús­trias seja aprox­i­mada­mente uma cur­va gaus­siana, e con­struí­mos nos­sos sis­temas e dirigi­mos nos­sas ações em con­formi­dade. A for­ma clás­si­ca de pen­sar em deter­mi­na­da indús­tria, inde­pen­den­te­mente de como é defini­da, é que ela ten­ha um pequeno número de vence­dores, um pequeno número de perde­dores (que provavel­mente sairão do negó­cio) e muitos con­cor­rentes con­cen­tra­dos na região cen­tral. Num ambi­ente como esse, os maiores gan­hos de efi­ciên­cia são rap­i­da­mente apa­ga­dos enquan­to out­ros os ado­tam, e à medi­da que as empre­sas fra­cas­sam, novas empre­sas as sub­stituem. Essa for­ma ide­al­iza­da de con­cor­rên­cia é exata­mente o que a políti­ca antitruste procu­ra atin­gir. Não quer­e­mos que nen­hu­ma empre­sa cresça tan­to e se torne tão poderosa que altere a con­fig­u­ração da dis­tribuição. E se os resul­ta­dos real­mente seguem uma dis­tribuição aleatória e a van­tagem com­pet­i­ti­va não dura muito, a com­petição pela efi­ciên­cia é sus­ten­táv­el.

Mas a evidên­cia não jus­ti­fi­ca a suposição de aleato­riedade nos resul­ta­dos econômi­cos. Na real­i­dade, os gan­hos de efi­ciên­cia cri­am uma van­tagem duradoura para alguns atores, e os resul­ta­dos seguem um tipo com­ple­ta­mente difer­ente de dis­tribuição — que rece­beu o nome do econ­o­mista Vil­fre­do Pare­to. Há mais de um sécu­lo, Pare­to desco­briu que 20% dos ital­ianos pos­suíam 80% das ter­ras de seu país. Na dis­tribuição de Pare­to, a grande maio­r­ia das ocor­rên­cias se con­cen­tra na extrem­i­dade de val­ores mais baixos e a extrem­i­dade de val­ores mais altos se estende indefinida­mente.


Não existe média sig­ni­fica­ti­va ou medi­ana. A dis­tribuição não é estáv­el. Ao con­trário do que ocorre na dis­tribuição gaus­siana, se adi­cion­ar­mos mais pon­tos no grá­fi­co da dis­tribuição de Pare­to, ela se tor­na ain­da mais extrema. Isso porque os resul­ta­dos da dis­tribuição de Pare­to, ao con­trário da gaus­siana, guardam dependên­cia entre
si. Pense, por exem­p­lo, na altura — uma car­ac­terís­ti­ca pes­soal que, como foi men­ciona­do, segue a dis­tribuição gaus­siana. O fato de uma pes­soa ser baixa não depende do fato de out­ra ser alta, por isso a altura (de acor­do com o
gênero) segue dis­tribuição nor­mal — ou é nor­mal­mente dis­tribuí­da. Ago­ra pense no que acon­tece quan­do uma pes­soa está decidin­do quem vai seguir no Insta­gram. Ela procu­ra saber quan­tos seguidores vários prováveis alvos têm. Pes­soas com poucos seguidores nem sequer entram no grupo a ser con­sid­er­a­do. Por out­ro lado, pes­soas famosas com muitos seguidores — por exem­p­lo, Kim Kar­dashi­an, que na últi­ma con­tagem reg­istrou 115 mil­hões de seguidores — são can­didatos atraentes de ime­di­a­to, pois já têm muitos seguidores. O efeito — muitos seguidores — tor­na-se a causa de mais efeito: mais seguidores. No entan­to, o número de seguidores do Insta­gram segue a dis­tribuição de Pare­to: pouquís­si­mas pes­soas têm a parte do leão dos seguidores e a maio­r­ia tem somente alguns seguidores. O número médio de seguidores é de 150 a 200 — uma fração insignif­i­cante dos seguidores de Kim Kar­dashi­an.

O mes­mo raciocínio vale para a riqueza. A quan­ti­dade de din­heiro no mun­do, em qual­quer momen­to, é fini­ta. Cada dólar na sua mão é um dólar não você gan­har um dólar não é inde­pen­dente do dólar gan­ho por out­ra pes­soa.
Além dis­so, quan­to mais dólares você tem, mais fácil é gan­har mais. Como diz o dita­do, din­heiro atrai din­heiro. Como é bem con­heci­do, 1% dos amer­i­canos mais ricos con­cen­tra quase 40% da riqueza do país, e os 90% da base da pirâmide pos­suem ape­nas 23%. Os amer­i­canos mais ricos são 100 bil­hões de vezes mais ricos que os amer­i­canos mais pobres. Por out­ro lado, o amer­i­cano adul­to mais alto tem menos de três vezes a altura do amer­i­cano mais baixo — o que mais uma vez demon­stra que os resul­ta­dos são muito mais espal­ha­dos na dis­tribuição de Pare­to.

