Carne cultivada em laboratório é carne de verdade?

Carne cultivada em laboratório é carne de verdade

Depois de sécu­los de um ver­dadeiro monopólio, a carne pode ter final­mente encon­tra­do um adver­sário à altura. A provo­cação não vem de ham­búr­gueres veg­e­tar­i­anos, tofu ou sei­tan, mas de lab­o­ratórios onde célu­las ani­mais estão sendo cul­ti­vadas arti­fi­cial­mente para cri­ar pedaços que imi­tam (ou, depen­den­do da pes­soa que fala, espel­ham) carne. Atual­mente, tem muitos nomes – carne in vit­ro, carne arti­fi­cial, carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório, carne limpa – e pode dis­putar por um espaço ao lado de comi­das mais tradi­cionais. Sejamos sin­ceros: o tipo de comi­da que vem de ani­mais vivos, abati­dos para ali­men­tação.

Os fab­ri­cantes de carne arti­fi­cial, como o Just Inc. e Mem­phis Meats, querem fornecer ao con­sum­i­dor uma carne equiv­a­lente à sua pre­de­ces­so­ra, que ten­ha gos­to, aparên­cia, sen­sação e cheiro exata­mente iguais ao que você com­pra em super­me­r­ca­dos hoje em dia, só que mais sus­ten­táv­el. Vai demor­ar algum tem­po pra saber­mos se isso se tornará real­i­dade ou não. Mas há out­ra luta, mais urgente, esquen­tan­do entre a indús­tria pecuária e ess­es novos opo­nentes do ringue car­nal. Então aperte os cin­tos e se pre­pare para ouvir lou­curas, porque a guer­ra dos rótu­los está prestes a começar.

Em fevereiro, a U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion (Asso­ci­ação de Pecuar­is­tas dos EUA) fez uma petição para o Depar­ta­men­to de Agri­cul­tura dos Esta­dos Unidos (USDA), pedin­do para o gov­er­no proibir empre­sas de carne arti­fi­cial de usar palavras como carne (beaf e meat, em inglês). Em retal­i­ação, sua rival, a Nation­al Cattlemen’s Beef Asso­ci­a­tion (Asso­ci­ação Nacional de Pecuar­is­tas de Carne Bov­ina), escreveu uma car­ta opon­do-se à petição.

Os fab­ri­cantes de carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório tam­bém eram con­tra, por motivos provavel­mente óbvios. Em maio, um pro­je­to de lei aprova­do pelo Sena­do do Mis­souri incluía uma dis­posição que “proíbe a descrição enganosa de um pro­du­to como carne se não é deriva­do da cri­ação de gado ou aves” e, em 1º de jun­ho, o então gov­er­nador Eric Gre­it­ens assi­nou e reg­u­la­men­tou a lei antes de renun­ciar ao car­go. A Food and Drug Admin­is­tra­tion (FDA, órgão amer­i­cano de fis­cal­iza­ção de ali­men­tos e remé­dios) mar­cou uma audiên­cia públi­ca na quin­ta-feira para ouvir opiniões sobre a carne arti­fi­cial, incluin­do como ela deve ser rotu­la­da.

Essa não é a primeira vez que ali­men­tos cri­a­dos para imi­tar ou sub­sti­tuir comi­das mais tradi­cionais enfrenta ques­tion­a­men­tos sobre sua rotu­lação. Em 1869, a mar­ga­ri­na foi inven­ta­da por um quími­co francês. Quan­do a sub­sti­tu­ta da man­teiga começou a se espal­har pelos Esta­dos Unidos, pecuar­is­tas de leite se alar­maram. Na época, uma libra de man­teiga (cer­ca de meio qui­lo) cus­ta­va 25 cen­tavos de dólar, e a mar­ga­ri­na cus­ta­va aprox­i­mada­mente a metade. “Eu aumen­taria tan­to o impos­to que a apli­cação da lei destru­iria com­ple­ta­mente a fab­ri­cação de todo tipo fal­so de man­teiga e quei­jo, do mes­mo jeito que eu destru­iria a fab­ri­cação de din­heiro fal­so”, declar­ou William Price, mem­bro da Câmara dos Rep­re­sen­tantes dos Esta­dos Unidos pelo esta­do de Wis­con­sin. David Hen­der­son, mem­bro pelo esta­do de Iowa, com­parou a mar­ga­ri­na à poção das bruxas de Mac­beth.

