A força econômica do chamado ‘Bloco Oriental’

A força econômica do chamado Bloco Oriental

A força econômi­ca do chama­do Blo­co Ori­en­tal — espe­cial­mente país­es do Leste Asiáti­co como Japão, Cor­eia do Sul, Chi­na, Tai­wan, Sin­ga­pu­ra e, em menor grau, Viet­nã — em com­para­ção com a Améri­ca Lati­na é resul­ta­do de um proces­so históri­co lon­go, cumu­la­ti­vo e estru­tur­al, que envolve decisões estratég­i­cas sobre edu­cação, Esta­do, indús­tria, cul­tura econômi­ca, inte­gração glob­al e visão de futuro. Não se tra­ta de supe­ri­or­i­dade cul­tur­al ina­ta nem de aca­so geográ­fi­co, mas de mod­e­los de desen­volvi­men­to pro­fun­da­mente difer­entes, ado­ta­dos ao lon­go de décadas, muitas vezes sob condições ini­ci­ais tão ou mais adver­sas do que as enfrentadas pelos país­es lati­no-amer­i­canos. Após a Segun­da Guer­ra Mundi­al, grande parte do Leste Asiáti­co encon­tra­va-se dev­as­ta­da, com níveis extremos de pobreza, infraestru­tu­ra destruí­da e escassez de recur­sos nat­u­rais, enquan­to a Améri­ca Lati­na pos­suía vas­tas reser­vas agrí­co­las, min­erais e energéti­cas, além de econo­mias rel­a­ti­va­mente integradas ao comér­cio inter­na­cional. Ain­da assim, o Ori­ente optou por um cam­in­ho de indus­tri­al­iza­ção ori­en­ta­da à expor­tação, forte coor­de­nação estatal, inves­ti­men­to mas­si­vo em edu­cação téc­ni­ca e cien­tí­fi­ca, pro­teção estratég­i­ca de indús­trias nascentes e, sobre­tu­do, uma obsessão nacional por pro­du­tivi­dade, efi­ciên­cia e com­pet­i­tivi­dade glob­al. Gov­er­nos asiáti­cos enten­der­am cedo que depen­der da expor­tação de com­modi­ties con­denar­ia seus país­es à vul­ner­a­bil­i­dade exter­na e à estag­nação tec­nológ­i­ca, e por isso dire­cionaram políti­cas públi­cas para a cri­ação de cadeias indus­tri­ais com­ple­tas, des­de a for­mação de engen­heiros até a pro­dução de bens de alto val­or agre­ga­do, como eletrôni­cos, máquinas, semi­con­du­tores, automóveis e, mais recen­te­mente, tecnolo­gia dig­i­tal e inteligên­cia arti­fi­cial (IA).

Na Améri­ca Lati­na, por out­ro lado, o proces­so históri­co foi mar­ca­do por uma dependên­cia estru­tur­al de recur­sos nat­u­rais, cic­los de cresci­men­to basea­d­os em com­modi­ties e uma relação ambígua com o Esta­do e o mer­ca­do. Emb­o­ra ten­ha havi­do ten­ta­ti­vas de indus­tri­al­iza­ção por sub­sti­tu­ição de impor­tações ao lon­go do sécu­lo XX, essas políti­cas fre­quente­mente foram inter­romp­i­das por crises políti­cas, golpes, insta­bil­i­dade insti­tu­cional, hiper­in­flação e mudanças brus­cas de ori­en­tação econômi­ca. Enquan­to país­es asiáti­cos man­tiver­am pro­je­tos nacionais de lon­go pra­zo, atrav­es­san­do gov­er­nos e ger­ações, a Améri­ca Lati­na sofreu com a descon­tinuidade crôni­ca de políti­cas públi­cas, o enfraque­c­i­men­to insti­tu­cional e a cap­tura do Esta­do por inter­ess­es de cur­to pra­zo. Além dis­so, a elite econômi­ca lati­no-amer­i­cana, em muitos casos, preferiu ativi­dades ren­tis­tas, finan­ceiras ou lig­adas à expor­tação primária, em vez de rein­ve­stir sis­tem­ati­ca­mente em ino­vação, tec­nolo­gia e indús­tria pesa­da. Isso criou econo­mias menos com­plexas, com menor den­si­dade tec­nológ­i­ca, menor pro­du­tivi­dade do tra­bal­ho e maior desigual­dade social, fatores que se retroal­i­men­tam neg­a­ti­va­mente ao lon­go do tem­po.

