O designer Herman Miller resolver os dilemas do escritório do futuro

O designer Herman Miller resolver os dilemas do escritório do futuro

Quan­tas ino­vações uma cadeira pode car­regar? Design­ers da fab­ri­cante de móveis Her­man Miller vêm ten­tan­do respon­der a esta per­gun­ta há décadas. A primeira grande ino­vação da mar­ca cri­a­da em 1905 veio a par­tir de uma téc­ni­ca para moldar madeira com­pen­sa­da. A descober­ta do casal Charles e Ray Eames ger­ou uma prótese para ofi­ci­ais da mar­in­ha amer­i­cana e, em 1946, a cadeira que seria con­sid­er­a­da o mel­hor design do sécu­lo XX pela revista Time.

Ao lon­go das décadas seguintes, a Her­man Miller investiu no con­ceito de ergono­mia, criou uma cadeira que mit­i­ga o acú­mu­lo de calor, usou tec­nolo­gia para ger­ar flex­i­bil­i­dade e incli­nações que acom­pan­ham as vari­adas pos­turas de uma pes­soa que sen­ta oito horas (ou mais) por dia no escritório. Seu mod­e­lo de negó­cio envolve pesquis­ar tendên­cias com design­ers e uni­ver­si­dades e del­e­gar a fab­rição das cri­ações a uma rede de dis­tribuidores e par­ceiros. Depois, é a própria Her­man Miller quem mon­ta suas mobílias — a cadeira Eames, por exem­p­lo, é fei­ta até hoje de for­ma total­mente arte­sanal. Sem robôs ou automação. Cada para­fu­so é mon­ta­do por uma pes­soa.

Nos últi­mos anos, a mar­ca começou a usar big data para enten­der o futuro do open office. A empre­sa quer estar mais próx­i­ma dos mil­len­ni­als, ser menos luxo e mais “lifestyle” e, claro, pro­mover a sua própria trans­for­mação dig­i­tal.
O que ino­vação sig­nifi­ca para a Her­man Miller?

Ino­vação é pen­sar o que os out­ros não pen­sam. No nos­so negó­cio, envolve desco­brir mate­ri­ais e usar a cria­tivi­dade para resolver prob­le­mas que ninguém esta­va resol­ven­do. Ou nem sequer sabi­am que exis­ti­am. Ninguém se queix­a­va da questão tér­mi­ca de uma cadeira. O que a pesquisa da Her­man Miller mostrou é que há um descon­for­to cau­sa­do não só pela pressão dos ossos da pes­soa que sen­ta, como pelo acú­mu­lo de calor ger­a­do. Parte da ino­vação que troux­e­mos na nos­sa cadeira Aeron foi mit­i­gar esse calor [a cadeira é sem espuma, com uma pelícu­la que não retêm umi­dade nem calor do cor­po e que vendeu 7 mil­hões de unidades em sete país­es]. Pesquisamos, bus­camos tal­en­tos para cri­ar­mos algo que não seja ape­nas refer­ên­cia de mer­ca­do. É uma ati­tude que visa o lon­go pra­zo, que pen­sa naqui­lo que as out­ras pes­soas não estão pen­san­do e capaz de pro­duzir pro­du­tos que gerem uma nova exper­iên­cia.

Você defende que é pre­ciso usar­mos o design para resolver prob­le­mas. De que for­ma?
Uma das frentes do nos­so negó­cio é pen­sar em como ger­ar maior saúde e bem-estar no escritório. Isso per­pas­sa pesquis­ar como as pes­soas apoiam o cor­po enquan­to tra­bal­ham, como podemos ajudá-las a se mover mel­hor e ficarem mais con­fortáveis. Tam­bém per­pas­sa anal­is­ar com­por­ta­men­tos psi­cológi­cos. Algu­mas pes­soas são intro­ver­tidas. Out­ras extro­ver­tidas. Algu­mas têm difi­cul­dade de se con­cen­trar, enquan­to out­ras querem estar 100% do tem­po conec­tadas. Um dos grandes desafios para a indús­tria que a Her­man Miller atua é ger­ar opções de mobília não só com difer­entes dinâmi­cas e taman­hos, mas tam­bém para per­son­al­i­dades vari­adas. Inde­pen­dente da per­son­al­i­dade, todas as pes­soas tra­bal­ham hoje com celu­lares e note­books e nos­sa mobília pre­cisa acom­pan­har isso. Essa mesa aqui vai durar 5 anos, 50 ou uma vida inteira? Pos­so pro­duzir móveis para a empre­sa durar 30 anos, mas novas fer­ra­men­tas tec­nológ­i­cas de tra­bal­ho sur­girão todos os anos. E aí nos­so desafio é: como isso muda a dinâmi­ca de tra­bal­ho? Como garan­to o bem-estar das pes­soas, mas tam­bém gero fer­ra­men­tas para o uso da tec­nolo­gia no tra­bal­ho?

