Conheça o fruto mais caro que a prata

Baunilha o fruto mais caro que a prata

Na ilha de Mada­gas­car, na África, um dos lugares mais pobres do mun­do e tam­bém o maior pro­du­tor de mundi­al de bau­nil­ha, cujo preço dis­parou nos últi­mos anos e chegou a valer mais do que a pra­ta.

É fácil ver na região pequenos pon­tos mar­can­do a cas­ca verde e lisa das favas de bau­nil­ha, tam­bém chamadas de vagens, que nascem em orquídeas trepadeiras depois das flo­radas. Den­tro delas, estão pol­pas rec­headas de sementes minús­cu­las de onde saem o sabor e o cheiro car­ac­terís­ti­cos da bau­nil­ha.

Os pon­tos grava­dos nas cas­cas iden­ti­fi­cam o dono da plan­tação. Os que vemos per­tencem a Leon Charles, um homem apel­i­da­do de “Baba”. Ele e a mul­her, Oristin, cul­ti­vam café e bau­nil­ha na aldeia de Amban­izana, local­iza­da na margem do Par­que Nacional Masoala, no lado nordeste de Mada­gas­car.

É um lugar de difí­cil aces­so, sem estradas. Para chegar a par­tir da cap­i­tal da ilha, Antana­nari­vo, é pre­ciso encar­ar dois voos, duas horas de lan­cha e 30 min­u­tos de canoa.

A aldeia onde Leon plan­ta é cheia de músi­ca. Melo­dias ani­madas, dançantes, ecoam através da corti­na rosa que cobre a entra­da de sua casa, uma estru­tu­ra retan­gu­lar de madeira com um teto pon­tu­do.

Aqui, a flo­res­ta encon­tra o mar, e condições como alta umi­dade, som­bra e tem­per­at­uras mod­er­adas a tor­nam per­fei­ta para o cul­ti­vo de bau­nil­ha.

Cada pé que Leon poda pos­sui favas que acabarão ven­di­das por mais de US$ 150 (R$ 615) o qui­lo, uma vez que estiverem secas e prontas para uso.

Vio­lên­cia e justiça com as próprias mãos por causa da bau­nil­ha

Para impedir seu roubo, os agricul­tores das redondezas gravam seus nomes ou números de série nas cas­cas enquan­to as favas ain­da estão no pé. Mes­mo quan­do estão secas, as mar­cações podem ser feitas.

Leon foi rou­ba­do antes da col­hei­ta do ano pas­sa­do — e isso foi dev­as­ta­dor para sua família. “Esta­va tra­bal­han­do no meu cam­po de arroz quan­do aproveitaram para roubar”, diz ele.

“Fiquei triste demais, até chor­ei, perdemos tudo. Fiquei sem din­heiro para man­dar as cri­anças para a esco­la, e temos pas­sa­do difi­cul­dades o ano inteiro.” Mas pode­ria ter sido ain­da pior.

A vig­ilân­cia dos agricul­tores con­tra os ladrões tem que ser fei­ta 24 horas por dia. Os rou­bos são fre­quente­mente vio­len­tos. Hou­ve dezenas de assas­si­natos em Mada­gas­car rela­ciona­dos à bau­nil­ha.

Várias comu­nidades ten­taram e não con­seguiram obter pro­teção da polí­cia. Em respos­ta, aldeões dizem que em um vilare­jo próx­i­mo, uma mul­ti­dão arma­da de facões sur­preen­deu cin­co supos­tos ban­di­dos, gol­pe­an­do o grupo até a morte. Os assas­si­natos ain­da não foram solu­ciona­dos pela polí­cia.

Moradores dizem que não há von­tade ou capaci­dade nas forças poli­ci­ais para inves­ti­gar os rou­bos de bau­nil­ha ou os casos de justiça com as próprias mãos que às vezes se seguem a eles.

O líder da aldeia de Leon, Oreis, teme que a mes­ma coisa ocor­ra no lugar onde vivem. De aparên­cia jovem, usan­do shorts e sandálias com uma camisa roxa bril­hante, ele para na casa de Leon para diz­er oi. Sua expressão fica séria quan­do ele fala sobre os rou­bos.

