Governo que não se digitalizar, não será mais governo

Governo que não se digitalizar, não será mais governo

O que é o blockchain? Para Ronal­do Lemos, advo­ga­do espe­cial­ista em tec­nolo­gia, mídia e pro­priedade int­elec­tu­al, é “a mel­hor tec­nolo­gia antiburo­c­ra­cia que já inven­ta­mos”. Nada mal, cer­to? “É um ban­co de dados imutáv­el para reg­is­trar infor­mações, entre elas as moedas”, diz, lem­bran­do que a tec­nolo­gia foi cri­a­da orig­i­nal­mente como meio de tro­ca. Durante a pre­mi­ação Época NEGÓCIOS 360°, que acon­te­ceu nes­ta quar­ta-feira (24/10), em São Paulo, Lemos deba­teu com Guil­herme Horn, dire­tor exec­u­ti­vo de ino­vação da Accen­ture para a Améri­ca Lati­na, sobre blockchain, uma das tec­nolo­gias mais rev­olu­cionárias da atu­al­i­dade.

Para Guil­herme Horn, “Satoshi Nakamo­to” – pseudônomo do anôn­i­mo cri­ador da bit­coin, “não tin­ha ideia do que esta­va crian­do” quan­do pub­li­cou um paper descreven­do a tec­nolo­gia por trás da moe­da vir­tu­al. Horn desta­ca que ape­sar de o blockchain ter sido inven­ta­do com foco no mer­ca­do finan­ceiro, a tec­nolo­gia tem apli­cações em muitos out­ros setores, como saúde, agronegó­cio, comér­cio inter­na­cional e vare­jo.

“Hoje, há 85 provas con­ceito sendo rodadas em blockchain no mun­do, e ape­nas 30% delas são apli­cações para o mer­ca­do finan­ceiro”, diz o dire­tor-exec­u­ti­vo da Accen­ture. Essa tec­nolo­gia, afir­ma, tem apli­cações em todos os setores em que há lon­gas cadeias de fornec­i­men­to e fal­ta de con­fi­ança entre as partes. É pos­sív­el, por exem­p­lo, ras­trear uma semente usa­da em um ali­men­to. “As múlti­plas partes daque­la cadeia inserem os dados, e é a própria rede que val­i­da as infor­mações”.

Ronal­do Lemos lem­brou da Oper­ação Carne Fra­ca, que teve iní­cio em março de 2017 e envolveu frig­orí­fi­cos e fis­cais do Min­istério da Agri­cul­tura e Pecuária. “Com o blockchain, con­seguiríamos saber onde cada ani­mal foi abati­do, por qual frig­ori­fi­co, qual cam­in­hão trans­portou, onde fis­cal deu selo de inspeção e qual foi o fis­cal. Poderíamos colo­car um códi­go QR na embal­agem, e o con­sum­i­dor, no super­me­r­ca­do, pode­ria checar a cadeia inteira”, diz Lemos. Essa cer­ti­fi­cação, afir­ma o advo­ga­do, seria fun­da­men­tal para o agronegó­cio brasileiro, que hoje enfrenta a con­cor­rên­cia de país­es como Aus­trália e Nova Zelân­dia, empen­hados em desen­volver tec­nolo­gia para asse­gu­rar a origem dos ani­mais.

Para Horn, um dos desafios à imple­men­tação do blockchain não é ape­nas o inves­ti­men­to, mas uma mudança na cul­tura. “Pre­cisamos inve­stir nas pes­soas, a gente não foi treina­do para con­fi­ar nos dados”, afir­ma.

A primeira vez em que Lemos ouviu falar em blockchain foi em 2011, quan­do era pro­fes­sor vis­i­tante na Uni­ver­si­dade Prince­ton. “Na época, um bit­coin cus­ta­va US$ 3, e eu não com­prei porque achei muito caro”, afir­ma, lem­bran­do que a cotação alcançou US$ 18 mil no ano pas­sa­do. No entan­to, ele diz acred­i­tar que a mel­hor apli­cação do blockchain não é no mer­ca­do finan­ceiro: é na gov­er­nança e em serviços públi­cos.

“Todo gov­er­no vai se trans­for­mar em platafor­ma dig­i­tal. Gov­er­no que não se dig­i­talizar, não será mais gov­er­no”, diz. “O poten­cial de trans­for­mação para o Esta­do é muito impor­tante”. Segun­do Ronal­do Lemos, Índia, Estô­nia e Canadá lid­er­am a cri­ação de mecan­is­mos dig­i­tais.

No Brasil, con­tu­do, os desafios para essa dig­i­tal­iza­ção são grandes. O advo­ga­do diz estar tra­bal­han­do atual­mente no mapea­men­to de silos de infor­mação do gov­er­no, como Caixa e Dat­aPrev. “Um ban­co de dados não con­ver­sa com o out­ro, uma infor­mação não é com­patív­el com a out­ra”, comen­ta.

Guil­herme Horn afir­ma que out­ro desafio é a fal­ta de con­hec­i­men­to sobre a tec­nolo­gia. “O paper que criou o bit­coin tem oito pági­nas e é super anárquico, fala sobre uma moe­da que não tem nem val­i­dação de um ban­co cen­tral e nem de um gov­er­no. Mas não pre­cisa ser nada dis­so, é pos­sív­el imple­men­tar essa tec­nolo­gia den­tro do gov­er­no, o gov­er­no pas­sa a ser via­bi­lizador”. Horn diz estar otimista quan­to aos avanços no Brasil. Ele lem­bra que o Ban­co Cen­tral já real­i­zou dez testes envol­ven­do blockchain.

Fake news

Ronal­do Lemos afir­mou que o blockchain é vis­to tam­bém como uma das pos­síveis soluções con­tra fake news – notí­cias fal­sas espal­hadas nas redes soci­ais, que fre­quente­mente envolvem alter­ação de ima­gens. “Toda foto pode ter sua aut­en­ti­ci­dade cer­ti­fi­ca­da por blockchain. Seria como um carim­bo de real­i­dade, dizen­do que a imagem foi cap­ta­da dire­to da real­i­dade, sem alter­ação”, expli­ca.

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