Era dos robôs está chegando e milhões de empregos desaparecerão

Mer­ca­do de tra­bal­ho nun­ca mais será o mes­mo com a indús­tria 4.0

Pro­fes­sor de econo­mia chama a atenção para os avanços tec­nológi­cos que alter­am de modo rad­i­cal as per­spec­ti­vas do mer­ca­do de tra­bal­ho. Empre­gos serão extin­tos em diver­sos setores, em um proces­so que afe­ta todas as class­es.

Em breve um robô vai lhe entre­gar a piz­za de domin­go. Talvez seu con­domínio não exi­ja que você desça até a por­taria para apan­há-la, pois não vão sus­peitar que pos­sa ser um assalto. Na Ale­man­ha, esse serviço já está fun­cio­nan­do —e a piz­zaria é uma rede que atua no Brasil.

Mas isso é pouco: logo essa piz­za será resul­ta­do de um proces­so total­mente autom­a­ti­za­do. Se você acha que esse cenário per­tence à ficção, ou que vai demor­ar muitos anos até ele se tornar real­i­dade, pesquise sobre a amer­i­cana Zume Piz­za. Situ­a­da no Vale do Silí­cio, a casa entre­ga comi­da fei­ta por robôs. E o pior é que os con­sum­i­dores da Cal­ifór­nia têm ado­ra­do a novi­dade.

Pior por quê? Porque é enorme a quan­ti­dade de empre­gos que será elim­i­na­da. Alguns poderão afir­mar que ess­es pos­tos de tra­bal­ho deman­dam baixa qual­i­fi­cação e que o impor­tante é aumen­tar a pro­du­tivi­dade ——no caso, a das piz­zarias.

O argu­men­to perde metade de sua força quan­do se sabe que, na mes­ma Cal­ifór­nia da piz­za robo­t­i­za­da, quem se envolve em prob­le­mas de trân­si­to não depende mais de advo­ga­dos para apre­sen­tar recur­sos. Um dos maiores fab­ri­cantes de com­puta­dores criou um robô, basea­do em inteligên­cia arti­fi­cial, capaz de elab­o­rar petições para quem quis­er recor­rer de uma mul­ta, por exem­p­lo. O inter­es­sa­do não pre­cisa dar um úni­co tele­fone­ma, nem para o despachante, nem para o defen­sor.

Exem­p­los como ess­es se repro­duzem em todos os setores da econo­mia mundi­al. Eles ilus­tram um proces­so novo e muito impor­tante: as empre­sas se autom­a­ti­zam cada vez mais, com soft­wares poderosos e inteligên­cia arti­fi­cial, de tal modo que se expan­dem empre­gan­do número muito menor de tra­bal­hadores.

É o que os amer­i­canos chamam de “job­less growth”, cresci­men­to sem empre­gos. Há muitos anos se pre­via que isso pode­ria acon­te­cer —e ago­ra a pre­visão virou real­i­dade. Diante desse cenário, como a humanidade vai rea­gir?

Rebe­liões con­tra a mecan­iza­ção ou a automação dos proces­sos pro­du­tivos não são inédi­tas. Quan­do o ara­do pas­sou a ser uti­liza­do na agri­cul­tura e muitos tra­bal­hadores perder­am seus empre­gos, foi grande a oposição ao novo instru­men­to. Na Inglater­ra do sécu­lo 19, os lud­is­tas destruíam os tear­es em sua revol­ta con­tra a sub­sti­tu­ição da mão de obra humana pelas máquinas. Nos Esta­dos Unidos do sécu­lo 20, Hen­ry Ford foi con­sid­er­a­do um grande inimi­go dos manobris­tas de char­retes.

A tec­nolo­gia, con­tu­do, sem­pre venceu. Por um lado, pois aumen­ta­va a pro­du­tivi­dade da econo­mia como um todo; por out­ro, e não se pode igno­rar este fator, porque só afe­ta­va empre­gos de baixa qual­i­fi­cação.

