Com novas regras de compliance, empresas enfrentam transparência inédita

Com novas regras de compliance, empresas enfrentam transparência inédita

A Teo­ria da Rel­a­tivi­dade é pródi­ga em fras­es que começam com “Imag­ine…”. Albert Ein­stein bati­zou esse expe­di­ente de Gedanken­ex­per­i­ment, um exper­i­men­to men­tal. Na práti­ca, o obje­ti­vo de tal recur­so era, por meio de um con­vite à imag­i­nação, envolver o leitor na nar­ra­ti­va. Se Ein­stein acred­i­ta­va nis­so, mel­hor não duvi­dar. Então… Imag­ine que você tra­bal­ha há mais de 30 anos em uma empre­sa. Há cer­ca de uma déca­da, man­teve um rela­ciona­men­to com uma pes­soa no tra­bal­ho. Alguns anos atrás, o affair ter­mi­nou. Em um belo dia, porém, você vai para o olho da rua. Por quê? A com­pan­hia desco­briu a história e não admite relações desse tipo entre fun­cionários, ain­da que elas ten­ham fica­do para trás no espaço-tem­po. O que lhe parece? Jus­to? Razoáv­el?

Nem per­ca tem­po ten­tan­do respon­der. A Intel, a maior fab­ri­cante de chips do plan­e­ta, já resolveu esse impasse. No mês pas­sa­do, Bri­an Krzanich, o CEO da com­pan­hia des­de 2013 (e fun­cionário des­de 1982), foi demi­ti­do por ter man­ti­do um anti­go caso com uma cole­ga.

Aparente­mente, não hou­ve rompantes na história. Krzanich, con­tu­do, des­cumpriu uma nor­ma. Para alguns, esse desen­lace pode ser definido como exager­a­do (até cru­el). Para out­ros — e esse é um grupo em fran­ca expan­são —, isso se chama com­pli­ance. O ter­mo, na tradução do inglês, quer diz­er con­formi­dade. Na práti­ca, des­igna o con­jun­to de medi­das ado­tadas por uma empre­sa para se man­ter alin­ha­da às regras, inter­nas ou exter­nas, prin­ci­pal­mente no que diz respeito ao com­bate a fraudes e à cor­rupção. Seu sig­nifi­ca­do, con­tu­do, está cada vez mais asso­ci­a­do à éti­ca. Isso quer diz­er que o con­ceito de deslize está em ple­na expan­são nas cor­po­rações, seja qual for o car­go que a pes­soa ocupe, seja qual for a bobagem que cometa. Hoje, o CEO está nu.

Exem­p­los de um cres­cente vig­or no cumpri­men­to de nor­mas, aliás, têm sido expos­tos com assiduidade pelo noti­ciário. Nas cor­po­rações globais, depois de casos cabe­lu­dos e históri­cos envol­ven­do a Enron, em 2002, e a Siemens, em 2006, jun­taram-se recen­te­mente a esse grupo os esper­tal­hões do ban­co Wells Far­go, que man­tinha per­to de 3,5 mil­hões de con­tas fal­sas, e líderes da Volk­swa­gen, que for­jou dados sobre a emis­são de polu­entes em 11 mil­hões de car­ros movi­dos a diesel. No mês pas­sa­do, Rupert Stadler, o CEO da Audi, mar­ca de luxo que per­tence à Volks, foi pre­so por supos­to envolvi­men­to no mes­mo escân­da­lo, bati­za­do de “diesel­gate”. No Brasil, o tur­bil­hão da Lava Jato leva as empre­sas a cri­ar regras para com­bat­er a cor­rupção. Até mea­d­os do mês pas­sa­do, a inves­ti­gação con­denara 132 pes­soas — entre elas, pres­i­dentes e altos exec­u­tivos das maiores empre­it­eiras do país.