Eles con­vence­r­am o gov­er­no amer­i­cano a taxar mar­ga­ri­na a 2 cen­tavos a libra e pres­sion­aram con­tra o uso de corantes amare­los que fazi­am o sub­sti­tu­to da man­teiga pare­cer mais aman­teiga­do. Em 1900, era proibido tin­gir mar­ga­ri­na de amare­lo em 30 esta­dos e out­ros esta­dos foram mais além, deter­mi­nan­do que teria que ser tingi­da de um rosa desagradáv­el. O Canadá proibiu inteira­mente a ven­da de mar­ga­ri­na até 1948.

O aumen­to de opções de comi­das veg­e­tar­i­anas e veg­anas nos trouxe mais alguns exem­p­los de cópias e seus rótu­los. Os leites de soja e de amên­doas têm sido um incô­mo­do para o lob­by da pecuária de leite há mais de 15 anos. A Soy­foods Asso­ci­a­tion of Amer­i­ca (Asso­ci­ação Amer­i­cana de Ali­men­tos à Base de Soja) fez uma petição para a FDA em 1997, pedin­do per­mis­são para chamar seu pro­du­to de “leite de soja”, dan­do iní­cio a uma lon­ga batal­ha entre pro­du­tores de soja e pecuar­is­tas de leite. Estes se opõem ao uso da nomen­clatu­ra leite para essas bebidas, mas até ago­ra a FDA não fez nada para impedir que as mar­cas usem a palavra.

Mas a dis­cussão da carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório é fun­da­men­tal­mente difer­ente dess­es out­ros estu­dos de caso, porque, ao con­trário da mar­ga­ri­na e do leite de soja, ela é bio­quimi­ca­mente idên­ti­ca à sub­stân­cia com a qual com­pete. O que tor­na esse debate do rótu­lo ain­da mais estran­ho e com­pli­ca­do.

A briga do nome dess­es pro­du­tos logo fica bizarra, mas você pode resumir o debate a três per­gun­tas prin­ci­pais: Quem deter­mi­nará as regras, quem poderá usar a palavra carne e o que mais dev­e­ria apare­cer no rótu­lo?

Come­ce­mos pela juris­dição, pois é a parte mais sin­u­osa da dis­cussão e podemos rap­i­da­mente con­cluí-la. Ambos o USDA e a FDA teri­am algu­ma influên­cia nes­sa dis­cussão. Os dois órgãos lidam com comi­da, segu­rança e rotu­lação, mas seus esco­pos são um pouco difer­entes. A FDA reg­u­la­men­ta remé­dios e suple­men­tos ali­menta­res, mas tam­bém é respon­sáv­el pela cer­ti­fi­cação de que as comi­das no mer­ca­do sejam “seguras para con­sumo, saudáveis, aten­dam a reg­u­la­men­tações san­itárias e sejam ade­quada­mente rotu­ladas”. O USDA super­vi­siona a agri­cul­tura nos Esta­dos Unidos e tra­ta da segu­rança ali­men­tar e eti­que­tagem de carne e pro­du­tos deriva­dos dela. Um rep­re­sen­tante do Food Safe­ty and Inspec­tion Ser­vice (FSIS, Serviço de Inspeção e Segu­rança Ali­men­tar), setor da USDA, me infor­mou que o FSIS “tem autori­dade juris­di­cional sobre rotu­lação de pro­du­tos ali­men­tí­cios que con­tém carne bov­ina e de fran­go”.

Então, é quase um enig­ma saber quem vai ditar o rótu­lo da carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório, porque na ver­dade depende se você vê ela como carne. Do pon­to de vista da pro­dução, a carne arti­fi­cial está mais próx­i­ma da fab­ri­cação em lab­o­ratório de remé­dios, suple­men­tos e adi­tivos, o que qual­i­fi­caria a FDA. Mas, do pon­to de vista do pro­du­to final, se a carne cri­a­da em lab­o­ratório for parar nas geladeiras ao lado das carnes abati­das tradi­cionais, a impressão é de que o USDA dev­e­ria tomar con­ta.