A polar­iza­ção é sim­i­lar na dis­tribuição geográ­fi­ca da riqueza. Os ricos se con­cen­tram cada vez mais em poucos locais. Em 1975, 21% dos 5% de amer­i­canos mais ricos vivi­am nas dez cidades mais ric­as. Em 2012, a parcela aumen­tou para 29%. O mes­mo vale para a ren­da. Em 1966, a ren­da média per capi­ta em Cedar Rapids, Iowa, era igual à da cidade de Nova York. Atual­mente é 37% menor. Em 1978, Detroit empar­el­ha­va com Nova York, ago­ra é 38% menor. Em 1980, a ren­da média per capi­ta em São Fran­cis­co esta­va 50% aci­ma da média nacional, hoje está 88% aci­ma. Os val­ores com­par­a­tivos para Nova York são 80% e 172%.

Aparente­mente tam­bém os resul­ta­dos de negó­cios estão mudan­do para a dis­tribuição de Pare­to. A con­sol­i­dação da indús­tria é pro­gres­si­va­mente mais comum no mun­do desen­volvi­do: cada vez mais os lucros das indús­trias se con­cen­tram num pequeno grupo de empre­sas. Por exem­p­lo, 75% das indús­trias amer­i­canas tornaram-se mais con­cen­tradas nos últi­mos 20 anos. Em 1978, as 100 empre­sas mais lucra­ti­vas cap­taram 48% dos lucros de toda as empre­sas de cap­i­tal aber­to jun­tas, mas em 2015 o per­centu­al foi de incríveis 84% (ver quadro “O poder cres­cente  e poucos”). As histórias de suces­so da chama­da nova econo­mia são de cer­ta for­ma as respon­sáveis — a dinâmi­ca das  platafor­mas de negó­cios, onde van­ta­gens com­pet­i­ti­vas muitas vezes decor­rentes de efeitos de rede, rap­i­da­mente
con­verte uma cur­va gaus­siana em uma cur­va de dis­tribuição de Pare­to, como com Kar­dashi­an e Insta­gram. É pre­ciso exam­i­nar como a questão da efi­ciên­cia se insere nes­sa dinâmi­ca, jun­ta­mente com o papel das chamadas mono­cul­turas, e como o poder e o inter­esse próprio lev­am alguns atores a enga­nar o sis­tema com resul­ta­dos cor­ro­sivos.

A pressão para con­sol­i­dar
Os teóri­cos da com­plex­i­dade, incluin­do Bill McK­elvey, da UCLA, iden­ti­ficaram vários fatores que sis­tem­ati­ca­mente
forçam os resul­ta­dos rumo à dis­tribuição de Pare­to. Entre ess­es fatores estão a pressão sobre o sis­tema em questão e a facil­i­dade de conexão entre seus par­tic­i­pantes. Pense num monte de areia — a ilus­tração preferi­da dos teóri­cos da com­plex­i­dade. Acres­cente mil­hares de grãos de areia um a um sem provo­car um colap­so. Cada grão, indi­vid­ual­mente, não pro­duz prati­ca­mente nen­hum efeito. Mas, então, um grão a mais dá iní­cio a uma reação em cadeia que faz todo o monte desmoronar. De repente um úni­co grão tem efeito avas­sal­ador. No entan­to, se o monte de areia estiverem ambi­ente sem gravi­dade, ele não desmorona. Ele só desmorona quan­do a gravi­dade faz o últi­mo  grão cair, mudan­do brus­ca­mente a posição dos out­ros grãos.

Nos resul­ta­dos de empre­sas o equiv­a­lente da gravi­dade é a efi­ciên­cia. Pense na indús­tria de gestão de resí­du­os dos Esta­dos Unidos. Hou­ve época em que havia mil­hares de peque­nas com­pan­hias gestoras de resí­du­os — cole­toras de lixo — por todo o país. Cada uma tin­ha de um a vários cam­in­hões que aten­di­am a pop­u­lação em deter­mi­na­da área. A lucra­tivi­dade dess­es mil­hares de empre­sas mostra­va dis­tribuição razoavel­mente nor­mal. A maio­r­ia con­cen­tra­da em torno da média, com algu­mas empre­sas maiores alta­mente efi­cientes e com lucros mais altos, e algu­mas mais fra­cas com lucros menores.

Foi quan­do surgiu Wayne Huizen­ga, fun­dador da Waste Man­age­ment (WM). Anal­isan­do a estru­tu­ra de cus­tos da empre­sa, ele perce­beu que dois grandes fatores eram a aquisição de cam­in­hões (os veícu­los eram caros, e como eram uti­liza­dos inten­si­va­mente pre­cisavam ser sub­sti­tuí­dos com reg­u­lar­i­dade) e a manutenção e con­ser­tos (o uso con­tín­uo tor­na­va ess­es itens críti­cos e caros). Cada pequeno ator, por sua vez, com­prou cam­in­hões um ou vários de uma vez e mon­tou sua ofic­i­na de con­ser­tos para aten­der à sua peque­na fro­ta.

