Como o software está ajudando o domínio das grandes empresas

Como o soft­ware está aju­dan­do o domínio das grandes empre­sas

Em toda a econo­mia glob­al, grandes empre­sas estão fican­do maiores. Estão mais pro­du­ti­vas, lucra­ti­vas, ino­vado­ras e pagam mel­hor. As pes­soas com sorte o bas­tante para tra­bal­har nelas estão indo rel­a­ti­va­mente bem, ao con­trário daque­las que atu­am na con­cor­rên­cia.

Os leg­is­ladores notaram. Obser­va-se uma retoma­da do inter­esse pelas políti­cas antitruste e da con­cor­rên­cia, com audiên­cias recentes sobre o assun­to na Fed­er­al Trade Com­mis­sion. As manchetes de pub­li­cações como The Nation, The Atlantic e Bloomberg aler­tam sobre o prob­le­ma do “monopólio” nos EUA, com ape­los para o desmem­bra­men­to de grandes cor­po­rações como Google, Ama­zon ou Face­book. “Imag­ine um dia na vida de um amer­i­cano típi­co”, escreve Derek Thomp­son em The Atlantic. “Quan­to tem­po leva para inter­a­gir com um mer­ca­do que não seja quase monop­o­liza­do?”

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O antitruste merece essa atenção, e as platafor­mas tec­nológ­i­cas lev­an­tam questões impor­tantes. No entan­to, a ascen­são de grandes empre­sas — e a con­se­quente con­cen­tração de indús­trias, lucros e salários — vão muito além do setor de tec­nolo­gia e envolve muito mais do que a políti­ca antitruste.

Na ver­dade, pesquisas mostram que as grandes empre­sas estão dom­i­nan­do pelo uso do soft­ware. Em 2011, o cap­i­tal­ista de risco Marc Andreessen declar­ou que “o soft­ware está con­sumin­do o mun­do”. O aper­i­ti­vo dele parece ter sido empre­sas menores.

O que está Impul­sio­n­an­do a Con­cen­tração Seto­r­i­al
Nos EUA, hou­ve uma con­cen­tração na maio­r­ia dos setores, nos últi­mos 20 anos, o que sig­nifi­ca que as maiores empre­sas de cada setor estão con­qui­s­tan­do uma fatia maior do mer­ca­do do que antes. Mas por quê?

Uma pesquisa real­iza­da por um de nós (James) vin­cu­la essa tendên­cia ao soft­ware. Mes­mo fora da indús­tria de tec­nolo­gia, o emprego de mais desen­volve­dores está asso­ci­a­do a um aumen­to maior na con­cen­tração seto­r­i­al, e essa relação parece ser causal. De maneira semel­hante, pesquisadores da OECD desco­bri­ram que as mar­gens de lucro — uma medi­da dos gan­hos e do poder de mer­ca­do das empre­sas — aumen­taram mais em setores com grande uso de recur­sos dig­i­tais. Um estu­do acadêmi­co mostrou que essa cres­cente está rela­ciona­da à quan­ti­dade de patentes de deter­mi­na­do setor, o que sug­ere que “os setores mais con­cen­tra­dos são aque­les com pro­gres­so tec­nológi­co mais acel­er­a­do”. Por exem­p­lo, a pro­du­tivi­dade expandiu-se dras­ti­ca­mente no setor de vare­jo des­de 1990; as ven­das por fun­cionário, em val­ores atu­al­iza­dos, cresce­r­am cer­ca de 50%. A análise econômi­ca mostra que a maior parte desse aumen­to da pro­du­tivi­dade deve-se a algu­mas empre­sas, como a Wal­mart, que usaram a tec­nolo­gia da infor­mação para esse fim especí­fi­co. O gan­ho de pro­du­tivi­dade prop­i­ciou uma que­da dos preços e uma acel­er­ação do cresci­men­to, levan­do a um maior domínio seto­r­i­al. A Wal­mart saltou de uma par­tic­i­pação de 3% do mer­ca­do vare­jista de pro­du­tos gerais em 1982 para mais de 50% hoje.

Tudo isso parece indicar que a tec­nolo­gia, e o soft­ware em par­tic­u­lar, está por trás do cres­cente domínio das grandes empre­sas.