A TRANSPARÊNCIA PELOS BITS

Con­sidere ain­da que essa ideia de nudez não se limi­ta aos chefes das fir­mas. Ao con­trário. Ela se alas­tra por todos os níveis das empre­sas. E o véu das trans­gressões cor­po­ra­ti­vas, grandes ou peque­nas, está sendo lev­an­ta­do pela tec­nolo­gia, o que inclui o uso de inteligên­cia arti­fi­cial, com machine learn­ing, redes neu­rais e out­ras engen­ho­cas. Fun­cionários de grandes com­pan­hias são mon­i­tora­dos (será que você é um deles?) com lupa por dis­pos­i­tivos dig­i­tais. Varreduras são feitas em men­sagens, celu­lares, com­puta­dores (des­de que cor­po­ra­tivos) ou mes­mo no ambi­ente de tra­bal­ho, por meio de câmeras e sen­sores. “Exis­tem recur­sos que fazem dis­parar um aler­ta sem­pre que duas palavras clas­si­fi­cadas como sen­síveis, tipo ‘paga­men­to’ e ‘din­heiro’, são escritas em um e‑mail”, diz Geert Aal­bers, da Con­trol Risks, uma con­sul­to­ria glob­al de anális­es de riscos.

Aliás, as men­sagens e os chats são um pra­to cheiís­si­mo para os mon­i­tora­men­tos. A con­sul­to­ria ICTS, que atua na área de com­pli­ance, avalia per­to de 10 mil­hões de e‑mails por mês em 14 empre­sas com as quais tra­bal­ha — entre elas, a Ode­brecht e a J&F, ambas envolvi­das na Lava Jato. Desse total, em média, 150 mil são con­sid­er­a­dos sus­peitos e sub­meti­dos a uma análise detal­ha­da. Os critérios dessa peneira são definidos de acor­do com o per­fil e os pon­tos sen­síveis do cliente em questão. “Isso pode incluir des­de prob­le­mas envol­ven­do cor­rupção até ter­ror­is­mo”, diz Cas­siano Macha­do, dire­tor da ICTS. “O detal­he é que, das 150 mil men­sagens que obser­va­mos com mais vagar, per­to de 1,5 mil, ou seja, 1% do total, embutem tram­biques ou prob­le­mas. Os mais comuns são vaza­men­tos de infor­mação con­fi­den­cial”, afir­ma Macha­do. “Em casos extremos, eles ger­am mandatos de bus­ca e apreen­são, para que as men­sagens despachadas de uma empre­sa sejam recu­per­adas no des­ti­no final.”

Com­puta­dores e celu­lares cor­po­ra­tivos, não raro, têm soft­wares embu­ti­dos que esmiúçam o mate­r­i­al manip­u­la­do nes­sas máquinas. Nos desk­tops e note­books, por exem­p­lo, os sis­temas ver­i­fi­cam até quan­do e por quem os equipa­men­tos são lig­a­dos (eles tiram fotos dos usuários no momen­to do login). Con­tro­lam ain­da o tem­po de per­manên­cia — e o com­por­ta­men­to — das pes­soas em redes soci­ais. Caçam comen­tários sobre a empre­sa, além do que os fun­cionários post­am, e quem seguem em sites como o Face­book. (Assim, não se ilu­da achan­do que mudar de tela quan­do o chefe está por per­to resolve o prob­le­ma.) “Tive­mos um caso em que uma pes­soa pub­li­cou na rede uma foto fei­ta no escritório”, afir­ma Macha­do, da ICTS. “O prob­le­ma é que o quadro de metas da com­pan­hia apare­cia no fun­do da imagem. Aí, surge a questão: será que foi sem quer­er?” Parte-se, aí, para uma inves­ti­gação. Nesse episó­dio, deter­mi­nou-se que não hou­ve má-fé do fun­cionário. Fos­se out­ro o vered­i­to, have­ria punição.

Em out­ro front, robôs bis­bil­ho­tam em tem­po real as transações finan­ceiras de uma com­pan­hia. Emitem aler­tas assim que detec­tam uma oper­ação sus­pei­ta. Para isso, con­sul­tam toda sorte de arquiv­os, o que inclui bases de dados da Polí­cia Fed­er­al, do FBI, da Recei­ta Fed­er­al e de um dezena de out­ros órgãos. As checa­gens de paga­men­tos tam­bém são feitas a par­tir de lis­tas com nomes de “agentes públi­cos” e seus par­entes — ou, ain­da, de pes­soas que fazem doações a par­tidos. “Nos­so sis­tema, cer­ta vez, iden­ti­fi­cou um paga­men­to feito a um políti­co”, con­ta Eduar­do Staino, dire­tor de com­pli­ance da Andrade Gutier­rez, empre­sa envolvi­da na Lava Jato que nos últi­mos três anos reestru­tur­ou seu depar­ta­men­to de con­formi­dade. “Fomos inves­ti­gar e vimos que alugá­va­mos a casa de um ex-prefeito de uma peque­na cidade do inte­ri­or mineiro. Esta­va tudo cer­to, não havia irreg­u­lar­i­dade, mas isso nos mostrou a força e o alcance dess­es pro­gra­mas.”

