Afinal, de quem é o Pacaembu?

Estádio Paulo Machado de Carvalho, Pacaembu, julho de 2017

Afinal, de quem é o Pacaembu

Após sus­pen­são do proces­so de con­cessão do Está­dio do Pacaem­bu, pelo Tri­bunal de Con­tas do Municí­pio (TCM), ago­ra se trans­for­mou em uma dis­pu­ta pela pro­priedade do local, entre Prefeitu­ra e Esta­do.

O gov­er­no estad­ual afir­ma pos­suir a escrit­u­ra do ter­reno; já o Municí­pio defende ter a posse da área. Os ques­tion­a­men­tos sobre a pro­priedade do está­dio vin­ham sendo debati­dos des­de o ano pas­sa­do, quan­do a Prefeitu­ra o lis­tou como um dos itens pri­or­itários do Pro­gra­ma Munic­i­pal de Deses­ta­ti­za­ção da gestão João Doria (PSDB). Ain­da com Ger­al­do Alck­min (PSDB) como gov­er­nador, Prefeitu­ra e Esta­do se reuni­ram para dis­cu­tir o tema. E a trata­ti­va seguiu no sen­ti­do de se lev­an­tar as escrit­uras do ter­reno, que seria do Esta­do, e for­malizar um instru­men­to legal que per­mi­tisse con­ced­er o está­dio da Prefeitu­ra para um futuro ente pri­va­do.

O doc­u­men­to mais anti­go que a Prefeitu­ra tem sobre o ter­reno, a que o Esta­do teve aces­so, é um cer­ti­fi­ca­do de doação de uma área da Prefeitu­ra à Com­pan­hia City, empre­sa que fez o lotea­men­to do bair­ro do Pacaem­bu, data­do de 8 de jul­ho de 1936.

A transação descri­ta é para for­malizar a doação de out­ra área, de 25 mil met­ros quadra­dos, à empre­sa, para com­pen­sar o uso do ter­reno do está­dio, que já esta­va em con­strução, e pre­cisa­va de mais espaço. Mas o tex­to diz que, em 8 de agos­to de 1921, a City havia doa­do os 50 mil m² do Pacaem­bu ao Esta­do, não à Prefeitu­ra, “para a con­strução de um está­dio para fins desportivos”. Só que a obra, que ter­mi­nou qua­tro anos depois, foi fei­ta pela Prefeitu­ra.

O proces­so de con­cessão seguiu, ago­ra em 2018, sem que as for­mal­i­dades jurídi­cas sobre a pro­priedade do ter­reno fos­sem sanadas. Nova reunião para tratar do tema voltou a ocor­rer ain­da anteon­tem, já com rep­re­sen­tantes das Sec­re­tarias de Gov­er­no da gestão Már­cio França (PSB) e da Justiça do gov­er­no Bruno Covas (PSDB). Mas os pre­sentes ain­da não sabi­am que o TCM par­al­is­aria o cer­tame, o que ocor­reu no mes­mo dia.

Após a sus­pen­são, França — adver­sário do ex-prefeito Doria na eleição para o gov­er­no do Esta­do — tornou o tema públi­co. Em nota, afir­mou que o “Esta­do é pro­pri­etário de dois terços da área total do Com­plexo do Pacaem­bu e não foi con­sul­ta­do durante o proces­so da con­cessão”. “Tam­pouco con­s­ta neste proces­so qual­quer doc­u­men­tação ref­er­ente à posse da área.” O Esta­do chegou a pro­duzir lau­do com um mapa sobre a pro­priedade do ter­reno, con­forme adiantou o site BR18, do Esta­do. Mas as ima­gens do mapa havi­am sido pro­duzi­das pela Prefeitu­ra, na época em que a con­cessão já era dis­cu­ti­da com a ini­cia­ti­va pri­va­da.

A Prefeitu­ra reba­teu a nota de França, com infor­mações que obteve nas duas reuniões téc­ni­cas sobre o assun­to. “Rep­re­sen­tantes do Esta­do admi­ti­ram nem sequer ter a matrícu­la da área, que lhe teria sido cedi­da há mais de 80 anos”, disse a Prefeitu­ra, tam­bém em nota.Ao jor­nal “O Esta­do de S. Paulo”, o Municí­pio con­fir­mou tam­bém não ter as escrit­uras, mas disse que “tem a posse de parte do ter­reno des­de 1936”. “Como é de con­hec­i­men­to públi­co, o está­dio e o com­plexo esporti­vo do Pacaem­bu foram con­struí­dos pela Prefeitu­ra, geri­dos e man­ti­dos por ela des­de 1940, sem ter de prestar con­tas para o Esta­do”, segue a nota.

O tex­to citou ain­da o Museu do Fute­bol, que ocu­pa parte do espaço. O museu é do Esta­do, só que o uso da área públi­ca só se deu após a Prefeitu­ra pub­licar, por decre­to, um Ter­mo de Per­mis­são de Uso da área. Ques­tion­a­do pela reportagem ontem, o Palá­cio dos Ban­deirantes envi­ou o ter­mo de doação do ter­reno da Com­pan­hia City ao Esta­do, de 1921. Era área avali­a­da em “300 con­tos de réis”, cujos detal­h­es da doação são escritos em letra cur­si­va, com papel tim­bra­do do 7.º Tabelião de Notas, no “Largo da Sé”. Mas não há detal­h­es do proces­so de repasse da área à Prefeitu­ra, o que, segun­do avali­ações de procu­radores do Esta­do, não obe­de­cia às for­mal­i­dades legais de hoje.

A par­al­isação da con­cessão não está lig­a­da à polêmi­ca sobre a posse do ter­reno. O TCM ques­tiona a com­posição jurídi­ca das empre­sas par­tic­i­pantes. O edi­tal per­mite que inter­es­sa­dos pos­sam sub­con­tratar uma empre­sa com exper­tise na gestão de está­dios. O TCM disse que empre­sas com essa capaci­dade téc­ni­ca têm de estar entre as sócias do con­sór­cio, o que a Prefeitu­ra ques­tiona. Ape­sar da medi­da do tri­bunal, o Exec­u­ti­vo decid­iu rece­ber ontem os envelopes das inter­es­sadas e obteve qua­tro pro­postas. Os envelopes foram lacra­dos, e estão à espera do des­fe­cho do caso. Covas defend­eu ontem o edi­tal, mas negou que vá entrar na Justiça con­tra a decisão do tri­bunal. Ele tem 15 dias para respon­der aos ques­tion­a­men­tos do órgão.

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