O que a tecnologia Blockchain não faz

O que a tecnologia Blockchain não faz

A tec­nolo­gia blockchain tem o poten­cial para faz­er coisas incríveis. Ela pode fornecer um reg­istro de mon­i­tora­men­to dig­i­tal e imutáv­el de transações; ser usa­da para val­i­dar a baixo cus­to a inte­gri­dade dos dados; e aju­dar empre­sas e pes­soas físi­cas a con­cor­darem, em nív­el mundi­al, com a real situ­ação do mer­ca­do sem depen­der de um inter­mediário caro.

Isso é alcança­do por meio de uma inteligente com­bi­nação de incen­tivos econômi­cos e crip­tografia, e garante que, a qual­quer momen­to, reg­istros dig­i­tais rev­elem o ver­dadeiro “con­sen­so” entre as prin­ci­pais partes envolvi­das. Quan­do se tra­ta de com­par­til­har os reg­istros e meios finan­ceiros dig­i­tais, o blockchain pode sub­sti­tuir a neces­si­dade de con­fi­ança entre as partes, ou a neces­si­dade de uma autori­dade cen­tral para val­i­dar e asse­gu­rar os reg­istros de transações.

Con­tu­do, ao avaliar os mod­e­los de negó­cio do blockchain, é inter­es­sante enten­der o que a tec­nolo­gia não pode faz­er.

Pense no prob­le­ma de ras­trear bebês den­tro de uma ala hos­pi­ta­lar ou além dela. Isso é um prob­le­ma serís­si­mo. As con­se­quên­cias de um bebê ser con­fun­di­do com out­ro podem ser muito graves. Por­tan­to, uma grande final­i­dade da tec­nolo­gia blockchain é a pos­si­bil­i­dade de armazenar os reg­istros com a local­iza­ção atu­al de um bebê de for­ma que ess­es dados sejam imutáveis e val­i­da­dos.

Porém, há um grande prob­le­ma ao uti­lizar o blockchain para resolver esse tipo de questão. Os reg­istros dig­i­tais podem ser imutáveis e val­i­da­dos, mas como alguém sabe qual reg­istro dig­i­tal está lig­a­do a qual bebê? Para vin­cu­lar uma entra­da no blockchain a um bebê de ver­dade, pre­cisamos fornecer-lhe um iden­ti­fi­cador físi­co com uma eti­que­ta físi­ca ou, em um mun­do mais futur­ista, um pequeno chip ou reg­istro de geno­ma dig­i­tal que ligue o bebê ao seu reg­istro dig­i­tal. E é nesse pon­to que o blockchain fal­ha. Ela não con­segue aju­dar nesse proces­so, e não con­segue val­i­dar se o pas­so mais impor­tante da ver­i­fi­cação está acon­te­cen­do cor­re­ta­mente.

Na inter­face entre o mun­do off-line e sua rep­re­sen­tação dig­i­tal, a util­i­dade da tec­nolo­gia ain­da depende forte­mente de inter­mediários con­fiáveis para que a “últi­ma mil­ha” seja de fato ven­ci­da entre um reg­is­to dig­i­tal e uma pes­soa físi­ca, empre­sa, dis­pos­i­ti­vo ou even­to. Em nos­so exem­p­lo, a tec­nolo­gia teria que con­fi­ar nos seres humanos para faz­er a cor­re­ta e inequívo­ca cor­re­spondên­cia entre o bebê e o reg­istro dig­i­tal. Se eles errarem ou manip­u­larem os dados inseri­dos em um sis­tema em que se acred­i­ta que os reg­istros são ínte­gros a pos­te­ri­ori, isso pode ter con­se­quên­cias muito graves.

Por um lado, se a relação entre uma pes­soa e seu pron­tuário médi­co é esta­b­ele­ci­da com suces­so e o prob­le­ma da últi­ma mil­ha é resolvi­do, então o blockchain pode não ape­nas ser usa­do para asse­gu­rar a inte­gri­dade dos dados, mas tam­bém para dar con­t­role às pes­soas sobre como suas infor­mações médi­cas são uti­lizadas (para uma pesquisa acadêmi­ca, um aplica­ti­vo de ativi­dades físi­cas ou o desen­volvi­men­to de medica­men­tos, por exem­p­lo).

