Fluxo de dados e protecionismo digital: os perigos emergentes

Fluxo de dados e protecionismo digital: os perigos emergentes

Hoje, muitos gov­er­nos estão repen­san­do suas políti­cas em relação aos flux­os de dados trans­fron­teir­iços. Emb­o­ra ten­ham cresci­do 45 vezes entre 2005 e 2014, de acor­do com uma análise da McK­in­sey, even­tos a par­tir de 2014 se dis­tan­cia­ram da irrestri­ta glob­al­iza­ção de dados.

Alguns leg­is­ladores estão pre­ocu­pa­dos com os dire­itos indi­vid­u­ais de pri­vaci­dade, com os dire­itos dos con­sum­i­dores em relação à pro­priedade dos dados, com a apli­cação da lei domés­ti­ca e com a segu­rança cibernéti­ca. Out­ros são movi­dos pelo dese­jo de con­tro­lar ou cen­surar a mídia online. Out­ros ain­da esper­am cri­ar bar­reiras de mer­ca­do para empre­sas globais — uma for­ma de pro­te­cionis­mo dig­i­tal.

Acred­i­ta­mos que o exces­so de reg­u­la­men­tação cri­ará, de fato, ilhas de dados, o que, por sua vez, impedirá que os cidadãos e os con­sum­i­dores nelas pre­sos, tirem proveito dos muitos bene­fí­cios de links mais estre­itos à econo­mia dig­i­tal glob­al. Ess­es incluem o aces­so a bens e serviços dig­i­tais, a par­tic­i­pação de cadeias globais de fornec­i­men­to, a acel­er­ação e par­tic­i­pação dos fru­tos da ino­vação e a aju­da aos cidadãos a aces­sar infor­mações, entreten­i­men­to e a conec­tivi­dade ao redor do mun­do.

Os dados estão se desglobalizando

Muitos gov­er­nos começaram a ques­tionar os méri­tos do tipo de abor­dagem irrestri­ta favore­ci­da pelos Esta­dos Unidos. Alguns, como o da Chi­na e o da Rús­sia, restringem a trans­fer­ên­cia da maio­r­ia dos tipos de dados. Por exem­p­lo, a Lei de Ciberse­gu­rança chi­ne­sa, em vig­or des­de o ano pas­sa­do, exige que infor­mações pes­soais e out­ros dados impor­tantes sejam armazena­dos den­tro do próprio país.

Emb­o­ra a abor­dagem chi­ne­sa per­maneça con­tro­ver­sa mes­mo den­tro da Chi­na, out­ros gov­er­nos tam­bém estão impon­do diver­sos tipos de bar­reiras aos flux­os de dados trans­fron­teir­iços. O mais rel­e­vante deles é o Reg­u­la­men­to Ger­al de Pro­teção de Dados da União Europeia (RGPD) que entrou em vig­or em 25 de maio de 2018. Com o obje­ti­vo de for­t­ale­cer a capaci­dade dos res­i­dentes da UE de pro­te­ger suas infor­mações pes­soais, per­mite trans­fer­ên­cias de dados ape­nas para país­es con­sid­er­a­dos bons pro­te­tores de dados. Per­mitem-se exceções sob algu­mas condições como, por exem­p­lo, no con­tex­to de regras cor­po­ra­ti­vas vin­cu­lantes e exe­cutáveis.

Na Índia, onde o número de paga­men­tos dig­i­tais cresce mais de 30% ao ano, o ban­co cen­tral deter­mi­nou que os facil­i­ta­dores de paga­men­to dig­i­tal garan­tis­sem que todos os dados de paga­men­to fos­sem armazena­dos ape­nas em servi­dores den­tro do próprio país. Além dis­so, inspi­ra­da no RGPD, uma força-tare­fa do gov­er­no recen­te­mente apre­sen­tou o esboço de uma Lei de Pro­teção de Dados Pes­soais mais ampla. Emb­o­ra pro­pon­ha que uma cópia da maio­r­ia dos tipos de dados pes­soais seja man­ti­da em servi­dores da Índia, o pro­je­to de lei deixa encar­rega o gov­er­no da decisão sobre os dados que não poderão, de for­ma algu­ma, ser trans­feri­dos para fora da nação. O pro­je­to de lei ger­ou mui­ta con­tro­vér­sia, e até pre­ocu­pações em algu­mas gigantes globais da tec­nolo­gia, como, a indi­ana Nass­com (Asso­ci­ação Nacional de Empre­sas de Soft­ware e Serviços).

