Como passar um projeto de inovação para outra equipe

Hands Passing Baton --- Image by © Royalty-Free/Corbis

Como passar um projeto de inovação para outra equipe

Quase todos os líderes empre­sari­ais que con­heço temem ser super­a­dos por algum arro­gante espe­cial­ista em tec­nolo­gia. Esse medo leva as empre­sas a inve­stirem mil­hões no desen­volvi­men­to de ino­vações rev­olu­cionárias. Porém, uma quan­ti­dade alar­mante dess­es inves­ti­men­tos dá erra­do. A ver­dade é que pode estar tudo cer­to: sua carteira de inves­ti­men­tos, os indi­cadores de desem­pen­ho e a gov­er­nança, o proces­so de desen­volvi­men­to stage-gate; você pode con­tar com o tal­en­to cer­to na equipe cer­ta. Con­tu­do, se não fiz­er as trans­fer­ên­cias cor­re­tas entre as equipes, todo o seu plane­ja­men­to vai por água abaixo.

Para que os pro­je­tos de ino­vação sejam bem-suce­di­dos, pre­cisam sobre­viv­er à trans­fer­ên­cia entre a equipe de ino­vação e a de exe­cução. Sem­pre que uma trans­fer­ên­cia é fei­ta, corre-se o risco de perder o con­t­role.

Eis um exem­p­lo: uma das mais impor­tantes empre­sas de eletrôni­cos asiáti­ca con­stru­iu um lab­o­ratório de design para desen­volver novas ideias para a pro­dução de hard­wares. Com demasi­a­da fre­quên­cia, quan­do a equipe do lab­o­ratório trans­mi­tia o con­ceito a um ger­ente de pro­dução, como por exem­p­lo, um com­puta­dor cus­tomiza­do para mod­e­ladores 3D e edi­tores de filmes, este igno­ra­va o raciocínio da equipe e sim­ples­mente apli­ca­va o design físi­co do com­puta­dor a um pro­du­to que já esta­va em desen­volvi­men­to — como um com­puta­dor de baixa potên­cia des­ti­na­do a estu­dantes no perío­do de vol­ta às aulas. Quan­do as ven­das do pro­du­to Franken­stein não atin­giam a meta, todos dividi­am a cul­pa. Essa empre­sa não tin­ha um plano definido para realizar a trans­fer­ên­cia do pro­je­to da peque­na equipe de design para a equipe de pro­dução. Não con­seguiam faz­er a trav­es­sia do abis­mo entre os dois setores.

Como evi­tar a que­da no abis­mo? Entre­laçan­do as equipes no proces­so. Em muitas empre­sas, as equipes de ino­vação ten­dem a se situ­ar em uma das seguintes cat­e­go­rias: explo­rado­ras, nive­lado­ras e otimizado­ras (com crédi­tos para Bud Cad­dell e Simon Ward­ley). As otimizado­ras com­põem o núcleo da maio­r­ia das empre­sas bem esta­b­ele­ci­das — são espe­cial­izadas em aper­feiçoar e for­t­ale­cer aqui­lo que já existe para ger­ar cresci­men­to ou apri­morar as oper­ações. As explo­rado­ras tra­bal­ham em equipes como P&D (pesquisa e desen­volvi­men­to), na visão dos clientes ou no desen­volvi­men­to de pro­du­tos. Esse últi­mo grupo é qual­i­fi­ca­do para desco­brir novas opor­tu­nidades em face das ambigu­idades — traduz a inspi­ração em ideias usan­do méto­dos como o design think­ing. As nive­lado­ras fazem repeti­das exper­iên­cias e ajus­tam novas ideias até encon­trarem o encaixe per­feito entre pro­du­to e mer­ca­do usan­do méto­dos como o agile e o lean. Ess­es rótu­los tam­bém descrevem bem as fas­es da ino­vação: explo­ração, nive­lação e otimiza­ção.

Como cri­ar uma trans­fer­ên­cia mais flu­i­da entre as equipes? Exis­tem qua­tro mod­e­los bási­cos e dezenas de híbri­dos. O cor­re­to para cada parte de seu port­fólio de ino­vação vai depen­der da medi­da em que os seus pro­je­tos pre­cisam estar inte­gra­dos com sua ativi­dade prin­ci­pal.