Isso pode pare­cer uma buro­c­ra­cia ente­di­ante, e mais ou menos é, mas faria uma grande difer­ença para a briga com a indús­tria do gado. Ess­es dois órgãos tem históri­cos difer­entes quan­to a rotu­lação de pro­du­tos. A FDA per­mi­tiu que o leite de amên­doas e o leite de soja man­tivessem seus nomes, ape­sar do lob­by inces­sante e ações judi­ci­ais da indús­tria do leite. Recen­te­mente, tam­bém deixou que o sub­sti­tu­to da maionese da mar­ca Just – sem ovo – usasse o ter­mo maionese na embal­agem, emb­o­ra a própria FDA padronize a iden­ti­dade desse mol­ho como “comi­da semi­ssól­i­da emul­si­fi­ca­da prepara­da com óleo(s) vegetal(is)… ingre­di­entes acid­i­f­i­cantes… e um ou mais ingre­di­entes que con­têm gema de ovo”. Essa decisão pode esclare­cer como o FDA encara carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório, já que a Just tam­bém é um dos grandes nomes à frente dessa novi­dade.

Nen­hu­ma dessas decisões pas­sou des­perce­bi­da pelos cri­adores de gado. Emb­o­ra a U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion e a Nation­al Cattlemen’s Beef Asso­ci­a­tion não con­cor­dem quan­to ao uso do nome carne pelos novatos, ambos preferiri­am que o USDA ficas­se encar­rega­do. “O USDA tem um lon­go históri­co de per­mi­tir ape­nas princí­pios legal­mente defen­sáveis basea­d­os na ciên­cia”, afir­ma Danielle Beck, dire­to­ra de assun­tos gov­er­na­men­tais da Nation­al Cattlemen’s Beef Asso­ci­a­tion. Na car­ta em que se opun­ha à petição da U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion para proibir empre­sas de carne arti­fi­cial de usarem a palavra carne, a asso­ci­ação rival escreveu: “Infe­liz­mente, a FDA tem um históri­co recon­heci­do de aplicar medi­das caóti­cas e faz­er vista grossa para a lei”.

Mas há uma con­tradição engraça­da para a U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion. Se ela quis­er que o USDA seja o respon­sáv­el, o pro­du­to pre­cisa ser con­sid­er­a­do carne. Mas ela não quer que o pro­du­to seja con­sid­er­a­do carne.

De qual­quer for­ma, parece que a FDA vai ser de fato a que vai con­duzir esse debate. Na declar­ação em que anun­ci­a­va a reunião da quin­ta-feira para ouvir comen­tários sobre a questão da carne de lab­o­ratório, o órgão deu a enten­der que seria ele que tomaria as decisões quan­to aos rótu­los desse ali­men­to, dizen­do que “ambas as sub­stân­cias usadas na fab­ri­cação dess­es pro­du­tos que usam tec­nolo­gia de cul­tura celu­lar ani­mal e nos próprios pro­du­tos que serão usa­dos para comi­da estão den­tro da juris­dição da FDA e seguirão os nos­sos req­ui­si­tos aplicáveis reg­u­ladores e estatutários de segu­rança e rotu­lação ali­men­tar”. Se ficar a car­go da FDA, os cri­adores de gado temem que eles não vão con­seguir o que querem quan­to a nomen­clatu­ra.

Mas o que eles querem, exata­mente? Acon­tece que gru­pos difer­entes do lob­by dos pecuar­is­tas querem coisas difer­entes. Isso nos leva à segun­da per­gun­ta, que é menos buro­cráti­ca e mais filosó­fi­ca: O que é carne? A carne de lab­o­ratório é carne de ver­dade? Antes de tudo, dev­eríamos chamá-la de carne? Falei com empre­sas de carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório e elas foram claras quan­to a respos­ta a essas per­gun­tas: sim. “Nos­sos pro­du­tos se enquadram na definição estatutária de carne”, me infor­mou por e‑mail Eric Schulze, vice-pres­i­dente de pro­du­tos e reg­u­la­men­tações da Mem­phis Meats. “Vem de um ani­mal? Tem a mes­ma com­posição bio­quími­ca da carne? Se sim, então é carne”, disse Josh Tet­rick, CEO da Just.

