Brasileiros desenvolvem algoritmo que prever e evita suicídios

Brasileiros desenvolvem algoritmo que prever e evita suicídios

“Aler­ta ver­mel­ho: você corre o risco de come­ter suicí­dio.” Ao rece­ber este avi­so no smart­phone, o paciente pode bus­car aju­da e evi­tar o pior. Este é o obje­ti­vo de um estu­do real­iza­do pela equipe do Lab­o­ratório de Psiquia­tria Mol­e­c­u­lar do Hos­pi­tal de Clíni­cas de Por­to Ale­gre (HCPA) e divul­ga­do na revista cien­tí­fi­ca Plos One.

Os pesquisadores cri­aram um algo­rit­mo capaz de anal­is­ar tex­tos em bus­ca de sinais de que o autor daque­las ano­tações pos­sa vir a se matar. Como paciente fic­tí­cio, a equipe do HCPA uti­li­zou ninguém menos que Vir­ginia Woolf, escrito­ra britâni­ca que tirou a própria vida aos 41 anos.

Um dos respon­sáveis pelo estu­do, o médi­co psiquia­tra e pro­fes­sor Ives Cav­al­cante Pas­sos, expli­ca que a opção por Vir­ginia Woolf se deve ao históri­co da escrito­ra, semel­hante ao de várias pes­soas que acabam por se matar: sofria de transtorno bipo­lar e ao lon­go da vida tivera diver­sos episó­dios depres­sivos segui­dos de ten­ta­ti­vas de suicí­dio.

Vir­ginia Woolf tin­ha a van­tagem de ter uma vas­ta pro­dução de tex­tos pes­soais pub­li­ca­dos, já que escrevia quase diari­a­mente car­tas e ano­tações em seu diário.

O algo­rit­mo escol­hi­do foi o mes­mo uti­liza­do pelos e‑mails para iden­ti­ficar quais men­sagens devem ir para a caixa de spams e quais devem ficar na caixa de entra­da.

O primeiro pas­so foi “ensi­nar” o algo­rit­mo a iden­ti­ficar car­tas e ano­tações rela­cionadas ao des­fe­cho do suicí­dio. Para isso, foram uti­liza­dos tex­tos escritos por Vir­ginia Woolf den­tro dos dois meses ante­ri­ores à sua morte.

Este corte tem­po­ral foi deter­mi­na­do pelos médi­cos, que enten­dem que neste perío­do ela já havia entra­do em um está­gio críti­co para o risco do suicí­dio.

Depois que o sis­tema esta­va treina­do, ele foi apli­ca­do aleato­ri­a­mente em diver­sos tex­tos da romancista, escritos tan­to em perío­dos pré-ten­ta­ti­vas de suicí­dio como em out­ros perío­dos em que ela esta­va fora de risco.

O resul­ta­do é que o algo­rit­mo acer­tou em 80% dos casos. Ou seja, a cada 100 tex­tos anal­isa­dos, em 80 ele apon­tou cor­re­ta­mente o des­fe­cho: se Virgí­nia iria ou não ten­tar se matar nos próx­i­mos meses.

Segun­do Pas­sos, a ideia é que, no futuro, a mes­ma fer­ra­men­ta pos­sa ser trans­plan­ta­da para um aplica­ti­vo capaz de anal­is­ar tudo aqui­lo que escreve­mos no smart­phone, como men­sagens no What­sApp e em redes soci­ais, e que iria emi­tir um aler­ta caso haja risco de suicí­dio.

Mas o médi­co lem­bra que o algo­rit­mo é indi­vid­u­al­iza­do, já que o padrão de escri­ta de cada pes­soa é difer­ente. Ou seja, o algo­rit­mo con­struí­do para Vir­ginia Woolf fun­ciona ape­nas para Vir­ginia Woolf.

Além dis­so, a fer­ra­men­ta só pode ser apli­ca­da em pacientes que já ten­taram se matar, jus­ta­mente porque pre­cisa ser treina­da com base em even­tos prévios. Como expli­ca o pro­fes­sor, o prin­ci­pal fator de risco para suicí­dio é jus­ta­mente já ter ten­ta­do suicí­dio.

Mais do que isso, as pes­soas cos­tu­mam deixar sinais de que vão se matar: “Essa pes­soa que dá pis­tas, que fala que vai se matar, que escreve uma car­ta de suicí­dio, ou o aluno que no colé­gio bus­ca o coor­de­nador ou fala pro amigu­in­ho que pode ten­tar se matar, essa pes­soa a gente tem que olhar com cal­ma. Ela pode real­mente se matar”.

No futuro, o mod­e­lo cri­a­do pela equipe de Por­to Ale­gre poderá se tornar ain­da mais pre­ciso pela inclusão de out­ros fatores de risco, como o sexo do paciente (no Brasil os home­ns se matam 4 vezes mais do que as mul­heres), históri­co de suicí­dio na família ou con­sumo de álcool ou out­ras dro­gas.

O pro­fes­sor não descar­ta que o aplica­ti­vo pos­sa anal­is­ar inclu­sive vari­ações no fenótipo dig­i­tal do usuário, como o tom de voz ao tele­fone ou a veloci­dade de dig­i­tação.