Aí está a difer­ença des­ta vez: ago­ra os empre­gos de alta qual­i­fi­cação tam­bém são afe­ta­dos —e muito. O mes­mo robô que faz as vezes de advo­ga­do con­segue ler mil tomo­grafias por hora; os médi­cos que avaliaram seus diag­nós­ti­cos e resul­ta­dos con­cluíram que estavam cer­tos em 99% das ocasiões. Ou seja, uma das profis­sões mais val­orizadas e int­elec­tu­al­izadas hoje em dia está sob ameaça. Em suma, a classe média está sain­do do paraí­so.

Wolf­gang Streeck entra fun­do nesse tema em seu livro “How Will Cap­i­tal­ism End?” (como o cap­i­tal­is­mo vai ter­mi­nar?), edi­ta­do pela Ver­so e lança­do em 2016. Para o autor, a inteligên­cia arti­fi­cial e a robo­t­i­za­ção vão faz­er com a classe média o que a mecan­iza­ção fez com a classe tra­bal­hado­ra nos sécu­los 19 e 20. Ele afir­ma que os úni­cos ben­e­fi­ci­a­dos serão os donos dos robôs.

Assim como foi chama­do de mecan­iza­ção o proces­so de sub­sti­tu­ição da mão de obra menos qual­i­fi­ca­da por máquinas, que se desen­rolou no final do sécu­lo 19 e durante prati­ca­mente todo o sécu­lo 20, Streeck cun­hou o ter­mo “eletron­iza­ção” para denom­i­nar essa nova fase, na qual com­puta­dores e robôs pas­sam a ser dota­dos de com­petên­cia para cri­ar e desen­volver tare­fas cog­ni­ti­vas sim­pli­fi­cadas, além de tomar algu­mas decisões. No sécu­lo 21, a eletron­iza­ção deve afe­tar a maior parte das ativi­dades profis­sion­ais.
A maior parte, mas não todas. Ao que tudo indi­ca, algu­mas profis­sões nos extremos estão a sal­vo.

Estu­dos mostram que pes­soas em funções no topo da pirâmide, que em ger­al deman­dam cria­tivi­dade e capaci­dade de solu­cionar prob­le­mas, não têm o que temer. As máquinas ain­da não con­seguem desem­pen­har tais tare­fas com a mes­ma eficá­cia. Estão nes­sa cat­e­go­ria cer­tos ramos da engen­haria e das ciên­cias, por exem­p­lo.

Algo semel­hante se pas­sa na out­ra pon­ta. Tra­bal­hadores man­u­ais sem qual­i­fi­cação nen­hu­ma, como fax­ineiros ou pedreiros, tam­pouco serão afe­ta­dos —não porque a tec­nolo­gia não os ten­ha alcança­do, mas por não valer a pena eco­nomi­ca­mente.

Entre os extremos, as funções mais sujeitas a serem elim­i­nadas são as que exigem repetição. Impor­ta pouco que seja uma ativi­dade fab­ril ou de serviços, que envol­va operários ou profis­sion­ais lib­erais. A questão é: quan­to mais rotineira for uma profis­são, maior a chance de ela desa­pare­cer —mes­mo que demande algum bril­ho cog­ni­ti­vo.

Um dos livros mais impor­tantes sobre o tema é “Rise of The Robots: Tech­nol­o­gy and Threat of a Job­less Future” (ascen­são dos robôs: tec­nolo­gia e a ameaça de um futuro sem emprego), de 2015. Seu autor, Mar­tin Ford, tam­bém sus­ten­ta que há uma grande difer­ença entre o que acon­te­ceu no pas­sa­do e o que vai acon­te­cer ago­ra.

Antiga­mente, diz Ford, quan­do um setor se mod­ern­iza­va e com isso elimi­na­va empre­gos, resta­va ao tra­bal­hador se mudar para out­ra ativi­dade econômi­ca. Hoje, con­tu­do, esse cam­in­ho não é uma opção sem­pre vál­i­da, pois inúmeros setores estão se mod­ern­izan­do ao mes­mo tem­po. Ou seja, tra­ta-se ago­ra de fugir das ativi­dades rotineiras e repet­i­ti­vas e procu­rar abri­go naque­las que exi­jam habil­i­dades (ain­da) não dom­i­nadas pelos robôs.