Huizen­ga perce­beu que se adquirisse deter­mi­na­da quan­ti­dade de rotas em deter­mi­na­da região, duas coisas pode­ri­am acon­te­cer. Ele dis­po­ria de uma ala­vancagem de com­pra muito maior com os fab­ri­cantes de cam­in­hão e pode­ria adquirir veícu­los a preços mais baixos. Segun­do, ele pode­ria fechar ofic­i­nas indi­vid­u­ais de manutenção e cri­ar uma só, muito mais efi­ciente. À medi­da que ele prosseguia, o efeito — maior efi­ciên­cia — tor­na­va-se a causa de mais efeito. Huizen­ga ger­ou os recur­sos para con­tin­uar com­pran­do peque­nas empre­sas de cole­ta de lixo e expandin­do sua ação em novos ter­ritórios, o que tornou a WM ain­da maior e mais efi­ciente. Isso ger­ou uma pressão com­pet­i­ti­va sobre os pequenos oper­adores, porque a WM podia entrar em seus ter­ritórios e faz­er ofer­tas de com­pra por preços abaixo do val­or de mer­ca­do. Essas peque­nas empre­sas tin­ham somente duas opções: perder din­heiro ou ser ven­di­das para a WM. O suces­so de Huizen­ga impôs enorme pressão ao sis­tema.

Tal qual o desmoron­a­men­to do monte de areia, a indús­tria se con­soli­dou rap­i­da­mente. Como prin­ci­pal ator, a WM cap­tura­va os maiores lucros, a Repub­lic Ser­vices, con­cor­rente e segun­da maior fornece­do­ra de serviços de cole­ta de resí­du­os, rece­bia lucros jus­tos e várias out­ras empre­sas peque­nas oper­avam prati­ca­mente em nív­el de sobre­vivên­cia. A indús­tria atu­al está estru­tu­ra­da como uma dis­tribuição de Pare­to, e, como vende­do­ra, a WM leva a maior parte. Em 2017, o lucro da empre­sa super­ou US$14 bil­hões. Huizen­ga fale­ceu (em março deste ano) multi­bil­ionário.

Se a WM é tão efi­ciente, por que dev­eríamos nos opor? Os con­sum­i­dores não estão todos sat­is­feitos? E faz algu­ma difer­ença se é a WM ou um grupo de peque­nas empre­sas que paga os salários dos fun­cionários? A respos­ta é: o mod­e­lo super­efi­ciente dom­i­nante aumen­ta o risco de um fra­cas­so cat­a­stró­fi­co. Para enten­der por que, uti­lizare­mos um exem­p­lo da agri­cul­tura.

O prob­le­ma das mono­cul­turas
Hou­ve uma época em que as amên­doas eram cul­ti­vadas nos Esta­dos Unidos em vários locais. Mas algu­mas regiões se mostraram mel­hores que out­ras, e como ocorre na maio­r­ia dos casos de pro­dução, as econo­mias de escala pode­ri­am advir da con­sol­i­dação. Como se ver­i­fi­cou, o Vale Cen­tral da Cal­ifór­nia é per­feito para o cul­ti­vo de amên­doas, e atual­mente a região pro­duz mais de 80% das amên­doas do mun­do. Esse é um exem­p­lo de negó­cio clás­si­co, chama­do pelos biól­o­gos de mono­cul­tura: uma úni­ca fábri­ca se encar­rega do pro­du­to, uma úni­ca empre­sa dom­i­na a indús­tria, um úni­co soft­ware dom­i­na todos os sis­temas.

Essa efi­ciên­cia cobra um preço. A indús­tria de amên­doas pro­je­tou suas redundân­cias, ou ina­tivi­dade, e no proces­so perdeu a pro­teção que as redundân­cias ofer­e­cem. Um even­to climáti­co local extremo ou um vírus per­ni­cioso acabaria com a maior parte da pro­dução mundi­al.

E a con­sol­i­dação tem efeitos destru­idores. Todos os botões das amen­doeiras pre­cisam ser polin­iza­dos num mes­mo
perío­do rel­a­ti­va­mente cur­to, porque as árvores crescem no mes­mo solo e estão sob a ação das mes­mas condições climáti­cas. Isso exige o trans­porte de colmeias de todo o país. Ao mes­mo tem­po, o alas­tra­men­to de epi­demias começou a pôr em risco a capaci­dade da pop­u­lação de abel­has do país de polinizar todas as plan­tas que pre­cisam delas para pro­duzir. Uma teo­ria para explicar a epi­demia é que como as colmeias para a polin­iza­ção dessa mono­cul­tura estão sendo trans­portadas por cam­in­hões por todo o país como jamais acon­te­ceu, a resistên­cia das abel­has diminuiu.

O poder e o inter­esse próprio
Como vimos com a WM, out­ro resul­ta­do de sis­temas de efi­ciên­cia é que os atores mais efi­cientes se tor­nam inevi­tavel­mente os mais poderosos. Con­sideran­do que os gestores agem sub­stan­cial­mente visan­do seus próprios inter­ess­es, quan­to mais efi­ciente um sis­tema, maior a prob­a­bil­i­dade de ser burla­do por atores efi­cientes — e quan­do  isso acon­tece, a meta da efi­ciên­cia deixa de ser a max­i­miza­ção de lon­go pra­zo do val­or social ger­al. Mas ao con­trário, ela começa a ser con­struí­da como uma for­ma de entre­gar o maior val­or ime­di­a­to ao ator dom­i­nante. Em ger­al, os gestores agem visan­do seus próprios inter­ess­es, por isso quan­to mais efi­ciente o sis­tema, maior a prob­a­bil­i­dade de ele ser burla­do por atores efi­cientes.