“Nós temos que faz­er o nos­so mel­hor para garan­tir que os ladrões não con­sigam nos roubar. Porque, se o sus­ten­to de alguém é tira­do, as pes­soas são capazes de faz­er qual­quer coisa, até matar.”

A mil­hares de quilômet­ros de dis­tân­cia, em Lon­dres, a sorvet­e­ria Odd­ono’s fica em uma rua movi­men­ta­da em South Kens­ing­ton, bair­ro nobre da cidade.

Plantação Baunilha

O esta­b­elec­i­men­to tem uma infinidade de prêmios pen­dura­dos na parede. Os pro­pri­etários se van­glo­ri­am de ter os mel­hores ingre­di­entes nat­u­rais em seu autên­ti­co gela­to ital­iano.

A lista inclui choco­late Val­rhona da França, pis­tach­es da Sicília e avelãs do Piemonte. No ano pas­sa­do, porém, out­ra var­iedade de sorvete esta­va em fal­ta.

“Quan­do eu disse aos clientes que não tín­hamos sorvete de bau­nil­ha, muitos ficaram choca­dos”, diz Chris­t­ian Odd­ono, que admin­is­tra a loja.

“Eu tive que explicar que não queríamos ofer­e­cer a eles pro­du­tos de má qual­i­dade, e que tam­bém nun­ca usamos pro­du­tos quími­cos. Aí enten­der­am.”

O preço da safra de bau­nil­ha de Mada­gas­car dis­parou no pas­sa­do, mas a qual­i­dade caiu tan­to que Chris­t­ian decid­iu tirar o sabor do cardá­pio.

“As vagens tin­ham mui­ta umi­dade e algu­mas vin­ham até com cheiro de mofo, um sinal de que o proces­so de cura (a secagem e mat­u­ração antes de estarem prontas para uso) não foi feito ade­quada­mente”, diz ele.

“Neste ano, encon­trei um fornece­dor mel­hor em Mada­gas­car. Os preços ain­da estão altos, então, tam­bém tive­mos que aumen­tar os nos­sos, mas os clientes não recla­ma­ram. Vemos uma tendên­cia ger­al de cresci­men­to na deman­da por ali­men­tos nat­u­rais, e os clientes evi­tan­do os que são arti­fi­ci­ais ou con­têm quími­cos.”

Esta­mos acos­tu­ma­dos a ver bau­nil­ha por todos lados — em essên­cias de velas, em cup­cakes e sobreme­sas. Mas esse cheiro e sabor são, provavel­mente, arti­fi­ci­ais: menos de 1% do sabor de bau­nil­ha no mun­do saem de favas de ver­dade.

Cien­tis­tas vêm fab­ri­can­do vanili­na sin­téti­ca, o com­pos­to que dá aro­ma à bau­nil­ha, des­de o sécu­lo 19. Ela tem sido extraí­da do carvão, do alca­trão, do fare­lo de arroz, de pol­pa de madeira e até de ester­co de vaca.

Hoje, porém, é de petro­quími­cos que sai a maior parcela. A ver­são sin­téti­ca pode ser 20 vezes mais bara­ta que a real.

Ao mes­mo tem­po, o cres­cente inter­esse por comi­da fei­ta de maneira arte­sanal, usan­do méto­dos tradi­cionais, expli­ca um pouco da deman­da pela bau­nil­ha nat­ur­al. E muito do preço nas alturas pode ser expli­ca­do por regras ali­menta­res dos dois lados do Atlân­ti­co.

Na Europa e nos Esta­dos Unidos, o sorvete “de bau­nil­ha” deve con­ter extra­to nat­ur­al de vanili­na das vagens de bau­nil­ha. Se o sabor tem origem total ou par­cial­mente em fontes arti­fi­ci­ais, a embal­agem deve diz­er “sabor de bau­nil­ha” ou “bau­nil­ha arti­fi­cial”.