A TI é Impor­tante
Em 2003, o edi­tor da HBR na época, Nick Carr, escreveu um arti­go (e, mais tarde, um livro) chama­do “IT doesn’t mat­ter” (A TI não é impor­tante). Carr dis­cor­da­va da visão dom­i­nante de que “à medi­da que a capaci­dade e a onipresença da TI aumen­taram, seu val­or estratégi­co tam­bém cresceu”. Segun­do ele, essa opinião esta­va equiv­o­ca­da:

“O que tor­na um recur­so ver­dadeira­mente estratégico—o que lhe per­mite con­stru­ir a base de um difer­en­cial no lon­go pra­zo — não é a onipresença, mas a carên­cia. Só se tem uma van­tagem em relação aos con­cor­rentes ten­do ou fazen­do algo que eles não pos­sam. Até ago­ra, as prin­ci­pais funções da TI—armazenamento, proces­sa­men­to e trans­porte de dados—tornaram-se disponíveis e acessíveis a todos. O próprio poder e a pre­sença dessas funções começaram a trans­for­má-las de recur­sos com poten­cial estratégi­co em fatores de pro­dução de com­modi­ties. Estão pas­san­do a faz­er parte dos cus­tos opera­cionais que devem ser pagos por todos sem ofer­e­cer dis­tinção a ninguém”.

Carr fez uma difer­en­ci­ação entre as tec­nolo­gias próprias e as “infraestru­tu­rais”. Aque­las pro­por­cionam van­tagem com­pet­i­ti­va, mas estas têm mais val­or quan­do ampla­mente com­par­til­hadas, de modo que acabam tor­nan­do-se onipresentes, deixan­do de ser exclu­si­vas de deter­mi­na­da empre­sa. A TI prop­i­cia­ria um difer­en­cial em caráter pro­visório, pre­via ele, citan­do como exem­p­lo a Wal­mart, que alcançou a posição de maior empre­gado­ra e maior empre­sa em ter­mos de recei­ta dos EUA por meio de um mod­e­lo opera­cional via­bi­liza­do por um soft­ware próprio de logís­ti­ca. Entre­tan­to, Carr afir­ma­va, em seu arti­go de 2003, que “as opor­tu­nidades para a con­quista de van­ta­gens baseadas em TI já estão dimin­uin­do” e que “as mel­hores práti­cas ago­ra são incor­po­radas rap­i­da­mente ao soft­ware ou repli­cadas de out­ra maneira”.

Não foi assim. Emb­o­ra os con­cor­rentes ten­ham ten­ta­do desen­volver um pro­gra­ma de logís­ti­ca com­paráv­el, e os fornece­dores, trans­for­má-lo em com­mod­i­ty, a per­spicá­cia do soft­ware da Wal­mart con­tin­ua sendo parte da van­tagem com­pet­i­ti­va da empre­sa — basea­da ago­ra em um enorme ban­co de dados. Emb­o­ra enfrente novos desafios no comér­cio eletrôni­co, man­tém o difer­en­cial logís­ti­co em relação a muitos con­cor­rentes, como a Sears.

A Start­up “Full-Stack”
Esse mod­e­lo, em que a van­tagem com­pet­i­ti­va baseia-se em uma com­bi­nação entre soft­ware exclu­si­vo e out­ros pon­tos fortes, tor­na-se cada vez mais comum. Anos atrás, um de nós (James) fun­dou uma empre­sa que ven­dia soft­ware de dia­gra­mação. O mod­e­lo de negó­cios, que envolvia o desen­volvi­men­to do pro­gra­ma e pos­te­ri­or licen­ci­a­men­to para as edi­toras, per­siste ain­da hoje, inclu­sive para pub­li­cações on-line, em que empre­sas como a Automat­tic, fab­ri­cante do sis­tema de geren­ci­a­men­to de con­teú­do de códi­go aber­to Word­Press, ven­dem serviços de hospedagem e rela­ciona­dos a edi­toras. As licenças úni­cas der­am lugar a assi­nat­uras men­sais de soft­ware, mas esse mod­e­lo ain­da se encaixa na tese orig­i­nal de Carr: as empre­sas de soft­ware desen­volvem tec­nolo­gia pela qual out­ras pagam, mas da qual rara­mente obtêm um difer­en­cial.

Não é o caso da Vox Media, edi­to­ra dig­i­tal con­heci­da, em parte, pelo sis­tema pro­pri­etário de geren­ci­a­men­to de con­teú­do. Licen­cia seu soft­ware a algu­mas out­ras empre­sas (até ago­ra, prin­ci­pal­mente não con­cor­rentes), mas ela mes­ma é uma edi­to­ra. O prin­ci­pal mod­e­lo de negó­cios da Vox baseia-se na cri­ação de con­teú­do e na ven­da de anún­cios, com um soft­ware exclu­si­vo de dia­gra­mação e um con­teú­do edi­to­r­i­al de qual­i­dade, o que lhe pro­por­ciona uma van­tagem com­pet­i­ti­va.