Essa dinâmi­ca se ver­i­fi­ca tam­bém nos mer­ca­dos de cap­i­tal, nos quais impor­tantes tomadores de decisão cor­po­ra­ti­va se unem aos maiores stake­hold­ers. Fun­ciona assim: investi­dores insti­tu­cionais con­cor­dam com a remu­ner­ação basea­da em ações para os exec­u­tivos seniores. Os exec­u­tivos então tomam medi­das para reduzir a fol­ha de paga­men­to e cor­tar gas­tos de P&D e gas­tos de cap­i­tal — tudo em nome da efi­ciên­cia. As econo­mias ime­di­atas impul­sion­am o fluxo de caixa e, como con­se­quên­cia, fazem o preço das ações aumen­tar ver­tig­i­nosa­mente. Então ess­es investi­dores — prin­ci­pal­mente os que nego­ci­am ati­va­mente os fun­dos de inves­ti­men­tos— e os exec­u­tivos  ven­dem suas par­tic­i­pações para realizar gan­hos de cur­to pra­zo, muito provavel­mente retor­nan­do à sua par­tic­i­pação ini­cial, depois da resul­tante que­da de preços. Mas seus gan­hos têm um cus­to. Os perde­dores mais óbvios são os fun­cionários dis­pen­sa­dos por causa do enfraque­c­i­men­to finan­ceiro da empre­sa. Mas per­dem tam­bém os acionistas de lon­go pra­zo, porque o futuro da empre­sa corre risco. E os con­sum­i­dores per­dem pela qual­i­dade do pro­du­to, que é  ameaça­da na medi­da em que a empre­sa reduz os inves­ti­men­tos em mel­ho­rias.

Os que defen­d­em o val­or para os acionistas argu­men­tam que a com­petição de novos ingres­santes, com pro­du­tos e serviços supe­ri­ores, com­pen­sará: os novatos empre­garão os fun­cionários dis­pen­sa­dos, os con­sum­i­dores acor­rerão aos seus pro­du­tos e os acionistas mudarão para inves­ti­men­tos que prom­e­tem mel­hores resul­ta­dos. Mas isso pres­supõe que o mer­ca­do seja alta­mente dinâmi­co e que o poder não este­ja con­cen­tra­do nas mãos de poucos atores. Ess­es pres­su­pos­tos são váli­dos em alguns setores. A indús­tria de lin­has aéreas é um deles: os prin­ci­pais ativos
— aeron­aves e portões de embar­que — são rel­a­ti­va­mente fáceis de adquirir e descar­tar. Por isso, sem­pre que a deman­da aumen­ta, novos atores podem entrar em cena. Mas não é fácil fun­dar um ban­co, con­stru­ir uma fábri­ca de chip ou abrir uma empre­sa de tele­co­mu­ni­cação. (Ironi­ca­mente, a entra­da é talvez mais difí­cil em algu­mas das áreas mais quentes da nova econo­mia, nas quais a van­tagem com­pet­i­ti­va muitas vezes está vin­cu­la­da a efeitos da rede que dão aos incum­bentes um poderoso impul­so.) E, às vezes, o poder se tor­na tão con­cen­tra­do que são necessárias ações políti­cas para reduzir a influên­cia opres­so­ra dos atores dom­i­nantes, como no movi­men­to antitruste da déca­da de 1890.

Os negó­cios de fun­dos de pen­são fornecem um caso par­tic­u­lar­mente odioso de abu­so dos dom­i­nantes inter­nos.
Em princí­pio, os gestores de fun­dos dev­e­ri­am com­pe­tir pela qual­i­dade de suas decisões de inves­ti­men­to de lon­go pra­zo, porque é isso que resul­ta em val­or para os pen­sion­istas. Mas 19 dos 25 maiores fun­dos de pen­são nos Esta­dos Unidos, que respon­dem por mais de 50% dos ativos dos 75 maiores fun­dos de pen­são do país, são monopólios cri­a­dos e reg­u­la­dos pelo gov­er­no. Seus clientes não têm escol­ha de fornece­dor. Se você é pro­fes­sor no Texas, as leis fed­erais exigem que o Sis­tema de Aposen­ta­do­ria de Pro­fes­sores do Texas — uma agên­cia do gov­er­no — admin­istre seus ativos de aposen­ta­do­ria. As ativi­dades dos gestores de fun­do, por­tan­to, são rel­a­ti­va­mente seguras des­de que não criem prob­le­mas de algu­ma for­ma óbvia e públi­ca. Eles estão em boa posição para jog­ar com o sis­tema.