A bau­nil­ha extraí­da das vagens de bau­nil­ha tem sabor e inten­si­dade úni­cos, car­ac­terís­ti­cos da área onde é cul­ti­va­da, assim como acon­tece com pro­du­tos como o vin­ho.

A que é cul­ti­va­da em Mada­gas­car tem um gos­to pecu­liar, que lem­bra o rum, e o aro­ma ado­ci­ca­do, razões pelas quais é a preferi­da de fab­ri­cantes de sorvete.

E há cada vez mais pressão sobre as empre­sas de ali­men­tos para que tro­quem a bau­nil­ha arti­fi­cial pela que é extraí­da das vagens.

Grandes cor­po­rações, como a Her­shey e a Nestlé, começaram a com­prar grandes quan­ti­dades de extra­to nat­ur­al de bau­nil­ha para seus pro­du­tos, o que inje­ta mais deman­da na cadeia de supri­men­tos lim­i­ta­da e aumen­ta ain­da mais os preços.

Preços pas­saram por altos e baixos na últi­ma déca­da

Na últi­ma déca­da, os preços da bau­nil­ha pas­saram por dramáti­cos altos e baixos.

Os 80 mil pro­du­tores de Mada­gas­car pro­duzem mais bau­nil­ha do que qual­quer out­ro país, por isso, o que acon­tece na ilha afe­ta a indús­tria mundi­al.

Em março de 2017, o ciclone Ena­wo atingiu a região e destru­iu grande parte da safra daque­le ano. Duas das maiores áreas pro­du­toras foram dire­ta­mente atingi­das.

Pequenos pro­du­tores têm enfrenta­do difi­cul­dades des­de então para aten­der à deman­da, já que são necessários três a qua­tro anos para uma nova plan­ta pro­duzir as vagens. E, com isso, os preços dis­pararam.

Cin­co anos atrás, o qui­lo da bau­nil­ha saía por US$ 20 (R$ 82). Já em 2018 ele ficou ligeira­mente mais caro que o da pra­ta, atingin­do um pico de US$ 600 (R$ 2463), antes de sofr­er uma leve redução, para US$ 515 (R$ 2114), em jun­ho.

A orquídea bau­nil­ha é nati­va do Méx­i­co, mas o país pro­duz pouco — foi ultra­pas­sa­do por Mada­gas­car ain­da na déca­da de 1960. O segun­do lugar no rank­ing de maiores pro­du­tores é da Indonésia.

Col­o­nizadores france­ses levaram bau­nil­ha pela primeira vez para a ilha Reunião, viz­in­ha de Mada­gas­car, no iní­cio do sécu­lo 19. A plan­ta cresce como uma vin­ha trepadeira, atingin­do até 90 met­ros de com­pri­men­to.

As vin­has crescem bem fora do Méx­i­co, mas nen­hu­ma fru­ta, sob a for­ma de favas de bau­nil­ha, foi pro­duzi­da. E os hor­tic­ul­tores acabaram desco­brindo o que esta­va fal­tan­do.

O pólen de uma flor de orquídea bau­nil­ha é inacessív­el para a maio­r­ia dos inse­tos, incluin­do abel­has típi­cas. A peque­na abel­ha Melipona, que vive ape­nas no Méx­i­co, foi a úni­ca capaz de alcançar esse pólen e fer­tilizar as flo­res.

Entre­tan­to, depen­der das abel­has para a polin­iza­ção pode ou não fun­cionar, já que as orquídeas bran­cas pál­i­das flo­rescem ape­nas um dia por ano e a flor é fér­til por ape­nas oito ou doze horas após desabrochar.

Cul­ti­vo da bau­nil­ha exige del­i­cadeza e muito tra­bal­ho

Mas foi lá, em Reunião, que um meni­no escra­vo chama­do Edmond Albius inven­tou, aos 12 anos de idade, uma for­ma metic­u­losa de polinizar à mão.

Uma vara fina e afi­a­da é usa­da para lev­an­tar a frágil mem­brana que existe entre as partes mas­culi­na e fem­i­ni­na da flor, que são então empurradas uma em direção à out­ra para que a polin­iza­ção ocor­ra.

