Quando é aceitável contar uma mentira bem-intencionada?

mentira bem-intencionada

Um gestor dá um feed­back muito pos­i­ti­vo a um fun­cionário para aumen­tar sua con­fi­ança. Um médi­co dá um prognós­ti­co otimista a um paciente a fim de dar esper­ança. Um fun­cionário de alto escalão esconde ameaças à segu­rança para evi­tar o pâni­co gen­er­al­iza­do.

Ess­es são cenários rel­a­ti­va­mente com­preen­síveis, em que uma pes­soa con­ta uma men­ti­ra porque pen­sa estar aju­dan­do o out­ro. Con­tu­do, em todos ess­es casos, não está claro se a men­ti­ra real­mente aju­dou o des­ti­natário. Fun­cionários podem se ben­e­fi­ciar de uma críti­ca hon­es­ta para mel­ho­rar; pacientes podem se ben­e­fi­ciar de um prognós­ti­co real; cidadãos podem tomar medi­das para se tornarem menos vul­neráveis a ameaças à segu­rança.

Dadas as questões éti­cas que envolvem a men­ti­ra, como alguém pode ter certeza de quan­do con­tar uma men­ti­ra bem-inten­ciona­da é o cer­to a se faz­er — e de quan­do não é?

Alguns podem argu­men­tar que enga­nar os out­ros nun­ca é éti­co, prin­ci­pal­mente no atu­al ambi­ente empre­sar­i­al. À medi­da que relatos de fraude, sub­or­no e vio­lação de pri­vaci­dade aumen­tam, a “transparên­cia” se tor­na um lema nas orga­ni­za­ções. Se uma men­ti­ra fos­se rev­e­la­da em públi­co, isso pode­ria resul­tar em um golpe sério em sua rep­utação.

No entan­to, o cotid­i­ano mostra o que o come­di­ante Jer­ry Sein­feld chama de “situ­ações em que a men­ti­ra é inevitáv­el” — ou, pelo menos, situ­ações em que as pes­soas mentem exata­mente porque acred­i­tam que é o cer­to a faz­er. Por exem­p­lo, se alguém per­gun­tar como está no dia do casa­men­to, a úni­ca respos­ta aceitáv­el é “Você está incrív­el”, mes­mo que não seja ver­dade.

mentira bem-intencionadaMas, e se seu chefe pedir sua opinião sobre uma apre­sen­tação em desen­volvi­men­to que pre­cisam entre­gar em uma reunião impor­tante daqui a algu­mas sem­anas? Essa é uma situ­ação total­mente difer­ente. É ver­dade que ao falar para seu chefe que a apre­sen­tação não está boa, com certeza causará um descon­for­to. Con­tu­do, haverá tem­po sufi­ciente para salvá-lo de um con­strang­i­men­to antes da reunião, caso a apre­sen­tação seja um fra­cas­so. Para seu chefe (e talvez para a empre­sa), evi­tar esse con­strang­i­men­to mais adi­ante pode­ria ser mais impor­tante do que evi­tar o descon­for­to de rece­ber críti­cas.

Nesse caso, ser fal­so ao diz­er a alguém que ele fez um óti­mo tra­bal­ho pode­ria ser con­sid­er­a­do uma men­ti­ra pater­nal­ista— isto é, quan­do o men­tiroso supõe que men­tir seja o mel­hor para a pes­soa a ser engana­da.

Em nos­so arti­go pub­li­ca­do recen­te­mente na Orga­ni­za­tion­al Behav­ior and Human Deci­sion Process­es, em sete estu­dos com mais de 2.000 pesquisadores, desco­b­ri­mos que a men­ti­ra pater­nal­ista cria um forte ressen­ti­men­to pela parte engana­da. Em vários exper­i­men­tos, par­tic­i­pantes foram colo­ca­dos com par­ceiros (“comu­ni­cadores”) que tin­ham a opor­tu­nidade de men­tir ou falar a ver­dade para aju­dar os par­tic­i­pantes a gan­harem difer­entes prêmios. Por exem­p­lo, em um dos estu­dos, os comu­ni­cadores tin­ham que con­tar o resul­ta­do de um jogo “cara ou coroa”, mas pode­ri­am faz­er isso de for­ma hon­es­ta ou des­on­es­ta. Caso o comu­ni­cador fos­se hon­esto sobre o resul­ta­do do jogo, o par­tic­i­pante pode­ria gan­har um bil­hete de lote­ria de 10 dólares que seria sortea­do naque­le dia; caso men­tisse, o par­tic­i­pante gan­haria um bil­hete de lote­ria de 30 dólares para dali a três meses.

Essa escol­ha — uma chance entre 10 reais ago­ra ou 30 reais depois — exige que o comu­ni­cador faça suposições sobre o que é mel­hor para o seu par­ceiro ao decidir se deve men­tir. Isso rev­ela diver­sas situ­ações do mun­do real, como quan­do um con­sul­tor finan­ceiro mente para um cliente a fim de incen­tivá-lo a econ­o­mizar din­heiro para o futuro.

Emb­o­ra seja uma men­ti­ra bem-inten­ciona­da, nesse con­tex­to, a men­ti­ra é pater­nal­ista, pois pres­supõe que o cliente preferiria ter uma poupança vez de ter din­heiro disponív­el no momen­to. Desco­b­ri­mos que comu­ni­cadores que con­taram men­ti­ras nesse con­tex­to foram vis­tos como menos éti­cos do que aque­les que falaram a ver­dade. Três infer­ên­cias especí­fi­cas sus­ten­tam esse jul­ga­men­to. Par­tic­u­lar­mente os par­tic­i­pantes acred­i­taram que os men­tirosos pater­nal­is­tas não tin­ham boas intenções, que violavam sua autono­mia e não enten­di­am suas prefer­ên­cias. Em out­ro estu­do, tam­bém desco­b­ri­mos que os par­tic­i­pantes ficavam, na real­i­dade, menos sat­is­feitos com o prêmio quan­do resul­ta­va de uma men­ti­ra pater­nal­ista.