O cap­i­tal­ista de risco Chris Dixon chamou essa abor­dagem de “start­up full-stack”. “A anti­ga estraté­gia das star­tups era a ven­da ou o licen­ci­a­men­to de sua nova tec­nolo­gia aos atores esta­b­ele­ci­dos do mer­ca­do”, diz Dixon. “O novo mod­e­lo ‘full stack’ envolve o desen­volvi­men­to de um pro­du­to ou serviço com­ple­to, de pon­ta a pon­ta, evi­tan­do tan­to ess­es atores quan­to a con­cor­rên­cia.” A Vox é um exem­p­lo dessa novi­dade.

A mudança do mod­e­lo de fornece­dor de soft­ware para o full-stack é vista nas estatís­ti­cas do gov­er­no. Des­de 1998, obser­va-se uma que­da da par­tic­i­pação dos pro­du­tos pré-empa­co­ta­dos nos gas­tos das empre­sas com soft­ware (o mod­e­lo de fornece­dor). Mais de 70% do orça­men­to das empre­sas para ess­es pro­du­tos des­ti­nam-se a códi­gos desen­volvi­dos no âmbito inter­no ou sob con­tratos per­son­al­iza­dos. A quan­tia investi­da em soft­ware exclu­si­vo é enorme — US$250 bil­hões em 2016, quase tan­to quan­to foi gas­to em cap­i­tal físi­co, descon­ta­da a depre­ci­ação.

Como as Grandes Empre­sas se Ben­e­fi­ci­am
É evi­dente que o soft­ware exclu­si­vo vem pro­por­cio­nan­do van­ta­gens a algu­mas empre­sas, e o mod­e­lo full-stack está dom­i­nan­do o mod­e­lo de fornece­dor dess­es pro­du­tos. O resul­ta­do é que as grandes vão amplian­do sua par­tic­i­pação de mer­ca­do, porém, para com­preen­der isso, é pre­ciso enten­der os motivos tan­to da capaci­dade muito maior de algu­mas empre­sas no desen­volvi­men­to de soft­ware quan­to da não difusão de suas ino­vações para os con­cor­rentes menores, ao con­trário da pre­visão de Carr.

As econo­mias de escala cer­ta­mente fazem parte da respos­ta. O desen­volvi­men­to de soft­ware é caro, mas sua dis­tribuição é rel­a­ti­va­mente bara­ta. As empre­sas maiores têm maior capaci­dade de arcar com as despe­sas ini­ci­ais, mas essas “econo­mias de escala do lado da ofer­ta” não podem ser a úni­ca respos­ta. Caso con­trário, have­ria o domínio dos fornece­dores, que con­seguem obter amplas econo­mias de escala por meio da ven­da para a maio­r­ia dos par­tic­i­pantes do mer­ca­do. Out­ra prováv­el expli­cação são os efeitos de rede, ou as “econo­mias de escala do lado da deman­da”. Con­tu­do, o fato de que o elo entre o soft­ware e a con­cen­tração seto­r­i­al é dom­i­nante fora do setor de tec­nolo­gia — um âmbito em que é menos prováv­el que as empre­sas ten­ham bil­hões de clientes — parece indicar que os efeitos de rede sejam ape­nas parte da história.

Assim sendo, a cres­cente con­cen­tração parece se dev­er em parte ao fato de o soft­ware ter maior val­or em com­bi­nação com out­ras capaci­dades par­tic­u­lares do setor, muitas vezes denom­i­nadas “ativos intangíveis”, mas, nesse sen­ti­do, cabe maior especi­fi­cação.

As pesquisas demon­stram que os bene­fí­cios da tec­nolo­gia da infor­mação depen­dem, em parte, do geren­ci­a­men­to. As empre­sas mais bem-admin­istradas, como as grandes cos­tu­mam ser, aproveitam mel­hor os inves­ti­men­tos em TI. Exis­tem out­ros ativos “intangíveis” que pro­por­cionam difer­en­ci­ais aos líderes do mer­ca­do e que podem ser difí­ceis ou caros de replicar. Um exec­u­ti­vo sênior que atu­ou em uma série de com­pan­hias de pon­ta no ramo de soft­ware cor­po­ra­ti­vo expli­cou a um de nós (Wal­ter) recen­te­mente que a capaci­dade de extrair o mel­hor de um desen­volve­dor médio depen­dia de con­fig­u­rar o “soft­ware para cri­ar soft­ware” de maneira efi­caz — fer­ra­men­tas, flux­os de tra­bal­ho e padrões que per­mi­tam ao pro­gra­mador conec­tar-se ao sis­tema de pro­dução da empre­sa sem a neces­si­dade de apren­der um número infini­to de novas téc­ni­cas.