As empre­sas de carne arti­fi­cial tam­bém apon­tam para definições ofi­ci­ais exis­tentes da palavra que tam­pouco excluem seus pro­du­tos. A definição de carne para a Fed­er­al Meat Inspec­tion Act (Lei Fed­er­al de Inspeção de Carne) é: “a parte do mús­cu­lo de qual­quer gado, cordeiro, por­co ou bode que é esqueléti­ca ou que pode ser encon­tra­da na lín­gua, diafrag­ma, coração ou esôfa­go, com ou sem a gor­du­ra que a reveste, e as porções de osso (de pro­du­tos com osso, como T‑Bone e Porter­house), pele, tendão, ner­vo e vasos san­guí­neos que nor­mal­mente vêm com o teci­do do mús­cu­lo e do qual não se sep­a­ra no proces­so de limpar a carne”. Sem dúvi­da, essa definição é elab­o­ra­da (e pouco apeti­tosa) mas nesse caso carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório a par­tir de célu­las ani­mais seria carne.

Claro que nem todo mun­do con­cor­da com isso. War­ren Love, um dos mem­bros da Câmara em Mis­souri por trás da lei que proibiria empre­sas como a Just e a Mem­phis Meat de usar o ter­mo carne, diz: “O prob­le­ma não é eles pro­duzirem ou fab­ri­carem isso, tan­to faz, só não quer­e­mos que rotulem como carne, que tomem pra si essa palavra. Carne vem do abate de ani­mal”. Cri­ador de gado, Love afir­ma que, se o ter­mo não for pro­te­gi­do, ess­es novatos do mer­ca­do podem diminuir a rep­utação que a indús­tria da carne con­stru­iu jun­to aos con­sum­i­dores. “Acho que você provavel­mente chamaria isso de pro­te­ger sua mar­ca”, diz. “Sou um caubói anti­go e eu vis­to a camisa da mar­ca.”

A petição da U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion para o USDA se con­cen­tra nesse argu­men­to, em que pede para o Depar­ta­men­to cri­ar uma nova regra que defi­na carne como “o teci­do ou carne de ani­mais que foram abati­dos de maneira tradi­cional”. Mas isso, por si só, especi­fi­ca­mente a parte do “abati­dos de maneira tradi­cional”, não ficou claro na petição. Quan­do con­ver­sei com Lia Bion­do, dire­to­ra de políti­cas de expan­são da U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion, ela me esclare­ceu: “De maneira tradi­cional sig­nifi­ca abati­do num abate­douro”. Mas o ter­mo abate­douro não aparece no pedi­do da asso­ci­ação, e a pre­ocu­pação de alguns é que esse “de maneira tradi­cional” pode ser ruim para a própria indús­tria. Sem uma definição clara, detra­tores temem que esse con­ceito pode impedir o uso de tec­nolo­gias avançadas no futuro. “Isso pode ser um obstácu­lo no uso de tec­nolo­gias ino­vado­ras de repro­dução de ani­mais e edição de geno­mas”, afir­ma Beck.

Se você já se can­sou dis­so tudo, você não está soz­in­ho. No meio de todas essas definições lon­gas e com­pli­cadas e de ginás­ti­cas men­tais, é fácil perder de vista o obje­ti­vo dess­es rótu­los. O moti­vo de a FDA e o USDA ter todos ess­es padrões e definições é para se cer­ti­ficar de que os con­sum­i­dores não fiquem con­fu­sos. Quan­do eles pegam um pro­du­to cuja embal­agem diz leite, man­teiga, ovos ou maionese, eles dev­e­ri­am poder con­sumir aqui­lo que acham que estão con­sumin­do.

“Não quer­e­mos que uma pes­soa vá com­prar bacon e pegue um pro­du­to pelo nome e pela cara sem ler o rótu­lo. Aí chegam em casa e pen­sam: ‘Eca, isso foi cri­a­do em lab­o­ratório’”, diz War­ren Love. “Ape­nas quer­e­mos que esse tipo de pro­du­to seja rotu­la­do sem cri­ar uma con­fusão para alguém que quer com­prar a carne saudáv­el e nutri­ti­va.”

