Empresas estão banindo o e‑mail para produzir mais

Empresas estão banindo o e-mail para produzir mais

Temos uma relação de amor e ódio com e‑mails. Por um lado, envi­amos mais de 108 bil­hões de men­sagens de e‑mail todos os dias. Por out­ro, a maio­r­ia das pes­soas detes­ta se deparar com uma caixa de entra­da cheia. O e‑mail ocu­pa, em média, 23% do tem­po do empre­ga­do, sendo que esse empre­ga­do envia ou recebe uma média de 112 e‑mails por dia.

Diante dessas estatís­ti­cas, você começa a ver o e‑mail como uma nova for­ma de poluição do con­hec­i­men­to. Na ver­dade, essa é exata­mente a con­clusão a que Thier­ry Bre­ton, CEO da empre­sa de serviços de tec­nolo­gia da infor­mação Atos Ori­gin, com sede na França, chegou há vários anos.

Bre­ton notou que seus fun­cionários pare­ci­am con­stan­te­mente dis­traí­dos pelo fluxo de e‑mails rece­bidos a cada dia. Então, tomou medi­das para elim­i­nar o que acred­i­ta­va ser um efeito neg­a­ti­vo sobre a pro­du­tivi­dade da empre­sa.

Em fevereiro de 2011, Bre­ton anun­ciou que o e‑mail esta­va proibido. No pra­zo de três anos, ele que­ria a Atos sendo uma empre­sa “e‑mail zero”. “Esta­mos pro­duzin­do dados em grande escala que estão poluin­do rap­i­da­mente nos­sos ambi­entes de tra­bal­ho, e invadin­do, tam­bém, nos­sas vidas pes­soais”, Bre­ton disse em um comu­ni­ca­do públi­co divul­ga­do através do site da Atos. “Esta­mos toman­do medi­das ago­ra para invert­er esta tendên­cia, assim como as orga­ni­za­ções tomaram medi­das para reduzir a poluição ambi­en­tal após a rev­olução indus­tri­al.”

Essa afir­mação parece ser sur­preen­dente, vin­do do CEO de uma empre­sa de tec­nolo­gia empre­gado­ra de mais de 70.000 pes­soas em mais de quarenta escritórios ao redor do mun­do. Mas talvez não seja tão sur­preen­dente assim. Como escrevi em meu novo livro, Under new man­age­ment (Houghton Mif­flin Har­court, 2016), um número cres­cente de líderes empre­sari­ais estão proibindo ou pelo menos restringin­do o e‑mail. E, como resul­ta­do, estão pro­duzin­do mais.

O próprio Bre­ton havia ado­ta­do uma filosofia de e‑mail zero bem antes proibir seu uso na Atos. Ele havia para­do de usar e‑mail inter­no quase cin­co anos antes, por achar que atra­pal­ha­va sua pro­du­tivi­dade. Ape­sar de seu pen­sa­men­to aparente­mente rad­i­cal sobre o e‑mail, Bre­ton não é exata­mente o mod­e­lo de um fun­dador de start­up indômi­to, tes­tando novas for­mas extrav­a­gantes de tra­bal­har. Ele é um homem de meia idade, ex-min­istro de finan­cia­men­to da França e ex-pro­fes­sor da Har­vard Busi­ness School.

Pelo seu enorme taman­ho, a proibição do e‑mail na Atos parece ser algo inviáv­el, mas, para Bre­ton, era jus­ta­mente o taman­ho da empre­sa o moti­vo para o gar­ga­lo na comu­ni­cação. Claro, Atos não proibiu a comu­ni­cação eletrôni­ca por com­ple­to. Em vez dis­so, a empre­sa con­stru­iu uma rede social cor­po­ra­ti­va. Eles orga­ni­zaram a rede em cer­ca de 7.500 comu­nidades aber­tas, que rep­re­sen­tam os vários pro­je­tos que pre­cisavam de colab­o­ração. As con­ver­sas, porém, não inter­rompem os fun­cionários auto­mati­ca­mente, por meio de uma noti­fi­cação sono­ra. Em vez dis­so, os fun­cionários podem optar por entrar na dis­cussão em seus próprios ter­mos e de acor­do com sua agen­da.