Out­ro ele­men­to deci­si­vo está na cul­tura edu­ca­cional e no cap­i­tal humano. O blo­co ori­en­tal tra­tou a edu­cação como uma pri­or­i­dade estratég­i­ca abso­lu­ta, com foco inten­so em matemáti­ca, ciên­cias, engen­haria e dis­ci­plina acadêmi­ca. País­es como Cor­eia do Sul e Japão trans­for­maram sis­temas edu­ca­cionais precários em alguns dos mais rig­orosos e efi­cientes do mun­do em pou­cas décadas, for­man­do ger­ações de téc­ni­cos, engen­heiros e pesquisadores alta­mente qual­i­fi­ca­dos. A edu­cação foi integra­da a pro­je­tos indus­tri­ais con­cre­tos, conectan­do uni­ver­si­dades, cen­tros de pesquisa e empre­sas de for­ma orgâni­ca. Na Améri­ca Lati­na, emb­o­ra exis­tam ilhas de excelên­cia acadêmi­ca, o sis­tema edu­ca­cional como um todo sofre com desigual­dade de aces­so, baixa qual­i­dade média, desconexão com o setor pro­du­ti­vo e inves­ti­men­tos incon­sis­tentes. Isso limi­ta a capaci­dade de ger­ar ino­vação endó­ge­na e força muitos país­es a impor­tar tec­nolo­gia em vez de desen­volvê-la, per­pet­uan­do a dependên­cia exter­na.

A relação entre Esta­do e mer­ca­do tam­bém seguiu tra­jetórias dis­tin­tas. No Ori­ente, o Esta­do atu­ou como plane­jador estratégi­co, não como mero reg­u­lador pas­si­vo nem como con­tro­lador abso­lu­to, mas como coor­de­nador do desen­volvi­men­to, sele­cio­nan­do setores pri­or­itários, ofer­e­cen­do crédi­to dire­ciona­do, exigin­do metas de expor­tação e desem­pen­ho e reti­ran­do apoio de empre­sas ine­fi­cientes. Esse mod­e­lo, muitas vezes chama­do de “Esta­do desen­volvi­men­tista”, criou campeões nacionais capazes de com­pe­tir glob­al­mente, como Sam­sung, Toy­ota, Sony, Huawei e TSMC. Na Améri­ca Lati­na, o Esta­do fre­quente­mente oscilou entre inter­ven­cionis­mo des­or­ga­ni­za­do e lib­er­al­iza­ção abrup­ta, sem con­stru­ir insti­tu­ições sól­i­das capazes de sus­ten­tar políti­cas indus­tri­ais de lon­go pra­zo. Essa insta­bil­i­dade reduz­iu a con­fi­ança dos investi­dores, enfraque­ceu a indús­tria local e aumen­tou a vul­ner­a­bil­i­dade a choques exter­nos.

Há ain­da o fator da inte­gração ao comér­cio glob­al com estraté­gia, e não de for­ma pas­si­va. O blo­co ori­en­tal uti­li­zou o mer­ca­do inter­na­cional como um cam­po de apren­diza­do e com­petição, ini­cial­mente acei­tan­do mar­gens baixas para gan­har escala, efi­ciên­cia e domínio tec­nológi­co, e só depois avançan­do para pro­du­tos de maior val­or agre­ga­do. A Améri­ca Lati­na, em muitos casos, inte­grou-se ao comér­cio glob­al como fornece­do­ra de matérias-pri­mas e con­sum­i­do­ra de pro­du­tos indus­tri­al­iza­dos, reforçan­do uma divisão inter­na­cional do tra­bal­ho des­fa­voráv­el. Isso lim­i­tou o acú­mu­lo de con­hec­i­men­to tec­nológi­co, reduz­iu a com­plex­i­dade econômi­ca e tornou as econo­mias mais sen­síveis a flu­tu­ações de preços inter­na­cionais.

Por fim, existe uma difer­ença pro­fun­da na visão de lon­go pra­zo e na dis­ci­plina insti­tu­cional. País­es do blo­co ori­en­tal, mes­mo sob regimes autoritários em cer­tos perío­dos, man­tiver­am foco em obje­tivos nacionais claros: cresci­men­to indus­tri­al, sobera­nia tec­nológ­i­ca, aumen­to da pro­du­tivi­dade e inserção com­pet­i­ti­va no mun­do. Na Améri­ca Lati­na, con­fli­tos políti­cos con­stantes, polar­iza­ção, baixa con­fi­ança insti­tu­cional e cic­los de pop­ulis­mo econômi­co difi­cul­taram a con­strução de con­sen­sos duradouros. O resul­ta­do é que o blo­co ori­en­tal acu­mu­lou, ao lon­go de décadas, cap­i­tal pro­du­ti­vo, tec­nológi­co e humano, enquan­to a Améri­ca Lati­na acu­mu­lou volatil­i­dade, desigual­dade e dependên­cia exter­na. Assim, a maior força econômi­ca do blo­co ori­en­tal não é fru­to de um úni­co fator iso­la­do, mas da com­bi­nação coer­ente de estraté­gia, con­tinuidade, inves­ti­men­to em pes­soas e capaci­dade estatal, ele­men­tos que, quan­do ausentes ou frag­men­ta­dos, aju­dam a explicar as lim­i­tações históri­c­as do desen­volvi­men­to lati­no-amer­i­cano.