A grande questão aqui é o que os con­sum­i­dores acham que é carne. Quan­do com­pram carne, o que eles acham que estão con­sumin­do? O con­sum­i­dor médio con­sid­era que carne ani­mal é carne? Ele imag­i­na a vaca indo para o mata­douro? O mús­cu­lo de um ani­mal é carne? Ou é o resto de uma criatu­ra viva? Se mús­cu­lo é carne, então aqui­lo cul­ti­va­do em lab­o­ratório é carne. Se é resto, não é carne. Não há dados sobre isso, então cada lado dessa briga pode pre­sumir que sua respos­ta preferi­da é a cor­re­ta.

“A gente vê isso o tem­po todo: existe a imi­tação de bau­nil­ha, existe a bau­nil­ha de ver­dade”, diz Bion­do. “Na min­ha casa, coz­in­ho com bau­nil­ha de ver­dade. Imi­tação de carne de carangue­jo e carangue­jo de ver­dade, pro­du­tos muito difer­entes, são rotu­la­dos dessa maneira. Não achamos que seja novi­dade pedir para essas empre­sas oper­ar den­tro da mes­ma lóg­i­ca.”

Mas a questão é mais com­pli­ca­da. Carangue­jo arti­fi­cial (kani-kama) é feito a par­tir de um ani­mal com­ple­ta­mente difer­ente. A carne de lab­o­ratório é fei­ta a par­tir do mes­mo ani­mal, só que de uma maneira dis­tin­ta. Josh Tet­rick, o CEO da Just, afir­ma que, em qual­quer out­ra situ­ação, nem estaríamos ten­do esse debate. Pense nos car­ros elétri­cos, diz. O motor é com­ple­ta­mente difer­ente do motor de com­bustão tradi­cional. Mas con­tin­u­amos usan­do a palavra car­ro. “Você pode chamar um car­ro elétri­co de car­ro? Claro que sim! É o maldito de um car­ro! Tem pneus e leva você de um lugar a out­ro! É feito de com­po­nentes que fazem um car­ro.”

A FDA não disse o que vai faz­er quan­to à ter­mi­nolo­gia carne, mas, se levar­mos em con­ta seu históri­co, não é de todo insen­sato supor que ela per­mi­ta o uso desse nome por empre­sas de carne arti­fi­cial. Se isso acon­te­cer, a U.S. Cattlemen’s Asso­ci­a­tion não ficará sat­is­fei­ta. “Devo diz­er que seria con­sid­er­a­do uma der­ro­ta”, diz Bion­do.

Mas a sua cole­ga na Nation­al Cattlemen’s Beef Asso­ci­a­tion não está pre­ocu­pa­da com a palavra carne, e sim com out­ros ter­mos que poderão ser adi­ciona­dos à embal­agem do ali­men­to cul­ti­va­do em lab­o­ratório. “Nos­so maior obje­ti­vo é impedir que se chame carne limpa”, diz Beck. “A expressão carne limpa, para mim, não é basea­da em fatos cien­tí­fi­cos, não é legal­mente defen­sáv­el, não serve para o con­sum­i­dor e, no fim das con­tas, é pejo­ra­ti­va quan­to aos pro­du­tos de carne tradi­cional.”

Isso nos leva à últi­ma grande per­gun­ta da guer­ra dos rótu­los. Partin­do do princí­pio que o pro­du­to poderá se chamar carne (e creio que essa seja uma suposição plausív­el), que palavras e rótu­los dev­e­ri­am ser adi­ciona­dos para esclare­cer que tipo de carne é? Alguns defen­sores da carne de lab­o­ratório estão pro­moven­do carne limpa, sob o argu­men­to de que ela é mel­hor para o meio ambi­ente. Out­ros pref­er­em carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório, menos con­tro­ver­so. Cer­ta­mente, a FDA irá deman­dar rótu­los adi­cionais na embal­agem para explicar que esse pro­du­to não é feito do jeito que os con­sum­i­dores estão acos­tu­ma­dos.