A for­ma mais dire­ta de faz­er isso é aceitar incen­tivos (usual­mente ofer­e­ci­dos pelos fun­dos de inves­ti­men­tos) para inve­stir de deter­mi­na­da for­ma (que ben­e­fi­cie os fun­dos de inves­ti­men­to). Somente nos últi­mos dez anos, exec­u­tivos seniores de dois dos maiores fun­dos de pen­são dos Esta­dos Unidos (devo acres­cen­tar que são monopólios do gov­er­no) foram dev­i­da­mente proces­sa­dos por aceitarem sub­or­no de vários mil­hões de dólares de fun­dos de inves­ti­men­tos. Podemos assumir que para cada ocor­rên­cia que obser­va­mos muitas out­ras escapam do pente fino
— e é óbvio que o sub­or­no nem sem­pre é fla­grante. Os gestores de fun­dos de pen­são aceitam via­gens de luxo que não pode­ri­am pagar do próprio bol­so, e muitos deix­am seu pos­to por emprego mais lucra­ti­vo em ban­co de inves­ti­men­tos ou fun­do de inves­ti­men­tos.

Uma práti­ca par­tic­u­lar­mente insidiosa dos fun­dos de pen­são é emprestar ações para fun­dos de inves­ti­men­tos de ven­da a descober­to (os fun­dos de pen­são são os maiores empresta­dores), e em tro­ca dis­so os gestores de
fun­dos gan­ham taxas rel­a­ti­va­mente mod­estas que os aju­dam a atin­gir suas metas de retorno. As práti­cas per­mitem que os fun­dos de inves­ti­men­tos criem volatil­i­dade nos mer­ca­dos de cap­i­tal, geran­do opor­tu­nidades para os nego­ciantes, mas com­pro­m­e­tendo a capaci­dade de gestão de lon­go pra­zo dos líderes empre­sari­ais. Os pen­sion­istas são prej­u­di­ca­dos, enquan­to os gestores de fun­dos de inves­ti­men­tos e de fun­dos de pen­são se ben­e­fi­ci­am.

A mão invisív­el da con­cor­rên­cia leva as pes­soas que defen­d­em seus próprios inter­ess­es a max­i­mizar val­or durante todo o lon­go pra­zo somente em mer­ca­dos muito dinâmi­cos nos quais os resul­ta­dos real­mente são aleatórios. E o próprio proces­so de con­cor­rên­cia tra­bal­ha con­tra isso enquan­to estiv­er foca­do exclu­si­va­mente na efi­ciên­cia de cur­to
pra­zo que, como vimos, garante a alguns atores uma van­tagem que, muitas vezes, é bas­tante duradoura. À medi­da que ess­es atores gan­ham par­tic­i­pação no mer­ca­do, eles gan­ham tam­bém poder de mer­ca­do. Isso per­mite que eles gan­hem val­or em seu próprio bene­fí­cio, reti­ran­do val­or em vez de criá-lo.

Como a sociedade pode evi­tar que o proces­so aparente­mente inevitáv­el de entropia efi­ciente assuma o con­t­role?
Pre­cisamos estar mais aten­tos à fonte menos val­oriza­da da van­tagem com­pet­i­ti­va men­ciona­da ante­ri­or­mente: a resil­iên­cia.

Em bus­ca da resil­iên­cia 
Resil­iên­cia é a capaci­dade de se recu­per­ar de difi­cul­dades — voltar à anti­ga for­ma depois de um choque. Con­sidere
a difer­ença entre estar adap­ta­do a um ambi­ente (que é o que a efi­ciên­cia pro­duz) e ser adap­táv­el às mudanças do
ambi­ente. Os prin­ci­pais aspec­tos que car­ac­ter­i­zam sis­temas resilientes são: diver­si­dade e redundân­cia, ou ina­tivi­dade — que a efi­ciên­cia procu­ra destru­ir.

Para lim­itarem a pro­lif­er­ação lenta da efi­ciên­cia e enco­ra­jar a resil­iên­cia, as orga­ni­za­ções devem:

Lim­i­tar a escala. Na políti­ca antitruste, des­de o iní­cio da déca­da de 1980 a tendên­cia foi de relaxar seu cumpri­men­to para favore­cer a efi­ciên­cia. Na ver­dade, nos Esta­dos Unidos e na União Europeia “o aumen­to de efi­ciên­cia” é con­sid­er­a­do legí­ti­ma defe­sa de uma oper­ação con­tes­ta­da com base no fato de que ela levaria a um exces­so de con­cen­tração — mes­mo se os bene­fí­cios desse gan­ho de efi­ciên­cia fos­sem acu­mu­la­dos somente por alguns atores poderosos.

Temos de revert­er essa tendên­cia. O domínio do mer­ca­do não é um resul­ta­do aceitáv­el, mes­mo se atingi­do por meios legí­ti­mos como cresci­men­to orgâni­co. Não foi bom para o mun­do a Face­book ter usa­do o poder finan­ceiro de seu negó­cio cen­tral para finan­ciar sua sub­sidiária, a Insta­gram, para destru­ir a Snapchat. Não foi bom a Ama­zon ter acaba­do com todos os out­ros vare­jis­tas. Não foi bom a Intel ter ten­ta­do esma­gar a AMD há décadas, ofer­e­cen­do descon­tos aos fab­ri­cantes de com­puta­dores para não usar os chips da AMD, e não foi bom a Qual­comm ter tido con­du­ta sim­i­lar nos últi­mos anos. Nos­sa políti­ca antitruste pre­cisa ser muito mais rig­orosa para garan­tir uma con­cor­rên­cia dinâmi­ca, mes­mo que isso sig­nifique menor efi­ciên­cia líqui­da.