O proces­so tem que ser repeti­do em cada uma das flo­res, em todas as videiras, para que a fru­ta seja pro­duzi­da — ou seja, a vagem da bau­nil­ha cheia de mil­hares de minús­cu­las sementes pre­tas que even­tual­mente ver­e­mos em um sorvete de bau­nil­ha de alta qual­i­dade.

Os agricul­tores de Mada­gas­car pre­cisam checar suas plan­tas todas as man­hãs. Perder a janela de fer­til­iza­ção de uma flor, ou dan­i­ficar a plan­ta, sig­nifi­ca perder vagens pre­ciosas — para se ter ideia, são necessárias 600 flo­res polin­izadas à mão para pro­duzir ape­nas 1 qui­lo de favas de bau­nil­ha curadas.

Após a polin­iza­ção, leva-se nove meses para as vagens amadure­cerem, e, então, serem col­hi­das.

As favas ain­da verdes começam a fer­men­tar rápi­do, por isso os com­pradores têm de ser encon­tra­dos depres­sa.

Os pequenos agricul­tores nor­mal­mente ven­dem o pro­du­to para inter­mediários que cole­tam grandes quan­ti­dades para vender aos expor­ta­dores locais.

Nes­sa altura da cadeia pro­du­ti­va, as vagens não têm o cheiro ou o sabor car­ac­terís­ti­cos da bau­nil­ha. A dura jor­na­da que enfrentam — da polin­iza­ção à cura e secagem, e depois à preparação para expor­tação — demo­ra cer­ca de um ano.

O pro­du­to acaba­do é uma fava de bau­nil­ha escu­ra-amar­ronza­da e forte­mente enruga­da que é mole, flexív­el e tem a tex­tu­ra semel­hante ao couro, com um forte aro­ma.

Em uma rua empoeira­da no meio da cidade com­er­cial de Maroantse­tra, em Mada­gas­car, os vende­dores no “mer­ca­do para­le­lo” nego­ci­am a bau­nil­ha antes mes­mo do perío­do de col­hei­ta.

A BBC con­ver­sou com um “comis­sário” (ou atrav­es­sador). Ele é um inter­mediário. Tin­ha ape­nas 300 gra­mas disponíveis e admi­tiu: “Não é de boa qual­i­dade”.

“São 2kg”, diz o nego­ciante com tom orgul­hoso, “por 3,3 mil­hões de ari­ari (a moe­da de Mada­gas­car)”, ou R$ 4,1 mil.

Eu digo a ele que não pos­so com­prar. Ele encol­he os ombros e sor­ri, mas não fica desapon­ta­do — haverá out­ros com­pradores dis­pos­tos a pagar o mon­tante.

As vagens são embal­adas a vácuo, uma práti­ca que o gov­er­no está proibindo, porque reduz a qual­i­dade do pro­du­to pela qual Mada­gas­car é tão con­heci­da. E o proces­so pode ser usa­do por espec­u­ladores para con­ser­var vagens que foram col­hi­das antes do tem­po, que ficam armazenadas para serem ven­di­das depois a preços mais altos.

Mas, imat­uras ou curadas de for­ma inad­e­qua­da, elas têm um teor mais baixo de vanili­na e, muitas vezes, gos­to de mofo.

Muitos pro­du­tores optam por ante­ci­par a col­hei­ta para evi­tar perdê-la para os ladrões. O gov­er­no ten­tou impedir isso esta­b­ele­cen­do datas de col­hei­ta fixas para cada aldeia. Para reforçar a ideia e pres­sion­ar para que os pro­du­tores respeit­em o cal­endário, as autori­dades recen­te­mente queimaram em públi­co 500 qui­los de vagens col­hi­das pre­mat­u­ra­mente.

Mas há atrav­es­sadores menores sob imen­sa pressão para pegar as favas mais cedo — e por um preço menor. Eles obtêm adi­anta­men­tos em din­heiro de grandes expor­ta­dores e pre­cisam entre­gar o pro­du­to.