Questões trib­utárias e reg­u­latórias podem retar­dar a uti­liza­ção dess­es equipa­men­tos no Brasil, mas nem por isso os brasileiros dev­e­ri­am estar menos pre­ocu­pa­dos. Na medi­da em que o avanço tec­nológi­co e os gan­hos de escala tornarem a pro­dução de robôs mais bara­ta, multi­na­cionais ten­derão a repen­sar suas estraté­gias. Se hoje com­pan­hias dos país­es mais desen­volvi­dos insta­lam-se em nações menos avançadas a fim de aproveitar a mão de obra bara­ta, talvez em breve elas con­sid­erem mais van­ta­joso man­ter uma fábri­ca quase 100% autom­a­ti­za­da em ter­ritório amer­i­cano ou europeu.

Mui­ta gente acha que as empre­sas norte-amer­i­canas que oper­avam na Ásia e no Méx­i­co estão voltan­do aos Esta­dos Unidos por causa dos pedi­dos de Don­ald Trump. Ledo engano. A nova tendên­cia cor­po­ra­ti­va, que já vem sendo ado­ta­da por muitas multi­na­cionais, ben­e­fi­cia-se dos avanços tec­nológi­cos, aqui incluí­do tam­bém out­ro equipa­men­to rev­olu­cionário —as chamadas impres­so­ras 3D, ou impres­so­ras adi­ti­vas. Com elas, tornou-se pos­sív­el fab­ricar peças e com­po­nentes nos próprios locais onde eles são necessários.

Ou seja, um dos princí­pios bási­cos da glob­al­iza­ção —o uso de cadeias de val­ores espal­hadas pelo mun­do— pode estar em xeque. Mon­ta­dores de automóveis, por exem­p­lo, recor­rem à dis­per­são geográ­fi­ca da pro­dução, fab­ri­can­do cada parte ou peça dos veícu­los na região ou país que ofer­eça as maiores van­ta­gens com­pet­i­ti­vas. Isso deixará de exi­s­tir. Graças às impres­so­ras 3D, ess­es com­po­nentes poderão ser feitos onde se situa a matriz da empre­sa.

Não sur­preende, assim, que toda essa parafer­nália tec­nológ­i­ca ven­ha sendo chama­da por muitos de indús­tria 4.0, ou que a ren­o­vação que ela pos­si­bili­ta seja clas­si­fi­ca­da como a quar­ta Rev­olução Indus­tri­al. Robôs, inteligên­cia arti­fi­cial e impres­so­ras 3D são ape­nas uma parte desse fenô­meno, que inclui ain­da a inter­net das coisas (IoT), a com­putação na nuvem, a nan­otec­nolo­gia etc.

Todos ess­es avanços des­ti­nam-se a aumen­tar a pro­du­tivi­dade das fábri­c­as; nen­hum leva em con­ta a pos­si­bil­i­dade de preser­var empre­gos.

Econ­o­mis­tas têm procu­ra­do cal­cu­lar o taman­ho do impacto da rev­olução em cur­so. Lar­ry Sum­mers, ex-secretário do Tesouro dos Esta­dos Unidos e ex-pres­i­dente da Uni­ver­si­dade Har­vard, chama a atenção para uma grande difer­ença entre a autom­a­ti­za­ção de ago­ra e aque­la pro­movi­da nos anos 1960 e 1970 (ele fez uma sín­tese inter­es­sante num painel de 2015, “The future of work”, o futuro do tra­bal­ho).

Naque­las décadas, a inten­sa mod­ern­iza­ção da maio­r­ia dos setores afe­tou 5% dos empre­gos. Des­ta vez, segun­do cál­cu­los de Sum­mers, as novas tec­nolo­gias sac­ri­fi­carão algo entre 15% e 20% dos pos­tos de tra­bal­ho.

