Para proteger a cultura da empresa, são necessárias regras de uso do e‑mail

Para proteger a cultura da empresa, são necessárias regras de uso do e-mail

Uma nova pesquisa con­duzi­da pela Vir­gina Tech Uni­ver­si­ty com­pro­va o que quase todos os tra­bal­hadores do con­hec­i­men­to já sabem: aces­sar o e‑mail fora do expe­di­ente causa ansiedade, o que prej­u­di­ca não ape­nas a eles, mas tam­bém sua família.

Uma con­statação impres­sio­n­ante do estu­do é que não ape­nas o tem­po ded­i­ca­do à leitu­ra e respos­ta dos e‑mails fora do horário de tra­bal­ho estres­sa o fun­cionário (e seu côn­juge). Na ver­dade, o que causa mais ansiedade é a sim­ples expec­ta­ti­va de disponi­bil­i­dade para tra­bal­har fora do escritório.

Veja este exem­p­lo: uma gesto­ra não espera obter respos­ta a seus e‑mails fora do horário do expe­di­ente ou durante as férias de um sub­or­di­na­do, mas nun­ca deixa isso explíc­i­to.

Pelo con­trário, parte do princí­pio de que “todos estão cientes”, con­sideran­do assim que, no meio-tem­po, não have­ria mal algum em enviar men­sagens, que ficari­am mera­mente pen­dentes até o retorno do fun­cionário. Na real­i­dade, porém, o fun­cionário nem sabe dis­so, e aces­sa o e‑mail fora do horário de tra­bal­ho (às vezes por saber que out­ros fun­cionários tam­bém entram). Isso gera a expec­ta­ti­va de ver­i­ficar o e‑mail enquan­to está fora, e essa crença é reforça­da pelo fato de que a própria gesto­ra parece estar tra­bal­ha­do em todas as horas. A fal­ta de obje­tivi­dade e a difer­ença de suposições dão origem a uma cul­tura insalu­bre.

Isso con­diz per­feita­mente com min­ha visão de pro­du­tivi­dade, do pon­to de vista de palestrante e instru­to­ra — uma situ­ação tão ruim que prende o fun­cionário ao e‑mail durante o expe­di­ente, com­pli­can­do tare­fas mais rel­e­vantes — e mais pos­i­ti­vas. Sob a pressão de entrar no e‑mail mes­mo à noite, no fim de sem­ana e nas férias, há uma que­da de qual­i­dade no tra­bal­ho, já que o fun­cionário nun­ca tem a opor­tu­nidade de des­cansar e limpar a mente. Sem ter o tem­po necessário para um reequi­líbrio men­tal, tor­na-se menos cria­ti­vo, menos con­cen­tra­do e menos pon­der­a­do. Há uma sen­sação de estresse e dese­qui­líbrio — o que dá toda a margem para o esgo­ta­men­to.

O prob­le­ma apre­sen­ta três com­po­nentes:

1. Os fun­cionários cos­tu­mam ver­i­ficar o e‑mail o dia inteiro e não con­seguem “desati­var” esse com­por­ta­men­to só por já terem encer­ra­do o expe­di­ente.

2. Gestores não estão imunes ao item aci­ma, e tam­bém não estão con­scientes de suas expec­ta­ti­vas de comu­ni­cação depois do tra­bal­ho. As políti­cas implíc­i­tas e as práti­cas que per­me­iam a empre­sa decor­rem da con­du­ta dos gestores, mes­mo sem perce­ber a influên­cia dos próprios hábitos sobre a cul­tura.

3. Os fun­cionários enten­dem que, assim como os gestores ou out­ros fun­cionários da empre­sa estão man­dan­do e‑mails fora do horário, tam­bém devem man­dar.

Cada um dos com­po­nentes ali­men­ta os demais, o que cria um ciclo de acel­er­ação na empre­sa e con­duz a uma cul­tura propen­sa ao estresse e à ansiedade. Se você, como gestor, pas­sa por isso, poderá pro­te­ger os fun­cionários e suas famílias da ansiedade provo­ca­da pela expec­ta­ti­va de disponi­bil­i­dade fora do expe­di­ente. A solução dev­erá incluir os três com­po­nentes.

Primeiro, você pre­cisa esclare­cer suas expec­ta­ti­vas, que podem diver­gir imen­sa­mente do que os fun­cionários imag­i­nam ser, con­forme ilustra­do aci­ma.

Sem uma comu­ni­cação clara, restará aos fun­cionários pres­su­por o que você espera deles. Ao ser explíc­i­to, você deixa claras suas expec­ta­ti­vas, o que seria um favor a todos. Diga algo do tipo: “Jul­g­amos que o tem­po fora do tra­bal­ho é impor­tante, e esper­amos que vocês se desconectem do e‑mail empre­sar­i­al depois do expe­di­ente, aos fins de sem­ana e durante as férias. Caso sur­ja um assun­to rel­e­vante, entraremos em con­ta­to por tele­fone ou men­sagem de tex­to.”