As patentes e os dire­itos autorais tam­bém difi­cul­tam a expan­são das ino­vações de soft­ware para out­ras empre­sas, assim como os acor­dos de não con­cor­rên­cia, que proíbem os fun­cionários de mudar de emprego com facil­i­dade. No entan­to, uma das maiores bar­reiras à expan­são — e, por­tan­to, uma das maiores fontes de van­tagem com­pet­i­ti­va para os prin­ci­pais atores do ramo de soft­ware — é o mod­e­lo de orga­ni­za­ção das empre­sas.

Ino­vação Arquitetôni­ca
Em 1990, Rebec­ca Hen­der­son, atual­mente pro­fes­so­ra da Har­vard Busi­ness School, pub­li­cou um arti­go que fornece uma base teóri­ca para o suces­so das star­tups full-stack. Na época, vários pen­sadores ten­tavam com­preen­der o moti­vo pelo qual grandes empre­sas, ric­as e bem-suce­di­das eram, às vezes, der­rubadas pelas novas tec­nolo­gias, as quais não nec­es­sari­a­mente uti­lizavam de for­ma ine­fi­ciente, argu­men­tou Rebec­ca, com base em um estu­do sobre o setor de fotoli­tografia. Na ver­dade, essas com­pan­hias empre­gavam muito bem os recur­sos ino­vadores para mel­ho­rar com­po­nentes especí­fi­cos de seus pro­du­tos, porém pas­savam por difi­cul­dades assim que sur­gia algu­ma novi­dade que alter­a­va a arquite­tu­ra fun­da­men­tal desse pro­du­to — a maneira que tudo se encaix­a­va.

Hen­der­son afir­ma­va que a for­ma de atu­ação da empre­sa está, muitas vezes, pro­fun­da­mente interli­ga­da à arquite­tu­ra de seus pro­du­tos ou serviços. Quan­do essa estru­tu­ra sofre algu­ma mudança, todo o con­hec­i­men­to incor­po­ra­do à orga­ni­za­ção perde parte de sua util­i­dade, e a estraté­gia de atu­ação da com­pan­hia pas­sa a ser uma desvan­tagem.

Por exem­p­lo, o difer­en­cial da Wal­mart depen­dia de uma orga­ni­za­ção e de um mod­e­lo de negó­cios basea­do na grande capaci­dade logís­ti­ca da empre­sa, com preços baixos todos os dias, ampla var­iedade e reação ime­di­a­ta a mudanças de gos­tos. Mes­mo que os maiores con­cor­rentes, como a Sears, gas­tassem muito com TI, não con­seguiam com­pe­tir de maneira efi­caz sem alter­ações arquitetôni­cas fun­da­men­tais. Se a Wal­mart tivesse se lim­i­ta­do a aplicar a TI a um úni­co com­po­nente do sis­tema de vare­jo — como a dig­i­tal­iza­ção de catál­o­gos ou a disponi­bi­liza­ção on-line de catál­o­gos — talvez a Sears pudesse estar em mel­hor posição de con­cor­rên­cia. No entan­to, a Wal­mart mudou não só o modo de fun­ciona­men­to das cadeias de supri­men­tos, das decisões de pro­du­tos e do preço, mas tam­bém o rela­ciona­men­to entre eles. Assim, a estraté­gia de atu­ação como um todo da Sears pas­sou a rep­re­sen­tar, subita­mente, uma desvan­tagem.

Como o cap­i­tal­ista de risco Dixon recon­heceu clara­mente, essas ino­vações arquitetôni­cas podem abrir espaço para as star­tups. “Antes de [a Lyft e a Uber] serem lançadas, star­tups estavam ten­tan­do desen­volver soft­wares para tornar o ramo de táxi e trans­porte de pas­sageiros mais efi­caz”, obser­vou Dixon. Se a Uber tivesse ape­nas cri­a­do um pro­gra­ma para enviar táx­is, as empre­sas estari­am bem posi­cionadas para adotá-lo, de acor­do com a teo­ria de Hen­der­son. Um “com­po­nente” do serviço teria sido alter­ado pela tec­nolo­gia (envio), mas não sua arquite­tu­ra como um todo. Entre­tan­to, as star­tups de com­par­til­hamen­to de viagem, como a Uber e a Lyft, não só tornaram os táx­is mais efi­cientes, mas tam­bém rev­olu­cionaram a maneira pela qual as diver­sas partes do sis­tema se encaix­am.