PLATAFORMA DE INOVAÇÕES

O emprego mas­si­vo de tec­nolo­gia em com­pli­ance inau­gurou um novo cam­po para ino­vações. Depois de fin­techs, agrotechs e con­strutechs, estão entran­do em cena as regtechs, ou seja, star­tups voltadas para as áreas de reg­u­la­men­tação e con­formi­dade. De acor­do com a Let’s Talk Pay­ments (LTP), a prin­ci­pal platafor­ma de con­teú­do e pesquisas sobre fin­techs no mun­do, os gas­tos com o setor finan­ceiro para as áreas de gov­er­nança cor­po­ra­ti­va, risco e com­pli­ance somaram US$ 78 bil­hões em 2015. Desse mon­tante, US$ 31,8 bil­hões foram dis­pendi­dos em tec­nolo­gia. Em 2020, a LTP pre­vê um desem­bol­so total de US$ 118,7 bil­hões — as regtechs devem abo­can­har US$ 54,3 bil­hões.

Pois a IDWall, uma regtech brasileira, com sede em São Paulo, é um destaque nesse cam­po. Ela rece­beu dois prêmios inter­na­cionais em 2018. Em um deles, foi escol­hi­da uma das cem star­tups mais ino­vado­ras do mun­do nesse ramo pela Fin­tech Glob­al, uma com­pan­hia britâni­ca espe­cial­iza­da na cole­ta de dados e anális­es de mer­ca­do. Ficou ain­da entre as dez mel­hores empre­sas do seg­men­to em uma seleção fei­ta pela revista Bank­ing CIO Out­look.

A IDWall foi cri­a­da em janeiro de 2016 por Lin­coln Ando, de 27 anos, e Raphael Melo, de 29. Ambos se for­maram em análise e desen­volvi­men­to de sis­temas pela Uni­camp, e tra­bal­haram jun­tos no Ban­co Orig­i­nal. Em dois anos, a jovem empre­sa ameal­hou R$ 13 mil­hões em inves­ti­men­tos com cin­co fun­dos. Entre eles, estão o Monashees Cap­i­tal, que recen­te­mente par­ticipou da ven­da bil­ionária do aplica­ti­vo de táxi 99 ao grupo chinês Didi, e o Canary, cri­a­do por fun­dadores de com­pan­hias como a grá­fi­ca online Printi e o Peixe Urbano.
A prin­ci­pal ino­vação da IDWall é o proces­so de aut­en­ti­cação de doc­u­men­tos, feito em min­u­tos pela web — uma fer­ra­men­ta bas­tante req­ui­si­ta­da por fin­techs. Emb­o­ra não seja exclu­sivi­dade da start­up, uma curiosi­dade do sis­tema é a maneira como as fotos são checadas, por exem­p­lo, na aber­tu­ra de uma con­ta online. A tec­nolo­gia com­para a imagem de um RG com uma self­ie que o usuário é obri­ga­do a faz­er no instante do cadas­tra­men­to. Como “pro­va de vida”, a pes­soa tem de realizar um pequeno movi­men­to enquan­to pro­duz a imagem. A empre­sa não divul­ga fat­u­ra­men­to, mas cresce em rit­mo acel­er­a­do. “Esta­mos dupli­can­do de taman­ho a cada seis meses”, diz Ando, o CEO da IDWall. No ano pas­sa­do, tin­ha 12 fun­cionários. Hoje, são 47. Reu­nia ain­da per­to de 20 clientes. Eles já somam cem — entre os quais o GuiaBol­so, que faz gestão finan­ceira, e o aplica­ti­vo 99.

Com novas regras de compliance, empresas enfrentam transparência inédita

A fab­ri­cante de soft­wares Tecvidya, do Rio, tam­bém avançou sobre o setor de con­formi­dade. A empre­sa, cri­a­da em 2015, havia desen­volvi­do uma solução de ensi­no à dis­tân­cia, mas começou a rece­ber deman­das para treina­men­tos online de com­pli­ance. Assim, foram cri­a­dos sis­temas para o con­t­role de rece­bi­men­to de brindes por fun­cionários e canais de denún­cias, peça fun­da­men­tal das políti­cas de con­formi­dade. Para atu­ar nesse ramo, uma nova empre­sa foi fun­da­da, a Mer­i­tum, em 2016. “Percebe­mos que o setor era muito novo e promis­sor”, afir­ma Rafael Multe­do, CEO da Mer­i­tum e um dos fun­dadores da Tecvidya. “Víamos empre­sas com 15 mil fun­cionários que só tin­ham três pes­soas na área de com­pli­ance. Eles não podi­am faz­er todos os con­troles man­ual­mente. Pre­cisavam de tec­nolo­gia. Inves­ti­mos nis­so.”