São esti­mavas mod­estas se com­para­das com as dos econ­o­mis­tas Michael Osborne e Carl Frey, ambos da Uni­ver­si­dade Oxford, no Reino Unido. Em um céle­bre estu­do de 2013, eles afir­maram que, até 2030, cer­ca de 45% dos empre­gos amer­i­canos poderão ser elim­i­na­dos (“The future of employ­ment: How sus­cep­ti­ble are jobs to com­put­er­i­sa­tion?”, o futuro do emprego: quão suscetíveis à informa­ti­za­ção são os empre­gos?).

Uma das var­iáveis dessa equação é o espan­toso baratea­men­to dos preços de robôs, soft­wares de inteligên­cia arti­fi­cial e out­ros equipa­men­tos de alta tec­nolo­gia. Há dez anos, muitos dess­es dis­pos­i­tivos eram impen­sáveis para com­pan­hias médias ou mes­mo grandes; hoje, até peque­nas empre­sas con­seguem com­prá-los.

Out­ra var­iáv­el é a frus­tração das expec­ta­ti­vas quan­to à sub­sti­tu­ição dos empre­gos. Imag­i­na­va-se que a sociedade pós-indus­tri­al ger­aria ocu­pações em novos setores, sobre­tu­do lig­a­dos à área de serviços, para absorv­er os tra­bal­hadores deslo­ca­dos da indús­tria. Essa per­spec­ti­va foi descar­ta­da; os equipa­men­tos de pon­ta são mais uti­liza­dos jus­ta­mente no setor de serviços, onde mais se estão elim­i­nan­do funções.

Ao mes­mo tem­po, as ocu­pações cri­adas como decor­rên­cia dessas tec­nolo­gias são em quan­ti­dade dimin­u­ta. Estu­do de 2017 feito no Canadá mostra que, na hipótese mais otimista, os novos empre­gos não chegam a 4% do total de pos­tos de tra­bal­ho exis­tentes naque­le país (“Future Shock? — The Impact of Automa­tion on Canada’s Labour Mar­ket”, choque futuro — o impacto da automação no mer­ca­do de tra­bal­ho do Canadá, de Matthias Oschin­s­ki e Ros­alie Wyonch).

Sem con­tar que é prati­ca­mente impos­sív­el pre­v­er hoje quais empre­gos vão sur­gir nos próx­i­mos 40 anos. Para exem­pli­ficar, Joel Mokyr, um reno­ma­do pro­fes­sor de história da econo­mia na Uni­ver­si­dade North­west­ern (EUA), afir­mou em entre­vista à revista The Econ­o­mist que há 40 anos ninguém teria adi­v­in­hado que profis­sões como pro­jetista de videogame ou espe­cial­ista em cyberse­gu­rança seri­am impor­tantes.

Mas uma coisa é cer­ta: é muito peque­na a prob­a­bil­i­dade de que sur­jam novas ativi­dades e profis­sões nas quais a pre­sença de seres humanos seja impre­scindív­el. Robôs e equipa­men­tos de automação mostram-se cada vez mais sofisti­ca­dos, aptos a desem­pen­har mais e mais funções. Ou seja, não se deve apos­tar que a cri­ação de pos­tos de tra­bal­ho não pre­vis­tos poderá resolver o prob­le­ma do desem­prego.

De acor­do com a Orga­ni­za­ção Inter­na­cional do Tra­bal­ho (OIT), exis­tem 194 mil­hões de pes­soas desem­pre­gadas no mun­do, quase um Brasil inteiro. O que poderá acon­te­cer com as taxas de desem­prego nos próx­i­mos anos? Como a tendên­cia impli­ca­da pela automação é cer­ta e irre­ver­sív­el, a ger­ação de empre­gos vai cair. Não se sabe para qual pata­mar, mas será uma situ­ação dramáti­ca —e a sociedade pre­cisa agir.