A ino­vação arquitetôni­ca não nec­es­sari­a­mente resul­ta em star­tups que tomam o lugar das empre­sas atu­ais. Tam­bém pode deter­mi­nar quem prevalece em uma com­petição entre maiores e mais anti­gas. Em novem­bro de 2007, a Forbes colo­cou o CEO da Nokia na capa da revista e per­gun­tou: “Alguém con­segue pegar o rei dos tele­fones celu­lares?” A Apple havia lança­do o iPhone ape­nas alguns meses antes.

Por que a Apple, empre­sa sem exper­iên­cia prévia em tele­fones, con­seguiu essa proeza? No iní­cio deste ano, Karim Lakhani, pro­fes­sor da Har­vard Busi­ness School, fez essa per­gun­ta aos par­tic­i­pantes de uma con­fer­ên­cia. Um de nós (Wal­ter) ouviu os espe­cial­is­tas em tec­nolo­gia da plateia rela­cionarem todas as van­ta­gens do iPhone, após o que Lakhani deu as datas em que a Nokia ofer­e­ceu ess­es mes­mís­si­mos recur­sos: uma loja de aplica­tivos em 2001, uma tela sen­sív­el ao toque em 2002, um nave­g­ador de inter­net em 2006. Por que, então, a Apple prevale­ceu?

A empre­sa, segun­do Lakhani, tin­ha a arquite­tu­ra cer­ta para traz­er os tele­fones para a era da inter­net. Tan­to a Apple quan­to a Nokia tin­ham muitos dos ativos intangíveis necessários para se destacar no negó­cio de smart­phones, entre os quais desen­volve­dores de soft­ware, engen­heiros de hard­ware e design­ers. Con­tu­do, a estru­tu­ra e a cul­tura da Apple já se baseavam na com­bi­nação de hard­ware e um sis­tema de soft­ware com a con­tribuição de ter­ceiros. Já pos­suía exper­iên­cia na con­strução de hard­ware, sis­temas opera­cionais e kits de desen­volvi­men­to de soft­ware de seus negó­cios de PC. Havia desen­volvi­do uma platafor­ma de soft­ware para fornecer con­teú­do para dis­pos­i­tivos móveis na for­ma do iTunes. No iní­cio, Steve Jobs resis­tiu à cri­ação de aplica­tivos para o iPhone, mas, quan­do acabou ceden­do, a loja de aplica­tivos tornou-se a van­tagem prin­ci­pal do smart­phone. Assim, a Apple con­seguiu geren­ciar o iPhone por causa da “arquite­tu­ra” exis­tente.

Como qual­quer teo­ria, a ino­vação arquitetôni­ca não con­segue explicar tudo. Se a exper­iên­cia na cri­ação de sis­temas opera­cionais e kits de desen­volvi­men­to de soft­ware era muito impor­tante, por que a Microsoft não inven­tou o smart­phone vence­dor? Sem dúvi­da, a grande aptidão da Apple no design de pro­du­tos tam­bém foi impor­tante, mas a ino­vação arquitetôni­ca aju­da a explicar por que cer­tas capaci­dades são muito difí­ceis de replicar.