Intro­duzir o con­fli­to. Em nos­sa bus­ca para tornar nos­sos sis­temas mais efi­cientes, elim­i­namos todos os con­fli­tos.
É como se estivésse­mos ten­tan­do cri­ar uma sala abso­lu­ta­mente assép­ti­ca, elim­i­nan­do todas as bac­térias. As coisas vão bem até entrar um novo microor­gan­is­mo — provo­can­do o caos nos habi­tantes ago­ra inde­fe­sos.

Para evi­tar essa armadil­ha, empre­sas e gov­er­no pre­cisam se envolver numa imunoter­apia comum. Em vez de man­ter­mos o con­fli­to fora do sis­tema, deve­mos inje­tar con­fli­to pro­du­ti­vo nos momen­tos cer­tos e nos lugares cer­tos para for­t­ale­cer a resil­iên­cia do sis­tema.

Menos bar­reiras ao comér­cio inter­na­cional, por exem­p­lo, não deve ser vis­to como mer­cado­ria pura. Emb­o­ra David Ricar­do tivesse iden­ti­fi­ca­do clara­mente os gan­hos de efi­ciên­cia prove­nientes da com­er­cial­iza­ção, ele não pre­viu o impacto nos resul­ta­dos de Pare­to. Os leg­is­ladores dev­e­ri­am impor algu­mas bar­reiras com­er­ci­ais para garan­tir que os mer­ca­dos nacionais não sejam dom­i­na­dos por pou­cas empre­sas mas­si­vas, mes­mo que essa dom­i­nação pareça pro­duzir o máx­i­mo de efi­ciên­cia. Peque­nas padarias france­sas estão pro­te­gi­das de séria con­cor­rên­cia por um con­jun­to sur­preen­dente de reg­u­la­men­tações. O resul­ta­do: emb­o­ra não sejam baratas, as baguetes france­sas são, indisc­u­tivel­mente, as mel­hores do mun­do. As bar­reiras não tar­ifárias do Japão prati­ca­mente invi­a­bi­lizam a entra­da de fab­ri­cantes de car­ros estrangeiros no mer­ca­do, mas isso não impediu que o Japão cri­asse algu­mas das mais bem-suce­di­das empre­sas auto­mo­bilís­ti­cas globais.

O con­fli­to é igual­mente necessário nos mer­ca­dos de cap­i­tal. O obje­ti­vo atu­al dos reg­u­ladores dos EUA é max­i­mizar a liq­uidez e reduzir os cus­tos das transações. Isso sig­nifi­cou que primeiro eles per­mi­ti­ram que a Bol­sa de Val­ores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês) adquirisse inúmeras out­ras bol­sas e depois que a própria NYSE fos­se adquiri­da pela Inter­con­ti­nen­tal Exchange. Maior con­cen­tração aumen­taria o rit­mo com que os pro­pri­etários bil­ionários de fun­dos de inves­ti­men­tos já na extrem­i­dade mais dis­tante da dis­tribuição de Pare­to da riqueza nego­ci­assem em poucos, mas cada vez maiores mer­ca­dos, e gerassem resul­ta­dos de Pare­to ain­da mais extremos. Os reg­u­ladores dos EUA dev­e­ri­am tomar medi­das mais sim­i­lares às da UE, que impediu a fusão dos dois maiores atores da Europa, a Bol­sa de Val­ores de Lon­dres e a Bol­sa Alemã. E dev­e­ri­am parar de colo­car obstácu­los na for­ma como novos atores procu­ram esta­b­ele­cer novas transações, porque ess­es obstácu­los só solid­i­fi­cam o poder de atores con­sol­i­da­dos. Além dis­so, as ven­das a descober­to e a volatil­i­dade que pro­duzem pode­ria ser dras­ti­ca­mente reduzi­da se o gov­er­no proibisse os fun­dos de pen­são do setor públi­co (como o Sis­tema de Aposen­ta­do­ria dos Fun­cionários Públi­cos da Cal­ifór­nia e o Fun­do Mútuo de Aposen­ta­do­ria do Esta­do de Nova York) de emprestar ações.

Pro­mover o cap­i­tal pacien­te­mente. O cap­i­tal investi­do por acionistas comuns é suposta­mente uma apos­ta de lon­go pra­zo: uma vez que ofer­ta­do, a empre­sa nacional­mente detém o cap­i­tal para sem­pre. Na práti­ca, no entan­to, é fran­quea­do a qual­quer pes­soa adquirir esse cap­i­tal no mer­ca­do de ações sem per­mis­são da empre­sa, o que sig­nifi­ca que este pode ser um inves­ti­men­to de cur­to pra­zo. Mas o cap­i­tal de lon­go pra­zo é muito mais útil para a empre­sa que está ten­tan­do cri­ar e implan­tar uma estraté­gia de lon­go pra­zo, que o cap­i­tal de cur­to pra­zo. Se você me der US$ 100, e diss­er que você pode mudar a for­ma como eles dev­erão ser usa­dos com 24 horas de ante­cedên­cia, na práti­ca esse din­heiro não terá para mim o mes­mo val­or se você dissesse que pos­so usá-lo como quis­er durante dez anos. Se o perío­do de retenção de ações dese­ja­do do investi­dor War­ren Buf­fett fos­se, como ele brin­ca, “para sem­pre”, enquan­to o fun­do de inves­ti­men­to de arbi­tragem quan­ti­ta­ti­va da Renais­sance Tech­nolo­gies retém os inves­ti­men­tos
por somente alguns milis­se­gun­dos, o cap­i­tal de Buf­fett teria maior val­or de mer­ca­do que o da Renais­sance.