No entan­to, esper­ar até o perío­do da col­hei­ta, quan­do a deman­da excede a ofer­ta — empurran­do os preços para cima — pode ser arrisca­do.

Arman Ramarokootoni­ri­na tem tra­bal­ha­do como atrav­es­sador, com­pran­do bau­nil­ha de fazen­deiros em Maroantse­tra, há mais de sete anos. Há muitos novos oper­adores ine­scrupu­losos na indús­tria, diz ele. O setor está atual­mente cheio de din­heiro.

“É a ganân­cia dos grandes patrões que está cau­san­do o prob­le­ma. As pes­soas obtêm grandes adi­anta­men­tos, emb­o­ra ain­da nem ten­ham feito o plan­tio. Depois, pre­cisam roubar a bau­nil­ha das plan­tações dos out­ros para aten­der as encomen­das.”

A bau­nil­ha movi­men­ta a econo­mia da ilha
Mas, para os pro­du­tores que con­seguem pro­te­ger suas col­heitas, uma boa safra em um ano de preços altos podem mudar a vida de um agricul­tor.

Um qui­lo de fava cura­da vale entre US$ 400 (R$ 1,6 mil) e US$ 500 (R$ 2 mil)- uma quan­tia con­sid­eráv­el em um país onde a ren­da per capi­ta média anu­al é de US$ 1500 (R$ 6,2 mil).

Na aldeia de Amban­izana, é pos­sív­el ver o din­heiro da bau­nil­ha na práti­ca. É com ele que os pais con­seguem pagar a men­sal­i­dade de esco­las mel­hores para seus fil­hos, fora da aldeia.

Casas de tijo­los mod­er­nas tam­bém estão surgin­do onde antes exis­ti­am ape­nas mora­dias tradi­cionais de madeira.

Há um grande can­teiro de obras às mar­gens da aldeia. O encar­rega­do da obra rev­ela que a con­strução é de uma dis­cote­ca e restau­rante, a primeira do tipo em Amban­izana.

O dono do pro­je­to é um “bau­nil­hionário”, alguém quem fez din­heiro tan­to como pro­du­tor quan­to como atrav­es­sador do pro­du­to.

Os agricul­tores podem estar gan­han­do mais do que antes, mas seus pequenos lotes de ter­ra pro­duzem quan­ti­dades lim­i­tadas. Quem real­mente está fazen­do for­tu­na a par­tir da cul­tura são os atrav­es­sadores e expor­ta­dores.

A difi­cul­dade de aces­so às regiões pro­du­toras sig­nifi­ca que elas são uma parte essen­cial da cadeia de supri­men­tos.

Os home­ns que fazem a inter­me­di­ação das ven­das via­jam pelas aldeias, com­pran­do grandes quan­ti­dades de vagens de bau­nil­ha para vender a empre­sas expor­ta­do­ras que as curam e envi­am para o mun­do todo.

O maior edifí­cio de Maroantse­tra é a sede de uma dessas expor­ta­do­ras. Pin­ta­do de bran­co puro com reves­ti­men­to verde escuro, o pré­dio con­trasta forte­mente com as casas de madeira dos dois lados.

Até qua­tro toneladas de bau­nil­ha são expor­tadas pela empre­sa todos os anos. Câmeras de segu­rança traçam o cam­in­ho até o grande armazém na parte de trás do com­plexo. Grandes cadea­d­os tran­cam os portões e bar­ras de fer­ro cruzam as janelas.

Syl­van Chen admin­is­tra o lugar. Eles revis­tam os fun­cionários no final de cada dia para garan­tir que nen­hu­ma bau­nil­ha este­ja sendo lev­a­da escon­di­da em bol­sas, sap­atos ou roupas ínti­mas.

Ain­da não está na época da bau­nil­ha, então, as mul­heres que tra­bal­ham no andar de baixo do armazém estão atual­mente peneiran­do cra­vo — out­ra espe­cia­ria expor­ta­da de Mada­gas­car, mas nem de longe lucra­ti­va como a bau­nil­ha.