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É impor­tante lem­brar que nem todas as men­ti­ras provo­cam ess­es jul­ga­men­tos neg­a­tivos. Em nos­sos exper­i­men­tos, alguns par­tic­i­pantes sou­ber­am que a declar­ação hon­es­ta ou des­on­es­ta do comu­ni­cador influ­en­ci­a­va em quan­tos bil­hetes de lote­ria eles gan­havam, qual o sorteio em que estavam inscritos. Neste caso, não havia ambigu­idade sobre o fato de que men­tir pode­ria aju­dar o par­tic­i­pante — qual­quer um gostaria de gan­har mais bil­hetes. De fato, nes­ta situ­ação, men­tir não foi vis­to como algo menos moral do que falar a ver­dade e não provo­cou as mes­mas con­clusões neg­a­ti­vas.

Nos­sa pesquisa criou alguns pas­sos especí­fi­cos que você pode usar para deter­mi­nar se suas men­ti­ras são pater­nal­is­tas (e, por­tan­to, se serão bem-vin­das ou cri­arão ressen­ti­men­to). Para tan­to, per­gunte-se o seguinte:

1. Você pode deduzir com segu­rança que a maio­r­ia das pes­soas estaria mel­hor com o resul­ta­do asso­ci­a­do à men­ti­ra do que à ver­dade? Se não, con­te a ver­dade.

Algu­mas vezes, a respos­ta para essa per­gun­ta é óbvia. Acred­i­tar que você está incrív­el no dia do seu casa­men­to é muito mel­hor do que não acred­i­tar nis­so. Gan­har dois bil­hetes de lote­ria é muito mel­hor do que gan­har somente um. Ness­es casos, men­tir tende a ser aceitáv­el.

Em muitos out­ros casos, a respos­ta não é tão óbvia. Se você não tem certeza de que a maio­r­ia das pes­soas pref­ere o resul­ta­do da men­ti­ra, pense em per­gun­tar a um grupo. Se hou­ver dis­cordân­cia, con­te a ver­dade.

2. Nesse con­tex­to, você sabe se a pes­soa com quem você está con­ver­san­do pref­ere con­for­to a sin­ceri­dade? Caso não, pre­fi­ra a sin­ceri­dade.

Lem­bre-se: é pos­sív­el saber das as prefer­ên­cias das pes­soas sim­ples­mente per­gun­tan­do a elas. Con­sidere per­gun­tar a seus cole­gas e famil­iares o tipo de retorno que eles gostari­am de rece­ber, e quan­do e por que eles preferiri­am uma críti­ca con­stru­ti­va a con­for­to. Por exem­p­lo, você pode per­gun­tar à sua cara metade se ele real­mente quer saber o que você pen­sa sobre sua aparên­cia quan­do lhe per­gun­tar; e um médi­co pode per­gun­tar aos seus pacientes o quan­to eles querem saber sobre o prognós­ti­co, ou se eles pref­er­em focar nas opções de trata­men­to.

Real­izamos vários estu­dos, exam­i­nan­do as men­ti­ras pater­nal­is­tas em relações profis­sion­ais e pes­soais e desco­b­ri­mos que as pes­soas se sen­ti­am mais à von­tade com a men­ti­ra de um comu­ni­cador se ele fos­se avisa­do sobre as suas prefer­ên­cias. Por exem­p­lo, em um estu­do, desco­b­ri­mos que pes­soas tin­ham uma con­sid­er­ação muito maior por um médi­co que deu uma fal­sa esper­ança a um paciente quan­do suas prefer­ên­cias havi­am sido dis­cu­ti­das pre­vi­a­mente com ele, do que quan­do o médi­co sim­ples­mente supôs essas prefer­ên­cias.

3. Você está cer­to de que o alvo da men­ti­ra sabe que você está zelando pelo bem dele? Se não, qual­quer ten­ta­ti­va de jus­ti­ficar a men­ti­ra será inefi­caz.

Quan­do se é pego mentin­do (de maneira pater­nal­ista ou não), as pes­soas geral­mente se defen­d­em dizen­do que men­ti­ram para pro­te­ger o out­ro. Mas, antes de men­tir para pro­te­ger os inter­ess­es ou sen­ti­men­tos de alguém, per­gunte-se se a men­ti­ra é ape­nas para pro­tegê-lo, bem como se a pes­soa acred­i­taria que a sua men­ti­ra era bem-inten­ciona­da caso a desco­brisse. Em vários estu­dos, desco­b­ri­mos que as pes­soas não acred­i­tavam que as men­ti­ras pater­nal­is­tas eram bem-inten­cionadas e rea­gi­ram mal a elas, mes­mo quan­do o men­tiroso afir­ma­va ter boa intenção. Con­tu­do, as pes­soas eram mais propen­sas a acred­i­tar que as men­ti­ras pater­nal­is­tas eram bem-inten­cionadas quan­do eram con­tadas por pes­soas que as con­heci­am bem ou tin­ham fama de serem pes­soas presta­ti­vas e gen­tis.

Mes­mo que as men­ti­ras pater­nal­is­tas sejam “bem-inten­cionadas”, se descober­tas, elas geral­mente saem pela cula­tra. Men­tir pode ser útil quan­do não há ambigu­idade sobre os bene­fí­cios resul­tantes para os recip­i­entes. Mas, em quase todas as out­ras situ­ações, hon­esti­dade é sem­pre a mel­hor políti­ca.

Por Adam Eric Green­berg, Emma E. Levine e Matthew Lupoli

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