Multe­do, de que­bra, resolveu ino­var no mod­e­lo de negó­cios. Criou um con­sel­ho for­ma­do por clientes que se reúne a cada três meses. Ness­es encon­tros, o grupo dis­cute as neces­si­dades de cada com­pan­hia para apri­morar os sis­temas de con­formi­dade. Esse debate pau­ta as soluções tec­nológ­i­cas que vão entrar no pipeline da Mer­i­tum. “Com isso, não pre­ciso ir ao mer­ca­do tes­tar novos pro­du­tos”, diz Multe­do. “Já par­to para novas apli­cações com base nas refer­ên­cias dos con­sel­heiros.” Quan­do as fer­ra­men­tas ficam prontas, os clientes podem usá-las sem cus­tos adi­cionais. “É uma for­ma de ret­ribuir as sug­estões que recebe­mos dos con­sel­heiros”, acres­cen­ta o empreende­dor.

Até pouco tem­po atrás, a respos­ta para essa per­gun­ta viria sob a for­ma de um sonoro “quem nun­ca”. Pois, acred­ite, já não se fazem afir­ma­ti­vas como antiga­mente. Hoje, na avali­ação da CEO da Inte­grow, é pre­ciso levar em con­ta out­ros parâmet­ros além da recei­ta ime­di­a­ta para dirim­ir esse tipo de dúvi­da. Rober­to Medeiros dos San­tos, super­in­ten­dente de com­pli­ance na Neoen­er­gia, con­cor­da com a análise. “É pre­ciso saber, por exem­p­lo, se os con­tratos em questão per­mitem o paga­men­to de um val­or extra para fornece­dores ou se as nor­mas da com­pan­hia pre­veem acor­dos dessa natureza”, diz San­tos. “Além do mais, será que out­ro cliente desse mes­mo fornece­dor não vai ser prej­u­di­ca­do com a ven­da ines­per­a­da de matéria-pri­ma para min­ha empre­sa?”, inda­ga o exec­u­ti­vo. Aliás, a Neoen­er­gia e a Votoran­tim Cimen­tos foram as úni­cas fir­mas que tiraram nota máx­i­ma no rank­ing da ONG Transparên­cia Inter­na­cional, divul­ga­do este ano, que avalia os pro­gra­mas anti­cor­rupção e a transparên­cia orga­ni­za­cional das cem maiores empre­sas e dos dez prin­ci­pais ban­cos do Brasil.

É nat­ur­al que a dis­cussão sobre éti­ca cor­po­ra­ti­va soe um tan­to etérea, prin­ci­pal­mente em perío­dos de crise econômi­ca, em que as empre­sas estão pre­ocu­padas em man­ter o nar­iz fora d’água. Mas esse tipo de debate tende a gan­har espaço na roti­na das cor­po­rações. Na ver­dade, tra­ta-se de um des­do­bra­men­to do tema sus­tentabil­i­dade. E note que assun­tos cor­re­latos, como a diver­si­dade (de gênero, cor, ori­en­tação sex­u­al, idade, religião), pas­sam por um proces­so semel­hante de expan­são, ain­da que esse tipo de con­teú­do pareça estar dis­tante da vel­ha lóg­i­ca con­cen­tra­da na eficá­cia da oper­ação. “O que vemos é uma dis­cussão cres­cente sobre como incluir éti­ca na estraté­gia das com­pan­hias e as van­ta­gens, como a rep­uta­cional, que isso traz”, afir­ma Maria Fer­nan­da, da Inte­grow. O fato é que o setor pri­va­do não se define mais ape­nas como ger­ador de empre­gos e riqueza. Seu papel como agente de desen­volvi­men­to em várias dimen­sões é cada vez mais rel­e­vante.