O prin­ci­pal de uma noti­fi­cação desse tipo é que não ape­nas define expec­ta­ti­vas gerais — tais como a importân­cia de aproveitar o tem­po fora da empre­sa e de se desconec­tar — como tam­bém aju­da a definir expec­ta­ti­vas mais especí­fi­cas, como as for­mas ade­quadas de se comu­nicar e as cir­cun­stân­cias em que é necessário.

Min­ha recomen­dação é a de que você entre em mais detal­h­es: cri­ar dire­trizes de comu­ni­cação, trans­mi­ti-las clara­mente e cumpri-las, mes­mo durante o expe­di­ente. Indique os canais de comu­ni­cação apro­pri­a­dos para cada situ­ação. Por exem­p­lo, se no expe­di­ente a equipe cos­tu­ma enviar e‑mails ref­er­entes a questões urgentes ou com pra­zos, os fun­cionários nun­ca se sen­tirão à von­tade para fechar a janela de e‑mail e faz­er out­ros tra­bal­hos essen­ci­ais. Os fun­cionários pre­cisam ficar de olho no e‑mail o tem­po inteiro, o que desvia a atenção de out­ras tare­fas. Essa dis­tração con­stante prej­u­di­ca a con­cen­tração e os impede de apri­morar sua gestão de atenção, deixan­do a sen­sação de um dia ocu­pa­do mas não pro­du­ti­vo. O e‑mail não foi feito para ser uma comu­ni­cação ime­di­a­ta, e mes­mo que seja trata­do como tal, no fun­do é uma pés­si­ma ideia.

Em vez dis­so, informe os fun­cionários de que, em cir­cun­stân­cias que sejam urgentes ou exi­jam respos­ta ime­di­a­ta, você quer que enviem um SMS ou tele­fonem (da mes­ma for­ma que fora do expe­di­ente), ou resolvam pes­soal­mente. Deixe claro que o e‑mail deve ser usa­do ape­nas para pedi­dos de roti­na ou para comu­ni­cações que não exi­jam respos­ta ime­di­a­ta, seja qual for o dia ou o horário. Isso evi­tará o hábito de dis­trações con­stantes durante o expe­di­ente, e ameniza a neces­si­dade de entrar no e‑mail depois do tra­bal­ho. Sobre­tu­do, você mes­mo dev­erá dar o exem­p­lo de com­por­ta­men­to. Caso um fun­cionário envie um e‑mail com um pedi­do urgente, a úni­ca maneira de demon­strar seu posi­ciona­men­to é não ver o e‑mail na mes­ma hora, o que condi­ciona a equipe a uti­lizar um canal mais ade­qua­do.

Além das políti­cas de e‑mail e de pri­or­iza­ção de assun­tos urgentes ou com pra­zos, as dire­trizes de comu­ni­cação poderão incluir as expec­ta­ti­vas a respeito do propósi­to das reuniões, o mel­hor méto­do de uti­liza­ção de fer­ra­men­tas de gestão, tais como Asana, Base­camp ou Trel­lo, e as cir­cun­stân­cias em que os fun­cionários dev­erão empre­gar wikis ou fer­ra­men­tas de men­sagens, como Slack ou Twist. Essas especi­fi­cações pro­por­cionarão um número mais baixo de e‑mails que exi­jam respos­ta dos fun­cionários.

A clareza nas dire­trizes dará aos fun­cionários o espaço para se sen­tirem à von­tade para fechar a janela de e‑mail, ou ain­da uti­lizar a tec­nolo­gia a seu dis­por para dedicar toda a con­cen­tração a serviços impor­tantes, o que por vezes é chama­do de “deep work”, ou tra­bal­ho pro­fun­do.

Tudo isso impli­ca que o gestor pre­cisa mod­er­ar seus próprios hábitos de aces­sar e‑mails tarde da noite, e perce­ber os bene­fí­cios por si próprio. E ninguém, nem mes­mo o chefe, deve se ver obri­ga­do a ler e‑mail durante as férias. Se, na sua empre­sa, isso não pare­cer uma ideia viáv­el, é prováv­el que você ten­ha de lidar com prob­le­mas que não se resumem momen­tos de fol­ga.

À medi­da que põe em práti­ca essas alter­ações, você notará uma mudança na cul­tura do ambi­ente de tra­bal­ho. Ao ficar “sem­pre disponív­el” e conec­ta­do ao e‑mail 24 horas por dia, você pode até acred­i­tar que este­ja sendo pro­du­ti­vo. Porém, con­forme indi­ca­do pela pesquisa da Vir­ginia Tech, na ver­dade você está inten­si­f­i­can­do o estresse do fun­cionário e crian­do desavenças entre ele e a família, o que, em últi­ma instân­cia, leva a uma per­da de pro­du­tivi­dade. Não é um quadro sus­ten­táv­el para con­tratar e man­ter os mel­hores fun­cionários ou fomen­tar o êxi­to da empre­sa.

Por Mau­ra Thomas

Posts Similares