O momento geopolítico

A força econômi­ca do blo­co ori­en­tal em com­para­ção com a Améri­ca Lati­na não pode ser com­preen­di­da ape­nas a par­tir de var­iáveis inter­nas de cada região, pois nas últi­mas décadas essa difer­ença pas­sou a ser ampli­a­da por trans­for­mações pro­fun­das na ordem geopolíti­ca glob­al, espe­cial­mente pela frag­men­tação do sis­tema inter­na­cional em blo­cos de influên­cia econômi­ca, tec­nológ­i­ca e estratég­i­ca. O Leste Asiáti­co, lid­er­a­do por Chi­na, Japão e Cor­eia do Sul, soube se adap­tar rap­i­da­mente a esse novo cenário, con­sol­i­dan­do cadeias pro­du­ti­vas region­ais alta­mente integradas, autono­mia tec­nológ­i­ca cres­cente e uma estraté­gia clara de posi­ciona­men­to em um mun­do cada vez menos glob­al­iza­do e mais com­pet­i­ti­vo. Já a Améri­ca Lati­na entrou nesse novo ciclo glob­al pro­fun­da­mente divi­di­da, com baixa coor­de­nação region­al, econo­mias pouco com­ple­mentares entre si e forte dependên­cia de decisões exter­nas. Essa assime­tria estru­tur­al tornou-se ain­da mais evi­dente a par­tir da déca­da de 2010, quan­do o dis­cur­so e a práti­ca políti­ca dos Esta­dos Unidos começaram a se afas­tar do mod­e­lo de glob­al­iza­ção lib­er­al que eles próprios havi­am lid­er­a­do des­de o pós-guer­ra.

A ascen­são de Don­ald Trump à presidên­cia dos Esta­dos Unidos rep­re­sen­tou um pon­to de inflexão sim­bóli­co e práti­co nesse proces­so. Seu gov­er­no explic­i­tou algo que já vin­ha se desen­han­do nos basti­dores: o aban­dono da ideia de uma glob­al­iza­ção irrestri­ta em favor de uma lóg­i­ca de com­petição entre blo­cos, basea­da em inter­ess­es nacionais, segu­rança econômi­ca e sobera­nia indus­tri­al. Sob o lema “Amer­i­ca First”, Trump pas­sou a enx­er­gar o mun­do não como um mer­ca­do inte­gra­do, mas como um tab­uleiro de forças onde grandes potên­cias dis­putam influên­cia, tec­nolo­gia, cadeias pro­du­ti­vas e recur­sos estratégi­cos. Nesse con­tex­to, o blo­co ori­en­tal — espe­cial­mente a Chi­na — pas­sou a ser trata­do como rival sistêmi­co, enquan­to a Améri­ca Lati­na foi rel­e­ga­da a um papel secundário, vista mais como zona de influên­cia históri­ca do que como par­ceira estratég­i­ca de desen­volvi­men­to. Essa pos­tu­ra teve con­se­quên­cias dire­tas: redução do inter­esse amer­i­cano em pro­je­tos estru­tu­rantes na região, menor incen­ti­vo à inte­gração lati­no-amer­i­cana e manutenção de relações baseadas pre­dom­i­nan­te­mente em com­modi­ties, segu­rança e con­t­role migratório.

Enquan­to isso, o Ori­ente apro­fun­dou sua estraté­gia de for­t­alec­i­men­to inter­no e region­al. A Chi­na aceler­ou ini­cia­ti­vas como a Nova Rota da Seda, amplian­do sua influên­cia econômi­ca e logís­ti­ca em dezenas de país­es, inclu­sive na Améri­ca Lati­na, enquan­to Japão e Cor­eia do Sul reforçaram inves­ti­men­tos em tec­nolo­gia de pon­ta, semi­con­du­tores, automação e ener­gia. Mes­mo com ten­sões geopolíti­cas cres­centes, o blo­co ori­en­tal man­teve uma visão prag­máti­ca e coor­de­na­da: diver­si­ficar mer­ca­dos, reduzir dependên­cias críti­cas e garan­tir lid­er­ança em setores estratégi­cos do sécu­lo XXI. A Améri­ca Lati­na, por sua vez, per­maneceu frag­men­ta­da ide­o­logi­ca­mente e eco­nomi­ca­mente, oscilan­do entre alin­hamen­tos automáti­cos aos Esta­dos Unidos, aprox­i­mações pon­tu­ais com a Chi­na e dis­putas inter­nas que invi­a­bi­lizam uma estraté­gia comum. Essa fal­ta de coesão region­al enfraque­ce o poder de bar­gan­ha lati­no-amer­i­cano e difi­cul­ta sua inserção em cadeias globais de maior val­or agre­ga­do.