A despeito da difer­ença de val­or para a empre­sa, aos dois tipos de inves­ti­men­to de cap­i­tal são atribuí­dos exata­mente  os mes­mos dire­itos. Isso é um erro: dev­eríamos restringir os dire­itos de voto ao perío­do em que o cap­i­tal fica reti­do. De acor­do com essa abor­dagem, cada ação ordinária daria a seu tit­u­lar o dire­ito de posse de um voto por dia, até 3.650 dias, ou dez anos. Se você man­tivesse a posse de 100 ações por dez anos, pode­ria votar pelas 365 mil ações. Se você vendesse essas ações, o com­prador teria dire­ito a 100 votos no dia da com­pra. Se o com­prador se tor­nasse um tit­u­lar de lon­go pra­zo, isso no final lhe daria dire­ito a 365 mil votos. Mas se o com­prador fos­se um ativista de fun­dos de inves­ti­men­to como a Per­sh­ing Square, cujo perío­do de retenção é medi­do em meses, os juros dos investi­dores de lon­go pra­zo afog­a­ri­am sua influên­cia na estraté­gia, muito ade­quada­mente. Alo­car dire­itos de voto dessa for­ma rec­om­pen­saria os acionistas de lon­go pra­zo fornecen­do um tipo mais ren­táv­el de cap­i­tal. E seria extrema­mente difí­cil para os ativis­tas de fun­dos de inves­ti­men­tos assumirem o con­t­role efe­ti­vo das empre­sas, porque no momen­to em que adquiris­sem uma ação, seus dire­itos seri­am reduzi­dos a um úni­co voto.

Alguns argu­men­tam que isso aju­daria a esta­b­ele­cer a má gestão. Não é ver­dade. Atual­mente, investi­dores que estão insat­is­feitos com a gestão podem vender seus dire­itos de pro­priedade de uma ação jun­ta­mente com dire­ito a um voto. De acor­do com o sis­tema pro­pos­to, os investi­dores insat­is­feitos ain­da pode­ri­am vender seu dire­ito de pro­priedade de uma ação jun­ta­mente com o dire­ito de um voto. Mas se muitos acionistas estiverem sat­is­feitos com a gestão, e um ativista quis­er gan­har din­heiro fácil forçan­do a empre­sa a vender ativos, cor­tar inves­ti­men­tos em P&D  ou tomar out­ras medi­das que pudessem prej­u­dicar seu futuro, a capaci­dade de cole­tar dire­itos de voto do ativista, para impul­sion­ar essa agen­da, seria reduzi­da.

Cri­ar bons empre­gos. Em nos­sa bus­ca pela efi­ciên­cia, cheg­amos a acred­i­tar que o tra­bal­ho de roti­na é um gas­to a ser min­i­miza­do. As empre­sas investem pouco em treina­men­to e desen­volvi­men­to de habil­i­dades, uti­lizam mão de obra tem­porária ou em tem­po par­cial, cri­am um crono­gra­ma aper­ta­do para evi­tar “horas extras” e pro­je­tam funções que requerem pou­cas habil­i­dades para pagar salários muito mais baixos. Isso igno­ra o fato de que o tra­bal­ho não é ape­nas cus­to. Ele é tam­bém um recur­so que pode ser pro­du­ti­vo — e a for­ma atu­al de admin­istrá-lo diminui essa pro­du­tivi­dade e ao mes­mo tem­po reduz o cus­to do dólar.

E se focar­mos em pro­du­tivi­dade de lon­go pra­zo? E se, em vez de pro­je­tar­mos ativi­dades que exigem pou­ca habil­i­dade, pro­je­tar­mos ativi­dades pro­du­ti­vas e de alto val­or? Em The good jobs strat­e­gy, Zeynep Ton, do MIT, descreve como algu­mas lojas de descon­tos duplicaram seus empre­ga­dos recru­tan­do fun­cionários mais envolvi­dos e mais capac­i­ta­dos, mel­ho­ran­do o atendi­men­to ao cliente, dimin­uin­do a rota­tivi­dade e aumen­tan­do ven­das e lucros, tudo isso levan­do a mais inves­ti­men­tos. Um ele­men­to deci­si­vo, mas con­train­tu­iti­vo, da estraté­gia é afrouxar um pouco o rit­mo dos fun­cionários para poderem ter mais tem­po de aten­der os clientes de for­mas não pre­vis­tas, mas ger­ado­ras de val­or.