O que os formuladores de políticas devem levar em consideração

Em vez de extremos como, ilhas de dados ou glob­al­iza­ção irrestri­ta de dados, os for­mu­ladores de políti­cas devem bus­car soluções com mais nuances. Essas soluções estão na inter­seção do desen­volvi­men­to de tec­nolo­gia pelas empre­sas e na for­mu­lação de políti­cas pelo gov­er­no.

Em primeiro lugar, os leg­is­ladores pre­cisam ado­tar uma abor­dagem basea­da no risco. Os flux­os de dados extrema­mente sen­síveis podem pre­cis­ar ser rig­orosa­mente con­tro­la­dos. Tais dados incluiri­am a maio­r­ia dos tipos de infor­mações pes­soais, incluin­do gênero, ori­en­tação sex­u­al, históri­co de saúde, ori­en­tação políti­ca e afins, e neles bits especí­fi­cos estão ou podem estar conec­ta­dos a infor­mações de iden­ti­fi­cação pes­soal. Para tais dados, os riscos de com­par­til­hamen­to entre fron­teiras exce­dem em muito quais­quer bene­fí­cios prováveis. No out­ro extremo, é mel­hor que per­maneçam irrestri­tos flux­os trans­fron­teir­iços de cer­tos tipos de dados pri­va­dos ou públi­cos, como a pro­dução de poços para um pro­du­tor glob­al de petróleo ou estatís­ti­cas anôn­i­mas agre­gadas, por exem­p­lo. Para ess­es tipos, os bene­fí­cios do com­par­til­hamen­to trans­fron­teir­iço exce­dem em muito quais­quer riscos prováveis.

Em segun­do lugar, um mod­e­lo de ecos­sis­tema “fed­er­a­do” pode ser viáv­el nos casos em que, emb­o­ra os dados sejam alta­mente con­fi­den­ci­ais, os bene­fí­cios de seu com­par­til­hamen­to sejam grandes. O Pro­je­to Bea­con, coman­da­do pela Aliança Glob­al para a Genomics and Health, ilus­tra como um mod­e­lo fed­er­a­do pode­ria fun­cionar: os con­jun­tos de dados ficam pro­te­gi­dos den­tro dos lim­ites nacionais, mas depen­den­do do nív­el de aces­so con­ce­di­do a uma orga­ni­za­ção, podem ser con­sul­ta­dos indi­vid­ual­mente ou em con­jun­to por meio da Rede Bea­con. O Fórum Econômi­co Mundi­al está coman­dan­do o pro­je­to Break­ing Bar­ri­ers para a Health Data, que implan­ta con­sul­tas de ban­cos de dados fed­er­a­dos para a trans­fer­ên­cia e proces­sa­men­to no âmbito da assistên­cia médi­ca.

Em ter­ceiro lugar, em alguns con­tex­tos, uma multi­na­cional pode ter per­mis­são para agre­gar dados globais com segu­rança, com a condição de que uma imagem espel­ha­da daque­les dados per­ten­centes aos res­i­dentes de um país seja local­mente armazena­da. O Min­istério das Finanças da Índia propôs essa abor­dagem ao ban­co cen­tral. O argu­men­to é que, difer­ente­mente da local­iza­ção rig­orosa de dados, uma abor­dagem de espel­hamen­to alcançaria mel­hor os dois obje­tivos – pos­si­bil­i­tan­do o aces­so do ban­co cen­tral aos dados de paga­men­to, – e, ao mes­mo tem­po, per­mitin­do que os indi­anos se ben­e­fi­ci­assem da inte­gração ao setor de fin­tech glob­al.