Ain­da não se sabe que ter­mos serão ess­es, mas podemos procu­rar por pis­tas na decisão da maionese Just. Foi req­ui­si­ta­do à empre­sa de Tet­rick que expli­cas­se de for­ma mais clara o que sig­nifi­ca­va o “Just” (ape­nas, em inglês) da embal­agem. Teria que aumen­tar e deixar mais evi­dente o ter­mo “sem ovo” do rótu­lo e diminuir a logo, um ovo que­bra­do. Na questão da carne, é pos­sív­el que se peça às empre­sas para acres­cen­tar uma lin­guagem esclare­ce­do­ra às suas embal­a­gens, expli­can­do que foi cul­ti­va­da em lab­o­ratório. Tam­bém é pos­sív­el que não seja per­mi­ti­do usar ima­gens de vacas. Provavel­mente, as empre­sas colo­carão os pro­du­tos com cer­tos rótu­los e estes serão revisa­dos e cor­rigi­dos ao lon­go do tem­po pela FDA.

E as empre­sas com as quais falei não se opõem a deixar claro o que é seu pro­du­to e de que for­ma é difer­ente do tradi­cional. Elas acred­i­tam que estão crian­do algo que, no final das con­tas, o con­sum­i­dor vai quer­er com­prar. E esper­am que as pes­soas que querem carne mas não gostam da for­ma tradi­cional de aba­ti­men­to e pro­dução do ali­men­to pro­curem suas mar­cas. “Quer­e­mos con­ver­sar sobre isso, é algo impor­tante, impres­sio­n­ante, e os con­sum­i­dores ficarão empol­ga­dos”, afir­mou Tet­rick. Schulze acres­cen­tou: “Como somos novatos no mer­ca­do, sabe­mos que será muito tra­bal­hoso intro­duzir nos­so proces­so, nós mes­mos e nos­so pro­du­to a agên­cias reg­u­lado­ras, par­ceiros da indús­tria e con­sum­i­dores. Nos­so com­pro­mis­so é com a transparên­cia sobre nos­so pro­du­to e como ele é feito”.

O que essas empre­sas não querem é que sejam legal­mente obri­gadas a usar ess­es ter­mos e rótu­los explica­tivos. Porque a ideia é que, uma hora, esse tipo de carne sub­sti­tua os abate­douros. Tet­rick afir­ma que ele espera um dia ver a carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório do lado da carne tradi­cional, sem nen­hum tipo de ressal­va.

Os gru­pos de pecuar­is­tas dizem que não se impor­tam que empre­sas como a Mem­phis Meat e a Just entrem no mer­ca­do, mas querem que elas sejam demar­cadas como um pro­du­to sep­a­ra­do. “Fico con­tente em com­pe­tir por um espaço no pra­to com qual­quer out­ro tipo de pro­teí­na, seja ele fran­go, ham­búr­guer de fei­jão pre­to, ham­búr­guer de plan­ta que san­gra e chia como se fos­se carne de ver­dade, ou até o pro­du­to de lab­o­ratório, mas no fim das con­tas nos­so obje­ti­vo é garan­tir aos con­sum­i­dores infor­mação sufi­ciente para que tomem decisões bem fun­da­men­tadas”, disse Beck.

Até ago­ra, ess­es pro­du­tos não estão disponíveis em muitos lugares, e pou­cas pes­soas o provaram. Aque­les que tes­taram recon­hecem que, por enquan­to, a carne arti­fi­cial não é exata­mente igual à tradi­cional. “A sen­sação na boca era pare­ci­da”, afir­mou um degus­ta­dor de ali­men­tos que provou o primeiro ham­búr­guer cul­ti­va­do em lab­o­ratório, em 2013. “É sim­i­lar à carne, mas não é tão sucu­len­ta”, disse out­ro. Nen­hum dos afil­i­a­dos a asso­ci­ações de pecuar­is­tas com os quais con­ver­sei havia prova­do a carne arti­fi­cial. Mas eles têm certeza que seu pro­du­to é supe­ri­or e sem­pre será. E querem que a guer­ra dos rótu­los trans­mi­ta isso. War­ren Love, mem­bro da Câmara em Mis­souri, disse que provavel­mente nem provaria a carne cul­ti­va­da em lab­o­ratório se lhe ofer­e­cessem. “Não. Eu gos­to de Coca-Cola. Gos­to do que é real. Sou cha­to com comi­da. Eu nem como nuggets de fran­go. Eles são feitos de carne, mas são… Já vi como são feitos e não quero com­er. Mas eu gos­to de cachor­ro-quente e amo Spam (tipo de carne pré-cozi­da e enlata­da).”

Fonte: Época

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