Não só as empre­sas se ben­e­fi­ci­am com a estraté­gia de ofer­ta de bons empre­gos. O mod­e­lo de mão de obra bara­ta é extrema­mente oneroso para a econo­mia em ger­al. Quan­do cor­tam os cus­tos do tra­bal­ho, empre­sas como a Wal­mart não fazem mais que trans­ferir para os con­tribuintes as despe­sas tradi­cional­mente supor­tadas pelos empre­gadores.
Estu­do recente do Con­gres­so avaliou o impacto no orça­men­to fed­er­al de uma úni­ca loja da Wal­mart com 200 pes­soas. Ver­i­fi­cou-que, por causa dos baixos salários, cada fun­cionário cus­ta­va ao con­tribuinte US$ 2.759 por
ano (em dólares de 2018) em bene­fí­cios como sub­sí­dios para ali­men­tação e ener­gia, habitação, assistên­cia médi­ca e crédi­tos de impos­tos fed­erais. Com 11 mil lojas e 2,3 mil­hões de fun­cionários, a efi­ciên­cia da mão de obra muito elo­gia­da da empre­sa car­rega uma eti­que­ta de preço real­mente alta.

Ensi­nar resil­iên­cia. A edu­cação em gestão foca pri­or­i­tari­a­mente na bus­ca pela efi­ciên­cia — e treina os alunos em téc­ni­cas analíti­cas que uti­lizam abor­da­gens de cur­to pra­zo para medir essa qual­i­dade. Como resul­ta­do, os  recém-for­ma­dos se con­sid­er­am prepara­dos para cri­ar (inad­ver­tida­mente, creio eu) empre­sas extrema­mente efi­cientes,
mas na maio­r­ia delas fal­ta resil­iên­cia.

Não há dúvi­da de que reitores, pro­fes­sores e estu­dantes de gestão divergem. Mas os cur­rícu­los mostram o con­trário. As finanças ensi­nam a cor­rer atrás de estru­turas finan­ceiras efi­cientes. A gestão cus­to-efi­ciente é o obje­ti­vo da con­tabil­i­dade geren­cial. Os recur­sos humanos pregam a efi­ciên­cia na gestão de pes­soal. O mar­ket­ing tra­ta de iden­ti­ficar seg­men­tos e vender de for­ma efi­ciente. A gestão de oper­ações ded­i­ca-se a aumen­tar a efi­ciên­cia das fábri­c­as. O obje­ti­vo mais abrangente é max­i­mizar val­or para o acionista.

É claro que nada dis­so é mau em si. Toda cor­po­ração deve max­i­mizar val­or para o acionista — a muito lon­go pra­zo.
O prob­le­ma é que o que define o val­or para o acionista atual­mente é a cap­i­tal­iza­ção de mer­ca­do. Da mes­ma for­ma,
as reduções nos cus­tos de mão de obra neste trimestre é o que define a efi­ciên­cia. E a estru­tu­ra ide­al de cap­i­tal para o ambi­ente opera­cional este ano é o que define a dis­tribuição efi­ciente do cap­i­tal. Todas elas são for­mas de cur­to pra­zo de avaliar out­puts de lon­go pra­zo.

Se con­tin­uar­mos a pro­mover essas abor­da­gens de cur­to pra­zo, os gestores procu­rarão max­i­mizá-las, ape­sar do cus­to da resil­iên­cia de lon­go pra­zo. E ativis­tas de fun­dos de inves­ti­men­tos assumirão o con­t­role das empre­sas e as levarão a agir de for­mas aparente­mente muito efi­cientes se jul­gadas por defen­sores do cur­to pra­zo. Ess­es fun­dos serão aplau­di­dos pelos reg­u­ladores e con­sul­tores insti­tu­cionais  rep­re­sen­tantes de votos, que con­tin­uarão a pen­sar que suas ações não influ­en­ci­am a pro­dução de empre­sas mais frágeis.

Para o bem do futuro do cap­i­tal­is­mo democráti­co, a edu­cação da gestão deve tornar-se uma voz a favor da resil­iên­cia.

Em seu tra­bal­ho de 1992 The end of his­to­ry and the last man, Fran­cis Fukuya­ma defende que o tema cen­tral da história mod­er­na é a luta entre o despo­tismo e o que hoje con­hece­mos como cap­i­tal­is­mo democráti­co. O últi­mo cer­ta­mente leva van­tagem, mas é difí­cil afir­mar que venceu a guer­ra, como afir­mou Fukuya­ma. Diari­a­mente encon­tramos evidên­cias de que a efi­ciên­cia econômi­ca, que tradi­cional­mente sus­ten­tou o cap­i­tal­is­mo democráti­co, não está con­seguin­do dis­tribuir os gan­hos con­comi­tantes. A dura real­i­dade da dis­tribuição de Pare­to ameaça a crença cen­tral dos eleitores de que a com­bi­nação de democ­ra­cia e cap­i­tal­is­mo pode mel­ho­rar a vida da maio­r­ia das pes­soas ao lon­go do tem­po. Nos­so sis­tema é muito mais vul­neráv­el e muito menos jus­to que gostaríamos que fos­se. Isso pre­cisa mudar.


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