Em quar­to lugar, faz­er com que flux­os de dados sem restrições, con­stem dos acor­dos com­er­ci­ais region­ais. O TPP 11 (o anti­go TPP menos os EUA) inclui lin­guagem explíci­ta e vin­cu­lante para flux­os trans­fron­teir­iços. As nego­ci­ações em cur­so do NAFTA tam­bém incluem dis­posições para o livre fluxo de dados. A UE tam­bém está tra­bal­han­do em novos pre­ceitos a serem incor­po­radas em todos os pactos com­er­ci­ais futur­os, com o obje­ti­vo de atin­gir um equi­líbrio entre o dire­ito à pro­teção de dados e o livre comér­cio dig­i­tal.

Em quin­to, desen­volver nor­mas e princí­pios não vin­cu­lantes em con­tex­tos nos quais os acor­dos com­er­ci­ais dig­i­tais não exis­tem e são improváveis no futuro próx­i­mo, deixan­do a imple­men­tação para os gov­er­nos nacionais. Padrões con­tábeis globais evoluíram por meio desse proces­so. As Nor­mas Inter­na­cionais de Rela­to Finan­ceiro, desen­volvi­das por meio de uma abor­dagem basea­da em princí­pios, são seguidas por mais de 100 país­es. Em con­traste, os EUA seguem os Princí­pios Con­tábeis Geral­mente Aceitos (GAAP), desen­volvi­dos por meio de uma abor­dagem basea­da em regras. Lenta, mas fir­mente, os dois con­jun­tos de padrões estão con­vergin­do. Uma abor­dagem bot­tom-up semel­hante pode­ria desem­pen­har um papel na gov­er­nança dos flux­os trans­fron­teir­iços de dados.

A região da Coop­er­ação Econômi­ca Ásia-Pací­fi­co (APEC), com­pos­ta por 27 país­es, incluin­do os Esta­dos Unidos, ilus­tra o poten­cial para uma abor­dagem bot­tom-up. Essa região desen­volveu recen­te­mente o sis­tema de Regras de Pri­vaci­dade Trans­fron­teir­iça, uma estru­tu­ra basea­da em princí­pios, com o obje­ti­vo de garan­tir maior pro­teção à pri­vaci­dade, bem como maiores flux­os de dados que podem ser aciona­dos na ausên­cia de uma estru­tu­ra.

Em últi­mo lugar, mas de igual importân­cia, é o fato de à medi­da que a tec­nolo­gia blockchain se tornar mais ampla­mente imple­men­ta­da, pode sus­ten­tar alguns tipos de flux­os trans­fron­teir­iços de dados. O blockchain garante segu­rança, é à pro­va de fal­si­fi­cação e per­mite o ras­trea­men­to de todas as transações. As empre­sas estão adotan­do rap­i­da­mente esse tipo de tec­nolo­gia para armazena­men­to e com­par­til­hamen­to de dados da cadeia de supri­men­tos glob­al. Por exem­p­lo, alguns empreende­dores começaram a desen­volver reg­istros basea­d­os em blockchain de cada dia­mante cer­ti­fi­ca­do no mun­do, per­mitin­do assim o ras­trea­men­to com­ple­to da movi­men­tação de uma pedra des­de a mina até o con­sum­i­dor. Esse mod­e­lo depende de um sis­tema de con­tabil­i­dade dis­tribuí­do que é imutáv­el e per­ma­nente, e regras para pro­te­ger os dados pes­soais vão se tornar essen­ci­ais para desen­volver tais soluções.

À medi­da que todos os negó­cios se tor­nam negó­cios de dados, o futuro da glob­al­iza­ção apoia-se cada vez mais em flux­os trans­fron­teir­iços, em vez de bens. Em vista dos grandes e cres­centes bene­fí­cios da glob­al­iza­ção dig­i­tal, esse é um desen­volvi­men­to bem-vin­do. No entan­to, pre­ocu­pações vál­i­das sobre os riscos à pri­vaci­dade indi­vid­ual e à segu­rança nacional não podem ser descar­tadas. Em vez de uma abor­dagem rad­i­cal de tudo ou nada, soluções mais sutis provavel­mente serão as ideais.

Nota dos autores: Os pon­tos de vista e opiniões expres­sos neste arti­go são de respon­s­abil­i­dade exclu­si­va dos autores e não do Fórum Econômi­co Mundi­al ou da Uni­ver­si­ty of Mary­land em Col­lege Park.

Por Anil Gup­ta

Posts Similares