A lóg­i­ca de divisão do mun­do em blo­cos, reforça­da durante o gov­er­no Trump e man­ti­da, ain­da que com out­ra retóri­ca, nos anos seguintes, expôs uma frag­ili­dade históri­ca da Améri­ca Lati­na: a ausên­cia de um pro­je­to region­al de desen­volvi­men­to inte­gra­do. Enquan­to o blo­co ori­en­tal uti­liza o region­al­is­mo como instru­men­to de for­t­alec­i­men­to glob­al, a Améri­ca Lati­na fre­quente­mente tra­ta a inte­gração como um dis­cur­so políti­co vazio, sem coor­de­nação pro­du­ti­va, tec­nológ­i­ca ou finan­ceira efe­ti­va. Isso faz com que a região seja pres­sion­a­da a escol­her lados em dis­putas globais sem ter mus­cu­latu­ra econômi­ca própria, tor­nan­do-se reati­va em vez de pro­tag­o­nista. Nesse cenário, a políti­ca exter­na amer­i­cana tende a enx­er­gar a Améri­ca Lati­na como um espaço a ser esta­bi­liza­do e con­ti­do, e não como um polo a ser desen­volvi­do, o que limi­ta trans­fer­ên­cias tec­nológ­i­cas, inves­ti­men­tos estru­tu­rantes e parce­rias de lon­go pra­zo.

Além dis­so, a pos­tu­ra “Trump­ista” de val­oriza­ção extrema da sobera­nia nacional e da indús­tria domés­ti­ca expôs uma con­tradição fun­da­men­tal: enquan­to os Esta­dos Unidos pas­saram a pro­te­ger agres­si­va­mente suas cadeias pro­du­ti­vas, des­en­co­ra­jan­do a dependên­cia exter­na, a Améri­ca Lati­na con­tin­u­ou pre­sa a um mod­e­lo aber­to e pouco estratégi­co, expor­tan­do matérias-pri­mas e impor­tan­do tec­nolo­gia. O blo­co ori­en­tal, ao con­trário, já havia apren­di­do essa lição décadas antes, uti­lizan­do o comér­cio inter­na­cional como fer­ra­men­ta de for­t­alec­i­men­to inter­no e não como fim em si mes­mo. Assim, quan­do o mun­do começou a se reor­ga­ni­zar em blo­cos, o Ori­ente esta­va prepara­do; a Améri­ca Lati­na, não. Essa difer­ença expli­ca por que crises globais recentes, como dis­putas com­er­ci­ais, pan­demias e con­fli­tos geopolíti­cos, ten­dem a apro­fun­dar o fos­so econômi­co entre as duas regiões.

Em últi­ma instân­cia, a maior força econômi­ca do blo­co ori­en­tal em relação à Améri­ca Lati­na resul­ta não ape­nas de políti­cas inter­nas bem-suce­di­das, mas de uma leitu­ra mais pre­cisa da dinâmi­ca do poder glob­al. O Ori­ente enten­deu que o mun­do cam­in­ha para uma ordem mul­ti­po­lar, frag­men­ta­da e com­pet­i­ti­va, onde desen­volvi­men­to exige plane­ja­men­to, coor­de­nação e autono­mia estratég­i­ca. A Améri­ca Lati­na, ao per­manecer divi­di­da, depen­dente e sem um pro­je­to comum, aca­ba sendo empurra­da para a per­ife­ria dessa nova ordem, espe­cial­mente em um con­tex­to em que os Esta­dos Unidos, sob a lóg­i­ca inau­gu­ra­da por Trump, ten­dem a pri­orizar seus próprios inter­ess­es e a aceitar a divisão do mun­do em blo­cos desiguais. Assim, a difer­ença de força econômi­ca entre Ori­ente e Améri­ca Lati­na não é ape­nas um retra­to do pas­sa­do, mas um aler­ta sobre o futuro: em um mun­do frag­men­ta­do, quem não con­strói estraté­gia cole­ti­va aca­ba se tor­nan­do obje­to da estraté­gia dos out­ros.

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