A situ­ação embute um para­doxo. Por um lado, a solução dev­e­ria envolver as grandes empre­sas, prin­ci­pal­mente as que mais estão se ben­e­fi­cian­do das novas tec­nolo­gias. Assim como questões de éti­ca con­cor­ren­cial e pro­teção do meio ambi­ente, a preser­vação de pos­tos de tra­bal­ho pre­cisa entrar na pau­ta da respon­s­abil­i­dade social cor­po­ra­ti­va. Além dis­so, se, por hipótese, todas as com­pan­hias dis­pen­sarem seus empre­ga­dos ou a maior parte deles, não haverá mer­ca­do con­sum­i­dor.

Por out­ro, essas com­pan­hias não podem abrir mão da automação; gan­har pro­du­tivi­dade é cru­cial para quem quer se man­ter vivo num mer­ca­do com­pet­i­ti­vo. Como con­se­quên­cia, investem em robôs, inteligên­cia arti­fi­cial, drones etc., con­tribuin­do para o desem­prego.

Uma das maiores difi­cul­dades está na própria teo­ria econômi­ca, que ain­da não avançou o sufi­ciente para perce­ber que nem sem­pre o mer­ca­do resolve tudo: se deixar­mos para o mer­ca­do, vamos assi­s­tir ao cresci­men­to cada vez maior das empre­sas gigantes, o que sig­nifi­cará menos emprego e menos con­sum­i­dores.

Por que as empre­sas gigantes? Porque só vence uma com­petição acir­radís­si­ma quem tem capaci­dade de faz­er inves­ti­men­tos em robôs cada vez mais poderosos. Com isso, as já muito grandes se tor­nam ain­da mais pro­du­ti­vas e acabam adquirindo ou elim­i­nan­do con­cor­rentes menores, num proces­so de oli­gop­o­liza­ção em cur­so nos mais diver­sos setores, mas sobre­tu­do onde há maior deman­da por tec­nolo­gia de pon­ta.

O prob­le­ma vem sendo pen­sa­do e dis­cu­ti­do à exaustão em alguns país­es, com destaque para Ale­man­ha, França e Itália. A recomen­dação mais impor­tante é a de que haja redução na jor­na­da de tra­bal­ho. Na França e na Itália, a jor­na­da sem­anal já é de 34 horas, con­tra 40 no Brasil.

Emb­o­ra a medi­da ten­ha sido bem-suce­di­da no iní­cio, ain­da nas décadas de 1980 e 1990, após alguns anos se percebe que ela só será efe­ti­va se for ado­ta­da por todos país­es. É que, com as facil­i­dades da glob­al­iza­ção —e com as novas pos­si­bil­i­dades ofer­e­ci­das pelas tec­nolo­gias de pon­ta—, as empre­sas que querem aumen­tar sua pro­du­tivi­dade sim­ples­mente evi­tam lugares onde a jor­na­da de tra­bal­ha­do ten­ha sido reduzi­da.

De qual­quer for­ma, a própria OIT pri­or­iza essa ini­cia­ti­va, e a frase “tra­bal­har menos para que todos tra­bal­hem” virou um lema muito uti­liza­do na Europa.

Out­ra medi­da bas­tante polêmi­ca vem sendo alardea­da por sindi­catos britâni­cos: eles defen­d­em uma atu­ação con­jun­ta de gov­er­nos, empresários e orga­ni­za­ções de tra­bal­hadores para esta­b­ele­cer um impos­to sobre gan­hos de pro­du­tivi­dade decor­rentes do uso de robôs ou out­ras tec­nolo­gias de automação.

A alíquo­ta do trib­u­to seria difer­en­ci­a­da por seg­men­tos da econo­mia. Assim, sobre o setor bancário, incidiria uma taxa maior do que sobre a con­strução civ­il, pois neste últi­mo os impactos da automação são menores. Ess­es impos­tos, além dis­so, teri­am des­ti­nação especí­fi­ca, qual seja, a cri­ação de empre­gos públi­cos nas áreas de edu­cação e saúde.