A Her­man Miller tra­bal­ha com uni­ver­si­dades, cien­tis­tas e design­ers para cri­ar ino­vações. A cadeira Cos­mo, por exem­p­lo, demor­ou 7 anos para ficar pronta. Qual é a lin­ha de pesquisa atu­al que mais tem inter­es­sa­do vocês?
Esta­mos fasci­na­dos por enten­der e pesquis­ar a man­u­fatu­ra adi­ti­va [proces­so de impressão de obje­tos a par­tir da deposição de vari­a­dos mate­ri­ais em camadas]. E que, na ver­dade, é algo muito maior do que usar impressão 3D. É um novo olhar sobre o proces­so de con­fecção. Em toda a história, os pro­du­tos sem­pre foram pro­duzi­dos da mes­ma for­ma: grandes máquinas de fundição pro­duzem a base do aço, fazem o molde, uma lâmi­na de ser­ra cor­ta a madeira e faz a pren­sagem. Mas tudo isso cus­ta muito din­heiro e lim­i­tações: só serve para faz­er todos os pro­du­tos da mes­ma for­ma e iguais. A man­u­fatu­ra adi­ti­va é mais flexív­el e abre a pos­si­bil­i­dade de cri­ar um pro­du­to úni­co para cada um de nós. Muitas empre­sas já uti­lizam no mun­do, mas não de uma maneira que acom­pan­he um proces­so de pro­dução em grande escala. Não con­seguimos ain­da, por exem­p­lo, usar essa tec­nolo­gia para uma lin­ha que pro­duz cadeiras a cada 20 segun­dos. Quan­do con­seguirmos usá-la, nos­sa ideia é con­seguir pro­duzir uma cadeira com ergono­mia per­son­al­iza­da para cada pes­soa. Uma cadeira que leve em con­ta a difer­ença dos cor­pos. Seria como ter um alfa­iate per­son­al­iza­do. Quão longe isso é do futuro? Ain­da não sei te respon­der.

O que você con­sid­era como o escritório do futuro?
Pense na sua casa. Exis­tem áreas pro­je­tadas para fins par­tic­u­lares: tomar ban­ho, com­er, diver­são e dormir. Qual­quer pro­je­to res­i­den­cial incluirá ess­es qua­tro ele­men­tos. Mas ten­ho certeza de que as casas em que vive­mos são difer­entes. O escritório do futuro segue essa mes­ma analo­gia. Pos­sui aspec­tos em comuns, mas é desen­hado de acor­do com os obje­tivos e cul­tura do negó­cio. Há 35 anos, eu tin­ha um escritório do taman­ho de seis met­ros com uma por­ta. Há 25 anos, eu provavel­mente tin­ha um cubícu­lo de 3,6mx3m. Há 5 anos, um escritório de 1,8mx2,4m. Hoje, eu não ten­ho nen­hum espaço exclu­si­vo. Vou onde meu tra­bal­ho pre­cisa que eu vá. E essa é real­mente a pre­mis­sa fun­da­men­tal do escritório do futuro. O lugar é proposi­tal — você pro­je­ta lugares para tra­bal­hos especí­fi­cos e as pes­soas se movi­men­tam entre eles. E múlti­plas vari­ações exis­tentes: há empre­sa que pre­cisam de mais pri­vaci­dade, out­ras de maior inter­ação. Quem pre­cisa de mais telas ou mais com­puta­dores. É uma questão de con­stru­ir o que é necessário. Não há jul­ga­men­to sobre qual escritório é o cer­to e qual o erra­do.

Essa noção de escritório já é pre­sente em várias empre­sas. Há algo que você está insat­is­feito com esse mod­e­lo e não tem solução ain­da?

O que me inco­mo­da nesse for­ma­to mais aber­to e flexív­el é que ain­da não inven­ta­mos uma for­ma, um design, um pro­du­to, que sinal­ize às pes­soas a min­ha disponi­bil­i­dade para ser inter­rompi­do. Às vezes, pre­ciso estar muito foca­do e não quero inter­ação. O que as pes­soas têm feito para demon­strar isso é usar fone de ouvi­do ou se virar de costas. Mas são ati­tudes que a afas­tam dos out­ros. Acho que esse é um prob­le­ma uni­ver­sal e que eu gostaria de resolver. Mas não é tão sim­ples quan­to parece.

* A jor­nal­ista via­jou a con­vite da Her­man Miller

 

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