Para quem igno­ra como esse tipo de assun­to pode entrar na roti­na das empre­sas, bas­ta con­statar que, atual­mente, can­didatos a vagas de lid­er­ança em diver­sas com­pan­hias começam a ser sub­meti­dos a “testes de hon­esti­dade”. Isso acon­tece na Neoen­er­gia. Ess­es exam­es avaliam aspec­tos como o grau de leniên­cia com que as pes­soas lidam com questões éti­cas, além do com­por­ta­men­to do sujeito diante de infor­mações con­fi­den­ci­ais. Tam­bém são feitas anális­es sobre a pos­tu­ra diante de prob­le­mas como o con­sumo de dro­gas ou mes­mo lev­an­ta­men­tos de quan­tas infrações de trân­si­to o can­dida­to acu­mu­la. O con­ceito do que é cer­to e éti­co, como se vê, está em con­strução.

MAS FUNCIONA?

No Brasil, ape­sar do impul­so mon­u­men­tal do com­pli­ance após a Lava Jato, frag­ili­dades nesse cam­po foram iden­ti­fi­cadas em uma pesquisa da KPMG fei­ta com 450 com­pan­hias. O lev­an­ta­men­to posi­ciona as fir­mas brasileiras no segun­do de cin­co níveis do que define como uma “escala de maturi­dade”. Os pata­mares são “fra­co”, “sus­ten­táv­el”, “maduro”, “inte­gra­do” e “avança­do”. As com­pan­hias nacionais foram enquadradas no tópi­co “sus­ten­táv­el”. “Isso quer diz­er que elas saíram do zero, mas o topo está longe”, diz Emer­son Melo, sócio da KPMG e um dos respon­sáveis pelo tra­bal­ho. “Há muito a ser feito.”

Eis um dos maiores bura­cos con­stata­dos no lev­an­ta­men­to: 84% das pesquisadas con­sid­er­aram que, inter­na­mente, os informes sobre com­pli­ance não têm a inde­pendên­cia dese­ja­da. Isso porque não são feitos ao con­sel­ho de admin­is­tração ou a um comitê de audi­to­ria. Ficam dis­per­sos por out­ras áreas da empre­sa. O prob­le­ma é que dez entre dez con­sul­tores desse setor garan­tem que a eficá­cia das políti­cas cor­po­ra­ti­vas anti­cor­rupção está dire­ta­mente rela­ciona­da ao envolvi­men­to da cúpu­la ness­es proces­sos. “Sem isso, nada fun­ciona”, diz o con­sul­tor Wag­n­er Gio­vani­ni, da Com­pli­ance Total, ex-dire­tor da área de con­formi­dade da Siemens, onde tra­bal­hou por oito anos. “É o tipo de políti­ca cujo exem­p­lo tem de vir de cima para baixo.”

Nem sem­pre é o que acon­tece. Em maio, James Sta­ley, CEO do Ban­co Bar­clays, foi mul­ta­do em US$ 850 mil pelas autori­dades britâni­cas, por ten­tar iden­ti­ficar o autor de uma denún­cia anôn­i­ma fei­ta den­tro da insti­tu­ição finan­ceira. As boas práti­cas exi­giam que ele apurasse a denún­cia, e não quem foi o denun­ciante. No Brasil, o cli­ma tam­bém esquen­tou na Ode­brecht, em março. Marce­lo Ode­brecht, ex-CEO do con­glom­er­a­do que ain­da cumpre prisão domi­cil­iar, envi­ou um e‑mail para inte­grantes da cúpu­la da orga­ni­za­ção crit­i­can­do o proces­so sucessório no con­sel­ho. Afir­ma­va que a empre­sa não pode­ria aceitar que “pes­soas que optaram por omi­tir seus erros con­tin­u­assem na orga­ni­za­ção”, além do mais “focan­do sua ener­gia e a dos out­ros na bus­ca por auto­p­reser­vação”. A polêmi­ca indi­ca que os prob­le­mas inter­nos con­tin­u­am.

QUEM PAGA A CONTA

Algu­mas das medi­das impor­tantes num sis­tema de con­formi­dade são rel­a­ti­va­mente baratas — incluem a exigên­cia de haver sem­pre ao menos dois rep­re­sen­tantes da orga­ni­za­ção ao lidar com qual­quer agente do gov­er­no, man­ter no con­sel­ho dire­tores inde­pen­dentes e garan­tir diver­si­dade de pen­sa­men­to na cúpu­la. Mas o cus­to total do sis­tema é men­ciona­do como um prob­le­ma por empre­sas brasileiras. O já cita­do estu­do da KPMG indi­ca que o orça­men­to anu­al médio da área nas empre­sas anal­isadas é de R$ 500 mil por ano. Em 10% das com­pan­hias, o val­or salta para R$ 1 mil­hão. Por out­ro lado, tam­bém é famosa — e real­ista — a obser­vação de Paul McNul­ty, ex-procu­rador-ger­al da Justiça amer­i­cana: If you think com­pli­ance is expen­sive, try non-com­pli­ance (“Se você acred­i­ta que ter regras de con­formi­dade é caro, tente não tê-las”).