O Manual de Instruções

Essa é ao mes­mo tem­po a trans­fer­ên­cia mais comum e a mais difí­cil de ser exe­cu­ta­da. Após meses — às vezes anos — de tra­bal­ho, a equipe de ino­vação doc­u­men­ta seu tra­bal­ho de maneira exten­sa, em cen­te­nas de slides, planil­has e out­ros arquiv­os e, então, entregam tudo isso para que a out­ra equipe exe­cute. Qual foi a últi­ma vez que você leu um man­u­al de instruções? Exata­mente. Você só con­sul­ta o man­u­al em um momen­to de pâni­co, quan­do algu­ma coisa que­bra. Nesse mod­e­lo, uma assus­ta­do­ra parte do tra­bal­ho de ino­vação é ape­nas fol­hea­da e esque­ci­da. Em segui­da, a nova equipe se arrisca a con­tin­uar o pro­je­to sem ter absorvi­do o con­hec­i­men­to de seus pre­de­ces­sores. Este mod­e­lo fun­ciona mel­hor quan­do não há mais incertezas no desafio, quan­do o pro­je­to está pron­to para ser imple­men­ta­do por equipes téc­ni­cas e quan­do o man­u­al pode ser divi­di­do em capí­tu­los pequenos, especí­fi­cos e aplicáveis a cada uma das partes envolvi­das.

O Arquiteto

A mel­hor maneira de evi­tar a que­da é elim­i­nar o abis­mo. Neste mod­e­lo, o futuro deten­tor do pro­je­to é incor­po­ra­do às equipes explo­rado­ras e nive­lado­ras. Então, essa pes­soa pas­sa a agir como um conec­tor, já con­hecen­do todas a vias explo­radas e todo o con­hec­i­men­to adquiri­do. É um mod­e­lo forte para setores como o de mer­cado­rias embal­adas, em que uma pes­soa, como o ger­ente da mar­ca, é respon­sáv­el pelo desen­volvi­men­to do pro­du­to do iní­cio ao fim. Emb­o­ra o Arquite­to pos­sa não estar lid­eran­do o pro­je­to em todas as fas­es, pre­cis­ará dar sua aprovação final ao tra­bal­ho da equipe. Se não acred­i­tar no pro­je­to, acabará pon­do um fim ao con­ceito.

Os Embaixadores

É sim­i­lar ao mod­e­lo ante­ri­or. Neste, os mem­bros das equipes explo­rado­ra, nive­lado­ra e otimizado­ra são incor­po­ra­dos a todas as fas­es do pro­je­to para asse­gu­rar que nen­hum con­hec­i­men­to seja per­di­do, e que cada fase seja defini­da para que o pro­je­to passe de for­ma flu­i­da de uma para a out­ra. Além dis­so, esse mod­e­lo mel­ho­ra o tra­bal­ho futuro das equipes de ino­vação, aju­dan­do-as a ter con­sciên­cia daqui­lo que as equipes mais pre­cisam no proces­so que vai da cri­ação à final­iza­ção do pro­du­to. Esse mod­e­lo é mais comum nas equipes de desen­volvi­men­to de soft­wares, em que o design­er UX (Exper­iên­cia do Usuário, na sigla em inglês) pode estar envolvi­do tan­to na pesquisa ini­cial de usuários quan­to na gestão a lon­go pra­zo do pro­du­to.

A Colmeia

Neste mod­e­lo, equipes mul­ti­dis­ci­pli­nares enfrentam desafios ao lon­go de todo o ciclo de vida da ini­cia­ti­va. É o mais comum nas acel­er­ado­ras e incubado­ras, em que uma nova orga­ni­za­ção é esta­b­ele­ci­da como um micro­cos­mos de uma matriz e com­pos­ta por pes­soas de todas as funções e dis­ci­plinas mais impor­tantes. Equipes Colmeia tam­bém têm rep­re­sen­tantes de funções que nor­mal­mente agem como anti­cor­pos empre­sari­ais, como jurídi­ca, finan­ceira, RH e com­pli­ance. A Colmeia faz com que essas funções de pro­teção mudem a pos­tu­ra de elim­i­nar riscos para a de reduzi-los — de diz­er “não” para “não, mas…”.

Além do Man­u­al de Instruções, todos os out­ros mod­e­los de trans­fer­ên­cia trazem as equipes de imple­men­tação para par­tic­i­par de todo o proces­so de ino­vação, de for­ma a trans­ferir con­hec­i­men­to sem obstácu­los. Essa medi­da reduz a sen­sação de que a nova ideia não foi inven­ta­da ali, e faz com que a trans­fer­ên­cia seja menos pare­ci­da com ten­tar beber água de uma mangueira de incên­dio e mais com tomar pequenos goles de cada vez.

Por Joe Brown

Posts Similares