Para o médi­co, este tipo de algo­rit­mo deve tornar a med­i­c­i­na mais pre­ven­ti­va: “Hoje o sujeito chega deprim­i­do no meu con­sultório. Imag­i­na que no futuro talvez ele chegue muito antes. Não vamos tratar o episó­dio depres­si­vo, vamos pre­venir o episó­dio depres­si­vo”.

O tra­bal­ho com­pôs a dis­ser­tação de mestra­do de Gabriela de Ávi­la Berni e con­tou com a super­visão do pro­fes­sor Flávio Kapczin­s­ki, da McMas­ter Uni­ver­si­ty.

Para mim o mun­do era pre­to e bran­co

Teresin­ha de Lour­des da Sil­va tem 60 anos e já ten­tou se matar duas vezes. A primeira foi há mais de 15 anos, depois do divór­cio do ex-mari­do. Três anos depois, uma nova crise depres­si­va resul­tou na segun­da ten­ta­ti­va de tirar a vida. “Eu não tin­ha mais graça em viv­er, para mim o mun­do se resum­ia em pre­to e bran­co.”

As coisas começaram a mudar quan­do Teresin­ha decid­iu levar a sério o trata­men­to, com con­sul­tas per­iódi­cas ao psiquia­tra e uso de med­icação. O apoio da família tam­bém foi fun­da­men­tal, espe­cial­mente nos perío­dos mais críti­cos da depressão, em que ela não podia ficar soz­in­ha em casa.

Teresin­ha voltou a tra­bal­har como babá e fica feliz de servir de exem­p­lo para quem está pas­san­do por momen­tos difí­ceis. Seu prin­ci­pal con­sel­ho é procu­rar aju­da: “Nun­ca a gente con­segue soz­in­ho. Se eu não tivesse procu­ra­do um atendi­men­to espe­cial­iza­do eu tin­ha me con­sum­i­do. Eles (profis­sion­ais de saúde) são os anjos da min­ha vida”.

Para o médi­co Ives Cav­al­can­ti Pas­so, o caso de Teresin­ha com­pro­va o quan­to o suicí­dio pode ser evi­ta­do: “Se a pes­soa tem ideação sui­ci­da, se tu iden­ti­fi­ca e tra­ta bem, é um even­to extrema­mente rever­sív­el”.

Vir­ginia Woolf: trau­mas famil­iares e obscu­ran­tismo

A “paciente” escol­hi­da no estu­do do HCPA teve uma vida con­tur­ba­da, seja pelo âmbito famil­iar como pelo con­tex­to históri­co que a Europa vivia na primeira metade do sécu­lo 20.

Nasci­da em 1882 em um dis­tri­to de Lon­dres, Reino Unido, Vir­ginia Woolf cresceu em meio a artis­tas e int­elec­tu­ais forte­mente influ­en­ci­a­dos pelos pen­sa­men­tos que sur­giam na época, entre eles a psi­canálise e o niil­is­mo.

A pro­fes­so­ra do Pro­gra­ma de Pós-grad­u­ação em Letras da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio Grande do Sul Elaine Indru­si­ak lem­bra que este ideário pré-guer­ras mundi­ais teve forte influên­cia na vida e obra de Vir­ginia Woolf.

“O choque entre a moral­i­dade vito­ri­ana muito rig­orosa e o obscu­ran­tismo que começa a sur­gir, da falên­cia de tudo (…) Vir­ginia colo­ca em letras essa frag­men­tação que ela vivia e sen­tia na psique, mas que tam­bém é uma frag­men­tação da própria sociedade em que ela vive”.

No âmbito pes­soal, a vida de Woolf foi mar­ca­da pelas per­das da mãe (aos 13 anos) e de dois irmãos. Várias biografias con­tam que ela e a irmã Vanes­sa foram abu­sadas sex­ual­mente por dois meio-irmãos mais vel­hos.

Segun­do Indru­si­ak, a escrito­ra tam­bém não se con­for­ma­va com a maneira como a sociedade sub­ju­ga­va as mul­heres. Fatores que, asso­ci­a­dos ao diag­nós­ti­co de transtorno bipo­lar, expli­cam muitas das angús­tias rev­e­ladas nos diários e car­tas anal­isa­dos pelos médi­cos do HCPA.

Do pon­to de vista literário, a pro­fes­so­ra desta­ca que Vir­ginia Woolf é uma das escritoras que uti­lizaram de for­ma mais magis­tral a téc­ni­ca do fluxo de con­sciên­cia e desta­ca três obras da romancista ingle­sa: Rumo ao Farol, Mrs. Dal­loway e Orlan­do.

O CVV — Cen­tro de Val­oriza­ção da Vida real­iza apoio emo­cional e pre­venção do suicí­dio de for­ma vol­un­tária e gra­tui­ta pelo tele­fone 188, sob total sig­i­lo, 24 horas por dia. Para mais infor­mações sobre onde procu­rar aju­da para si ou para ami­gos e famil­iares, acesse: http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a‑z/suicidio.

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