Como sem­pre, os país­es mais avança­dos nes­sa dis­cussão são os escan­di­navos. Por lá, pre­dom­i­na a ideia de intro­duzir um pro­gra­ma de ren­da mín­i­ma nacional. Todo cidadão rece­be­ria um val­or men­sal que lhe garan­tiria a sub­sistên­cia, inde­pen­den­te­mente de ele estar ou não tra­bal­han­do. O pres­su­pos­to por traz desse tipo de ação é que o desem­prego vai crescer de for­ma assus­ta­do­ra nos próx­i­mos anos e toda a sociedade pre­cisa estar pro­te­gi­da.

Nesse debate, há ain­da a con­sid­er­ar as questões filosó­fi­cas sus­ci­tadas pelas novas tec­nolo­gias. Com­puta­dores e robôs sabem ler tex­tos e faz­er cál­cu­los há bas­tante tem­po, mas só recen­te­mente pas­saram a enx­er­gar, ouvir e falar. Dev­i­do ao avanço da inteligên­cia arti­fi­cial, tam­bém pas­saram a ter… inteligên­cia. A humanidade dev­e­ria se pre­ocu­par com esse fato, na lin­ha do que sug­erem filmes como “O Exter­mi­nador do Futuro” e “Matrix”?

Exis­tem diver­sos gru­pos de cien­tis­tas, futuról­o­gos e filó­so­fos que espec­u­lam cenários apoc­alíp­ti­cos. Ver­nor Vinge é um deles. Respeita­do pro­fes­sor de matemáti­ca e com­putação da Uni­ver­si­dade de San Diego na Cal­ifór­nia, escreveu livros de ficção sobre a era em que os com­puta­dores e robôs serão equiv­a­lentes aos seres humanos —como “The Chil­dren of The Sky” (as cri­anças do céu) e “Rain­bows End” (o fim do arco-íris). Para ele, isso deve começar a acon­te­cer em menos de 15 anos e será a maior mudança no plan­e­ta após o surg­i­men­to da vida humana.

O recém-fale­ci­do cien­tista Stephen Hawk­ing era um dos estu­diosos da inteligên­cia arti­fi­cial que mais se pre­ocu­pavam com as con­se­quên­cias neg­a­ti­vas dessa tec­nolo­gia. Ele chegou a antev­er o fim da raça humana como decor­rên­cia do poder incon­troláv­el que as máquinas pas­sarão a deter.

A mes­ma posição vem sendo man­i­fes­ta­da pelo visionário Elon Musk, fun­dador da Tes­la (uma das maiores fab­ri­cantes de car­ros elétri­cos do mun­do) e da SpaceX, empre­sa que pre­tende pôr um homem em Marte nos próx­i­mos dez anos. Musk defende a cri­ação de uma espé­cie de órgão reg­u­lador com a função de pre­venir situ­ações futuras em que equipa­men­tos dota­dos de inteligên­cia arti­fi­cial pode­ri­am ameaçar a sobre­vivên­cia de humanos.

Quan­to a isso, assim como em relação à ameaça do cresci­men­to sem empre­gos, a situ­ação tam­bém ter­mi­na em para­doxo. Uma empre­sa ou um país que resolver frear o desen­volvi­men­to tec­nológi­co para evi­tar uma catástrofe —tan­to quan­to para evi­tar a extinção de pos­tos de tra­bal­ho— acabará per­den­do com­pet­i­tivi­dade nacional e inter­na­cional.

Como con­se­quên­cia, essa empre­sa ou esse país se verá às voltas com o desem­prego (fru­to da diminuição da fatia de mer­ca­do decor­rente da menor com­pet­i­tivi­dade) e não terá inter­rompi­do a escal­a­da tec­nológ­i­ca de out­ras empre­sas ou out­ros país­es.

Ape­sar de todos estes aspec­tos assus­ta­dores, o que há de pior para um país é não dis­cu­tir o assun­to. E é jus­ta­mente isso o que acon­tece no Brasil, mes­mo neste ano eleitoral.

Paulo Feld­mann é pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Econo­mia e Admin­is­tração da USP, pro­fes­sor vis­i­tante da
Pécs Uni­ver­si­ty (Hun­gria) e autor do livro “Robô: Ruim com ele, pior sem ele”.

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