Divul­gan­do os Bene­fí­cios do Soft­ware
O desafio para os leg­is­ladores pre­ocu­pa­dos com a con­cen­tração seto­r­i­al, as mar­gens de lucro e o poder das empre­sas gigan­tescas é a expan­são dos bene­fí­cios da econo­mia dig­i­tal – de soft­ware – de for­ma mais ampla. O antitruste pode aju­dar em casos extremos, que incluem a restrição das platafor­mas de tec­nolo­gia e da pos­si­bil­i­dade de elas adquirirem toda a con­cor­rên­cia. No entan­to, tam­bém se devem con­sid­er­ar maneiras de con­tribuir para a difusão dos soft­wares e seus recur­sos por toda a econo­mia. Até cer­to pon­to, as econo­mias de escala sim­ples­mente aumen­tarão o taman­ho médio das empre­sas, o que é pos­i­ti­vo, mas a proibição aos acor­dos de não con­cor­rên­cia aju­daria os fun­cionários a difundir seus con­hec­i­men­tos ao mudar de emprego. A refor­ma das patentes, que nem sem­pre são necessárias para pro­te­ger as ino­vações de soft­ware e sofrem abu­so de trolls de patentes em detri­men­to de quase todos, tam­bém aju­daria. Out­ro fator pos­i­ti­vo seria qual­quer esforço, por parte do gov­er­no, para incen­ti­var o uso de soft­ware de códi­go aber­to. Por exem­p­lo, o gov­er­no francês exige que os órgãos admin­is­tra­tivos públi­cos exam­inem min­u­ciosa­mente ess­es pro­gra­mas ao revis­ar ou cri­ar novas tec­nolo­gias da infor­mação e usar as econo­mias alcançadas para ampli­ar o finan­cia­men­to ao desen­volvi­men­to de códi­go aber­to.

O incen­ti­vo às star­tups é out­ra via promis­so­ra, já que essas empre­sas con­seguem se orga­ni­zar em torno de recur­sos de soft­ware para super­ar as atu­ais. Nem sem­pre é fácil a implan­tação desse estí­mu­lo por meio de políti­cas públi­cas, mas o finan­cia­men­to do gov­er­no pode aju­dar quan­do ado­ta­do da maneira cor­re­ta, e, no nív­el estad­ual e munic­i­pal, é pos­sív­el incen­ti­var a for­mação de clus­ters tecnológicos.Essas políti­cas sur­tiri­am bons efeitos em con­jun­to com uma análise mais rig­orosa das incor­po­rações soci­etárias para garan­tir que as star­tups promis­so­ras não sejam todas engol­i­das pelos atores do mer­ca­do que este­jam desafian­do.

Para as empre­sas, o resul­ta­do é mais óbvio. Mes­mo que não se este­ja no ramo de soft­ware, é bem pos­sív­el que o suces­so depen­da da capaci­dade não ape­nas de usar, mas tam­bém de cri­ar ess­es pro­gra­mas. É claro que, do pon­to de vista finan­ceiro, ain­da faz sen­ti­do, em muitos casos, a uti­liza­ção de fornece­dores, porém deve-se levar em con­ta o que tor­na a empre­sa úni­ca e como o soft­ware pode impul­sion­ar essa van­tagem. O inves­ti­men­to em soluções exclu­si­vas que com­ple­mentem os pon­tos fortes pode ser uma boa ideia, sobre­tu­do para empre­sas de médio e grande porte e para star­tups em expan­são.

Uma Nuvem no Hor­i­zonte
Há algu­mas boas notí­cias: pesquisas mostram que a com­putação em nuvem está aju­dan­do empre­sas menores e mais novas a con­cor­rer. Além dis­so, algu­mas estão desmem­bran­do suas capaci­dades avançadas. Por exem­p­lo, a Ama­zon pas­sou a ofer­e­cer serviços com­ple­tos de atendi­men­to, que incluem entre­ga em dois dias a vende­dores grandes e pequenos em sua platafor­ma Mar­ket­place. Pode ser até que Carr estivesse cer­to em princí­pio, mas no tem­po erra­do. Porém não apos­taríamos nis­so. Alguns aspec­tos do soft­ware serão democ­ra­ti­za­dos, incluin­do talvez algu­mas áreas nas quais as empre­sas obten­ham ago­ra van­tagem com­pet­i­ti­va. Entre­tan­to, sur­girão out­ras opor­tu­nidades para as empre­sas usarem esse recur­so em bene­fí­cio próprio. Uma delas em par­tic­u­lar se desta­ca: emb­o­ra o soft­ware de apren­diza­do de máquina seja disponi­bi­liza­do gra­tuita­mente, os con­jun­tos de dados que lhes atribuem o real val­or, em ger­al, per­manecem de uso exclu­si­vo, assim como os mod­e­los que as empre­sas cri­am com base neles. A políti­ca pode aju­dar a nive­lar esse cam­po de ação, mas as empre­sas que não investem em soft­ware e recur­sos de dados cor­rem o risco de ficar para trás.

James Bessen, econ­o­mista, é o dire­tor exec­u­ti­vo da Tech­nol­o­gy & Pol­i­cy Research Ini­tia­tive da Boston Uni­ver­si­ty School of Law.

Wal­ter Frick é edi­tor sênior da Har­vard Busi­ness Review.

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