O andar supe­ri­or é onde a bau­nil­ha fica armazena­da enquan­to está secan­do. O espaço está cheio até o teto de colchões baratos de espuma.

A Syl­van vendeu 2 mil deles no ano pas­sa­do a agricul­tores, que pref­er­em dormir assim do que em tradi­cionais tapetes de teci­do. O val­or que pagam por isso, no entan­to, rep­re­sen­ta muitas vezes o que gan­ham pelo tra­bal­ho com a bau­nil­ha — e que dessa maneira aca­ba retor­nan­do à empre­sa.

Qual­i­dade e rep­utação da bau­nil­ha e Mada­gas­car estão ameaça­dos

O momen­to está bom para a indús­tria, ago­ra que o preço da bau­nil­ha está nas alturas, recon­hece Syl­van. Mas há o temor de que gan­hos de cur­to pra­zo provo­quem danos a lon­go pra­zo à qual­i­dade e rep­utação da bau­nil­ha de Mada­gas­car.

“A bau­nil­ha daqui é muito cara, e as pes­soas podem recor­rer a out­ros país­es que são dota­dos de padrões de qual­i­dade. O setor de bau­nil­ha aqui pode não ter mais futuro se a qual­i­dade não mel­ho­rar”.

Em uma lan­cha que cruza a cos­ta às mar­gens do Par­que Nacional de Masoala, vejo tre­chos de ter­ra nua cor­tan­do a flo­res­ta verde­jante.

O guar­da flo­re­stal Armand Marozafy e o ativista ambi­en­tal Clo­vis Razafi­malala dizem que esse é o impacto no par­que do aumen­to dos preços da bau­nil­ha.

Eles mostram out­ras partes da faixa costeira da flo­res­ta que foram queimadas para que plan­tações, prin­ci­pal­mente de bau­nil­ha, sejam cul­ti­vadas. Den­tro da flo­res­ta, as árvores que foram cor­tadas tin­ham mais de cem anos de idade.

Quan­do esse tipo de dano ocorre, um ecos­sis­tema frágil é afe­ta­do. Plan­tas, inse­tos e ani­mais começam a desa­pare­cer.

As pes­soas em Mada­gas­car estão pre­ocu­padas com a per­da da rep­utação de sua bau­nil­ha, mas, no par­que nacional, um ecos­sis­tema del­i­ca­do está sendo seri­amente prej­u­di­ca­do para aten­der à deman­da glob­al.

À medi­da que as árvores começam a desa­pare­cer, as condições úni­cas que tor­nam este local per­feito para cul­ti­var bau­nil­ha tam­bém começam a sumir. As flo­restas fornecem a quan­ti­dade cer­ta de chu­va, umi­dade e solo para cul­ti­var a cobiça­da bau­nil­ha de Mada­gas­car.

Der­rubar a flo­res­ta para plan­tar mais bau­nil­ha acabará por difi­cul­tar o cul­ti­vo do fru­to de qual­i­dade na ilha. A indús­tria terá de encon­trar meios de garan­tir qual­i­dade con­sis­tente, a fim de evi­tar que os com­pradores pro­curem o pro­du­to em out­ro lugar.

François Rav­elon­jara, pro­du­tor em Maroanse­tra, assume um ar de res­ig­nação enquan­to mar­ca um número de série na vagem de bau­nil­ha em sua peque­na fazen­da.

O número cor­re­sponde ao de seu “cartão de pro­du­tor”, reg­istro que o gov­er­no dis­tribui aos pro­du­tores para provar a posse e coibir o roubo. As mar­cações, entre­tan­to, não impedi­ram os ladrões de invadi­rem seu ter­reno duas vezes.

“Seria mel­hor se os preços caíssem de novo”, diz ele. “Não gan­haríamos muito, mas pelo menos não vive­mos com medo. ”

Muitos pro­du­tores e com­er­ciantes de lon­go pra­zo ecoam esse sen­ti­men­to. Como o flo­resci­men­to da flor da orquídea de bau­nil­ha, eles sabem que o boom atu­al não durará muito tem­po. Mas os efeitos dele, sim.

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