Há out­ros exem­p­los semel­hantes. Den­tro do mar­ket­ing, uma questão que muitas vezes surge é a de um teste de mer­ca­do pago por um anun­ciante que pode não com­bi­nar com o públi­co alvo a que se des­ti­na. O anun­ciante pode pen­sar que está pagan­do para exibir um anún­cio de uma Lam­borgh­i­ni para um homem de trin­ta anos, mas, na ver­dade, o anún­cio pode ser exibido para um pro­fes­sor uni­ver­sitário que dirige uma mini­van e que não pre­tende com­prar out­ro car­ro para os fil­hos destruírem, mas que gos­ta de son­har com um car­ro novo. Ou, até pior, o anún­cio pode ser vis­to por um robô. A tec­nolo­gia blockchain pode ras­trear qual iden­ti­fi­cador dig­i­tal está asso­ci­a­do aos espec­ta­dores de um anún­cio, mas não con­segue ver­i­ficar se é de fato uma pes­soa ou se é genuí­na a intenção de com­pra. Con­ferir quem real­mente está por trás do iden­ti­fi­cador dig­i­tal requer uma val­i­dação off-line. Con­ferir a seriedade de aparentes intenções de com­pra talvez este­ja além de qual­quer tec­nolo­gia que pos­suí­mos hoje.

Mas, pelo lado pos­i­ti­vo, a tec­nolo­gia blockchain pode ser usa­da para mudar o rela­ciona­men­to entre cri­adores de con­teú­do dig­i­tal, anun­ciantes e con­sum­i­dores. Anun­ciantes podem rec­om­pen­sar os usuários por sua atenção, dan­do-lhes aces­so a con­teú­do online exclu­si­vo pelo qual teri­am que pagar. Cri­adores de con­teú­do podem explo­rar novos mod­e­los de mon­e­ti­za­ção usan­do recur­sos do blockchain para realizar transações mel­hores a baixo cus­to. Emb­o­ra os con­sum­i­dores odeiem micropaga­men­tos por causa da dor de cabeça que eles causam — micropaga­men­tos são como um detestáv­el “taxímetro” na cabeça do con­sum­i­dor — isso pode­ria refor­mu­lar como os pay­walls e as assi­nat­uras fun­cionam nos basti­dores de difer­entes domínios dig­i­tais. Além dis­so, se não esta­mos pre­ocu­pa­dos com a val­i­dação humana no teste de mer­ca­do, mas, em vez dis­so, quer­e­mos garan­tir o domínio dos reg­istros dig­i­tais, como os dados de nave­g­ação, então o blockchain pode fun­cionar per­feita­mente. Uma das questões que enfrenta­mos con­stan­te­mente para definir os aspec­tos econômi­cos da vida pri­va­da é o prob­le­ma de dire­itos de pro­priedade sobre os dados. E o blockchain está per­feita­mente posi­ciona­da para defi­ni-los.

À medi­da que o ecos­sis­tema em torno da tec­nolo­gia blockchain se desen­volve, surgem novos tipos de inter­mediários que trans­for­mam o prob­le­ma da últi­ma mil­ha, de man­ter os reg­istros dig­i­tais em sin­cro­nia com seus equiv­a­lentes off-line, em opor­tu­nidades reais de negó­cio. Enquan­to a tec­nolo­gia está em fase ini­cial, à medi­da que ess­es com­ple­men­tos prin­ci­pais são aper­feiçoa­d­os, o blockchain tem o poten­cial de refor­mu­lar as bases do domínio dos dados dig­i­tais e das platafor­mas dig­i­tais que usamos diari­a­mente.

Por Cather­ine Tuck­er e Chris­t­ian Catal­i­ni

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