Emb­o­ra a Atos ain­da não ten­ha chega­do a 0% de e‑mails, os esforços de redução estão fun­cio­nan­do. A empre­sa reduz­iu o e‑mail glob­al em 60%, pas­san­do de uma média de 100 e‑mails por sem­ana por empre­ga­do para menos de 40. A margem opera­cional da Atos aumen­tou de 6,5 % para 7,5 % em 2013, o lucro por ação subiu mais de 50%, e os cus­tos admin­is­tra­tivos dimin­uíram de 13 para 10%. Obvi­a­mente, nem todas essas mel­ho­rias foram resul­ta­do da proibição de e‑mail, mas a cor­re­lação cer­ta­mente é sig­ni­fica­ti­va, fato con­fir­ma­do por um con­jun­to cres­cente de pesquisas sobre os efeitos do e‑mail.

As pesquisas sug­erem que proibir ou restringir e‑mails pode aumen­tar dras­ti­ca­mente a pro­du­tivi­dade indi­vid­ual e reduzir o estresse. Pesquisadores da Uni­ver­si­ty of Cal­i­for­nia, Irvine, e do Exérci­to dos EUA, cor­taram o uso de e‑mail de treze fun­cionários civis e medi­ram os efeitos sobre a pro­du­tivi­dade e o estresse. Primeiro, os pesquisadores acom­pan­haram os par­tic­i­pantes por um perío­do ini­cial de três dias, em que eles foram entre­vis­ta­dos e obser­va­dos tan­to pres­en­cial­mente quan­to com um soft­ware de mon­i­tor­iza­ção de com­puta­dor para ver­i­ficar os pro­gra­mas que usavam, quan­tas vezes, e com que fre­quên­cia seu tra­bal­ho era inter­rompi­do. Eles ain­da medi­ram os bati­men­tos cardía­cos dos par­tic­i­pantes (como um indi­cador de nív­el de estresse). Em segui­da, desati­varam o e‑mail dos par­tic­i­pantes, por meio de um fil­tro que arqui­va todas as men­sagens rece­bidas para leitu­ra pos­te­ri­or e desli­ga todas as noti­fi­cações.

Eles man­tiver­am a condição “sem e‑mail” durante cin­co dias, e con­tin­uaram a obser­var os par­tic­i­pantes, mon­i­torar seu uso do com­puta­dor, e medir seus bati­men­tos cardía­cos. Os par­tic­i­pantes começaram a se comu­nicar face a face e por tele­fone com mais fre­quên­cia. A maio­r­ia dos par­tic­i­pantes tam­bém pas­sou muito mais tem­po em cada pro­gra­ma de com­puta­dor que usavam, o que sug­e­ria que eles se dis­traíam menos. A jul­gar pelas taxas de bati­men­to cardía­co, os par­tic­i­pantes tam­bém tiver­am uma diminuição sig­ni­fica­ti­va do estresse quan­do pri­va­dos do e‑mail. Os próprios par­tic­i­pantes notaram esse efeito. Eles relataram, con­sis­ten­te­mente, que se sen­ti­am mais relax­ados e con­cen­tra­dos, e tam­bém mais pro­du­tivos, com o e‑mail desli­ga­do do que em condições nor­mais de tra­bal­ho.

Out­ros estu­dos sug­erem que ape­nas lim­i­tar a ver­i­fi­cação de e‑mail a um cer­to número de vezes por dia, ou checar a caixa de entra­da ape­nas em deter­mi­na­dos momen­tos, pode ter um efeito quase tão dramáti­co.

Toma­dos em con­jun­to, a exper­iên­cia da Atos e os resul­ta­dos dess­es estu­dos sug­erem que pre­cisamos refle­tir sobre quan­do e como envi­amos e‑mails. Limpar sua caixa de entra­da eletrôni­ca pode faz­er você se sen­tir ultra­pro­du­ti­vo, mas, a menos que sua função seja ape­nas apa­gar e‑mails, você provavel­mente está só enganan­do a si mes­mo.

Por David Burkus

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