Mes­mo porque um sis­tema de con­formi­dade efe­ti­vo tam­bém fun­ciona como uma espé­cie de seguro. Pode aten­uar a apli­cação de mul­tas (de até 20% do fat­u­ra­men­to da com­pan­hia), caso a empre­sa seja víti­ma de um fun­cionário lará­pio. Foi o que acon­te­ceu no episó­dio envol­ven­do o ban­co Mor­gan Stan­ley e Garth Peter­son, em 2012. Peter­son era um dire­tor do ban­co, respon­sáv­el por empreendi­men­tos imo­bil­iários na Chi­na, entre 2002 e 2007. Con­fes­sou ter tra­ma­do um golpe com um fun­cionário da estatal chi­ne­sa Yongye Enter­prise, no qual a dupla rece­be­ria pelo menos US$ 1,8 mil­hão. O Depar­ta­men­to de Justiça amer­i­cano não proces­sou o Mor­gan Stan­ley, cujo pro­gra­ma de com­pli­ance foi con­sid­er­a­do robus­to — emb­o­ra tal definição ten­ha sido con­tes­tadís­si­ma por Peter­son.

Cada orga­ni­za­ção pre­cis­ará iden­ti­ficar o tipo de obstácu­lo que mais atra­pal­ha. A Votoran­tim Cimen­tos (a out­ra das duas com­pan­hias brasileiras com pon­tu­ação máx­i­ma na Transparên­cia Inter­na­cional) deixa claro para todos os fun­cionários que o pro­gra­ma de con­formi­dade segue em evolução con­stante e é de respon­s­abil­i­dade cole­ti­va. “E uma das eta­pas mais desafi­ado­ras é a atu­ação do com­pli­ance glob­al, de ampli­ação do pro­gra­ma estru­tu­ra­do no Brasil, com as even­tu­ais adap­tações cul­tur­ais e leg­is­latórias”, afir­ma o CFO da empre­sa, Osval­do Ayres. A Votoran­tim Cimen­tos atua em 12 país­es.

Ain­da que exis­tam grandes difi­cul­dades para a imple­men­tação de práti­cas de com­pli­ance, esse avanço parece inex­oráv­el. O muro legal anti­cor­rupção está aumen­tan­do em todo o mun­do. Começou a ser ergui­do em 1977, com a aprovação do For­eign Cor­rup­tion Prac­tices Act (FCPA), nos Esta­dos Unidos. Depois dis­so, em 2002, veio a lei Sar­banes-­Ox­ley, ou SOx, que deu um forte aper­to nas fraudes con­tábeis. Em 2010, foi aprova­da a lei UK Bribery Act, no Reino Unido. No Brasil, o mar­co foi a Lei Anti­cor­rupção 12.846, de 2013, reg­u­la­men­ta­da em 2015. A par­tir de 2014, deu-se o empurrão defin­i­ti­vo com a Lava Jato, que implodiu o con­ceito de impunidade vigente no país.

O aper­to legal, hoje, alcança out­ros setores, além do com­bate a fraudes e à cor­rupção. Na Europa, o Gen­er­al Data Pro­tec­tion Reg­u­la­tion (GDPR) avançou sobre um cam­po tão novo quan­to com­plexo. O reg­u­la­men­to foi aprova­do pela União Europeia em 2016 e entrou em vig­or em maio deste ano. Muda a for­ma como empre­sas, em qual­quer lugar do mun­do, devem proces­sar e armazenar dados de cidadãos europeus. Impõe mul­tas que podem chegar a 4% da recei­ta glob­al anu­al das empre­sas ou € 20 mil­hões, o que for maior. No Brasil, trami­ta no Con­gres­so o pro­je­to de lei 5.276, que tam­bém esta­b­elece regras para o trata­men­to de dados pes­soais por com­pan­hias. Como diria Ein­stein, imag­ine resi­s­tir a esse cenário sem com­pli­ance. Não será moleza

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